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Instrumento de Severidade de Gagueira

3. AVALIAÇÃO DE FLUÊNCIA

3.1 AVALIAÇÃO DE FLUÊNCIA NA GAGUEIRA

3.1.1 Protocolo Fechado

3.1.1.2 Instrumento de Severidade de Gagueira

Stuttering Severity Instrument (SSI) é o nome original do teste cujo objetivo é avaliar a severidade de gagueira (como o próprio nome in- dica)30. O teste foi idealizado por Glyndon Riley, em 197231, em resposta

à necessidade de padrões objetivos de avaliação clínica da época. Como veremos no capítulo seguinte, diferentes hipóteses a respeito da natureza da gagueia foram consideradas, o que, consequentemente, teve efeito nas escolhas clínicas metodológicas, tanto em relação ao diagnóstico quanto em relação ao tratamento da patologia.

De acordo com Bakhtiar, Seifpanahi, Ansari et al. (2010), variados métodos de avaliação em gagueira têm sido usados desde 1930. Contudo, o SSI tem se destacado internacionalmente, tanto como um parâmetro de pesquisas em gagueira, como na avaliação clínica (HOWELL, ASCEN- CAO, DAVIS ET AL., 2011). Desta maneira, conforme apontam Todd,

30 Logo, o teste não apresenta como objetivo diagnosticar a gagueira por meio da avaliação da fluência, mas sim classificar o nível de severidade da patologia. 31 Há quatro edições do teste desde a sua idealização (SSI-2 em 1981; SSI-3 em 1994; SSI-4, em 2009). As três edições que seguem a original não apresentam alterações representativas para o teste (TODD, MIRAWDELI, COSTELLOE et al. 2014), por isso não será feita uma abordagem história de suas modificações.

Mirawdeli, Costelloe et al. (2014), há, atualmente, mais de 360 publica- ções envolvendo o teste, além de várias traduções para outras línguas.

Embora o SSI não tenha sido normatizado no Brasil, pesquisas na- cionais também têm se utilizado do teste enquanto um instrumento obje- tivo de avaliação do nível de gagueira (ANDRADE, 2001; ANDRADE, SERVONE e SASSI, 2003; CERARCURI, OSBORNI, SCHIEFER et al. 2009; CELESTE, ALMEIDA E MARTINS-REIS, 2014).

O SSI traz dados normativos para avaliação da gagueira de crian- ças e adultos32. Para avaliação, o teste apresenta duas propostas metodo-

lógicas: uma direcionada a sujeitos alfabetizados (com proficiência de lei- tura, com escolaridade superior a 3ª série) e outra direcionada a sujeitos não alfabetizados (que não são proficientes na leitura, no caso, considera- se neste grupo, sujeitos com escolaridade inferior a 3ª série). Assim, a avaliação direcionada a sujeitos alfabetizados (com proficiência de lei- tura) é baseada na análise da gravação de (i) leitura oralizada de textos33

e (ii) fala espontânea34. Já a avaliação de sujeitos não proficientes em lei-

tura é baseada em produção de fala a partir de imagens35.

A partir destas gravações, três elementos são mensurados para a obtenção do score:

 Frequência de ruptura de som, de sílaba e prolonga- mento de som;

32 Em sua primeira versão, o teste foi direcionado para avaliação de gagueira em crianças de 3 a 13 anos de idade e adultos, com idade entre 14 a 58 anos. Na atual versão do teste (quarta versão), sua a aplicação é direcionada a crianças 2 a 10 anos de idade e pessoas com idade acima de 10 anos.

33 Texto para leitura é composto por 125 palavras, cujo nível de complexidade é adequado ao nível de escolaridade do sujeito.

34 São considerados 3 minutos de produção de fala.

35 Para estes casos, em que a produção de fala se dá a partir do estímulo de ima- gens apresentadas, o número de palavras produzidas requeridas no teste deve ser superior a 150, das quais apenas 100 serão consideradas para a análise. Na terceira versão do teste, o autor propôs que uma contagem de 200 sílabas fosse a amostra mínima requerida de análise. Na quarta e última versão, o autor propõe uma nova alteração, reduzindo o tamanho de amostra de 200 para 150 sílabas. Todd et al., (2014) criticam a validade da quarta versão do teste, já que o autor do teste man- tém a mesma referência (score), a despeito da alteração.

 Duração estimada dos três maiores episódios de ga- gueira;

 Observação de comportamentos concomitantes à ga- gueira – seriam produção de sons, tensões faciais, movi- mentos da cabeça e movimentos de extremidades. Cada um dos comportamentos citados deve ser pontuado, se- gundo o número de ocorrências, de 1 a 5.

Cada um destes critérios é pontuado separadamente para, posteri- ormente, serem somados entre si. O resultado final é convertido em um score correspondente ao nível de severidade da gagueira. O autor apre- senta tabelas de referência para crianças e adultos, de acordo com os ní- veis de severidade, que são quatro: muito leve, leve, moderado, severo e muito severo.

Vale apontar que são consideradas como “gagas” as interrupções do tipo repetição de parte de palavra - como em (a) -, ao passo que repe- tição de palavras de uma só sílaba, quando repetidas por inteiro, não são consideradas como gagas - como em (b). Contudo, repetições deste último tipo não são contabilizadas na produção total de sílabas. Assim, conforme exemplificado abaixo, em (a), considera-se uma contagem de 9 sílabas produzidas, sendo uma delas gaguejada. Em (b), considera-se uma conta- gem de 11 sílabas produzidas, com ausência de sílabas gaguejadas.

(a) E E E E E Eu quero aquele ali36[tradução e adaptação minha]

1 2 3 4 5 6 7 8 9

(b) Eu Eu Eu Eu quero aquele ali37 [tradução e adaptação minha]

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11

Chama a atenção o fato de que apenas algumas disfluências devem ser observadas para pontuação - no caso, algumas das “disfluências ga- gas”. Segundo Rilley (1991), os critérios escolhidos no teste foram base- ados em resultados de estudos científicos de uma época que apontava as disfluências gagas como o maior traço de distinção entre a fala de sujeitos

36 (a) A a a a a and I want that one

1 2 3 4 5

37 (a) And and and and I want that one

normais e de sujeitos com gagueira (SCG). O autor reconhece que estas não são, evidentemente, as únicas interrupções que se apresentam na fala de SCG, mas como o objetivo do teste é mensurar a gravidade da patolo- gia, optou-se pela escolha das disfluências mais evidentes da fala gaga. Desta forma, o que ocorre é que as disfluências comuns acabam por ser consideradas como não-disfluências no teste, como se elas não contribu- íssem para o efeito geral da fala gaga.

Além das disfluências, outro ponto que se observa é que caracte- rísticas como ritmo e velocidade de fala não são consideradas no Stutte- ring Severity Instrument (SSI), elas dão lugar à análise de comportamen- tos e duração dos eventos de gagueira, que podem ser uma combinação de disfluências e comportamentos físicos associados. O que se vê é que os critérios utilizados no teste são estabelecidos, de antemão, como carac- terísticas irrefutáveis de gagueira, cuja frequência aponta o nível de seve- ridade. Dispostos de maneira linear no teste, estes critérios assumem igual importância na avaliação, de forma que a soma de ocorrência de todas essas características determina a gravidade da patologia e não necessari- amente a incidência de uma delas, como o excesso isolado de disfluências ou a ausência de quaisquer comportamentos físicos. Em relação a isto, observa-se que nem todos os SCG apresentam disfluências ou tensiona- mentos aparentes. Assim, a mensuração da gravidade da gagueira é limi- tada ao fenômeno, ou seja, àquilo que está à amostra, o que significa que, quanto mais sucesso os SCG têm na utilização de estratégias para evitar a manifestação da gagueira, menos “vulneráveis” eles são à avaliação do SSI.

Outro aspecto a ser observado no teste é a contagem total de sílabas para determinar a frequência das disfluências. Como foi visto, repetição de palavras inteiras são consideradas na contagem total, de maneira que aqui aplica-se a mesma discussão feita no ABFW. Quando se estabelece uma regra baseada na forma, sem se considerar a função, como é o caso da contabilização de repetições de palavras inteiras na soma total de síla- bas, evidencia-se que o foco de análise recai sobre a produtividade em si, na vocalização de palavras. Deve-se atentar ao fato de que a frequência das disfluências é estabelecida a partir da produção total, de maneira que a mesma quantidade de ocorrências de disfluências pode ser representada em diferentes frequências (%), a depender da quantidade verbal conside- rada na análise. Quer se dizer com isto que algumas repetições (conside- radas como produções) podem ser mera co-ocorrências, sem função prag- mática e discursiva no enunciado e, no entanto, segundo as instruções do teste, são contabilizadas, fazendo volume à produção total de fala do su- jeito e, consequentemente, influenciando na porcentagem de disfluências.

O terceiro e último ponto a ser observado no teste é em relação ao uso da leitura para avaliação da fluência: considera-se a modalidade es- crita para analisar manifestações que ocorrem no cotidiano da oralidade, como se ambas pertencessem à mesma esfera comunicativa, social e cog- nitiva. Como vimos no Cap. 2, na pesquisa de Lutz e Marlard (1986), a fluência mostra-se de maneira diferenciada em cada uma destas modali- dades (leitura e oralidade). De acordo com os autores, diferente do que ocorre na fala espontânea, na leitura, a elaboração do que se será dito não é feita (já está pronta) e a coordenação motora ganha maior atenção, re- sultando na diminuição ou ausência das disfluências. Acrescenta-se ainda a posição de Koch e Souza e Silva (1996) sobre o tema, de que na fala há uma quase concomitância entre a elaboração e a produção de fala, ao passo que na leitura - completo -, o sujeito encontra um texto pronto, já elaborado e estruturado. Isto para dizer que a leitura do texto indica mais uma capacidade de decodificação do que uma habilidade linguística (no sentido do uso discursivo) em si.

Diante do exposto, é possível inferir que o conceito de fluência no teste é pautado na produtividade da fala, sem que haja uma interpretação do conteúdo. O teste pauta-se ainda na oposição entre ter gagueira e não ter gagueira, sendo que tal oposição se fundamenta na presença de alguns tipos de disfluência. Logo, o que se vê é que as disfluências ocupam lugar de destaque na avaliação linguística, assim como os sinais de tensão física que acompanham a fala.

Em relação à efetividade do SSI, já na segunda edição do teste He- aley e Mowrer (1986) apontaram que importantes fatores de avaliação na gagueira são desconsiderados. Segundos os autores, a ausência de fatores como a percepção do sujeito com queixa de gagueira sobre a sua própria fala, a variação da gagueira diante de diferentes contextos de fala, disrup- ções articulatórias durante a gagueira e a opinião de pessoas que convi- vem com estes sujeitos constituem a maior limitação do teste. Os autores reconhecem que alguns destes fatores se afastariam do propósito do teste, mas que são relevantes para a interpretação do comportamento do sujeito frente aos momentos de gagueira.

Em resposta a esta crítica, Rilley (1991) afirma reconhecer as limi- tações do teste e a importância dos fatores apontados por Healey e Mowrer (1986), contudo, salienta que o SSI deve ser considerado en- quanto um dos instrumentos que compõem a avaliação clínica, auxiliando como um parâmetro mais objetivo de severidade da patologia. O autor enfatiza que o SSI não deve direcionar o tipo de tratamento a ser seguido e que as informações relacionadas à análise qualitativa da gagueira devem

ser complementares à avaliação clínica para uma abordagem específica de cada caso38.

De todo modo, na edição atual do SSI, há um espaço adicional para uma avaliação qualitativa: um questionário inicial sobre a percepção do sujeito sobre sua fala e do contexto em que gagueja. Além disso, observa- se ainda a presença da avaliação do nível de naturalidade de fala, atribuído pelo experimentador. É interessante salientar que esses dados qualitativos não são contabilizados e, portanto, não constituem o score de severidade da gagueira.

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