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CAPÍTULO II – TRABALHO E SAÚDE MENTAL: SOFRIMENTO

PSÍQUICO E PRAZER DO TRABALHADOR

2.4 Prazer no Trabalho

Uma das contribuições da Psicodinâmica do Trabalho é a abordagem que faz à

relação do trabalho com prazer, a qual se pode desenvolver entre o trabalhador e o seu trabalho. Desta forma, a teoria dejouriana, na realidade concreta e na experiência individual do trabalho, não preconiza apenas sofrimento psíquico, mutilação e morte (Merlo, 1999), também faz alusão e considera a existência de prazer no trabalho, aliás como já foi referido.

A compreensão do mecanismo pelo qual se desenvolvem estas duas esferas, isto é, o sofrimento psíquico e o prazer no trabalho, torna-se imprescindível para se analisar, de forma global, os laços entre o trabalho e a saúde mental, pois todos os desequilíbrios e desafios da vida externa são traduzidos para o mundo interno, conturbando ou desorganizando, de alguma forma, o equilíbrio psíquico e bem-estar do sujeito, assim como a sua saúde integral.

Atendendo a que os itens anteriores se debruçaram essencialmente sobre o sofrimento psíquico, de seguida passa-se a fazer uma abordagem à questão do prazer no trabalho, se bem que de forma sintética e pouco aprofundada, dada a própria limitação da teoria dejouriana sobre esta área. Efectivamente a grande área de exploração da teoria dejouriana recai na questão do sofrimento psíquico, centrada na análise das condições organizacionais e nos seus impactos sobre a vida psíquica.

Assim, de acordo com Dejours (1994), o prazer no trabalho resulta da descarga da energia psíquica que a tarefa autoriza, o que corresponde a uma diminuição da carga

psíquica laboral. Como afirma Lunardi Filho (citado por Fonseca, 2001) o prazer no trabalho acaba por ser um resultado do sofrimento, na medida em que os trabalhadores lutam contra ele. Por outro lado, o trabalho também se constituiu um espaço favorável para jogar e re-jogar com o sofrimento na expectativa de que esse desempenho termine em descobertas e em criações socialmente úteis.

Uma condição que se impõe como necessária, para a obtenção de prazer no trabalho, é que a organização se torne flexível, de forma a permitir ao trabalhador empregar as suas aptidões psicomotoras, psicossensoriais e psíquicas (Dejours & Abdoucheli, 1994). Assim, a permissão para a pessoa empregar as suas aptidões, por consequência, implica uma diminuição da sua carga psíquica, o que favorece um equilíbrio na carga do trabalho.

De acordo com Mendes (2004) o prazer no trabalho emerge quando o contexto laboral, além de atender às necessidades básicas e de segurança, fomenta a identidade. Neste contexto, o “ser” não se dissocia do “fazer”, isto é, o trabalho não se reduz às tarefas em si, havendo uma componente pessoal nas mesmas. O prazer encontra-se, desta forma, aliado a uma dimensão que transcende o concreto e assente numa intersubjectividade, na qual os trabalhadores transformam e são transformados. Assim, por meio do reconhecimento da e na tarefa, assim como nos outros, o sofrimento psíquico adquire sentido para o trabalhador, versando na ideia de que “não sofri em vão, o meu sofrimento serviu para alguma coisa”. Posto isto, existe a possibilidade de transformar este sofrimento psíquico em realização pessoal, ajudando, portanto, a reconstruir a identidade pessoal, social e profissional do trabalhador.

A obtenção do prazer no trabalho consegue-se pela valorização e pelo

reconhecimento da tarefa que o trabalhador está a executar, sendo, portanto, a

valorização e o reconhecimento considerados componentes da vivência do trabalhador. De acordo com Ferreira e Mendes (2001) a valorização é o sentimento de que o trabalho, por um lado, tem sentido e valor em si mesmo e, por outro, é importante e significativo para a organização de trabalho e para a sociedade. Já o reconhecimento significa que o trabalhador é aceite, aprovado no trabalho e tem liberdade para manifestar a sua individualidade. Esta valorização e reconhecimento obtém-se, fundamentalmente, pela realização de uma tarefa significativa e importante para o trabalhador, para a organização de trabalho e para a sociedade. Também o uso da criatividade em manifestar uma marca pessoal no trabalho constitui, uma fonte de prazer para o trabalhador, assim como o orgulho e a admiração por aquilo que produz, juntamente com o reconhecimento da chefia e dos colegas. Assim sendo, o reconhecimento e a valorização, veiculados ao prazer no trabalho, não se limitam às simples recompensas, referem-se, antes, aos vínculos entre o processo de constituição da identidade e o campo social.

O processo de construção dessa identidade, realizada pela interacção entre o indivíduo e o “outro”, com o colectivo de trabalho, consente, do ponto de vista da

Psicodinâmica do Trabalho, a formulação de uma nova significação do sofrimento

psíquico, uma vez que ocorrem transformações nos contextos adversos que conduzem à

vivência do prazer. No fundo, o que a Psicodinâmica defende é que o trabalho também

gera prazer, porque gera realização, pois, o trabalhador ao produzir algo com que se identifica, sente-se valorizado e reconhecido. Neste sentido, o trabalho permite assimilar sobre um fazer específico, criar, inovar e desenvolver novas formas para executar a

tarefa, sendo, também, proporcionadas condições de socialização e de reforço da identidade (Mendes, 2004).

Segundo Dejours e Abdoucheli (1994) o prazer no trabalho surge quando a organização de trabalho se torna flexível, considerando, desta forma, a individualidade e os desejos dos trabalhadores. Se tal se verificar então é porque o trabalhador atribui e ajusta-se à tarefa primária que está a desenvolver, a qual permite a libertação de energia psíquica, resultando, por tal, o prazer no trabalho.

A título de síntese do presente capítulo e como refere Heloani e Capitão (2003) pode-se concluir que o prazer e o sofrimento psíquico no trabalho, resultam de uma dinâmica interna das vivências e da organização de trabalho. Assim, o prazer e o sofrimento psíquico no trabalho “são decorrências das atitudes e dos comportamentos franqueados pelo desenho organizacional (…)” (p. 107).

Estas áreas do prazer e do sofrimento psíquico actualmente vão ganhando terreno na comunidade científica, atendendo às próprias transformações e vicissitudes do mundo do trabalho. Face às rápidas transformações tecnológicas e científicas que caracterizam actualmente o trabalho, urge a necessidade de desenvolver ainda mais estudos nesta área, constituindo-se, assim, um enorme campo de estudo e não apenas de denúncia. As condições e as exigências do mundo do trabalho geram o eminente perigo de transformar a vida numa rotina, deixando, no corpo, os sinais do sofrimento psíquico que se pode transformar em inúmeras patologias, além de atentar contra a saúde mental do trabalhador. Posto isto, torna-se necessária a promoção da saúde mental nos locais de

trabalho, para que a actividade laboral deixe de ser vista como uma negatividade da vida e seja entendida como uma forma de a harmonizar e de obter prazer.

Feita a diagnose à relação trabalho e saúde mental, na qual foram analisados o histórico da relação trabalho e saúde mental, bem como a temática do sofrimento psíquico e do prazer em contexto de trabalho, no capítulo seguinte faz-se o enquadramento específico sobre a Enfermagem.

CAPÍTULO

III

– A ENFERMAGEM

A Enfermagem, como profissão, não tem muitos anos. Considerada, na actualidade, uma profissão de relevo no Mundo, pelas suas competências técnicas, científicas e relacionais, a Enfermagem carrega consigo um longo percurso histórico, repleto de lutas e conquistas sociais.