3.1 P ROCEDIMENTOS M ETODOLÓGICOS
3.1.3 Seleção das Variáveis
3.1.3.1 Instrumento de pesquisa e coleta de dados
Considerando-se a metodologia da análise ergonômica do trabalho e as técnicas fundamentais da pesquisa qualitativa, para a coleta dos dados deste estudo fez-se uso da análise documental, da observação e de entrevistas.
A análise documental consistiu em estudar e analisar documentos de natureza diversa, os quais forneceram dados complementares para a melhor compreensão do tema em questão. Para essa análise, conforme explicitado por Quivy e Campenhoudt (1992, p. 201) e Godoy (1995a, p. 26), na busca de informações que foram julgadas pertinentes ao tema, as fontes de coleta de dados estatísticos ou de dados na forma textual foram provenientes de instituições oficiais ou não, bibliotecas e arquivos.
A forma de observação utilizada neste caso foi a observação direta e armada, que se caracteriza pela apreensão dos comportamentos no momento em que eles se produzem,
sem a mediação de um documento ou de um testemunho (QUIVY; CAMPENHOUDT, 1992, p. 197). O registro das observações foi possível com o auxílio de material para anotação e análise do ambiente físico. Tal etapa buscou informações sobre o trabalho real desempenhado pelos empacotadores.
As entrevistas constituem-se “como meio de coleta de fatos relatados pelos atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa que vivenciam uma determinada realidade que está sendo focalizada” (MINAYO, 1996, p. 57). Neste estudo, foram realizadas entrevistas com a diretora de recursos humanos, o diretor de relações trabalhistas, a nutricionista, o médico do trabalho, bem como com sete empacotadores que foram acompanhados em suas atividades. A partir de encontros com esses profissionais em seus locais de trabalho, os dados foram registrados em um gravador e/ou caderno diário, cujas anotações foram realizadas durante ou imediatamente após os encontros.
Além disso, para alcançar as dimensões do comportamento alimentar e as percepções dos empacotadores em relação às condições de trabalho e à capacidade de trabalho, foram utilizadas entrevistas do tipo semi-estruturadas, em dupla ou em grupo. Para Minayo (1996), a especificidade das discussões em grupo ou grupos focais são as opiniões, relevâncias e valores dos entrevistados. A prática tem demonstrado que a adoção da técnica de grupo focal propicia riqueza e flexibilidade na coleta de dados. Morgan (1988) e Krueger (1994) destacam as seguintes vantagens das entrevistas em grupo:
a) rapidez, economia e eficiência na obtenção dos dados;
b) a experiência de grupo, que facilita a interação dos participantes, promove a discussão, aumenta e enriquece os pontos de vista individuais; e
c) alta validade dos dados, pois o procedimento mede efetivamente o que se deseja, dando legitimidade e convicção aos dados coletados.
Do ponto de vista operacional, o planejamento do grupo focal neste estudo foi organizado seguindo as seguintes etapas:
a) solicitação à chefia de cada loja para que um espaço físico fosse reservado, bem como que os trabalhadores fossem afastados durante o horário de serviço para facilitar o encontro;
b) formação dos grupos, para que ocorresse uma interação produtiva dos informantes. Levou-se em consideração os turnos de trabalho dos empacotadores, para evitar que um membro se sentisse intimidado perante o outro; e
c) escolha do dia e horário para a realização da reunião, com aprovação da chefia de cada loja.
As entrevistas foram direcionadas pelas questões norteadoras a seguir:
a) Por que os senhores estão trabalhando?
b) Qual a importância do trabalho na vida dos senhores?
c) Os senhores acham que a idade mudou a sua capacidade para executar o seu trabalho?
d) O que os senhores acham das condições de trabalho?
e) A idade mudou a alimentação dos senhores? Como os senhores se alimentavam na infância, após o casamento e atualmente, em casa e no trabalho?
f) Como os senhores se alimentam no trabalho?
g) Para os senhores, o que é uma alimentação saudável?
As reuniões foram conduzidas de forma que o foco fosse mantido no tema em questão, procurando evitar a dispersão natural das pessoas. Foi ressaltada a não-existência de respostas certas ou erradas e, nesse sentido, em momento algum foi emitido qualquer julgamento de valor sobre o que foi dito ou exposto durante as discussões.
Os locais onde as reuniões foram realizadas eram confortáveis e permitiram que todas as pessoas estivessem de forma aproximadamente circular em torno de uma mesa. Foram realizados cinco grupos focais com número de participantes por grupo variando de dois a cinco entrevistados. Quanto à duração das entrevistas, esta variou de 1h30min a 2h10min.
No final das entrevistas foram coletados dados socioeconômicos, dados referentes à situação no mercado de trabalho e tempo de serviço, que poderiam servir para o enriquecimento da análise. Foi solicitado, ainda, que cada sujeito escolhesse para pseudônimo um nome de sua preferência.
Após a transcrição das gravações e digitação, cada participante teve a oportunidade de ler a sua entrevista, acrescentando ou excluindo algum dado.
Para a avaliação da capacidade para o trabalho, foi aplicado o questionário índice de capacidade para o trabalho, desenvolvido pelo Instituto de Saúde Ocupacional da Finlândia, traduzido e validado pelo grupo Brasilidade, sob a coordenação geral da Professora Frida Marina Fischer da Universidade de São Paulo (Anexo B). Como esse questionário é respondido pelo próprio indivíduo, cada participante recebeu instruções quanto ao preenchimento do instrumento.
Para a avaliação do estado nutricional dos participantes, foram tomadas as medidas de peso corporal (kg) e altura (cm). Foram obtidas três medidas, e a média foi utilizada.
a) Peso corporal (kg) - a tomada do peso corporal foi realizada pela pesquisadora. Para tanto, utilizou-se uma balança digital da marca FILIZOLA com capacidade de 150kg. Os trabalhadores foram avaliados com roupas leves (calça e camiseta de tecidos) e sem sapatos, na posição em pé, no centro da plataforma da balança, sem se movimentar e mantendo-se ereto.
b) Estatura corporal (cm) - a estatura foi obtida pela pesquisadora por meio de fita métrica inelástica e esquadro de madeira. O trabalhadores foram avaliados na posição ortostática (em pé), com os pés juntos, calcanhares na parede, olhando para frente, sem fletir a cabeça, com o topo da orelha e o ângulo externo do olho em uma linha paralela ao teto (chamado plano de Frankfort) (KRAUSE; MAHAN, 1991).
Para a classificação do estado nutricional, foi utilizado o Índice de Massa Corporal (IMC) ou Índice de Quetelet (kg/m²), obtido a partir da relação entre massa corporal e estatura (kg/estatura²). Foram utilizados para efetuar o diagnóstico nutricional os pontos de corte do IMC propostos pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 1998), segundo a Tabela 1.
Tabela 1: Classificação do estado nutricional em adultos de acordo com o IMC (WHO, 1998) Classificação IMC (kg/m²) Baixo peso < 18,5 Limites de normalidade 18,5 – 24,9 Sobrepeso 25,0 Pré-obesidade 25,0 – 29,9 Obesidade grau I 30,0 – 34,9 Obesidade grau II 35,0 – 39,9 Obesidade grau III 40,0
Para a verificação das condições ambientais dos supermercados, como ruído, iluminação, temperatura e umidade, foram utilizados os dados coletados pelo ergonomista da empresa e disponíveis na unidade.