A constituição do corpus deu-se a partir da aplicação, durante o segundo semestre de 2011, do teste APPTL, sobre o qual são tecidas considerações na subseção a seguir. Foram utilizados folhas de papel tipo sulfite, lápis preto e borracha.
3.3.1 O teste APPTL
Para a coleta de dados da escrita dos sujeitos, foram utilizadas as palavras e pseudopalavras do Teste APPTL, elaborado por Moreira (2009). Em sua origem, esse instrumento foi construído em forma de software para ser aplicado em testes de leitura. É composto de 30 palavras reais do português brasileiro e 30 pseudopalavras (logatomos) – estas definidas como palavras inventadas, sequências de sons sem sentido, construídas com estruturas ortográficas possíveis em português (PINHEIRO, 1994) –, balanceadas foneticamente e compostas de diferentes estruturas silábicas do português, que aparecem, de forma isolada ou contextualizada, em frases, sendo que o nível frasal não foi considerado neste estudo. O instrumento APPTL contém palavras de uso frequente por crianças em que ocorre a maioria das dificuldades fonológicas da língua portuguesa. O Quadro 3 demonstra as palavras e pseudopalavras que compõem o APPTL (MOREIRA, 2009). O recurso ao sublinhado indica a estrutura considerada em cada palavra, conforme descrição apresentada na segunda coluna (Ex.: Ai Sábado – inicial absoluta).
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Quadro 3 – Palavras e pseudopalavras do APPTL
PALAVRAS PSEUDOPALAVRAS CV Ai A Sábado CV Ai A Pático NA Maluca NA Mabido I A Sapato I A Dabaca NA Sacudi NA Fébada Af A Caruru Af A Sabuti NA Peteca NA Fomita VC Ai A Árvore VC Ai A Áspito NA Argola NA Irpada I A Faísca I A Taísca NA Maestro1 NA Jaiscou Af A Sabiás Af A Fabiós NA Férias2 NA Capias CVC Ai A Músculo CVC Ai A Mórtiro NA Castelo NA Gaspido I A Batismo I A Parista NA Beliscar NA Safistou Af A Jacarés Af A Sapiris NA Caretas NA Mirefas CCV Ai A Grávida CCV Ai A Tréfida NA Privada NA Grimada I A Retrato I A Petrado NA Sofredor NA Mitrafou Af A Encobri Af A Sebofri NA Milagre NA Malupra CCVC Ai A Plástico CCVC Ai A Cráspito NA Tristeza NA Trasmuta I A Madrasta I A Rabrasto NA Refrescar NA Reprisgou Af A Cicatriz Af A Malabris NA Palavras NA Baligras Fonte: Moreira (2009, p. 119-120)
Legenda: CV: consoante + vogal; VC: vogal + consoante; CVC: consoante + vogal + consoante; CCV: consoante + consoante + vogal; CCVC: consoante + consoante + vogal + consoante; Ai: inicial absoluta; I: interna; Af: Posição final; A: Acentuada; NA: Não acentuada.
¹ A inclusão da palavra ‘maestro’ assim se justifica: pela dificuldade de se encontrar uma palavra cuja sílaba em foco estivesse em posição não acentuada, e pelo fato de a sílaba em questão obedecer ao padrão desejado VC. ² Moreira (2009) afirma que, embora a palavra ‘Férias’ seja interpretada como dissilábica terminada em ditongo crescente, o leitor, especialmente o iniciante, tende a segmentá-la em três sílabas (fé - ri - as), o que motivou sua inclusão no conjunto de palavras terminadas em VC.
Segundo Moreira (2009), durante a elaboração do instrumento (Teste APPTL), foi realizada uma cuidadosa seleção das palavras, de acordo com critérios de ordem semântica, sintática e fonológica. A seleção das palavras reais foi feita a partir da utilização do banco de
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dados do aplicativo LINGUAN (SILVEIRA, 2006), do protocolo de Palavras e Gestos do inventário Mc Arthur (TEIXEIRA, 2004) e do Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa (FERREIRA, 1986).
Com relação ao critério fonológico, foram excluídas as seguintes estruturas (MOREIRA, 2009):
a) Sílabas travadas por um elemento nasal, tanto em posição interna quanto em posição final absoluta. A única exceção foi a palavra ENCOBRI, por não se ter encontrado outra mais adequada;
b) Ditongos, pois sua estrutura pode levar a diferentes interpretações fonológicas, como VV (vogal + vogal), SV (semivogal + vogal) e VS (vogal + semivogal);
c) Sílabas travadas pela consoante lateral /L/ em qualquer posição, tendo em vista que esse elemento sofre um processo de semivocalização no dialeto popular de Salvador, cidade onde a pesquisa de Moreira (2009) foi realizada, sendo produzido como uma semivogal posterior69;
d) Sílabas travadas pelo R forte em posição final absoluta, tendo em vista que esse elemento não se manifesta foneticamente nos dialetos culto e popular de Salvador;
e) Dígrafos, por serem estruturas ensinadas em momentos mais tardios da alfabetização, o que poderia comprometer os resultados por dificuldade dos sujeitos em relação a essas estruturas.
Os critérios de inclusão utilizados foram:
a) Palavras trissilábicas, por permitirem avaliar a posição (inicial, interna e final) da sílaba na palavra; por serem as mais frequentes no português brasileiro, conforme já o atestaram Silveira e Silveira (1988, 2003 apud MOREIRA, 2009); porque, por um lado, permitem um processamento menos difícil e mais rápido do que as polissilábicas e, por outro, exibem mais segmentos silábicos do que as dissilábicas;
b) Padrão silábico menos marcado no português, ou seja, o padrão canônico CV, conforme os estudos de Teixeira (2002 apud MOREIRA, 2009) e Silveira (2006 apud MOREIRA, 2009), para controlar a sílaba em foco e neutralizar as demais. Apenas as
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“Na norma culta de Salvador [...] a consoante lateral final /L/ se manifesta foneticamente como uma semivogal posterior [w], a exemplo de Calma [‘kawmå] e Mal [maw]” (PEPE, 2010, p. 84).
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palavras REFRESCAR e ENCOBRI não atendem a esse padrão, cuja escolha se deu pela impossibilidade de encontrar palavras que respeitassem esse critério.
Com relação ao conceito de sílaba, adotam-se orientações de Moreira (2009) e Silva (2008). Moreira (2009) afirma que as sílabas (segmentos sem significado) não apenas têm existência, mas também têm estrutura própria e que “hoje já não se duvida do ‘status’ da sílaba” (MOREIRA, 2009, p. 28). Silva (2008, p. 76) afirma que “[...] os movimentos de contração e relaxamento dos músculos respiratórios expelem sucessivamente pequenos jatos de ar. Cada contração e cada jato de ar expelido dos pulmões constitui a base de uma sílaba”. Moreira (2009, p. 29), ao explicar a estruturação básica da sílaba, afirma que, nas margens, figuram as consoantes (por serem os sons menos soantes), e, no centro da sílaba, figura “a vogal visto ser esta o elemento mais sonoro” (MOREIRA, 2009, p. 29).
3.3.2 A aplicação do teste
A aplicação dos ditados foi realizada pela pesquisadora. Como o teste não exigia instrução padronizada para sua aplicação, ele foi aplicado por meio de instruções que eram adaptadas à faixa etária dos alunos, precedidas de uma conversação informal, com o objetivo de estabelecer uma adequada interação. As instruções utilizadas junto aos alunos envolvidos na pesquisa foram:
a) Apresentação e cumprimento informais;
b) Diálogo sobre algum assunto de interesse do sujeito: brinquedo, família, amigos, lazer, animais de estimação, entre outros;
c) Ditados. As instruções para essa atividade foram as seguintes: “Vou lhe dar esta folha de papel onde você irá escrever do ‘seu jeito’ as palavras que eu disser. Tem palavras que você conhece e outras que não existem, que são inventadas, e elas devem ser escritas uma embaixo da outra, está bem?”.