• Nenhum resultado encontrado

2 ECONOMIA INSTITUCIONAL: MUDANÇA NAS INSTITUIÇÕES E

2.3 INSTITUIÇÕES E MUDANÇA INSTITUCIONAL: ASPECTOS CENTRAIS E

Nas duas seções anteriores pode-se revisitar os principais aspectos teóricos das contribuições de Thorstein Veblen e Douglass North para a análise das instituições e da mudança institucional. Agora nesta seção, de caráter mais breve, se pretende deixar claro algumas similaridades e diferenças entre os dois autores que representam corpos teóricos diversos e que interessam para a construção desta tese.

Primeiramente, é preciso deixar claro que se optou por trazer lado a lado dois autores que pertencem a grupos teóricos diferentes, considerados antagônicos por alguns, mas que têm congruências que permitem tal aproximação e complementaridades. Disso, inclusive decorre o caráter de novidade e originalidade que esse trabalho pretende imprimir. Mas, isso não trata de mascarar as diferenças, ao contrário, como se trata de uma realidade complexa a ser estudada e de um longo período se percebeu que havia uma necessidade de estabelecer também um arcabouço teórico mais consistente e, que ao mesmo tempo, pudesse lidar com a complexidade, diversidade e contradições da pesquisa agropecuária brasileira nas diferentes fases de um processo evolutivo e incremental. Por isso, são trazidas algumas complementaridades entre os autores que permitem avançar teórico e analiticamente em torno do objeto de estudo. Além disso, nos últimos anos de sua escrita North parece ter avançado ao evolucionismo.

O ponto central para complementaridade das duas contribuições teóricas, de Thorstein Veblen e de Douglass North, nessa visão está em torno do uso e análise das regras informais. Primeiro, porém, ressalta-se que como está se lidando com mudança institucional, deve-se questionar o que são as instituições, o que muda de fato?

Para Thorstein Veblen a resposta está ligada a hábitos, de pensamento e de comportamento, compartilhados e enraizados em uma comunidade, algo que vem da construção coletiva e, dessa forma, tudo aquilo que é habitual e generalizado é uma instituição, não havendo possibilidade de existência de um mundo sem instituições. Então, nessa visão, a família é uma instituição, assim como o Estado, a religião e mesmo hábitos de consumo, como consumir chimarrão ou reunir a família para um

churrasco aos domingos. Então, instituições como hábitos têm sua mudança vinculada à persuasão ou aspectos culturais, e não por imposição de leis.

Por outro lado, para Douglass North, a instituição está ligada a restrição, as restrições que inibem determinados comportamentos e incentivam outros, restrições para diminuir a incerteza nas trocas. Tais restrições podem ser formais ou informais, sendo que as formais têm caráter impositivo da lei. Mas, como o próprio Douglass North deixa claro em todas as obras que foram trazidas nesse referencial, só que ele acaba explorando isso de forma mais profunda só a partir dos anos 2000, que são as regras informais que fornecem a efetividade à estrutura institucional. São as restrições informais, formadas pelas crenças, códigos de conduta e aspectos culturais que irão determinar se a regra formal imposta terá efetividade ou não, ou ainda, se a matriz institucional realmente servirá para reduzir a incerteza nas trocas. Então, em geral, a análise de North sobre regras informais está muito próximo da construção de Veblen de instituições como hábitos. Porém, um ponto importante é que North (2018) crê que as regras formais podem modificar em longo prazo as regras informais, isso é incongruência com a análise vebleniana.

Apesar disso, em geral a análise de Douglass North sobre restrições informais, enfatizando seu caráter cultural e ligados às crenças formadas em um ambiente coletivo estão muito próximas das instituições em Veblen. Pode-se pensar o seguinte, para North (2005) e Mantzavinos, North e Shariq (2004) as regras informais advêm das crenças, que por sua vez são formadas a partir dos hábitos mentais que cada indivíduo cria para dar resposta a problemas com os quais se defronta e que serão validados pelo ambiente ou não. Se não for validado será reformulado até que seja aceito no ambiente, esse ser aceito significa que a coletividade o vai enraizar como hábito e o difundi-lo na comunidade e, com isso, se tornará crença, o que são justamente as regras informais para North. Ou seja, poderia se dizer que North, sobretudo nas obras dos anos 2000 incorpora a noção de Veblen à sua noção de regras informais, e que além dessas, considera a importância das regras formais que Veblen não explora de forma tão profunda.

Então, já que tais congruências foram apresentadas, deixa-se claro que essa é a noção de instituições que se deve levar em consideração neste trabalho, a noção de

restrições conforme exposição de Douglass North, mas contando com as contribuições veblenianas na difícil tarefa de analisar as regras informais, que normalmente estão estabelecidas como hábitos enraizados em uma coletividade. A partir de então, pode-se estabelecer as bases para o entendimento da mudança institucional.

Nisso, parece que a ligação entre os dois autores diz respeito à sua visão da realidade a partir de uma construção social em um processo de interação entre os atores, e que no caso desta tese, ajuda muito a entender as mudanças ocorridas no ambiente. Assim, de modo que a visão dos dois autores parece muito próxima da “sociologia do conhecimento”. A qual, conforme Schultz (2006), baseia-se em um processo de exteriorização em que ocorre a institucionalização, situação em que mostram os indivíduos exteriorizam para a sociedade suas concepções e significados subjetivos, que são legitimados na fase de objetivação, quando tais concepções são materializadas. Por fim, ocorre a interiorização, quando os indivíduos passam a interpretar a realidade segundo as concepções predefinidas sem questioná-las.

Então, nessa visão da obra de Berger e Luckmann (1985), a mudança parte dos indivíduos e da maneira como eles a encaram, e em interação validam esta interpretação da realidade que vai guiar suas reações. Algo muito próximo da maneira como Thorstein Veblen e Douglass North percebem a mudança, com a diferença que North acaba sendo um tanto mais determinístico, especialmente em sua análise dos anos 1990, ao ressaltar aspectos ligados à eficiência, e enfatiza tais elementos a partir dos anos 2000 no que diz respeito à análise das instituições informais.

A mudança institucional enquanto fenômeno é vista de modo geral pelos dois corpos teóricos, e essa também é a opção desta tese, como um processo de longo prazo e incremental. Como fica claro em North (2005), não basta querer chamar uma simples mudança de lei por decreto de mudança institucional, se ela efetivamente não for apropriada pela sociedade, mas, há de se considerar as relações de poder e influência nesse processo. Veblen (1987) mostra que a mudança institucional, em geral, é algo vem da classe ociosa pelo seu caráter influenciador em termos de consumo. Já North (2018) demonstra que as organizações com maior poder de barganha podem influenciar ou mesmo ditar mudanças nas legislações a seu favor.

Além disso, no que se refere à mudança institucional, Douglass North destaca que este é um fenômeno proveniente, principalmente, da ação das organizações que percebem elevados custos de transação na estrutura atual e trabalham para a alterarem, ou se tiverem poder de barganha irão modificar as regras formais a seu favor. A análise de Veblen (1987) apresenta similaridades com essa proposição, uma vez que indica que inicialmente existe uma resistência à mudança, mas as instituições sempre têm um “atraso” natural à medida que são criadas para resolver problemas do passado. Mas, mesmo com esta objeção à mudança, por parte daqueles que ainda se beneficiam do quadro institucional antigo, há uma pressão social para que ela ocorra à medida que existem altos custos associados aos hábitos antigos e a mudança leva à sua diminuição geral destes.

Outro elemento teórico importante para esta tese se refere à distinção que North (2005, 2018) faz entre instituições e organizações, e o papel destas como agentes de mudança institucional, que será muito importante no decorrer desse trabalho.

Outros pontos de congruência entre os autores estão ligados ao fato de que a história importa, sendo assim, os estudos em economia institucional geralmente fazem um resgate analítico e evolutivo do tema de estudo e realidade com a qual se defronta. Além disso, se considera análise das instituições como um estudo interdisciplinar, e que leva em conta a importância do Estado na proposição de políticas. Os dois também enfatizam o papel da ampliação do conhecimento, da aprendizagem e da experiência na mudança econômica e institucional, e a constatação de que as escolhas são feitas em um mundo com incerteza e sob condição de não ergodicidade (ou seja, o ambiente de escolha jamais é o mesmo, pois o mundo está sempre em mudança).

Ainda, um dos elementos teóricos mais importantes para a construção desta tese, e que é ressaltado tanto por Douglass North quanto por Thorstein Veblen, se refere a importância do ambiente externo à organização, conformado pelo contexto ou ambiente institucional, tem nas pressões exercidas para a mudança. A visão veblenina ressalta mais os aspectos evolutivos e o papel da classe ociosa na rejeição à mudança, primeiramente. Mas, depois percebendo a não possibilidade de sobrevivência, via manutenção dos hábitos antigos, passa a ser indutora da mudança. Assim, também Douglass North, em uma análise com forte vinculação aos custos de transação ressalta

a mudança ocorrendo no ambiente e pressionando as organizações a se adaptarem, e nesse processo, promovendo novas mudanças para alcançar seus objetivos. Ou seja, em ambas as visões se têm a percepção de que os atores mudam em função das mudanças no ambiente no qual estão inseridos e fazem isso para sobreviver.

Enfim, a partir dessa seção foram destacadas as principais opções teóricas que guiam esta tese. Por isso, na próxima seção é feita a análise do ambiente institucional no qual a organização foco desta tese está inserida, são trazidas as principais mudanças em termos econômicos, sociais, ambientais e jurídicos, como um grande “guarda-chuva” que permeia as decisões e ações tomadas no âmbito da organização e que serão exploradas nos capítulos seguintes.

3 O AMBIENTE INSTITUCIONAL E MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA