• Nenhum resultado encontrado

Instrumentos e procedimentos de análise dos dados

2. Metodologia

2.3. Instrumentos e procedimentos de análise dos dados

Os dados obtidos foram tratados através de metodologias de análise qualitativas e quantitativas. A análise qualitativa é um procedimento intuitivo, maleável e adaptável a índices não previstos e à evolução das hipóteses. Este tipo de análise pretende identificar com rigor conceitos que descrevem diferenças e semelhanças nas formas como os jovens universitários entrevistados conceptualizam a conjugalidade, em termos gerais, e, mais especificamente, o fenómeno da violência conjugal.

A análise de conteúdo surge como um conjunto de instrumentos metodológicos que se aplicam a discursos (conteúdos), numa hermenêutica controlada baseada na dedução: a inferência (Bardin, 2001).

A análise de conteúdo tem como principais objectivos a “ultrapassagem da incerteza” (será a leitura efectuada generalizável?) e o “enriquecimento da leitura”, através da descoberta de conteúdos e de estruturas. Este método de análise de

dados possui duas funções: uma “função heurística”, que enriquece o explorar do fenómeno estudado e uma função de “administração da prova”, ou seja, existem hipóteses sob a forma de questões ou de afirmações provisórias como directrizes (Bardin, 2001).

Ainda ao nível das características, a análise de conteúdo é sistemática e objectiva, e categoriza também o discurso do entrevistado, o que traz algumas vantagens para a precisão do estudo. Este método é um “conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens” (Bardin, 2001).

A análise de conteúdo é um método rigoroso com o objectivo de identificar conceitos que possam descrever de diferentes formas o mesmo fenómeno. Estas diferenças de conceitos fazem surgir diferentes categorias. O resultado da análise é a construção de categorias de descrição, referindo-se a um nível colectivo, apesar da descrição não ser o todo que esta descreve.

Na análise, propriamente dita, o discurso de cada participante foi analisado dentro do quadro de cada questão colocada. Esta opção leva a que a apresentação da grelha de critérios e dos resultados se torne um pouco repetitiva (Grácio, 2002). No entanto, este facto pode ser justificado se tivermos em atenção o interesse profundo que existe relativamente ao identificar como os participantes conceptualizam os fenómenos, tendo em conta o contexto de cada verbalização.

Após a análise de todo o discurso de cada participante foi “inventariada” toda a informação correspondente às diferentes categorias encontradas. Assim, pequenas variações nos discursos apresentados levam à existência de categorias, também importantes para a análise das conceptualizações.

A análise de conteúdo organiza-se em três fases principais: a pré-análise; a exploração do material; o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação.

A pré-análise é a fase de organização, que tem como objectivo tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais. Nesta fase, são escolhidos os documentos a analisar, formulados objectivos e elaborados indicadores necessários para a interpretação final dos resultados.

Assim, o primeiro passo consiste em estabelecer contacto com os documentos a analisar (no nosso caso a transcrição integral das entrevistas), conhecendo o texto e formulando impressões e orientações – a leitura “flutuante”.

Na segunda fase – a exploração do material – são elaboradas as operações de codificação, desconto ou enumeração, em função de regras previamente formuladas.

A última fase prende-se com o tratamento dos resultados obtidos e a sua interpretação. Deste modo, foram elaboradas operações estatísticas simples (frequências e percentagens), que permitem realizar quadros de resultados representativos dos resultados obtidos (Bardin, 2001).

Para o tratamento destes dados é necessária a existência de um processo de codificação, ou seja, uma transformação dos dados do texto, que permite uma representação do conteúdo e de categorização, que consiste na classificação dos elementos constituintes através da diferenciação e reagrupamento em função de caracteres comuns, com os critérios previamente definidos. A partir do momento em que a análise de conteúdo codifica o seu material, deve ser produzido um sistema de categorias, em que existe o objectivo de fornecer, de forma condensada, uma representação dos dados em bruto.

As categorias devem apresentar as seguintes qualidades:

- a exclusão mútua, ou seja, cada elemento só pode ser cotado numa determinada categoria;

- a homogeneidade, isto é, num mesmo conjunto categorial só se pode funcionar com um registo e uma dimensão de análise;

- a pertinência, ou seja, uma categoria é pertinente quando está adaptada ao material de análise escolhido;

- a objectividade e a fidelidade, isto é, as diferentes partes de um material, ao qual se aplica a mesma grelha categorial, devem ser codificadas da mesma forma, mesmo após várias análises;

- e a produtividade, ou seja, um conjunto de categorias é fértil se fornece resultados férteis em índices de inferências, novas hipóteses e dados exactos (Bardin, 2001).

Neste sentido, as diferenças nos discursos dos participantes fazem surgir diferentes categorias. “Cada categoria é definida ou limitada em termos dos extractos das entrevistas que, em conjunto, constituem o seu significado” (Grácio, 2002; p.172).

Após a obtenção dos dados através da análise das entrevistas é importante reduzir as diferenças não relevantes e integrar e generalizar as semelhanças importantes. Nesta análise é importante manter em comparação dois contextos: o contexto de outros extractos (outras entrevistas, para além da analisada) e o contexto da entrevista individual (a analisada). Assim, as categorias de análise referem-se ao colectivo, apesar da descrição nunca corresponder ao todo que esta descreve (Grácio, 2002).

Independentemente da direcção que a pesquisa segue existem operações comuns, pelas quais terá de passar. A primeira, relativa à delimitação dos objectivos e definição de um quadro de referência teórico orientador da investigação em curso. A segunda de constituição de um corpus. A terceira de definição das categorias. A quarta de definição de unidades de análise e por fim a de quantificação (Vala, 2003).

2.3.1. Análise Qualitativa

A análise das entrevistas iniciou-se com a leitura repetida e integral das entrevistas transcritas, analisando o discurso de casa sujeito de acordo com cada questão colocada, ou seja, de acordo com cada tema, por isso, surgem, em algumas situações, categorias iguais em temas diferentes. Deste modo, categorizando o discurso de cada sujeito de acordo com cada tema apresentado faz com que a apresentação da grelha de análise e dos resultados se torne um pouco repetitiva. No entanto, sendo importante compreender como os participantes conceptualizam a conjugalidade e a violência conjugal é fundamental esta forma de análise, de modo a obtermos relações entre os diferentes elementos analisados.

A grelha de critérios de categorização será apresentada de uma forma

abreviada, apresentando os temas, categorias/subcategorias e critérios

correspondentes à informação classificada (Anexo II).

2.3.2. Análise Quantitativa

Sendo a análise quantitativa um modo de obter dados descritivos através de um método estatístico é uma análise mais exacta e fiel, logo é mais rígida, o que permite uma verificação das hipóteses mais objectiva (Bardin, 2001).

Uma complementaridade entre análises quantitativas e qualitativas é, igualmente necessária, de forma a alcançar-se uma leitura mais compreensiva do fenómeno, em particular das relações entre violência e género (DeKeseredy & Schwartz, 1998).

Diferentes concepções na mesma entrevista e na mesma questão em análise podem ser referidas pelo mesmo sujeito, facto que justifica existirem mais concepções do que participantes. Sendo que as concepções estão, muitas vezes, “experimentalmente correlacionadas”, isto é, são expressas pelos mesmos sujeitos qualquer tratamento de dados é difícil ou mesmo impossível (Marton, Dall’Alba &

Beaty, 1993). Ao realizar-se uma análise quantitativa, os objectivos prendem-se com o facto de analisar quais as concepções que são mais referidas.

O critério de registo no presente estudo consistiu na anotação das verbalizações pertencentes a determinada categoria após a construção da grelha de análise, que permitiu a elaboração das várias categorias e que incluí a definição dos critérios de categorização de cada verbalização. De acordo com Bardin (2001), as categorias criadas devem respeitar o princípio da exclusão mútua, critério este que foi cumprido a nível formal e dentro de cada tema na definição das categorias e da respectiva classificação da informação (Grácio, 2002).

Quando procedemos à análise de conteúdo de uma entrevista é elaborada uma quantificação simples, uma vez que “a análise de frequência permite inventariar as palavras ou símbolos chave, os temas maiores, os temas ignorados, os principais centros de interesse” (Vala, 2003, p. 108). No nosso caso cotámos somente a presença da verbalização enunciada por cada sujeito e não o número de vezes que o mesmo expressou.

A análise de conteúdo, direccionada para a vertente quantitativa, pode seguir três direcções: análise de ocorrências, análise avaliativa e análise estrutural. A análise de ocorrências tem como objectivo determinar o interesse que a fonte tem por diferentes objectos ou conteúdos, ou seja, quanto maior for o interesse do emissor pelo conteúdo em causa, maior será a frequência de ocorrência no seu discurso. A análise avaliativa tem em conta as atitudes do emissor em relação a determinados objectos. A análise estrutural visa inferir sobre a organização do sistema de pensamento do emissor, presente do discurso alvo de estudo (Vala, 2003).

A análise de conteúdo pressupõe também a definição de três tipos de unidades, sendo estas, unidade de registo, unidade de contexto e unidade de enumeração.

A unidade de registo é o segmento mínimo de conteúdo que se caracteriza ao inserir-se numa categoria. É necessário considerar os objectivos preestabelecidos e o quadro teórico orientador da investigação, sendo distinguidos dois tipos de unidades: formais e semânticas. As primeiras podem conter frases, palavras, uma personagem ou outro item, enquanto que nas segundas são mais frequentes o tema ou unidade de informação (Vala, 2003).

A unidade de contexto traduz-se no segmento mais longo do conteúdo estudado pelo investigador quando caracteriza uma unidade de registo. A dimensão

apresentada pela unidade de contexto está directamente interligada com o tipo de unidade de registo escolhida. Sendo este tipo de unidade um suporte importante da validade e fidelidade do trabalho dos analistas, quando mais extensas forem as unidades tanto de registo como de contexto, maiores serão as dificuldades ao nível a validade interna da análise. Deste modo, a validade assegura que o que era pretendido medir pelo investigador, foi medido; e a fidelidade assegura que diversas interpretações por parte de diferentes investigadores é também minimizada (Vala, 2003).

A unidade de enumeração é sobre aquela que irá ser realizada a quantificação. Aqui é necessário ter presente que diferentes tipos de unidades de enumeração (geométrica ou aritmética) podem conduzir a diferentes resultados, sendo para tal necessário que se indiquem os critérios que justificam a escolha realizada (Vala, 2003).

A análise qualitativa associada à análise quantitativa permite verificar mais profundamente que concepções são referidas pelos participantes no presente estudo relativamente à relação conjugal e à violência conjugal.

CAPÍTULO 5-APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Esta investigação tem como objectivo identificar qualitativamente as diferentes concepções dos participantes acerca da conjugalidade e violência conjugal.

Deste modo, serão apresentadas detalhadamente as diferentes concepções encontradas dentro de cada tema. Procedemos, em seguida à apresentação, análise e interpretação dos resultados obtidos.

A designação das categorias tenta ser o mais semelhante possível às verbalizações expressas. O critério de registo utilizado foi a anotação da presença das diferentes verbalizações ou unidades de significado do discurso de cada participante relativamente a cada questão colocada e não no número de vezes que foram proferidas no âmbito de cada questão (Grácio, 2002).

No decorrer da apresentação dos resultados existem transcrições entre parêntesis rectos apenas para uma melhor clarificação da concepção apresentada e do contexto correspondente. Tal significa, também, que o discurso entre parêntesis rectos não pertence à categoria ou subcategoria em causa.

Os sujeitos numerados de 1 a 15 correspondem aos participantes do sexo feminino, enquanto que os sujeitos numerados de 16 a 30 correspondem aos participantes do sexo masculino.