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INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Centro de Saúde

5.6 Instrumentos e Procedimentos de Recolha de Dados

Tal como já foi referido no capítulo II, a Psicodinâmica do Trabalho propõe a

análise qualitativa da vivência do sofrimento psíquico e das situações de prazer no trabalho. Desta forma, a selecção dos instrumentos de recolha de dados, nos quais o investigador se baseia para colher a informação pretendida junto dos participantes (Fortin, 1999), foi de encontro à metodologia proposta pela teoria dejouriana (Dejours & Jayet, 1994), apesar de, em determinados momentos, esta mesma metodologia sofrer algumas alterações.

Assim, de acordo com Dejours (1992), para se desenvolver uma pesquisa sobre o sofrimento psíquico, ela deve-se basear, num primeiro momento, numa solicitação que deve ser formulada pelos próprios trabalhadores que estão a vivenciar o problema pesquisado. Contudo, a procura destas pesquisas, por iniciativa dos trabalhadores, ainda é uma situação rara em Portugal. Assim sendo, na presente pesquisa ressalta-se que os trabalhadores-enfermeiros da Sub-Região de Saúde de Braga não têm, ainda, suficiente desenvolvimento sócio-cultural para formularem, eles mesmos, esta solicitação, pelo que esta pesquisadora (que é também trabalhadora - enfermeira), a formulou, então. Assim, foi a pesquisadora que se dirigiu aos trabalhadores-enfermeiros, pois considerou

que esta questão não se podia tornar um factor impeditivo para a realização da presente investigação.

Segundo Dejours (1994), para se ter acesso ao sofrimento psíquico, é necessário passar pela “palavra dos trabalhadores” e não por uma observação simples ou mesmo participada. Nesta perspectiva buscou-se a relação entre a palavra dos trabalhadores e a escuta atenta da pesquisadora o que permite ao sujeito falar sobre o seu trabalho, colocar em foco a sua percepção das situações que está a vivenciar, colaborando para a consciência e crítica desse contexto laboral, independentemente dele ser composto por experiências positivas e/ou negativas. Segundo a metodologia proposta por Dejours (1992) o sofrimento psíquico e o prazer são, nas suas origens, oriundos de uma relação específica com o inconsciente, sendo no jogo entre o pré-consciente e o inconsciente que se negoceiam as relações de sofrimento psíquico e de prazer. Uma outra ideia subjacente a esta metodologia é que não se conhece o sofrimento psíquico e o prazer objectivos. Na óptica do objectivo apenas se identificam os desequilíbrios, contudo esta preceptiva revela pouca informação sobre a vivência subjectiva qualitativa. O que Dejours (1992) defende é que a análise do sofrimento psíquico e do prazer só pode ser feita através das relações intersubjectivas no trabalho.

Atendendo a estas características e exigências da metodologia da Psicodinâmica

de Trabalho, e ao pressuposto da busca da globalidade e da compreensão do sofrimento

psíquico e do prazer no trabalho, centrados no modo como os seres humanos interpretam e atribuem sentido à sua realidade subjectiva (Bogdan & Biklen, 1994), optou-se, como estratégia de recolha de dados, pela entrevista:

“(…) que consiste numa interacção verbal entre pessoas que se envolvem voluntariamente em igualdade de relação, a fim de partilharem um saber experienciado e isto, para melhor

compreender um fenómeno de interesse para as pessoas implicadas” (Savoie-Zajc, 2003, p. 281).

A realização de entrevistas permite, segundoBogdan e Biklen (1994):

“(…) recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo” ( p. 134).

Assim, realizaram-se entrevistas do tipo individual e semi-estruturadas aos oito enfermeiros que integraram a amostra. Para tal, foi elaborado um guião da entrevista (ver Apêndice IV), composto por três partes.

A primeira parte do guião da entrevista consiste no estabelecimento de três pressupostos para a estruturação e realização das entrevistas: a) escolha do curso; b) escolha do local de trabalho; e, c) tarefas actuais e efectivas. Estes três pressupostos geraram, no processo de análise dos resultados, como será visto no capítulo VI referente aos resultados, as três áreas descritivas.

A segunda parte do guião da entrevista define os objectivos operacionais da mesma, de acordo com os objectivos de investigação.

A terceira parte do guião da entrevista define as questões orientadoras da entrevista, as quais foram elaboradas em função dos objectivos operacionais e das questões de investigação. Esta terceira parte contém questões nem totalmente abertas, nem totalmente fechadas, em conformidade com o tipo de entrevista que é semi- estruturada. As questões que compõem a terceira parte do guião da entrevista, não foram colocadas de forma rígida, ou seja, por uma ordem pré-estabelecida, atendendo às

vicissitudes e idiossincrasias dos entrevistados, assim como aos seus estilos cognitivos. Contudo, a entrevistadora estava atenta à sequência e ao conteúdo das questões orientadoras definidas pela lista de objectivos operacionais do guião da entrevista. Tal procedimento permitiu, por um lado, efectuar as alterações consideradas necessárias ao longo do decurso das entrevistas e, por outro, o desenvolvimento de um clima de liberdade de expressão (de “estar à vontade”), que possibilitasse a exposição, por parte

dos entrevistados, das suas vivências desencadeadas pela tarefa primária, ou seja, pelo

Cuidar.

O guião da entrevista foi sujeito a um pré-teste junto de dois enfermeiros de nível I, os quais não integraram a amostra. Não se tendo registado, a partir dos resultados do pré-teste, a necessidade de reformulação do guião da entrevista; sendo assim, o mesmo foi considerado definitivo, pois pareceu, à partida, ajustado à recolha da informação desejada (ver item 5.2).

É ainda de acrescentar que a realização deste pré-teste, feito ao guião da entrevista, revestiu-se de uma grande importância no que concerne à condução da realização das entrevistas (posteriormente efectuadas) por parte da entrevistadora, dado que as tornou mais flexíveis, já que possibilitou à pesquisadora-entrevistadora uma aprendizagem significativa, obtendo-se, assim, uma maior liberdade de expressão dos entrevistados, o que, inevitavelmente, tornou a informação recolhida mais enriquecida. A realização do pré-teste permitiu, ainda, treinar a utilização do gravador e audiocassete, como suporte para o registo das entrevistas; fazer uma previsão da duração de cada entrevista e, por último, testar a validade das questões, bem como a sua sequência e coerência interna.

Já o referido questionário sócio-demográfico-profissional, construído para caracterizar e delimitar a amostra, é composto por dezassete questões, abertas e fechadas. Este questionário foi sujeito também a um pré-teste, junto dos mesmos dois enfermeiros de nível I em que se fez o pré-teste do guião da entrevista. O feedback dado por estes dois sujeitos que integraram o pré-teste, relativamente às questões colocadas no questionário, foi positivo, ou seja, as questões demonstraram-se compreensíveis, não evidenciando erros de vocabulário e de formulação, e também não geraram equívocos. Posto isto, considerou-se que o questionário estava apto para ser aplicado à amostra. Optou-se por aplicar o questionário aos oito entrevistados que integram a amostra, antes da realização da entrevista, dado que o mesmo era de fácil e rápido preenchimento. Esta opção de aplicar previamente este questionário contribuiu, de certa forma, para uma maior aproximação e relação de confiança entre o entrevistado e a pesquisadora.

Após a definição dos objectivos da investigação, da construção do instrumento de recolha de dados (guião de entrevista), do questionário sócio-demográfico- profissional e da escolha do terreno da pesquisa (Centro de Saúde da Sub-Região de Saúde de Braga), foi feito um primeiro contacto informal com a Enfermeira-Chefe desse mesmo Centro de Saúde, onde lhe foi exposto o que se pretendia realizar e ao qual se mostrou receptiva e acolhedora. Seguiu-se, então, a formalização do pedido de

solicitação de autorização para a realização das entrevistas aos enfermeiros (ver

Apêndice V). Em anexo a este pedido de solicitação de autorização para a realização das

entrevistas, remeteram-se, à referida Enfermeira-Chefe, três documentos: a declaração emitida pela Universidade Fernando Pessoa, onde consta a frequência da aluna no

referido mestrado e a sua área de pesquisa; a carta de explicação do estudo (ver

documentos que seriam apresentados, posteriormente, aos enfermeiros que integraram a amostra.

Na base da elaboração da referida carta de explicação do estudo e do formulário do consentimento, esteve o pressuposto de que, em qualquer investigação, a obtenção de um consentimento escrito, esclarecido e livre dos participantes é fundamental para que seja assegurada a ética na condução da investigação (Brent; Cassidy, citado por Fortin, 1999).

Previamente aos participantes assinarem o formulário do consentimento, devem- lhes ser facultadas informações relativas ao projecto de investigação e à sua participação no estudo (Fortin, 1999). Neste sentido, foi elaborada a já referida carta de explicação do estudo, contendo os elementos sugeridos pela autora, a qual se baseou no

documento emanado pelo Comité Multifacultaire d`Ethique des Sciences de la Santé

(CMESS), da Universidade de Montreal. Assim sendo, os elementos que compuseram a carta de explicação do presente estudo, foram os seguintes: identificação da autora da pesquisa; o fim e os objectivos do estudo; o tema; o método de recolha de dados; os critérios de selecção da população em estudo; as vantagens em participar no estudo; os riscos e os desconfortos; a participação voluntária, a retirada do estudo e, por último, o contacto da investigadora (ver apêndice VI).

A elaboração desta carta de explicação do estudo, foi um passo importante, na medida em que permitiu aos participantes obterem as informações essenciais sobre o estudo a desenvolver e a natureza do consentimento voluntário. Esta carta foi importante para que, posteriormente, pudessem assinar o formulário do consentimento

livre e esclarecido. Ao se elaborar os dois documentos, a carta de explicação do estudo e o formulário de consentimento, teve-se o cuidado, de acordo com o preconizado por Fortin (1999), em “(…) apresentar uma informação clara e precisa, numa linguagem compreensível, simples e comum” (p. 121).

Considerando que neste tipo de estudos qualitativos, de acordo com Fortin (1999), importa que os participantes partilhem as suas experiências e vivências, houve a preocupação, ao longo do processo de selecção da amostra, em dialogar com a Enfermeira-Chefe do Centro de Saúde onde foi realizada a investigação, para que a mesma apontasse aqueles enfermeiros que reuniam os critérios de selecção da população e também que, à partida, apresentassem as seguintes características: motivação em participarem no estudo e capacidade de se exprimir.

Assim, depois do diálogo com a Enfermeira-Chefe do Centro de Saúde e sob a

sua autorização (ver Anexo III), esta pesquisadora, num primeiro contacto, dirigiu-se

aos enfermeiros, onde lhes foi apresentada a carta de explicação do estudo não se tendo registado nenhum caso de recusa ou desistência. Face aos conhecimentos do teor do estudo, e, após a concordância e consentimento dos sujeitos em participar de forma livre

e esclarecida, foi-lhes solicitado que assinassem o formulário de consentimento (ver em

Anexo IV, um exemplar de consentimento assinado). Foi aproveitado este primeiro

contacto com os enfermeiros para combinar o dia e a hora da realização das entrevistas.

Assim sendo, as entrevistas foram efectuadas em função da disponibilidade de tempo dos oito entrevistados. O local da realização das entrevistas foi no gabinete dos enfermeiros, durante o seu horário de expediente, nas estruturas físicas do Centro de

Saúde em estudo, o que facilitou um clima de privacidade, de confiança e de familiaridade, pois eles, assim, já conheciam o local e estavam no seu “habitat” profissional. Considerou-se, ainda, tal como refere Mendes (2004), que é recomendável que as entrevistas sejam realizadas num espaço público, para tornar visível a dinâmica e a gestão dos trabalhadores frente às adversidades dos contextos de trabalho.

Tal como já foi referido, as questões não foram colocadas pela ordem anotada, dado que a pertinência e oportunidade de colocar a questão, foram definidas no contexto dos discursos dos entrevistados. Assim, houve a preocupação em deixar falar livremente o entrevistado da forma e com as palavras que o mesmo desejasse e considerasse conveniente. No entanto, esteve sempre presente, ao longo do desenvolvimento de todas as entrevistas, a preocupação, por parte da entrevistadora, em centrar o discurso dos sujeitos nos objectivos operacionais e, de acordo com as questões do guião da entrevista. Portanto, e como já foi referido, a propósito da construção do guião da entrevista, sempre que se verificava uma situação de afastamento do discurso dos entrevistados, os mesmos foram estimulados a fornecer uma resposta mais precisa, tendo a entrevistadora, delicadamente, conduzido os mesmos a dar seguimento ao previsto pelo respectivo guião.

De forma a garantir a segurança e a fiabilidade dos dados recolhidos, para posterior levantamento e análise de forma fidedigna, gravaram-se os discursos decorrentes das entrevistas, tendo por base o respectivo consentimento dos participantes.

A realização das entrevistas decorreu no mês de Maio de 2004 e tiveram uma duração média de 50 a 70 minutos cada, perfazendo, aproximadamente, um tempo total de entrevistas de 8 horas.

CAPÍTULO

VI

– RESULTADOS

A escolha de uma metodologia de análise de resultados nunca deve ser feita por impulso ou simples vontade do investigador. Desta forma, o desenvolvimento de um processo de investigação e de análise de determinado objecto empírico, é efectuado num esforço de ruptura com o senso comum, recorrendo à construção teórica existente e ao estado da arte no campo das investigações empíricas. Com efeito, é a teoria que indica quais as técnicas e métodos mais apropriados para a investigação. De resto, é possível realçar que todo o processo de investigação e produção de conhecimento científico tem como ponto de partida e de chegada a teoria.

Neste contexto, é o corpo teórico que deve guiar o investigador na sua abordagem à problemática, na construção dos conceitos e estabelecimento das relações entre estes, na construção dos instrumentos de análise e na sua aplicação. Tendo isto em conta, naturalmente, também a análise dos dados é guiada pelas aquisições teóricas previamente efectuadas, devendo existir, em todo este processo, uma preocupação frequente em relacionar o material teórico com o material empírico recolhido, procurando responder às questões de investigação colocadas.

Na sua base, este processo é válido para a maioria das investigações em Ciências Sociais, no entanto, é necessário ter em conta que a metodologia adoptada condiciona o tipo de técnicas aplicadas e, em boa medida, a respectiva análise. Posto de outra forma, trabalhar com determinada postura metodológica condiciona, não apenas as questões que se fazem, mas também os mecanismos que se colocam em prática, bem como as repostas que se podem obter. Assim, se este estudo se assume com um pendor

fortemente qualitativo, tendo na entrevista individual e semi-estruturada a sua técnica principal, esta opção deriva directamente das especificidades do objecto empírico e das orientações fornecidas pelas problematizações teóricas previamente existentes.

Se anteriormente, no capítulo V da Metodologia, foram já discutidas as condicionantes e especificidades da construção do instrumento de recolha de dados e dos procedimentos de aplicação, neste ponto será, então, explicar a técnica de análise de conteúdo, assim como desmontar e construir o processo de criação de categorias e de subcategorias, a partir de uma grelha de análise, do tipo mista, de áreas temáticas, bem como apresentar a análise e apresentação dos resultados.