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Instrumentos do sistema interamericano e os direitos sociais

1.4 A tutela multinível dos direitos sociais

1.4.2 Instrumentos do sistema interamericano e os direitos sociais

No que se reporta ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, o texto pioneiro é a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem, adotada pela Conferência Internacional Americana ocorrida em Bogotá, em abril de 1948, ocasião em que foi aprovada a criação da OEA (Organização dos Estados Americanos).

A Declaração Americana consagrou o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à privacidade, à saúde, à educação, à participação na vida cultural, ao trabalho em condições dignas, à previdência social, à nacionalidade, dentre outros, além de várias garantias processuais civis e penais, como o direito ao devido processo legal, à proibição da prisão por dívidas, e à presunção de inocência. Previu, ainda, a limitação dos direitos do homem pelas exigências do bem-estar geral e pelo desenvolvimento democrático.

Em 1959 foi criada a Comissão Interamericana de Direitos Humanos pela OEA, cujos Estatutos remetiam o conceito de Direitos Humanos ao corpo da Declaração. A Comissão tornou-se o principal órgão da OEA, através da Reforma da Carta da Organização dos Estados Americanos, em 1967.

Como principal instrumento do sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, cabe destacar a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos, aprovada em

1969, em São José da Costa Rica. A Convenção proclamou, dentre outros, os direitos de liberdade, igualdade, legalidade, de dignidade da pessoa humana e os direitos de proteção à criança, havendo entrado em vigor em 1978, após o depósito da ratificação do décimo primeiro Estado Americano. O Brasil efetuou sua adesão em setembro de 1992.85

No que toca aos direitos sociais, todavia, a Convenção de que se trata apenas previu o direito ao seu desenvolvimento progressivo. Não obstante, também em função da propriedade multifacetária dos direitos fundamentais, alguns direitos sociais vieram a ser indiretamente submetidos à análise da Corte, a pretexto da análise de violações de direitos considerados como individuais.

Sob a ótica da interação entre o ordenamento jurídico interno e o regional, cabe apontar a relevância do Art.2o da Convenção Americana, ao prever a obrigação dos Estados-Partes de legislarem ou adotarem as normas que forem necessárias para tornar efetivos os direitos nela previstos, obedecida a legislação interna dos países, quando da falta de dispositivos legislativos assecuratórios destes direitos.

O controle e monitoramento dos direitos previstos na Convenção foram por ela atribuídos à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

A Comissão Interamericana tem competência para conhecer denúncias de violação de direitos humanos do sistema interamericano, tanto pela Convenção como pela Declaração Americana de Direitos Humanos, como também é parte provocante perante a Corte Interamericana, inclusive para elaboração de consultas à Corte sobre a aplicação da Convenção Interamericana.

A Corte Interamericana foi dotada de competência consultiva e judicial, esta última condicionada ao depósito da carta de aceitação da jurisdição obrigatória por cada um dos Estados-Partes da Convenção. O Brasil reconheceu a competência da Corte em dezembro de 1998, através do Decreto Legislativo 89.

Por seu turno, a Corte só admite denúncias de Estados, ou encaminhadas pela Comissão (art.61.1), mas já se encontra prevista a capacidade jurídico-processual dos indivíduos em todas as etapas do procedimento contencioso na Corte.86 Em relação às opiniões consultivas,

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Conferir informação disponível em: <http://www.oas.org/juridico/spanish/firmas/b-32.html>. Acesso em: 10 jul. 2005.

86 Conferir TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A personalidade e capacidade jurídicas do indivíduo como

sujeito de direito internacional. ANNONI, Danielle. Os novos conceitos do novo direito internacional: cidadania, democracia e direitos humanos. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2002. p. 18.

também é possível a participação dos indivíduos, perante a Corte, como pessoas físicas ou representantes de organizações não-governamentais.

O aperfeiçoamento do sistema, no âmbito contencioso, para admitir possa o indivíduo levar diretamente à Corte sua demanda contra o Estado-Parte, sem intermédio da Comissão, é propugnado por Trindade,87 o que nos parece medida consentânea com a democratização do sistema de proteção através da ampliação de seu acesso, que pode resultar, inclusive, em simplificação e economia para o julgamento, bem como alinha-se com o modelo mais avançado de proteção já existente no sistema regional europeu.

Com o intuito de preencher a lacuna que existia no sistema interamericano no tocante aos direitos econômicos, sociais e culturais, o Protocolo Adicional à Convenção Americana, conhecido como Protocolo de San Salvador , veio a dispor sobre a matéria, estabelecendo a obrigação dos Estados na adoção de medidas, de ordem interna e por cooperação internacional, a fim de atender, progressivamente e no máximo dos recursos disponíveis, mas levando em conta o seu grau de desenvolvimento, a efetividade dos direitos nele consagrados.

O Protocolo de San Salvador integrou no sistema interamericano o direito ao trabalho, os direitos sindicais, o direito à seguridade social, o direito à saúde, o direito ao meio- ambiente sadio, o direito à alimentação, o direito à educação, o direito aos benefícios da cultura, os direitos das crianças, a proteção à família, ao idoso, deficientes e inválidos. O mencionado Protocolo também veio a inserir a violação ao direito à educação e de associação e liberdade sindical ao sistema de comunicações individuais e reforçar os deveres jurídicos dos Estados-Partes no tocante aos direitos sociais, proibindo recuos e retrocessos, abrindo mais uma via para a concretização de tais direitos.

Para o sistema de controle de violações aos direitos neles consagrados, o Protocolo de San Salvador ainda previu um sistema de relatórios, mas não ligado à Comissão, bem como a possibilidade de a Comissão emitir observações e recomendações sobre as situações dos direitos nos Estados-Partes. O Brasil efetuou a adesão ao Protocolo em 1996.88

Diante do quadro do sistema interamericano, no que se reporta à proteção dos direitos sociais, econômicos e culturais, afigura-se indispensável à criação de meios mais efetivos de controle. Tal dificuldade, contudo, afigura-se em todos os sistemas internacionais, pois o dissenso ideológico mundial acarretou uma maior resistência à implementação de tais direitos.

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Conferir TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A personalidade e capacidade jurídicas do indivíduo como sujeito de direito internacional. ANNONI, Danielle. Os novos conceitos do novo direito internacional: cidadania, democracia e direitos humanos. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2002. p. 29.

88 Conferir texto do Protocolo de San Salvador e relação de países signatários Disponível em: