5 MATERIAL E MÉTODOS
5.4 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
Os instrumentos de coleta de dados utilizados neste estudo foram dois questionários (Apêndice B), que correspondem à abordagem quantitativa, e uma entrevista semiestruturada (Apêndice C), de abordagem qualitativa. Para que isso fosse possível, foram realizados vários contatos com o Sindicato. Um, em julho de 2010, por telefone, no qual foram explicados os objetivos e a relevância da pesquisa. Outros três pessoalmente, sendo que, no último, a pesquisadora permaneceu três dias na cidade, para a coleta dos dados.
O primeiro questionário teve a pretensão de conhecer o perfil sociodemográfico dos trabalhadores. Para isso, foram formuladas
questões que os identificassem, mas que também discorressem sobre o trabalho e a patologia que ocasionou o afastamento. O segundo questionário foi utilizado para avaliar as manifestações da doença no indivíduo, através de um instrumento genérico de avaliação de qualidade de vida, o Perfil de Saúde de Nottingham (PSN), desenvolvido originalmente para avaliar a qualidade de vida em pacientes portadores de doenças crônicas. Para facilitar o preenchimento dos questionários, estes foram agregados em uma única página. O Perfil de Saúde de Nottingham (PSN) é um questionário autoadministrado, constituído de 38 itens, baseados na classificação de incapacidade descrita pela Organização Mundial da Saúde, com respostas no formato sim/não. Este instrumento é composto por 38 itens, agrupados em seis domínios:
a) “nível de energia” (NE), três itens - avalia os níveis de energia e de fadiga;
b) “dor” (D), oito itens - avalia a presença de dor, sua intensidade e sua interferência nas atividades de vida diária (AVD); c) “reações emocionais” (RE), nove itens - apresenta questões
sobre ansiedade, depressão, alterações no comportamento ou descontrole emocional e bem-estar psicológico;
d) “interação social” (IS), cinco itens - analisa a existência do sentimento de solidão e a dificuldade de interagir com outras pessoas;
e) “habilidades físicas” (HF), oito itens - analisa a presença de limitações durante a realização das AVD; e
f) “sono” (S), cinco itens - avalia a qualidade do sono e a presença de insônia.
Cada percepção de saúde positiva corresponde a 1 (um), e a negativa corresponde a 0 (zero), perfazendo uma pontuação máxima igual a 38. É relevante destacar que, quanto mais alto são os escores, maior é o comprometimento da qualidade de vida. Os resultados do PSN podem ser analisados pela soma de todos os itens, pela soma dos itens que compõem as dimensões, ou ainda, pela análise comparativa dos itens. De acordo com o PSN, um escore máximo ou próximo do máximo de 100, indicaum perfil de saúde ruim, e quanto mais próximo de 0 (zero), melhor é considerado o perfil de saúde dos indivíduos.
Embora seja um questionário autoadministrado, em cada encontro com os trabalhadores a autora esteve presente para esclarecer dúvidas quanto ao seu preenchimento, conforme recomendado por Teixeira- Salmela et al. (2004).
De acordo com Mendes (2007), a base de conhecimento científico da análise da organização do trabalho e dos modos de
subjetivação se encontra na fala e escuta do sofrimento dos indivíduos que se manifestam nas vivências de prazer-sofrimento, nas estratégias de ação para mediar contradições da organização do trabalho, nas patologias sociais, na saúde e no adoecimento.
Sendo assim, utilizou-se, neste estudo, a entrevista semiestruturada, que corresponde a uma pesquisa qualitativa por abranger um grupo específico, ou seja, os trabalhadores de indústria de processamento de frango e suíno da cidade de Toledo no Paraná. Aqui, considera-se pertinente a citação de Lèvi-Srauss (apud MINAYO, 1996, p. 106), ao referir-se ao trabalho de campo que: “[...] mostra os homens engajados no seu próprio devir histórico e instalados em seu espaço geográfico concreto”.
Muitos conceitos presentes nesta tese contribuem para a reflexão sobre a pergunta: de que modo a ergonomia na relação trabalho, saúde e produção pode incluir a voz do trabalhador? A partir das respostas, pode-se então analisar a repercussão do afastamento por adoecimento e verificar qual o sentido do adoecimento e afastamento da atividade do trabalho na vida dos trabalhadores de indústria de processamento de frango e suíno.
Para responder a essa pergunta, a entrevista semiestruturada foi selecionada como instrumento de coleta de dados para poder captar atitudes, valores, sentimentos, opiniões, crenças, ideais, maneiras de sentir, de atuar, de pensar ou comportamentos dos trabalhadores, por ser a palavra a expressão do adoecimento e afastamento do trabalhador da referida indústria.
As entrevistas semiestruturadas se caracterizam pela flexibilidade e por explorar ao máximo determinado tema, exigindo uma subordinação dinâmica ao entrevistado. Consiste num modelo de roteiro com questões-guia, que fornecem cobertura ao interesse desta pesquisa. Partem de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses, que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante (TRIVINOS, 1990).
O roteiro da entrevista foi pré-estabelecido pela autora, com 15 questões (Apêndice C) que abordaram a percepção e entendimento do entrevistado sobre as relações entre o seu trabalho, o adoecimento, o afastamento e as repercussões desses fatos em sua vida e na de sua família. As questões, portanto, tiveram origem no problema de pesquisa, apresentando perguntas da forma mais aberta possível. A entrevista foi conduzida pelo entrevistado, valorizando seu conhecimento, mas ajustada ao roteiro da pesquisadora. Os depoimentos da entrevista foram
sequenciais, para garantir o sigilo das respostas. Utilizou-se um gravador digital de voz para gravar as entrevistas, que foram transcritas da forma mais fiel possível, procurando-se preservar as interlocuções (Apêndice D).
5.4.1 Descrição da Coleta de Dados
O primeiro contato com o Sindicato foi feito por telefone, em maio de 2010, quando a autora explicou como seria a pesquisa a um dos diretores. O segundo contato foi feito em julho de 2010, para conhecer o local e explicar detalhadamente os objetivos e as fases do estudo. No terceiro, em outubro do mesmo ano, a autora teve acesso aos arquivos com alguns dados dos afastados, como nome, idade e patologia. Em dezembro foram aplicados os questionários e realizada a entrevista. Outros questionários foram aplicados em março de 2011. E, finalmente, como auxiliar de perícia, a autora teve a oportunidade de observar o processo de trabalho na indústria em 28 de novembro de 2011.
Para a aplicação dos questionários, os indivíduos foram reunidos no salão de festas do Sindicato, às 14 horas do dia 17 de dezembro e às 9 horas do dia 18 de dezembro de 2010. Após as apresentações formais, a pesquisadora explicou aos presentes, de forma simples, os objetivos e a importância da pesquisa. A seguir, realizou-se a leitura do termo de consentimento e do questionário, as dúvidas que surgiram foram prontamente respondidas, e aqueles que estavam de acordo responderam aos questionários, assim como aqueles que tinham dificuldade para respondê-los foram auxiliados pela autora. Todos os que compareceram responderam ao questionário. Entretanto, nem todos os que foram contatados por telefone compareceram. Os motivos alegados para o não comparecimento foram: tinham consulta médica ou perícia, estavam em tratamento fisioterapêutico, entre outros motivos.
No primeiro contato com os indivíduos afastados, foi realizada a entrevista para aqueles que de livre e espontânea vontade quisessem expor a situação de vida em que se encontravam. Assim, os primeiros 14 indivíduos que se prontificaram foram selecionados. Para isso, o Sindicato liberou a sala de reuniões, em que os participantes se sentaram ao redor de uma mesa oval, para melhor visibilidade de todos, conforme preconiza Minayo (1996), para responder por vontade própria aos questionamentos da autora, de forma a permitir que cada um tivesse liberdade para se expressar. A entrevista seguiu um curso informal, e o questionamento não teve sequência exata.