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Instrumentos e procedimentos de recolha de dados

2. Metodologia

2.2. Instrumentos e procedimentos de recolha de dados

Sendo objectivo da investigação fenomenográfica “descobrir e sintetizar formas de pensamento que sintetizem a forma como as pessoas interpretam aspectos da realidade” (Marton, 1981, p.180), o procedimento é caracterizado pela compilação de afirmações e posterior análise para identificação das concepções.

Tendo em conta que se pretende realizar um estudo qualitativo, será utilizada a entrevista como instrumento de recolha de informação, já que este é descrito por Have (2004; cit. Rodrigues, 2006) como sendo o modo mais comum de fazer investigação social qualitativa. A entrevista é uma técnica de recolha de dados constituída por uma interacção verbal com o sujeito, em que o fundamental está relacionado com as questões que o entrevistador coloca e as respostas que este obtém (Pedon & Gnisci, 2004).

Pode-se considerar a entrevista como um método de recolha de dados “no sentido mais rico da expressão” (Quivy & Campenhoudt, 1995; cit. Rodrigues, 2006), que tem como intuito fomentar a expressão das experiências, percepções, opiniões, atitudes e interpretações do participante.

As principais vantagens deste método prendem-se com o facto de se conseguir captar informação mais profunda (Rodrigues, 2006), poder ser utilizada em diferentes tipo de populações, apresentar taxas de respostas mais elevadas do que as obtidas pelos questionários, detectar mais facilmente os erros de interpretação, existir uma maior eficácia na descoberta de informação sobre temas mais complexos e com uma carga emocional maior (Fortin, 1996). Outras vantagens prendem-se com o facto de existir uma maior flexibilidade quanto à duração (o que permite um aprofundamento das questões elaboradas), e uma interacção entre o entrevistador e o entrevistado que faz com que as questões surjam de forma mais espontânea (Boni & Quaresma, 2005).

Este método traz também algumas desvantagens relacionadas com o facto de ser necessário dispender algum tempo e dos dados serem mais difíceis de codificar e analisados, o que leva a que haja uma maior necessidade de disponibilidade a nível de tempo e energia (Fortin, 1996).

O tipo de entrevista mais utilizado na investigação social é a semi-directiva ou semi-estruturada, sendo designada desta forma devido ao facto de não ser inteiramente aberta, mas também de não conter um grande número de questões muito precisas. Neste tipo de entrevista existem perguntas-guia, relativamente abertas, que irão orientar as áreas de informação que se deseja obter (Quivy & Campenhoudt, 1995; cit. Rodrigues, 2006). Este tipo de entrevista é adequado quando queremos aprofundar um certo domínio ou verificar a evolução do mesmo (Ghiglione & Matalon, 1977/2005). Segundo Triviños (1987), a entrevista semi- estruturada favorece não só a descrição dos fenómenos sociais, mas também a sua explicação e a compreensão. Este tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre as respostas não padronizadas Manzini (2003).

Desta forma, as áreas a explorar podem sê-lo de acordo com o decorrer da conversa, respeitando o timing do entrevistado e a fluência verbal e cognitiva deste. O entrevistador conhece pois os temas sobre os quais tem de obter reacções por parte do entrevistado, mas a ordem e a forma como os irá introduzir são deixadas ao seu critério.

A linguagem deve ser acessível, permitir uma resposta, motivar o entrevistado a responder, ser conforme às expectativas do entrevistado sobre o papel do entrevistador, ou seja, o mais próximo possível do seu universo linguístico, partindo da sua percepção e da sua verbalização dos acontecimentos (Ghiglione & Matalon,

1977/2005). Posto isto, o tipo de entrevista que utilizámos e considerámos mais adequado ao estudo a realizar é a entrevista semi-estruturada (Anexo I).

Foram elaboradas 2 entrevistas exploratórias, a um elemento de cada grupo potencial do estudo realizado. Após a realização das entrevistas exploratórias e da sua análise o guião da entrevista definitivo ficou constituído por onze questões semi- estruturadas referentes a quatro temas: I. Relação Conjugal; II. Violência Conjugal; III. Causas da Violência Conjugal; IV. Consequências da Violência Conjugal. Tal como podemos observar no quadro seguinte.

Quadro 3 - Relação entre a estrutura da investigação e as questões da entrevista

(Grácio & Pombo, 2010)

As entrevistas foram realizadas individualmente entre os meses de Setembro e Dezembro do ano de 2010, em salas de aula, no espaço da Universidade. Apresentei-me em todas as situações de entrevista, explicitando o objectivo da

Temas Questões

I. Relação Conjugal

1. O que é uma relação conjugal?

2. Numa relação conjugal, qual é o papel da mulher e do homem?

II. Violência Conjugal

3. O que é a violência entre um casal?

4. O que acha que são divergências ou conflitos aceitáveis entre um casal e aquilo que já entra no campo da Violência Conjugal?

4.1. O que acha que deve ser feito nas situações que referiu?

5.Considera a Violência Conjugal algo privado ou um crime público?

6. Considera que existe violência conjugal do homem sobre a mulher? Se sim, de que formas?

7. Considera que existe violência conjugal da mulher sobre o homem? Se sim, de que formas?

III. Causas da Violência Conjugal

8. Quais são as causas da Violência entre um casal? 9. Quais podem ser as causas da Violência Conjugal do homem contra a mulher?

10. Quais podem ser as causas da Violência Conjugal da mulher contra o homem?

IV. Consequências da Violência Conjugal

11. Considera que existem consequências da Violência Conjugal? Quais?

mesma e da própria investigação, informando o tempo médio de cada entrevista (30 minutos). No dia e local previamente combinado com os voluntários para o estudo a apresentação foi realizada mutuamente, de modo a criar um ambiente colaborativo, sendo garantida a confidencialidade e o anonimato do entrevistado. Foi também indicado a cada entrevistado que o importante seria a opinião de cada um, não existindo respostas certas ou erradas, e de que a entrevista seria gravada somente para fins de tratamento dos dados recolhidos, confirmando a autorização de cada participante.

Todas as questões foram aprofundadas, através de pedidos de clarificação, explicitação e justificação sempre que necessário.

A escolha deste tipo de entrevista semi-estruturada está relacionada com o facto de poder facilitar a expressão das opiniões dos participantes, dando também espaço à reflexão sobre o fenómeno, o que pode beneficiar o conteúdo de cada pergunta. Nos casos em que esta reflexão não surgia espontaneamente tornou-se necessário reforçar os participantes, evitando influenciá-los ou dirigi-los de alguma forma. Por isso, recorremos ao uso de algumas estratégias como a repetição do que o participante disse ou da própria pergunta; pedidos de clarificação ou justificação e; mantendo sempre uma escuta activa (Grácio, 2002). As entrevistas foram gravadas, transcritas integralmente e submetidas a uma análise qualitativa e quantitativa dos dados.