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5 FORMAÇÃO, ATUAÇÃO E SABERES DAS PROFESSORAS

5.1 FORMAÇÃO E ENSINO DA MÚSICA NOS CEEBJAS

5.1.3 Instrumento musical

Um aspecto merece destaque, devido à frequência com que ele foi exposto nas falas das professoras entrevistadas: o instrumento musical. Foi possível perceber a relação entre o tocar um instrumento e a facilitação que essa utilização pode gerar no ensino da música. Esse aspecto é bastante claro na fala da professora Bruna:

Eu penso que iria facilitar horrores, porque se eu tenho lá um instrumento, vai chamar mais a atenção do aluno. Ele vai ter interesse, porque o aluno, você tem que ter uma novidade. Apesar que [...] eu tenho alunos que tocam otimamente, bem o tal do violão.

Mas, eu acredito, assim, que se o professor... ele, está lá, pelo menos um instrumento que ele está tocando, que ele traga para poder: oh, essa aqui é tal nota, fica mais rico a nossa apresentação, ali, diante do aluno. Eu acho interessante (Professora Bruna, CT2, p.15).

Segundo essa professora, quando o ensino de música é auxiliado por um instrumento musical, ele se torna mais interessante para o aluno, cuja experiência musical, muitas vezes, não comporta certos tipos de vivências.

Assim, não se deve esquecer que “As pessoas se tornam musicalmente engajadas quando olham a atividade como significativa e autêntica”

(SWANWICK, 2003, p.54).

A presença do instrumento musical na sala de aula permite ao professor propiciar ao aluno o contato direto com o instrumento. Esse tipo de experiência pode gerar momentos únicos para eles. A professora Bia fala sobre isso: "E

quando eu toco [...], igual essa última turma que eu toquei e que você olha para eles e eles estão emocionados. Tem alunos que choram” (Professora Bia, CT2, p.15-16). A professora ainda comenta sobre outro tipo de benefício:

Tem o impacto de conhecer o instrumento. Então, quando eu vejo que eu consegui levar o gosto pelo instrumento e que eles falam que eles vão aprender um violão, um teclado, qualquer instrumento, aí eu me realizo. Porque, na verdade, eu tento chamar eles para eles aprenderem instrumento musical, não para eles serem profissionais, mas para eles se realizarem como pessoas, tocar para a família (Professora Bia, CT2, p.16).

Percebe-se, por meio da fala da professora Bia, alguns benefícios gerados pela utilização do instrumento musical em sala de aula. A utilização dessa ferramenta possibilita tornar o ensino da música mais interessante, mais atrativo para o aluno, como afirmou anteriormente a professora Bruna. Porém, é importante destacar também que a professora Bia possui formação musical compreendida desde o período pré-profissional (Tardif, 2010), até a formação universitária.

Algumas professoras sem formação específica em música falaram sobre as dificuldades em não se tocar um instrumento. A professora Emily comenta:

[...] eu não sei tocar instrumento. Então, eu sinto muita falta, por exemplo, pelo menos de um violão. Porque, às vezes, tem umas atividades bem interessantes para a gente trabalhar com o violão e eu não sei usar o violão, para fazer essas, sabe... E leitura de partitura, às vezes a gente quer... [...]. Então, tem algumas coisas que a gente sente falta no decorrer, assim, tem que ficar correndo atrás e uma delas é aprender a tocar algum instrumento (Professora Emily, CT2, p.16).

Dessa forma, com a fala dessa professora, percebe-se que a presença do instrumento musical colabora para a realização de atividades. Swanwick (2003, p.54) ainda coloca que os educadores não devem “[...] substituir o direto envolvimento dos alunos no discurso musical específico pelo turismo musical global por meio do CD e do CD-ROM”, isto é, o aluno precisa vivenciar a música de maneira participativa e a presença do instrumento musical facilita isso.

Quando a professora Nayara foi questionada a respeito de sua opinião sobre sua formação profissional para ensinar música na EJA, ela respondeu:

Como eu disse que, eu deixo muito a desejar, por exemplo: para mim, ensinar Arte tinha que ser igual a professora [...] [da faculdade].

Chegar com o violão, um instrumento e mostrar o negócio. Falha minha. Sei tocar violão? Não sei. Sei pouco, sei quase nada e não me atrevo. Então, eu coloco música para eles ouvirem (Professora Nayara, CT2, p.7-8).

Assim, percebe-se que as falas das professoras Emily e Nayara estão associadas à necessidade do professor de Arte tocar um instrumento musical.

Devido ao caráter polivalente da disciplina Arte essa exigência passou a pertencer também a professores que não possuem formação específica em música. É bem verdade que em alguns documentos federais há a ideia da necessidade da presença do instrumento musical e sua respectiva aprendizagem, pelos alunos, em sala de aula. Um exemplo disso são os Parâmetros Curriculares Nacionais II para a disciplina Arte:

Improvisação, composição e interpretação com instrumentos musicais, tais como flauta, percussão etc. e/ou vozes (observando tessitura e questão de muda vocal) fazendo uso de técnicas instrumental e vocal básicas, participando de conjuntos instrumentais e/ou vocais, desenvolvendo autoconfiança, senso crítico e atitude de cooperação (BRASIL, MEC, SECRETARIA DA EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL, 1998, p.83).

Essa colocação acaba por sugerir que todos os professores que lecionam na disciplina Arte, tendo ou não formação específica em música, devam utilizar instrumentos musicais para o ensino da música. Em sua pesquisa, Del Ben (2005) relata que a formação não específica em música da maioria dos professores participantes de sua pesquisa fez com que eles “[...]

optem por desenvolver aquelas atividades musicais consideradas mais acessíveis. A audição é, provavelmente, a mais acessível das atividades musicais” (DEL BEN, 2005, p.78). Porém, como problematiza Rodrigues (1998, p.165, tradução nossa) “Alguém pode dizer que conhece uma melodia porque a escutou, ainda que não seja capaz de repeti-la. Esse conhecimento se limita a ter percebido a melodia, mas é musicalmente insuficiente, já que não há possibilidade de desenvolver nenhuma atividade a partir dessa referência”. A simples ação de ouvir não garante êxito em atividades musicais.

Assim, percebe-se que o que é sugerido pelo PCN e a realidade em sala de aula acabam sendo diferente.25

Porém, a audição musical pode ser realizada por meio de uma execução musical em sala de aula. Esse tipo de uso, como colocado anteriormente, permite um tipo de experiência diferenciado para os alunos, como também o contato com o instrumento, um elemento que faz parte do fazer musical.

Ainda sobre a ausência do instrumento musical em sala de aula, Del Ben (2005), comenta que dos 58 professores participantes de sua pesquisa, poucos utilizam instrumentos musicais. Segundo a autora,

Atividades que tendem a exigir formação específica em música são menos freqüentes. Enquanto que a audição está presente nas práticas educativas de 33 professores, a execução de instrumentos musicais, por exemplo, é uma atividade desenvolvida somente por sete professores, e a leitura e a escrita musicais fazem parte das práticas de apenas quatro professores (DEL BEN, 2005, p.79).

As professoras Bruna e Isabela comentaram sobre certos desafios enfrentados por elas, que dificultam a aprendizagem relacionada à execução de um instrumento musical. A professora Bruna (CT2, p.18) disse que sente muita vontade em aprender a tocar violão, porém "[...] o tempo e a condição de estar fazendo um curso é o problema. O tempo. [...] É o tempo para se dedicar”. Já a professora Isabela coloca:

Eu já tentei, num curso também do Estado, aprender a tocar flauta doce, porque o Estado recebeu as flautas e os cadernos de musicalização. Daí, nós fizemos um curso, mas instrumento de sopro para mim não deu, não consegui. E daí, eu prefiro não tentar fazer com os alunos. Porque, se eu não domino, eu vou sentir dificuldade de ensinar e provavelmente eles não vão aprender como eles devem aprender (Professora Isabela, CT2, p.17).

Dessa forma, percebe-se a presença de empecilhos para a realização do aprendizado de um instrumento musical, sendo ele o tempo para se dedicar ou ainda a dificuldade de aprendizado.

Por fim, quando a professora Emily foi questionada sobre o que se precisa saber para lecionar música na EJA, ela respondeu: “Eu acho que precisa saber tudo isso que eu falei, que eu sinto falta. Precisa de tudo” (CT2,

25 Porém, percebeu-se que nos CEEBJAs pesquisados a utilização de instrumentos musicais seria apropriada somente em aulas coletivas.

p.17). Perguntou-se ainda se essa necessidade era compreendida desde o conhecimento teórico a tocar um instrumento. Sobre isso, ela afirmou:

Principalmente tocar um instrumento, porque você tocando um instrumento, você aprende mais um pouco da parte teórica [...] Eu sinto falta dessa parte para trabalhar. Tanto no Regular quanto na EJA, eu acho que a gente consegue explicar para o aluno bem melhor conhecendo os instrumentos (Professora Emily, CT2, p.17).

Com a fala das professoras citadas foi possível perceber que a maioria das professoras sem formação específica em música gostaria de aprender a tocar um instrumento musical, porém elas esbarram em algumas dificuldades que impedem a sua efetivação. Já as professoras com formação específica em música utilizam esse elemento da maneira que elas acham conveniente.