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Segundo Iamamoto e Carvalho (2006, p. 77), ela “é a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia”, apresentando-se como “o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura.” (IAMAMOTO, 1999, p. 27).
Por volta do século XX, diante da necessária implantação de um Estado Social forte e atuante, emergem os direitos sociais. Dessa forma, os direitos sociais requereram a interferência e a participação do Estado na sociedade, bem como a proteção pública contra inseguranças sociais (PEREIRA, 1995).
No Brasil, avanços foram dados com a Constituição de 1988, através da qual foi possível garantir legalmente, a partir da seguridade social (cujo tripé integra as políticas de previdência, saúde e assistência social), proteção social aos sujeitos, entendendo-os enquanto indivíduos que possuem direitos que devem ser reconhecidos e protegidos pelo Estado. Contudo, de acordo com Motta (2014), o momento deflagrava uma conjuntura internacional antagônica à iniciativa de intervenção social do Estado, imperando as críticas neoliberais ao Welfare State estabelecido nos países desenvolvidos.
Nesse sentido, a partir da década de 1990, seguridade social no Brasil torna- se objeto de uma ofensiva, que foi materializada através das propostas de contrarreforma do Estado, subornando-o aos ditames político-econômicos das instituições financeiras internacionais, e, consequentemente, de desmonte de direitos. O cenário internacional era marcado por crises e pelo endividamento externo dos países em desenvolvimento.
Desse modo, as políticas de seguridade social foram e continuam sendo afetadas, gerando retrocessos sociais. Nesse sentido, Motta (2014) aponta que a classe dominante tem desenvolvido estratégias de oposição aos direitos ofertados pela seguridade social, lançando sua ideologia de enfrentamento à “questão social” a partir da mercantilização de serviços sociais e da expansão de políticas de cunho compensatório, as quais reforçam a cultura da assistência social como mecanismo de manutenção e gerenciamento da desigualdade.
Conforme problematiza Fontenele (2013, p. 68), “a orientação liberal do Estado brasileiro justifica a presença limitada e de pouca ou nenhuma efetividade prática de leis, assim como a ausência de ações garantidoras na área de política social”. Entende-se que o engendramento de medidas socioassistenciais orientadas pelo modelo de Estado mínimo é um terreno propício para as associações privadas e um campo frutífero para a polarização de classes.
É nesse contexto neoliberal de reestruturação do capital, flexibilização dos mercados e das relações de produção e de trabalho, bem como de desresponsabilização e desmonte do Estado, que emerge o chamado “Terceiro Setor”, o qual se constrói a partir da transferência de responsabilidade do Estado para a sociedade civil, revertendo, com isso, os ganhos conquistados historicamente por meio de lutas sociais. Conforme problematiza Montaño (2010, p. 12),
[...] o objetivo de retirar o estado (e o capital) da responsabilidade de intervenção na questão social e de transferi-los para a esfera do “terceiro setor” não ocorre por motivos de eficiência (como se as ONGs fossem naturalmente mais eficientes que o Estado), nem apenas por razões financeiras: reduzir os custos necessários para sustentar essa função estatal. O motivo é fundamentalmente político-ideológico: retirar e esvaziar a dimensão de direito universal do cidadão quanto as políticas sociais (estatais) de qualidade; criar uma cultura de auto culpa pelas mazelas que afetam a população, e de auto ajuda e ajuda mútua para seu enfrentamento; desonerar o capital de tais responsabilidades, criando, por um lado, uma imagem de transferência de responsabilidades, e, por outro, a partir da ação social estatal e do “terceiro setor”, uma nova e abundante demanda lucrativa para o setor empresarial.
Para entender a inserção do Serviço Social nas Instituições de Longa Permanência, faz-se necessário, antes de tudo, compreender sumariamente a profissão. Historicamente, a partir do processo de industrialização na década de 1930, em que se afloravam as expressões da “questão social” sob a égide do capitalismo monopolista, há o surgimento do serviço social, o qual se destina inicialmente a interferir nos problemas sociais vigentes, representando os interesses da burguesia, da Igreja Católica e do Estado. Na década de 1980, porém, a categoria profissional passa por um processo denominado movimento de reconceituação, que acaba por alinhar a profissão aos pressupostos marxistas, compromissando-a às demandas da classe trabalhadora. (IAMAMOTTO, 2014).
A partir disso, constrói-se um projeto profissional radicalmente novo, o qual “supõe uma formação generalista, sólida, pautada pela crítica social e pela competência teórico-metodológica e operativa orientada pelas Diretrizes Curriculares, pela teleologia do Código de Ética Profissional e pela Lei de Regulamentação da Profissão.” (YAZBEK; SILVA, 2017, p. 37).
Enquanto profissão inserida na divisão sócio técnica do trabalho, o serviço social deve responder, por um lado, às demandas postas pelo mercado de trabalho,
e, por outro, deve potencializar o projeto profissional coletivamente construído, como complementa IAMAMOTO (1992, p.163):
Estas considerações remetem à formação de profissionais qualificados para investigar e produzir conhecimentos sobre o campo que circunscreve sua prática, de reconhecer o seu espaço ocupacional no contexto mais amplo da realidade sócio-econômica e política do País e no quadro geral das profissões. Formar profissionais habilitados teórica e metodologicamente (e, portanto, tecnicamente) para compreender as implicações de sua prática, reconstruí-la, efetivá-la e recria-la no jogo das forças sociais presentes. A assistência social, por sua vez, configura-se como uma das áreas de atuação do assistente social. Reconhecida pela Constituição de 1988 e regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), esta estabelece um sistema de proteção social no âmbito da seguridade. Essa proteção social, dentre outros públicos, destina-se também ao idoso. É nesse contexto que podemos melhor entender as Instituições de Longa permanência para idosos, e, agora, nos debruçar na compreensão do trabalho do assistente social nessas instituições.
Como já foi expresso, o assistente social tem como objeto de trabalho as expressões da “questão social”, buscando, nesse sentido, a viabilização de direitos e a construção de uma sociedade humanamente emancipada. Nesse sentido, o projeto ético-político da profissão é um agente basilar que atua como direcionador das ações profissionais.
Contudo, sendo o trabalho do assistente social mediado pelo sistema capitalista, pela instituição e por outros profissionais, emergem desafios para o fazer profissional, sendo um deles a racionalidade formal-abstrata, a partir da qual o cotidiano é encarado de maneira a-histórica, pragmática e acrítica. (GUERRA, 2000).
Diante das demandas postas e levando em consideração as questões históricas relacionadas ao idoso, compreende-se que o assistente social, nesse sentido, deve possibilitar o acesso a direitos através de uma intervenção embasada em uma visão crítica, objetivando buscar soluções para as demandas imediatas e estratégias para as não imediatas. A profissão, devido ao caráter crítico de seu projeto profissional, entende que as demandas sócio profissionais estendem-se para além das demandas institucionais.
No que tange à ação profissional, Guerra (2000) propõe ainda que, para além da eficiência operativa e de instrumentalidade, deve-se haver o comprometimento
com a transformação social, entendendo o Estado e as políticas públicas enquanto instâncias primordiais na garantia dos direitos.
Ao lutar por direitos, o assistente social baseia-se e também dissemina uma perspectiva do idoso que o relaciona com protagonismo, autonomia e liberdade. Nesse sentido, o idoso é entendido como um novo ator social, que possui uma identidade, espaço e relações sociais, bem como necessidades sociais que devem ser atendidas.
No âmbito das Instituições de Longa Permanência para Idosos, o trabalho do assistente social dirige-se ao idoso, devido a expansão e garantia de direitos, especificamente, a assistência social, buscando resguardar a integridade do idoso institucionalizado. Os princípios éticos que norteiam essa atuação estão ancorados no Código de Ética (CFESS,1993, p.23), que preconiza através de um princípio fundamental, inciso XI que deve o:
Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a,nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física.” (grifo meu).
Além disso, o exercício profissional também encontra fundamento na seguinte competência:
Uma dimensão que engloba as abordagens individuais, familiares ou grupais na perspectiva de atendimento às necessidades básicas e acesso aos direitos, bens e equipamentos públicos. Essa dimensão não deve se orientar pelo atendimento psico-terapêutico a indivíduos e famílias (próprio da Psicologia), mas sim à potencialização da orientação social com vistas à ampliação do acesso dos indivíduos e da coletividade aos direitos sociais; (CFESS, 1993, p.10)
Diante dessa realidade, o trabalho do profissional de serviço social em uma ILPI se constitui enquanto um suporte articulador de direitos, visando o aprimoramento, a implementação ou até mesmo a transformação de práticas educacionais com o intuito de propiciar uma melhor qualidade de vida para o idoso institucionalizado (FALCÃO, 2010).
Segundo a RDC nº 283 (Lei de 26 de Setembro de 2005), resolução responsável por definir normas de funcionamento e avalição das Instituições de Longa Permanências para idosos, estas, devem promover aos seus residentes:
O exercício dos direitos humanos (civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e individuais); Garantir a identidade e a privacidade da pessoa idosa, assegurando um ambiente de respeito e dignidade; Promover a integração das pessoas idosas que residem na instituição, nas atividades desenvolvidas pela comunidade local; Garantir e incentivar as relações intergeracionais; Promover a participação da família na atenção com a pessoa idosa residente; Desenvolver ações que estimulem a pessoa idosa à manutenção de sua autonomia; Promover condições de cultura e lazer as pessoas idosas; Desenvolver palestras e eventos que possam combater a violência contra a pessoa idosa bem como a violação de seus direitos civis e contra a discriminação. (ANVISA,RDC, nº 283, 2005, p.02).
Nesse sentido, além de questões e condições estruturais, faz-se necessário profissionais qualificados a fim de que se concretize o exercício profissional de forma eficaz. Dada a importância ao espaço socio ocupacional, que também é fator preponderante para a realização de um trabalho satisfatório, afunilaremos a discussão ao trazer à tona o foco principal deste trabalho, o Instituto Juvino Barreto e a atuação profissional do assistente social nos próximos tópicos.