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3. DA PRÁTICA DOS ATOS INFRACIONAIS AS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS

3.3 INIMPUTABILIDADE PENAL NO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO

Com a entrada no ordenamento jurídico da Doutrina da Proteção integral, pelo texto constitucional e estatutário, ocorre uma mudança significativa nos fundamentos e princípios que norteiam o exercício do poder punitivo do Estado diante da criminalidade de adolescentes. O sistema de proteção especial instituído pela Constituição de 1988 traz um tratamento diferenciado aos crimes por eles praticados, ou seja, a exclusão destes do sistema de sancionamento aplicado aos adultos.

Contudo, tal exclusão não lhes retirou a responsabilidade de seus atos infracionais mas torna inválida a possibilidade de punição em face destes, já que estão em processo de desenvolvimento e como tal, o mais certo e mais apropriado, é a inserção de meios de proteção, ações educativas, orientadoras e reintegrantes ao meio social. Tanto é assim que o legislador constitucional, através do artigo 227, inciso

V do parágrafo 3º da CF, previu até a possibilidade de privação de liberdade de tais sujeitos, a qual, porém, só pode ocorrer pela prática de crime em caráter excepcional e breve, em respeito a peculiar condição de pessoa em desenvolvimento.

Desse modo, apesar da finalidade diversa da sanção ao adolescente, com finalidade educativa, inegável é o catater repressivo desta para os adolescentes. No mesmo sentido ensina Martha de Toledo Machado (2008, p.237):

[...] inafastável que a segregação do adolescente que praticou fato definido como crime está presa ao valor de preservação da paz s ocial, o qual, no entrechoque concreto de valores, é um interesse da sociedade que se contrapõe ao interesse individual do adolescente autor do crime. Se assim não fosse, nada justificaria a privação de liberdade do adolescente em razão da prática do crime , dado o expressivo efeito danoso que ela tem no desenvolvimento da personalidade dele. (Grifo nosso)

Por essa razão, pode-se concluir sobre a existência de uma responsabilização especial de caráter penal aos adolescentes, pelo seu excepcional estado de pessoa em desenvolvimento.

No Brasil, os inimputáveis são aquelas pessoas que não tem a capacidade de entendimento do ato ilícito do fato, em se tratando de adolescente, a causa biológica é a imaturidade. Seguindo os paradigmas da Constituição Federal de 1988 e da Convenção Internacional dos Direitos das Crianças e dos adolescentes, o Estatuto da Criança e do Adolescente declarou inimputáveis os menores de 18 anos e esclarece que a prática de atos infracionais estão sujeitas às medidas previstas em lei (art. 104). Tal dispositivo retrata o art. 228 da Constituição Federal, bem como obedece às regras contidas no art. 27 do Código Penal e no art. 7º da Lei nº 7.170, de 14 de dezembro de 1983 (Lei de Segurança Nacional). O parágrafo único presume que deve ser considerada a idade do infrator à data do fato.

Muitos países do mundo possuem, assim como no Brasil, um sistema “penal juvenil” diferente do sistema penal de adultos, porém, em países como Rússia, Bolívia, Portugal e Escócia a maioridade penal se dá mais cedo a partir dos 16 anos (no Brasil existe a PEC nº 33/12 que propõe em alguns casos o Ministério Público desconsiderar a inimputabilidade penal. Além dos crimes hediondos listados na Lei Federal nº 8.072/1990, a redução da maioridade penal seria cabível na prática de homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e reincidência em roubo qualificado, havendo assim a redução da maioridade penal para os 16 anos). Nos países da Turquia e Canadá a menoridade penal cai para 15 e 14 anos respectivamente. Já nos Estados Unidos da América, pais de maior potência mundial, o sistema penal é mais severo não fazendo distinção entre jovens e adultos, a responsabilidade penal inicia-se aos 12 anos de idade, do mesmo modo da responsabilidade civil.

Entretanto a idade de dezoito anos tem sido muito criticada e apontada como insuficiente para dar conta das demandas da sociedade moderna. A questão suscita intensas controvérsias em todos os ângulos sob os quais é vista. O direito de votar e a aceleração do desenvolvimento psíquico da população infanto-juvenil nos dias atuais são argumentos rotineiros no debate, que gradativamente se robustece (Maciel, 2010).

Segundo Liberati (2006, p. 71):

Toda vez que se fala em inimputabilidade abaixo dos 18 anos de idade, reacende -se a polêmica, dividindo opiniões. Salientam uns que deve ser reduzida para 16 anos, em virtude da conquista dos direitos políticos de votar (art. 14, §1º, II, “c”, da CF); outros entendem que deve ser mantida a irresponsabilidade penal abaixo dos 18 anos, e m vi rtude da não -formação psíquica completa do jovem.

Portanto, se o sistema está enfraquecido, o que cabe é não só uma análise sobre a necessidade de reformulação legislativa, mas também um reordenamento dos investimentos públicos nas políticas de atenção à proteção especial; a efetiva aplicação do ECA, simultaneamente ao efetivo cumprimento dos princípios da municipalização do atendimento e da prioridade absoluta dos direitos das crianças e dos adolescentes em todos os setores.

Deve-se sempre pensar no jovem como pessoa em condição especial de desenvolvimento que, não possuindo muitas vezes, capacidade de discernimento. Desta forma é possível concluir, não é preciso que, em decorrência da menoridade, o menor seja inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. A menoridade, já é suficiente para criar a inimputabilidade. Trata-se de uma presunção absoluta de inimputabilidade, que faz com que o menor seja considerado como tendo desenvolvimento mental incompleto em decorrência de um critério de política criminal, não possuindo relação direta com a capacidade de entendimento. Nada obstante serem inimputáveis e presumirem que o menor não tem discernimento de entender o caráter ilícito da coisa, eles são submetidos às normas da legislação especial que funciona como sistema de repressão.

Dessa forma cria-se uma linha tênue de interpretação, pois apesar do menor ser inimputável por não possuir discernimento completo em relação aos atos infracionais praticados, eles podem ser submetidos a medidas socioeducativas para que reflitam sobre esses atos e não voltem mais a delinquir, devendo em muitos casos passar por um processo de ressocialização para que sejam aptos ao retorno para a sociedade. De acordo com o entendimento de Cury (2003, p. 377):

[...] ao tempo em que se absorveu o princípio da doutrina da proteção integral, o legislador do Estatuto fez por reconhecer, automática e acertadamente, que a maneira mais eficaz e justa de se prevenir a criminalidade em questão consiste no superar a situação de

marginalidade experimentada hoje pela maioria dos adolescentes brasileiros.

Desse modo percebe-se que o legislador ao tratar do Adolescente autor de ato infracional no contexto da proteção integral decidiu por aplicar medidas sócio-educativas (distanciando-as do caráter punitivo), propensas a interferir no processo de desenvolvimento, objetivando melhor compreensão da realidade e efetiva integração social, sem levar em consideração o real discernimento do adolescente no cometimento da prática do ato infracional.

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