• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 2: (IN)SUCESSO ESCOLAR E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL

2.1 Insucesso escolar

A escola parece ser um obstáculo para os alunos que muitas vezes não demonstram o desempenho escolar desejado pelos pais, pelos professores e pelos próprios alunos.

Muñiz (1993, p. 9) define o insucesso escolar como “a grande dificuldade que pode experimentar uma criança, com um nível de inteligência normal ou superior, para acompanhar a formação escolar correspondente à sua idade”.

Para Rangel (1994, p. 20) insucesso escolar significa “o insucesso num exame, bem com o afastamento definitivo da escola provocado por repetências sucessivas.”

Projeto Ritmus: Uma Experiência para o Sucesso na Matemática e de Desenvolvimento Profissional de Professores

40

Na opinião de Benavente (1990, pp. 2-3) são várias as teorias explicativas do insucesso escolar: a teoria dos «dotes», a teoria do «handicap» sociocultural e a teoria do «handicap» socioinstitucional. O esquema seguinte explicita as principais características de cada uma das teorias segundo a autora acima referida (1990, pp. 2-3).

Figura 5 – Características das teorias explicativas do insucesso escolar segundo Benavente (1990, pp. 2-3)

Num estudo realizado por Roazzi e Almeida (1988, p. 54) o insucesso escolar deve-se, na opinião dos docentes que participaram no mesmo, à “falta de bases, de motivação ou de capacidade dos alunos ou, ainda, o disfuncionamento das estruturas educativas, familiares e sociais.” Os mesmos autores referem que os pais e a opinião pública em geral pensam que “os professores terão a sua quota-parte de responsabilidade (faltas, desmotivação, insuficiente formação, etc.)”. Alguns dos aspetos apontados por este autor mantém-se como causas do insucesso como veremos mais adiante.

Para combater o insucesso no sistema educativo português, o Ministério da Educação lançou, no ano letivo 2009/2010, o Programa Mais Sucesso Escolar. Segundo a Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC) este programa foi criado com o objetivo de “apoiar o desenvolvimento de projetos de prevenção e combate

Teoria dos «Dotes» •Prevaleceu desde o final da

segunda guerra mundial até ao final dos anos 60;

•Baseava-se em explicações psicológicas individuais; •O sucesso ou insucesso dos

alunos "é justificado pelas maiores ou menores capacidades dos alunos, pela sua inteligência, pelos seus «dotes» naturais."

Teoria do «handicap» Sociocultural •Predominou desde o final

dos anos 60 até ao início dos anos 70;

•Baseava-se em explicações de natureza psicológica; •O sucesso ou insucesso dos

alunos é justificado pela sua pertença social, pela maior ou menor bagagem cultural de que dispõem à entrada na escola.

Teoria do «handicap» Socioinstitucional •Impera desde os anos 70; •Interessa-se pelos

mecanismos que operam no interior da própria escola; •Sublinha a necessidade de

diferenciação pedagógica, pondo em evidência o carácter ativo da escola na produção do insucesso; •O insucesso é visto como

resultado de uma relação entre as práticas escolares e os alunos das culturas não letradas;

•Investe na transformação da escola, nas suas estruturas, conteúdos e práticas, procurando adaptá-la às necessidades dos diversos alunos.

41 ao insucesso escolar no ensino básico” e foi desenvolvido em mais de cem agrupamentos/escolas de todo o país.

O Programa Mais Sucesso Escolar apoiou o desenvolvimento de projetos que tinham como referência os modelos TurmaMais e Fénix que foram criados, respetivamente pela Escola S/3 Rainha Santa Isabel, em Estremoz, e pelo Agrupamento de Escolas de Campo Aberto, em Beiriz. Para além de apoiar escolas que apresentaram projetos tendo, por base, os referidos anteriormente, também surgiram escolas com projetos com modelos próprios que eram incluídos numa terceira tipologia designada por Híbrida.

Segundo informação recolhida no site da DGIDC, o projeto TurmaMais tem por base, no plano pedagógico, a existência de uma turma sem alunos fixos que recebe temporariamente alunos provenientes de várias turmas do mesmo ano de escolaridade. Cada grupo de alunos tem que cumprir um horário de trabalho semelhante ao da sua turma de origem, com a mesma carga horária e o mesmo professor por disciplina, trabalhando os conteúdos programáticos que a sua turma está a desenvolver. Neste caso estes alunos podem beneficiar de um apoio individualizado, mais adequado ao ritmo de aprendizagem dos alunos e sem que os alunos tenham sobrecarga de horas semanais. Neste projeto não é obrigatório que todas as disciplinas tenham este modelo mas apenas as que apresentam piores resultados escolares.

No que respeita ao projeto Fénix, este foi desenvolvido, segundo informações constantes no site da DGIDC, com o objetivo de “proporcionar condições para que todos os alunos possam efetuar aprendizagens e consolidem saberes. Mais do que combater o insucesso, interessa qualificar esse sucesso, dando-lhe novas dimensões e horizontes de sustentabilidade.” No âmbito deste projeto é dado um apoio mais individualizado aos alunos que apresentam dificuldades a Português, Matemática ou a outra disciplina que apresente elevada taxa de insucesso. São criadas turmas Fénix, “os ninhos”, nos quais são integrados temporariamente os alunos que necessitam de mais apoio para conseguir recuperar aprendizagens, respeitando os diferentes ritmos de aprendizagem. Os “ninhos” funcionam à mesma hora da turma de origem, o que permite não sobrecarregar os alunos com tempos extra de apoio educativo. Logo que os alunos consigam atingir o desempenho esperado, regressam à sua turma de origem. Os ninhos não são criados

Projeto Ritmus: Uma Experiência para o Sucesso na Matemática e de Desenvolvimento Profissional de Professores

42

apenas para os alunos com dificuldades mas também são criados ninhos para alunos com grandes “taxas de sucesso de forma a permitir o desenvolvimento da excelência.”

As escolas de tipologia Híbrida desenvolvem os seus projetos sem terem por base nenhum dos projetos mencionados previamente. Tentam melhorar a qualidade do ensino e o diminuir o insucesso dos seus alunos tendo por base “desenhos organizacionais próprios”. De uma forma geral as escolas apoiam os alunos com ritmos de aprendizagem diferentes, através de mudanças nas práticas letivas e promovendo um ensino mais individualizado, permitindo a recuperação de aprendizagens. É referido ainda que como estratégia para aumentar o sucesso escolar, as escolas promovem “práticas de trabalho colaborativo entre professores, nomeadamente, nas disciplinas intervencionadas em cada escola, bem como nas dinâmicas do conselho de docentes/turma”.