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NACIONAL DE BRASÍLIA

8. QUESTÕES PENDENTES E CONFLITOS SÓCIO-AMBIENTAIS NO DF

9.1 Iniciativas legislativas e sustentabilidade ambiental do NRBE

A extinta FZDF fez cessão de áreas rurais para produção agrícola no DF com vistas ao abastecimento da capital federal. As primeiras cessões das áreas isoladas do Torto foram feitas no contexto de uma cidade planejada e se destinavam à produção de alimentos, o que se pode classificar, anacronicamente, de uma neo- reprodução das sesmarias no planejamento da capital federal. A ocupação por posses irregulares foi se consolidando ao longo do tempo sem que houvesse uma definição por parte do Poder Público. Portanto o NRBE é o resultado de um processo híbrido de ações planejadas de cessão de uso de áreas rurais pelo Poder Público e ocupação espontânea por posseiros com vocação rural, não necessariamente produtiva, como até afetiva. Esta última motivação se constitui em uma das que fazem com que a ocupação da área se assemelhe ao modelo que desponta em nível mundial - o de territórios rurais onde se verifica o fenômeno da pluriatividade. Este modelo guarda compatibilidade com a função social da terra, em contraste com aquele modelo original de cessões de uso condicionadas à

produtividade.

A área, atualmente ainda não oficializada e definida - a não ser pelo PDOT local vigente, cuja lei a tipifica como Área Rural de Uso Controlado, provavelmente por sua proximidade ao PNB, o que a pode enquadrar no tipo legal zona de amortecimento da lei federal do SNUC–, faz limite com o PNB ao Norte e a Leste. Tem portanto implicações ecossistêmicas imediatas com o PARNA vizinho e com o Lago Paranoá para onde escoam os veios de água que a atravessam e o Córrego do Torto que a delimita ao Sul.

Os PL distritais 1403/94 e 2490/97 registram que os residentes do NRBE têm antecedentes históricos de conciliação de seus interesses individuais (patrimoniais e residenciais) com o interesse pela saúde ambiental da área que ocupam. As iniciativas da ABE para promover a arboricultura entre os residentes - com ênfase nas espécies nativas - e a coleta de lixo, assim como as solicitações de uma parceria com a direção do PNB, reforçam esta posição de antecedência em interesses de natureza ambiental relativamente à iniciativa governamental para ampliação do PNB; e persistência desses interesses em um projeto de manejo sustentável para o NRBE. As iniciativas da ABE para solicitar, à Direção do PNB, assinatura de um TAC e providências relativas à fiscalização do parcelamento, cuja ocorrência informou já em 2002, corroboram a afirmação anterior. A colaboração do órgão gestor do PNB é necessária para o desenvolvimento sustentável da área e sua gestão em favor da integridade do PARNA, por se tratar de apoio institucional dotado de poder de polícia indispensável à uniformização de regras de conduta territorial, fiscalização do cumprimento das mesmas e repressão de abusos.

MPF/PR/DF - que por sua vez reuniu colaboradores como a TERRACAP e a Polícia Federal -, foi caracterizada por procedimentos repressivos embasados na tese do resgate dos limites originais do PARNA, segundo a qual o NRBE estava dentro do perímetro do PNB. Este fato evidencia a inexistência de uma cultura administrativa de diálogo com os grupos sociais localizados em áreas no entorno de UC e a incapacidade do setor público, especificamente o IBAMA, para atuar em contexto diverso daquele limitado pelas interdições impostas a uma área de proteção integral, onde não há zonas de transição em que prevalecem nuances a demandar elaboração normativa afinada com as especificidades de determinado território inclusivo do elemento humano.

A ilegitimidade daquela tese do resgate dos limites originais, nos casos do PNB e PARNA da Serra da Canastra, foi comprovada frente ao esclarecimento de seu fundamento original - os levantamentos realizados pelas empresas contratadas para elaboração dos Planos de Manejo, cujos interesses financeiros vinculados à extensão da área a ser estudada ficam evidenciados. Estas empresas carecem de legitimidade para pautar as deliberações do Poder Público. A ilegalidade da tese é evidenciada pelo exame da legislação vigente à época da criação do PNB, o Código Florestal de 1934, quando as autoridades locais tinham liberdade para formação de parques em suplementação à ação do Ministério da Agricultura. Este Código foi recepcionado pelo Novo Código Florestal de 1965, na vigência do qual, o PARNA da Serra da Canastra foi criado, em 1971. A literatura sobre PARNA citada no corpo desta dissertação corrobora esta interpretação da legislação.

Foi verificada sistemática omissão, por parte do IBAMA/DF, dos deveres constitucionalmente impostos à administração pública – publicidade, moralidade,

legalidade, impessoalidade e gestão participativa do patrimônio ambiental; assim como das determinações da Lei do SNUC, no que concerne à realização de consulta pública e condução do licenciamento ambiental da Cidade Digital.

Esse órgão já vinha negligenciando a implementação do Plano de Manejo do PNB relativo ao período 1998-2003, que considerou o NRBE como principal foco de conflito dominial e fez recomendações para a regularização fundiária. Esta medida continua na pauta da ABE e tem potencial para trazer soluções aos problemas sócio- ambientais e ser instrumento de contenção da especulação imobiliária na área. É também recomendável, para os mesmos fins, a oficialização da área como zona de amortecimento do PNB, em conformidade com a Lei do SNUC e a Lei da Reserva da Biosfera, definindo a especificidade do NRBE e delimitando a base legal para gestão do território. A definição desta zona de amortecimento é funcional no enfrentamento das dificuldades devidas ao contexto metropolitano em que o PNB está inserido. Estas procrastinações das necessárias definições corroboram a conclusão da existência de uma lacuna na cultura administrativa do IBAMA no que se refere à gestão participativa das questões locais e comunitárias.

A Câmara dos Deputados conquistou a credibilidade dos residentes das áreas afetadas pelo PL 4186/2004, a quem reconheceu como legítimos participantes nas deliberações relativas à ampliação do PNB. A intervenção desta casa parlamentar foi positiva e promoveu o cumprimento da Lei quando determinou ao IBAMA a realização da devida consulta pública, além de favorecer o refluxo dos conflitos sócio-ambientais potencializados pelo alijamento das populações locais de decisões de seu interesse.

aprovação da Lei 11.285/2006, cuja sanção consagrou o reconhecimento da existência da comunidade residente na área. Em janeiro de 2006, a ABE encaminhou ofício à Direção do PNB argumentando que a fixação do novo limite do PNB era boa oportunidade para encetar conversações com a Administração do PARNA. No dia 19 de junho, a Direção do PNB contatou a ABE e na manhã do dia seguinte uma equipe de funcionários do PARNA participou de reunião - a que acorreram, de forma não usual, uma boa quantidade de moradores -, ocasião em que essa equipe apresentou um pré-projeto que promete inaugurar uma nova era gestionária no NRBE e uma nova cultura administrativa no IBAMA, especificamente na Direção do PNB. Medidas para regularização, formalização e gestão participativa da área viabilizam a realização de projetos voltados à produção sustentável e à conservação ambiental, na medida em que possibilitam a obtenção de créditos e parcerias. As dificuldades para a construção de uma cultura sustentável nas práticas produtivas do país - que apenas desponta recentemente com os incentivos governamentais à agricultura familiar e não está ainda consolidada na estrutura legal em matéria ambiental -, no caso do NRBE, são agravadas pela inexistência formal da área.

Os distintos tratamentos dados ao NRBE pelas leis, ambas distritais, da Reserva da Biosfera e do PDOT vigente, marcam o conflito de usos da terra que atinge esta área. Considerando que o SNUC revogou a Resolução 13/90 do CONAMA, a qual definia como zona de amortecimento o raio de 10 km no entorno de UCInt, fica aberta a possibilidade de criação de zonas de amortecimento por Lei ou pelo órgão gestor da UCInt em questão. Isto favorece o PNB, que poderia então ter áreas de amortecimento segundo as possibilidades reais de sua especificidade

metropolitana. No caso do NRBE, a criação desta zona de amortecimento por Lei foi atropelada pelo processamento tumultuado da Lei 11285/2006; cabe então ao órgão gestor do PNB definir a zona de amortecimento para este PARNA. A factualmente inexistente discussão da consulta pública poderia ter sido a oportunidade para reunir subsídios com vistas a esta medida administrativa, que demanda considerável cabedal de esforço e continuidade. As informações reunidas neste trabalho autorizam colocar em dúvida a capacidade administrativa do órgão competente em foco para desempenhar esta missão. Uma zona-tampão é o espaço disponível para a convergência da Academia, Estado e população local com o objetivo de produzir sistemas de manejo sustentáveis e reprodução da biodiversidade, além da qualificação de recursos humanos, que neste caso específico, reverteriam em benefício do PNB.

Por todo o exposto, as iniciativas legislativas e as ações dos órgãos públicos, referentes ao NRBE, têm sido inexpressivas, marcadas pela alternância entre omissão e repressão à comunidade assim como ineficientes para promover a solução dos conflitos sócio-ambientais, a conservação e a sustentabilidade da área – em síntese, a gestão ambiental participativa. O reconhecimento da ocupação da área derivado da sanção da Lei 11285/2006 foi positivo e abriu espaço para que a comunidade local continue mobilizada e cobre uma posição das autoridades.