INTELECTUALIDADE CAMPINENSE:
2.1 – Prólogo
Diante da ideia de uma pedagogia urbana faz-se necessário o estudo mais acurado do que posso nomear intelectualidade campinense. Essa classe responsável pela propagação de grande parte dos discursos pedagogizantes não é senão o reflexo de um contexto do qual é oriunda. Refletindo características específicas que também acusam o lugar de sua origem, mas também trazendo aspectos muito próprios que os identificam enquanto intelectuais no Brasil da época. A partir da ideia de educadores da cidade objetivo pensar de que forma esses homens ensinaram comportamentos e práticas dentro da vivência urbana de Campina Grande como porta-vozes das sensibilidades externas. Meu percurso inicia com a análise conceitual relacionada ao contexto da cidade na época da Primeira República e passa pela identidade da primeira intelectualidade referência da pedagogia urbana de Campina Grande, Irineu Joffily. Por fim, concluo analisando como os espaços ocupados pela elite intelectual passaram a compor uma referência de estética e práticas dentro da cartografia campinense.
2.2 – Intelectuais ao modo Campinense
Como anteriormente me detive em traçar o percurso sobre o que seria a cidade nessa pesquisa, seu trajeto histórico e implicâncias teóricas que irão nos nortear ao longo do texto, é preciso chegar ao ponto de melhor compreensão sobre a mecânica que movia a pedagogia apregoada no espaço urbano em questão. Sendo tal espaço um amontoado de construções e vidas, só será permeada por mudanças quanto mais bruta e igualmente fundamentada for a ambição e a filosofia daqueles que a querem transformar. Pois, se alguém queira convencer a outrem, só o fará efetivamente quando convencer-se a si mesmo do discurso que profere, então este discurso obterá força e, consequentemente, meios materiais para assim alcançar sucesso em falar ao outro. Estes, que a isso se dispunham eram o que conhecemos, grosso modo, intelectuais.
Dentre esse já restrito grupo, do qual não posso negligenciar a heterogeneidade de seus personagens dentre suas várias identidades, origens e escolas, faz-se necessário ainda restringi-lo mais para efeito de nossa análise, até chegarmos naquele padrão que mais está associado à imagem da intelectualidade nesse período no lugar Campina Grande. Uma imagem que, digo desde já, não
corresponde somente a um modelo pré-formado, torna-se abrangente tão logo a cidade seja igualmente diversa.
O primeiro grupo que passo a me referir diz respeito aos intelectuais provindos da elite rural da cidade e adjacências. Homens de sobrenome, oriundos da genética dos figurões locais, descendentes dos antigos sesmeiros da província, ligados à economia agrária da colônia (geralmente latifundiária), seja, em Campina ou em sua circunvizinhança. O poderio econômico era realocado simbolicamente ao sobrenome, e este último se torna um dos representativos mais alegóricos da fortuna e tradição que acompanhava a cada um que portasse suas letras grafadas posteriores ao nome próprio.
Logo esse grupo percebeu a necessidade de ter intelectuais entre os de casa. Filhos estudados conferiam não só o status de poder arcar com os estudos deles (desde as primeiras letras aos cursos superiores) e dar-lhes título, mas também contribuía para que esses atuassem dentro dos âmbitos sociais que exigiam maior entendimento das respectivas áreas que viessem a se formar. Durante o século XIX tornou-se comum a necessidade dessa qualificação entre as famílias cuja origem histórica constava nessa elite rural, basicamente a alfabetização e, a posteriori, a ideia de uma formação universitária.
Veiga afirma que, num ato de negar o passado e afirmar o presente, dentro das relações entre cidadania, cidade e educação que estavam inseridas “as elites proprietárias do século XIX buscaram legalizar essas relações ao se defrontarem com novas coletividades se fazendo e se constituindo” (VEIGA, 1994, p.18). Ou seja, nos deparamos aqui com um contraste: ao passo que esses grupos tradicionais buscavam a formação acadêmica dos seus, legitimavam o poder das instituições educacionais como as universidades, em essência, urbanas. Essas elites articulavam-se, adaptavam-se à uma nova realidade afim de não perderem seu protagonismo, davam espaço ao lugar de formação distante da realidade econômica da terra, onde concentravam seu poderio, mas como forma de acompanhar o momento transitório pelo qual a sociedade seguia. O evento de alguém poder ascender a uma posição de autoridade dentro da sociedade desse contexto passou a exigir, no mínimo, esse domínio das letras.
Era, de fato, comum que, anteriormente, as formações dos filhos dessas elites se desse na Europa e fosse ainda mais restrito devido ao alto custo. Todavia, com a chegada dos cursos superiores às cidades ascendentes brasileiras (Recife, Rio de
Janeiro, Salvador, São Paulo) a formação tornou-se mais acessível e passou a realizar-se no território brasileiro (não desconsiderando que os mais abastados ainda não fossem pisar no Velho Mundo para conseguirem seus diplomas). Como referido, além de essas cidades brasileiras terem se desenvolvido no quesito demográfico sofreram a influência do modus vivendi das cidades europeias, sendo o estilo de vida metropolitano suscitado pela modernização dos grandes centros industriais da época, ao que o currículo de seus cursos não estiveram, portanto, imunes. Nessas capitais brasileiras os filhos das elites desenvolveriam tanto a profissão a que foram aprender (Medicina e Direito), como foram influenciados por códigos comportamentais urbanos distintos de seus lugares de origem.
Giscard Agra (2010) analisa esse grupo mais a fundo. Para o autor a ligação dos intelectuais com o meio rural, ainda que estes já fossem formados e constituídos profissionais urbanos, fazia-se notar pelo “nome da família que cada um levava consigo” (Idem, p. 67). Além disso, segundo a visão que ele nos apresenta da realidade campinense do início do século XX
Todo sujeito descendente de alguma família tradicional da região, filho de fazendeiros, mesmo que ele próprio não fosse dado à vida no “mato” e frequentasse as faculdades já existentes em cidades maiores, como Recife, Rio de Janeiro ou Salvador, era enquadrado, nesta visão, na “burguesia rural”. Como exemplo destes, temos o coronel João Lourenço Porto, o bacharel Irenêo Joffily, os senhores Honorato da Costa Agra, João Tavares de Melo Cavalcanti, Pedro Américo de Almeida e o Dr. Chateaubriand Bandeira de Melo. (Ibidem)
O autor exprime uma dimensão mais categorizada desse grupo, definindo melhor o ambiente do qual provinham, ainda apresentando a constante rivalidade entre burguesia rural e urbana que se manifestava no caso de Campina Grande acentuadamente nas disputas de poder.
Segundo Sérgio Miceli (2001) apresenta a profissão intelectual é possível perceber em seu levantamento como esta estava estritamente relacionada com o poderio da terra (salvo algumas exceções) em fins do século XIX e início do século XX, embora tenha sido culturalmente um ofício de face urbana. Em seu estudo clínico dos anatolianos26, onde procurou perceber as proximidades entre a formação
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Segundo o autor os anatolianos eram representante de um grupo intelectual que copiava a forma de operação do francês Anatole France. Como a cultura desse país europeu tornou-se a maior inspiração dentro da temporalidade do século XIX o estilo de escrita e de atuação do referido autor tornou-se conhecido e, mais do que isso, uma espécie de parâmetro. Miceli afirma que “Anatole
de diferentes intelectuais brasileiros, ele identifica que esses homens não possuíam posições intelectuais autônomas ao poder político e que as condições necessárias à produção intelectual “vão depender quase que por completo das instituições e dos grupos que exercem o trabalho de dominação”27
(MICELI, 2001, p.17). Seria o caso de que o poderio econômico, provindo da prosperidade da lavoura que fez esses grupos familiares permanecerem e/ou crescerem chegando aos postos de poder local foi o mesmo que possibilitou a formação de seus intelectuais, que postulavam como novidade suas ideias acadêmicas e científicas, vencedoras dos antigos modos de vida e política arcaica de base agrária. Contraditório.
Que se acrescente que as peculiaridades regionais, não só são formadoras dos conglomerados urbanos, como da cultura, em suas características mais amplas, daquele povo. Digo isso pois me refiro a como o intelectual acaba sendo produzido pelas circunstâncias que pode vir a sofrer ou usufruir na vida. A elite local, acima identificada, que foi consolidando seu poder, a princípio, mediante o domínio territorial, mantinha-se em relativa estabilidade. A ela deve-se o financiamento do ser intelectual mais caricaturado do qual venho tratando, além disso é possível encontrarmos exemplos de que não somente dessa figura se fazia o cenário do poder das mentalidades. Uns poucos galgavam degraus a mais e chegavam a figurar entre os primeiros mesmo sendo de origens menos abastadas.
Retomando a discursão suscitada por Agra, acima citado, que define as linhas fronteiriças (tão simbolicamente tênues como problemáticas) de uma burguesia rural no contexto de Campina Grande, o autor já sinaliza para um fenômeno homônimo de características urbanas em oposição àquele. A burguesia urbana para ele, pelo menos no caso campinense, tem feições bem definidas e características que ainda acentuam a rivalidade entre os dois espaços geográficos. A principal marca dessa burguesia urbana era o fato de ser menos tradicional no que se trata de estabelecimento territorial. Trata-se de um grupo formato sumariamente por migrantes que vieram de outras partes do estado ou do país, e até mesmo de outra nação como no caso do líder conservador dinamarquês Cristiano Lauritzen. France representa o modelo intelectual ao qual se referem de modo mais insistente os letrados.” (MICELI, 2001, p.60).
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Essa afirmação contradiz de certa forma o que afirma Cabral Filho (2010) quando esse nos expõe que muitos dos letrados que divulgavam suas ideias por meio de jornais na cidade de Campina Grande não eram necessariamente submissos à censura do Estado: “não consta que tenham sido constrangidos a defender nos seus escritos o pensamento e as atitudes dos governantes de plantão” (p. 34).
Ademais, é relevante citar o fato de que se criou um estigma relacionado a identidade do forasteiro na cidade, como aquela pessoa que não tem a identidade radicada nela territorialmente. Essa dicotomia
apoia-se, assim, numa visão idealizada dos valores tradicionais, que ele considera serem o sangue, o vínculo familiar e a ligação com a terra. Apenas os fazendeiros teriam essa ligação, apenas eles estariam ligados histórica e consanguineamente a Campina Grande, poderiam se orgulhar por serem “descendentes dos Oliveira Lêdo”, enquanto os que ocupavam a rua seriam “gentinha”, “forasteiros”, “pés de poeira que nada tinham de que orgulhar-se senão a posse de um ponto comercial e algumas patacas guardadas lá no fundo do baú”. (AGRA, 2010, p. 71).
A rivalidade dos dois grupos, já atribuídas em parte á origem familiar e territorial, também é acirrada tendo em vista que a burguesia rural configurava-se num plano político como liberal ao passo que a urbana era representante dos poderes conservadores. Hugo Braga, em sua dissertação de mestrado define os dois grupos da seguinte forma:
Os “velhos políticos” seriam os Liberais, que se primavam na “Casa- Grande”, isto é, nas propriedades rurais e que seriam supostos rivais e adversários dos da “Rua”, ou seja, moradores da cidade e comerciantes. Os Liberais seriam ainda “endinheirados”, “intransigentes”, fechados às relações matrimoniais externas. Portanto, foram classificados como pertencentes à “burguesia rural”. Do outro lado estaria a “burguesia urbana”, sendo por isto definidos exatamente como antítese dos Liberais e por seu turno: progressistas, modestos, sem laços familiares que os prendessem a terra e pobres. (BRAGA, 2017, p. 58)
Tendo em vista tais características, penso a vida intelectual de Campina Grande como bastante diversificada e como um caso bem específico dentro do contexto de fins de oitocentos e início dos novecentos. No entanto, dentro desse ambiente plural é possível extrair casos de uma intelectualidade bem ligada a definição apresentada por Miceli, como pode ser o caso do primeiro exponente intelectual da cidade Irineu Joffily, como o veremos mais adiante de forma mais específica.
No campo dessas disputas que quereriam a articulação do poder municipal, quanto mais bem instruído, informado e prestigiado fosse o intelectual que se posicionasse a falar em prol de quaisquer das partes, este adquiriria maior articulação, alcançando novos campos de visibilidade para seu grupo político, parental e também para a sua cidade. A formação superior, nesse caso, é como
uma legitimidade a mais que, uma vez adquirida, possibilitaria uma ação interventiva sobre o cotidiano e suas subjetividades, seja em Campina Grande, seja em outras partes do Brasil. A ideia é que, não só de sua formação vive o intelectual, mas por meio dela adquire o poder que o status lhe confere para que aja conforme os discursos construídos à base do interesse político, científico, econômico.
Se antes, para o dono de terras influenciar na política local era algo de seu comum costume por meio de seu prestígio entre os que atuavam nos gabinetes governamentais, agora tais cargos sofriam relativa restrição movidos, seja pela burocracia governamental, seja pela disputa ideológica, para a ocupação daqueles que bem discursavam e operavam de forma mais técnica, nos conformes. As feições da cultura citadina mudavam pouco a pouco de um espaço espontâneo para um espaço regulado (não que tenha sido efetiva essa transitoriedade).
A cidade das letras figura como um espaço milimetricamente escrito, legislado. Nisso consiste que os intelectuais, aqueles que poderiam escrever cientificamente o espaço ganharam certa autonomia em exercer o poder do discurso no espaço urbano campinense. Conciliação advinda dos antigos poderes coronelistas junto aos novos poderes academicistas
é evidente que a cidade das letras arremedou a majestade do poder, ainda que também se possa dizer que esta regeu as operações letradas, inspirando seus princípios de concentração, elitismo e hierarquização. Acima de tudo, inspirou a distância em relação ao comum da sociedade. Foi essa distância entre a letra rígida e fluida palavra falada que fez da cidade letrada uma cidade escriturária, reservada a uma estrita minoria. (RAMA, 2015, p. 49, grifos do autor) Ademais, o aprofundamento da fronteira referida na citação acima entre o distinto grupo letrado e os demais ocupantes do espaço urbano, pôs sobre uma plataforma estável no parlatório simbólico da cidade o primeiro grupo. Deu-lhes ainda um lugar de fala fragmentado entre os diferentes âmbitos sociais, articulado com os poderes de posse de veículos comunicativos como os impressos (da cidade escriturária), os palanques políticos em campanhas, inaugurações, festas etc.
Eis uma característica ainda mais intensificada com a República bem como com a ascensão de outros grupos que competiam pelas frentes de poder juntos aos primeiros em âmbito local. Por isso era importante que houvesse agenciamentos entre os filhos dessa elite e o estudo. Nem todos chegaram a se graduar, mas o
conhecimento das letras os levou a feitios, e argumentações que antes seus pais não poderiam dar conta dos tais.
2.3 – Uma pedagogia da “civilização”
Eça de Queiroz em A cidade e as serras nos traz uma narrativa crítica e, consequentemente, demonstrativa de como se davam os preconceitos sobre os quais surgiu essa ideia de dicotomia do moderno urbano versus o campo, e este último como espaço incivilizado, indomado. A cidade (alegorizada em Paris, onde Jacinto, o protagonista, habita) é sempre o lugar das convivências intelectuais e das novas tecnologias, o centro da vida social, ao passo que na natureza tudo parece tão selvagem e incontrolável que, tampouco, pode ser amigável ao homem.
Num episódio onde Jacinto se põe sobre o seu sótão na companhia do narrador personagem Zé Fernandes, e passa a observar a cidade pelo seu telescópio ele comenta:
Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado.” (QUEIROZ, 2006, p. 20)
Quando Jacinto se refere ao seu olho natural, ele usa, não sem uma aguçada provocação, o adjetivo “primitivo”. No entanto o uso de um instrumento moderno, o telescópio, que demonstra a amplitude da ciência em seu conhecimento do universo e de todo o espaço ao redor eleva o nível do olho natural, tornando-o civilizado.
Num comentário mais amplo sobre essa passagem relacionando-a a uma pedagogia que deseja civilizar os corpos, transformando sua natureza fluida e deseducada para uma personalidade polida e urbana, podemos compreender a metáfora utilizada pelo protagonista. Ora, se seu olho natural não fosse educado pela lente potente provida de tecnologia e ciência, contida no telescópio, ele não poderia vislumbrar e domar os segredos que o universo lhe ocultara até então. Permita-me utilizar do telescópio de Jacinto como uma analogia a toda uma pedagogia que deseja mudar o campo de visão do homem, seja ele rural em essência, seja ele o urbano civilizado.
Diante da metáfora acima exposta, vemos que era necessário o letramento e formação dos filhos das elites em questão também pela amplitude que tomara o
discurso de “civilização” dos costumes, conforme se referem Herschmann e Pereira (1994, p. 12) “(...) na virada do século do século XIX para o XX a palavra de ordem é ‘civilizar’, isto é, ficar em pé de igualdade com a Europa no que se refere a cotidiano, instituições, economia, ideias liberais etc.”. Não qualquer modelo de Europa, mas a Europa de Jacinto. Portanto era necessário para a geração que perpetuaria o poder de seus pais tomar do telescópio da civilização e passar a enxergar por ele as demais categorias sociais, sob influência direta do superior conhecimento academicista e/ou letrado.
Ainda agravam-se as disputas ideológicas diante de um preconceito subentendido: a ideia do civilizar tinha em seu plano uma ligação estritamente relacionada ao urbano, o que serviria para acirrar ainda mais a dicotomia existente entre os grupos familiares urbanos “forasteiros” e rurais “tradicionais”. Angel Rama, analisando Sarmiento em sua obra Facundo (1845) diz que “para ele, a cidade era o único receptáculo possível das fontes culturais europeias (...), a partir das quais se construiria uma sociedade civilizada” (RAMA, 2015, p. 33) o que, segundo o autor foi um pensamento amplamente difundido na América Latina. Para corroborar com seus argumentos ele apresenta o caso de Euclides da Cunha, que “pensava da mesma maneira que Sarmiento, [e] começou a duvidar dessas premissas civilizadoras quando presenciou a carnificina da guerra no sertão de Canudos” (Ibidem). Utilizo do caso de Canudos, ocorrido ainda nos primeiros anos da República Velha para enfatizar como esta ideia já se apregoava mesmo nas cidades interioranas mais afastadas da capital federal como Campina Grande.
Lugar cuja geografia, política, economia e educação se mostravam campos de disputa ideológica, Campina configurava-se quando do advento da proclamação da República um espaço onde, posto ser a esmagadora maioria da população analfabeta, a formação acadêmica conferia status e legitimava a intervenção dos letrados sobre o cotidiano dos demais sugerindo a readequação a essas práticas ditas civilizadas. A expectativa de um novo século, da consolidação de uma república brasileira, inspiravam ideias de mudanças substanciais que deveriam se realizar sustentadas pela ascensão das imagens relativas a esta modernização republicana, que também teria motivado o massacre aos seguidores de Antônio Conselheiro no caso de Canudos, decepcionando o intelectual Euclides da Cunha.
Era indispensável, segundo concebia grande parte desse discurso intelectual levantado ao longo da Primeira República (sobretudo no século XX), que houvesse
uma adesão ao cotidiano das grandes cidades, da construção de novas sensibilidades, e essa responsabilidade não estava alheia ao poder público que era manuseado pelo percentual minoritário dos letrados e graduados. A influência era, de certo, uma das armas mais eficazes que disseminou pensamentos como o republicanismo no Brasil, e todo que se expunha aos cursos superiores ou aos grupos de intelectuais nas metrópoles tupiniquins poderia reconsiderar um dos argumentos apresentados contra o imperador se constatasse que o mesmo era verdade.
Apesar dessa ideia de modernização no Brasil ter-se difundido amplamente pelos republicanos, isso não quer dizer que mesmo entre os conservadores esse discurso não tenha entrado em alta e conquistado adeptos militantes. O fetichismo que a ciência exercia sobre a elite intelectual da época e a ligação estreita entre a modernização prática (que compreendo como as reformas concretas no cotidiano urbano) e o discurso científico faziam com que chegassem a um acordo nesse ponto até os opositores políticos mais radicais (como no caso dos Liberais e