PERIÓDICOS, ENTRE O ESCRITO E O VIVIDO:
3.1 – Prólogo
Compreendendo o que fora anteriormente abordado, viso agora aprofundar o meu olhar sobre a forma sutil pela qual os periódicos na pessoa de seus editores e redatores ansiavam implementar pedagogias ao viver urbano campinense. Para tal penso dois caminhos: o uso do próprio suporte impresso e suas representações de modernidade, bem como do conteúdo da autoria, tanto no escrito como no quesito estético, carregado de intenções, imprimindo as pretensões de grupos sociais bem específicos.
Minha perspectiva é projetar sobre o veículo impresso (muito mais que) informativo o filtro que permite lê-lo como pedagogo ao passo que ele insinua práticas, sejam as ditas cotidianas, sejam pensamentos políticos, sejam comportamentos por meio de imagens e propagandas. A imprensa e seu consumo, em suma, a vivência subjetiva do periodismo, estabelece o contato entre o pensamento do autor (do artigo, da fotografia, da propaganda) e do receptor (aquele que assimila as ideias escritas, quer contrapondo-as ao seu próprio ponto de vista, quer acatando-as).
3.2 – Pelos princípios de uma imprensa campinense
Os periódicos desta pesquisa são remanescentes vivos de uma época onde predominava a imprensa escrita em Campina Grande. Anteriormente às eras da TV e do Rádio, o espaço informativo das cidades em desenvolvimento no Brasil era hegemonicamente dos periódicos. As possibilidades geradas pela difusão da imprensa escrita no desempenho da função de informar também foram vistas como potenciais formadoras de práticas e comportamentos. Esses meios informativos já haviam, durante a segunda metade do século XIX, conquistado penosamente algum lugar de circulação em Campina Grande, mas foram de fato consolidadas publicações fixas na cidade durante a segunda década do século XX (GAUDÊNCIO, 2012).
Muitas vezes estes jornais e revistas que proclamavam notícias e condutas, eram as únicas pontes de contato das camadas médias da cidade, alfabetizadas ou não56, com a cultura propagada nos/dos grandes centros urbanos, assim
funcionando como um tipo de ligação cultural. Na imagem de papéis datilografados,
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Considerando os vários tipos de leitura que poderiam ser feitos, não apenas o textual, mas também o imagético, cognitivo.
com formatações e títulos vários, as palavras percorriam as ruas da cidade, entrando no ambiente das casas, influenciando o cotidiano, provocando sensibilidades e subjetivações nos campinenses.
Assim esses papéis frágeis carregam uma responsabilidade iminente: se fazerem ouvir, dialogar, chamar, interessar, dar a ler. O periodismo importa para a história, pelo que traz a fala de instituições, dos poderes políticos, de discursos proeminentes, ou não. Traz a voz de uma época acerca de si mesma, sob diferentes ângulos, diferentes tonalidades e timbres. Sendo assim, as folhas noticiosas são potenciais formas de problematização acerca destes, acerca da concepção de pedagogia em Campina Grande por aqueles que a faziam, a praticavam, em outros tempos.
Diante dessas implicações, eis que o ano de 1888 representa uma ruptura bem agitada para a vida lenta da cidade. Sim, considere-se que o evento da abolição da escravatura tenha representado uma ruptura simbólica com os costumes legados dos dois séculos testemunhas dos tempos de colônia e de império. Mas também nesse ano o ato sutil de tomar um papel nas mãos representa um mecanismo que agitará a engrenagem de uma cultura em crescimento.
Campina Grande teve sua primeira oficina tipográfica instalada entre os anos de 1887 e 1888, sem que sejam especificadas em algum documento consultado datas exatas. Pelo menos tal ocorrido se deu no intervalo entre a solicitação de sua instalação à Câmara Municipal, ocorrida no mês de abril do ano 1887, e a circulação do primeiro número do jornal Gazeta do Sertão, em 1º de setembro de 1888 (SILVA FILHO, 2005).
A Tipografia chamava-se Central porque se encontrava instalada numa das praças de maior movimento na cidade ali pelo fim do século XIX. Quando a população deixava suas casas nos arredores do centro e ia à missa na Matriz encontrava as portas dela nas redondezas, segundo como consta no jornal o endereço: “Praça Municipal”, número 2457.
Mais do que pensarmos uma personagem alocada temporalmente pelas proximidades da data da Lei Áurea, a Tipografia Central, em detrimento dos
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Silva Filho (2005) informa que a solicitação à Câmara foi para instalação desta na rua Afonso Campos, conhecida como Rua do Meio, paralela imediata da Rua da Matriz no sentido que vai para o Açude Velho, embora pareça que esse não foi o endereço final onde a oficina foi instalada. A “Praça Municipal” pode ser compreendido como parte do Largo que estava frente à própria Igreja, pois ao lado se encontrava o prédio principal da municipalidade, o Paço Municipal.
pensamentos políticos e posições sociais dos seus fundadores, dá o ponto de partida para o desenvolvimento da cultura impressa em Campina Grande.
Permita-me falar sobre seu primogênito, o hebdomadário Gazeta do Sertão. Já mastigado sob diferentes perspectivas, seja nos escritos da academia, seja nos escritos memorialistas, esse jornal que inaugura as atividades da Tipografia Central lança luz sobre figuras da intelectualidade da cidade, sobre seus simbolismos, verdades, contradições. E aí temos marcadas em páginas impressas não só a dimensão da tinta que as fere.
O papel que antes era apenas um produto final e ao mesmo tempo matéria prima, de natureza leve, frágil, tão facilmente degradável, torna-se veículo de carregar realidades, de instituir identidades, de enunciar batalhas. Ele carrega a dimensão de uma cidade subjetivada e descrita pelo autor das palavras escritas. A fragilidade de sua natureza contradiz a responsabilidade de falar a tantos, por tantas vezes, por tanto tempo o que Irineu Joffily queria, o que Francisco Retumba58
acrescentava. E essas duas figuras por vias desses papéis, que são hoje já centenários, têm sido revirados desde o fatídico dia onde a primeira tiragem deixou as dependências da oficina.
A Gazeta do Sertão inaugura uma tecnologia de informar Campina de forma endógena. A imprensa na capital, que tem como ponto de partida o ano de 1826, já estava devidamente consolidada e a pleno vapor. Em Areia, estava circulando há cerca de dez anos (desde 1877). Mas, embora os campinenses pudessem acessar essas folhas que transitavam além dos limites municipais, não possuíam, até o empreendimento de Joffily e Retumba, um escrito de si para si. Releve-se ainda a ausência de uma oficina para seus impressos.
A primeira frase da primeira publicação da Gazeta do Sertão nos permite perceber quais sentidos eram levados pelos autores à importância do vanguardista noticioso. Definindo aquele momento como uma “tristissima epoca de indifferentismo absoluto, de prostração intellectual quase completa” (JOFFILY, 01/09/1888, p.1), sua lida consistia em utilizar de um veículo tão representativo em meio a um ambiente que ainda padecia de problemas desencorajadores de seus anseios próprios
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Francisco Retumba (filho) era engenheiro, profissão que herdara do pai juntamente com o nome próprio. Nascido na capital paraibana, morou na Europa por quase toda a infância e juventude, tendo, provavelmente se formado engenheiro de minas na cidade de Liége. Voltou à Paraíba depois de vinte anos no estrangeiro. Associou-se ao republicano Irineu Joffily pelas ideias em comum e capital favorável afim de veicularem um jornal de teor político que desse a ecoar a voz liberal sobre os domínios campinenses (JOFFILY, 1982).
refletidos em âmbito nacional, conforme o autor do artigo enfatiza posteriormente. Mas observemos melhor toda a intenção e teor dessa abertura tão dramática a publicação.
Joffily e Retumba, sobretudo o primeiro, pertenciam declaradamente ao grupo político democrata que disputava pela efetivação da República em terras imperiais como o Brasil até então se apresentava. Era para compor a linha de frente e fazer o confronto no campo das palavras que essa folha existiu, e seus autores não deixam amenizado o tom que define esse desígnio primeiro do jornal. Órgão Democrata era a máxima que subtitulava a folha. Ribeiro (1979, p.194) bem afirma que este hebdomário “inscreveu de fato entre as finalidades pontos capitais da reforma do sistema político então vigorante”. Ousadia? Pensemos sobre quão poderoso era um veículo impresso nesse período, capaz de fazer mudar a opinião pública acerca de ações do governo, capaz de imprimir em seus leitores novas perspectivas para além de seus pares.
Imagem 5 – Capa do primeiro número do jornal Gazeta do Sertão, do dia 1º de setembro de 1888.
O poder da comunicação crítica ao regime é, desde o princípio, uma arma manejada por aqueles que fizeram a Gazeta. Embora o jornal tivesse seu público e pudesse ser acessado pela oposição política, José Joffily (1982, p. 101) ainda compara a situação modelo na qual seus fundadores se inspiravam como sendo distante de tal modo que substanciava-se caricaturada: “Enquanto no sul desde 1887 funcionavam mais de 200 clubes republicanos, Irenêo Joffily e Francisco Retumba parece que pregavam aos pássaros”, e ainda reforça que estes jamais conseguiriam mobilizar em suas terras uma associação análoga àquelas.
No entanto eles tinham uma arma, e a esta manejariam até onde pudessem, pois pelo teor carregado das críticas adotadas, pelo menos três coisas eram demonstradas sobre a intenção dos autores. A primeira é que o jornal não surgiu somente a pretexto de iniciar as atividades tipográficas da cidade, mas possuía uma finalidade definida desde o princípio. A segunda é que eles o tinham feito porque viram a efetividade política dos órgãos democratas do sul acima referidos pelo biógrafo de Joffily59. Por fim, o terceiro é que eles também o fizeram porque antes já
havia consumido o jornal enquanto leitores e, no caso de Joffily, também como colunista. Sabiam que aqueles papéis, mais do que simples impressões, promoviam circulação de ideias, propagação de costumes. As linhas de atuação se mostravam bem definidas, suscitavam a opinião pública de uma forma sutil e consciente, sem arrodeios:
De todos os lados urge que a opinião publica levante-se briosa e comece; desde-já a obrada reacção, a fim de desviar o paiz do caminho tortuoso que vae seguindo. Por nossa parte; pelo que toca á provincia da Parahyba, é o que justifica nossa presença na imprensa do paiz. (JOFFILY, 01/09/1888, p.1)
Como referido no capítulo anterior o cenário campinense possuía, até então, grupos políticos bem definidos, autodenominados conservadores e liberais, e Joffily e Retumba pertenciam a este último. O que acima referi-me agora melhor definirei: o primeiro jornal de Campina Grande foi um órgão político portador de uma ideologia liberal. Entretanto o jornal inexiste sem a subjetividade daquele que exprime seu eu enquanto sujeito político e social em suas páginas. A autoria é o que faz o jornal.
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Ele o vira pois teria ido pelo menos duas vezes ao Rio de Janeiro, capital federal, antes do ano de 1887 (JOFFILY, 1982).
Embora essa sentença pareça óbvia, a intenção dela é categorizar o processo final, a folha impressa em si como retrato do que impôs seu pensamento para ser impresso. Isso implicou no caso da Gazeta do Sertão um acontecimento determinante para demonstrar que a identidade do periódico ia além do campo subjetivo.
Tumultuada que foi a vida desse jornal, a Tipografia Central que veio sofrer as consequências da intrepidez de seu primogênito. Segue-se que o dia 6 de maio do ano de 1891 não foi uma quarta feira qualquer em Campina Grande. Saído o último número da Gazeta como que apressadamente, o próprio Irineu (que estava sozinho em sua empresa desde fins de 1889 com a retirada voluntária de Retumba) assina um artigo nominado como Manifesto, no qual se diz vítima de ameaças de empastelamento por parte do presidente da Província de então, Venâncio Neiva (JOFFILY, 06/05/1891, p.1). Acusou-o ainda de querer aniquilar a imprensa, informando aos leitores do artigo que o mesmo já havia emudecido a três folhas da capital e agora desferia seu golpe contra a imprensa interiorana.
Quer tenha ocorrido a ameaça, quer não tenha sido como relatou o autor da denúncia, o empastelamento de fato ocorreu no mesmo dia da tiragem desse número. Foi esse episódio, que marca as reviravoltas da vida pós-república no estado, que foi responsável pelo fim da publicação do primeiro jornal campinense, com a retirada quase que imediata do seu autor para a capital federal. Mas a Tipografia, embora tenha chegado a virar “um amontoado de ferro, chumbo e tinta” (JOFFILY, 1982, p.140), segundo consta foi responsável pelo impresso nomeado O Campinense e dirigido por José Martins da Cunha no ano de 1892 (SILVA FILHO, Idem), portanto no ano seguinte.
Embora o término do jornal supracitado tenha sido em torno de assuntos de cunho político, uma das características dos primeiros impressos da cidade será a efemeridade. Somente na última década do século XIX a cidade contou com cerca de cinco impressos diferenciados e nenhum deles teve fôlego suficiente para atravessar a passagem do século. Com a chegada do século XX tampouco essa realidade mudou. Dentre os inaugurados na primeira década apenas O Campina Grande (1909) foi longe e circulou até as proximidades da década de 1920. O primeiro jornal de longa circulação, no entanto, foi o Correio de Campina, que, fundado em 1911, “deixa de circular já às vésperas da Revolução de 30” (ARAÚJO, 1983).
3.3 – Passionais e fugidios...
...Assim posso definir os primeiros escritos periódicos da cidade. O mais provável, e assim penso o seja, que aquele que cria, diagrama, escreve com capricho um periódico não deseja para o objeto digno de seu esforço um fim próximo60. Se não me é possível a compreensão exata dos pormenores de
culminaram no aborto de tantas publicações na cidade, posso elencar razões que teriam sua parcela de responsabilidade para tal. Preciso, no entanto, lançar mão de um ponto de partida, de um questionamento acerca de quais fatores dentro do contexto urbano não permitiam melhor aproveitamento do veículo impresso nesse período, e a falta de um público alvo assíduo que fosse amplo o suficiente figura dentre os principais.
A questão é que não posso considerar o consumo da cultura impressa em Campina Grande entre a dicotomia dos que podiam ou não podiam ter um exemplar de jornal. Havia aqueles para quem tal aquisição não lhes exigia esforço ou análise da provisão de seus tesouros. Também havia aqueles que, mesmo precisando obrar uma certa economia mensal, ainda assim preferiam manter sua assinatura assídua. Outros tantos contentavam-se com números avulsos e, então, havia aqueles para quem a opção da posse de um jornal competia diretamente com a opção de trazer alimento e sustento à casa. Como definir entre essa variação quem consumiria a notícia a ser publicada? No entanto é necessário que a posse material seja efetivada por meio da assinatura ou compra para que a produção do material possa manter-se e ainda promover lucro aos diretores das folhas. E, como acima foi explanado, o público que podia assumir esse consumo era um pouco restrito. Essa situação concorria diretamente com o ideal do novo governo nacional estabelecido em 1889. Como observado por Martins e Luca (2006, pp. 46-47):
na jovem República, a erradicação do analfabetismo se colocava como prioridade no país que pretendia formar cidadãos. Não obstante, por volta de 1890, ainda 80% da população não sabia ler. (...) Ao lado do “saber ler” da República, colocou-se a necessidade de formar leitores-consumidores.
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Aqui deixo claro que não trato de publicações únicas como folhetos e jornais de fins comemorativos. Minha abordagem diz respeito a publicações de periodicidade definida como os jornais e revistas que demandavam assinaturas.
A situação de Campina Grande refletia, senão esse quadro nacional. As estatísticas da última década do século XIX descritas no Almanaque do Estado para o ano de 1899 mostram que somente existiam duas escolas rudimentares em funcionamento na cidade61 fato reforçado pelo memorialista Elpídio de Almeida
(1978) que descreve a persistência desse fato desde 1895.
A situação da Paraíba próximo a virada do século também trazia descrito em si o sintoma agudo de não leitores para o seu diagnóstico de ser ainda díspar do ideal de um estado republicano após dez anos da proclamação. Das 500 mil pessoas residentes no estado em 1899, 4000 estavam matriculadas, distribuindo-se esse número por 162 cadeiras como também informado pelo Almanaque (1899). Cerca de quatrocentas e noventa e seis mil pessoas estavam fora da escola, seja por já terem seus diplomas, por não disporem de idade escolar (o que na época configurava um conceito bastante relativo, sendo comum a alfabetização de pessoas além da infância), ou por falta de viabilidade ao ensino motivada por diversos fatores.
Voltando à Campina Grande, já no ano de 1920 é perceptível a persistência desse problema que ainda tentava-se sanar com medidas à conta gotas, não obstante o recenseamento do referido ano dar o seguinte quadro:
A cada mil habitantes de faixa etária entre 7 e 14 anos 51 sabiam ler e escrever e 949 eram analfabetos. A mesma discrepância se repetia em se tratando das pessoas acima de 15 anos: 198 era, dentre mil, a expressão de alfabetizados, enquanto os outros 802 não liam nem escreviam. (COSTA, 2018, p. 673)
Cinco anos depois o anuário da cidade ainda mostrava que pouca coisa havia sido mobilizada nesse sentido com resultado mais palpáveis.
Entre escolas publicas, estaduaes e municipaes e particulares, tem Campina Grande matriculadas apenas mil crianças, quando a sua população em idade escolar é approximadamente de 5.000. Isto é unicamente na cidade, que possue 15.000. E o que será do Municipio todo, que possue 70.000 habitantes, apenas com meia duzia de escolas rudimentares!!! (ANUÁRIO, 1925, p. 49)
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Tais eram uma escola masculina dirigida pelo professor Clementino Procópio e uma feminina dirigida pela professora Aucta Cândida de Farias Leite (ALMANAQUE, 1899). Ver mais em: COSTA, Hadassa Araújo. “Mandae, por Deus mandae vossos filhos à escola!”: periodismos e pedagogias do papel impresso na urbanidade campinense (1888-1923). In: Anais Digitais do XVIII Encontro Estadual de História. Associação Nacional de História (ANPUH) Seção Paraíba. 2018, pp. 669-678. Disponível em: <http://www.anpuhpb.org/anais_18eeh_anpuhpb/Anais_XVIII_EEH_ANPUH-PB.pdf>.
Aqui torna-se importante avaliar que, apesar das aulas públicas oferecidas na cidade, muitos não podiam frequentá-las, primeiro porque o número de matriculados era restrito, tendo em vista não prejudicar a atividade docente. Sobre isso Pinheiro (2002) afirma que na era das cadeiras isoladas o professor atendia aos alunos de forma individual, o acompanhamento do desenvolvimento, por consequência, era também individualizado. Em decorrência de tal fato as aulas não poderiam dispor de muitos alunos para que o professor pudesse demandar qualitativamente do exercício de seu magistério. É também justificadora dessa desigualdade de acesso ao ensino a situação financeira de muitas famílias, cujas atividades de subsistência incorporavam a rotina do trabalho infantil. Como Campina era uma cidade hegemonicamente comercial, como exposto no primeiro capítulo desta dissertação, a informalidade característica deste tipo de atividade contribuía para isso.
Tal motivo elenco como um dos principais tendo em vista pensar o porquê da efemeridade das primeiras publicações campinenses. O analfabetismo era a demonstração patente de uma cultura cuja leitura ainda configurava certo status de privilégio. Portanto, é daí que também advém a instabilidade na formação de um público consumidor, problema já previsto e ainda agravado pelos fatores acima expostos.
Além dos motivos que estão fora do controle das publicações ainda existem as dificuldades de teor mais prático enfrentadas pelos publicadores nos anos da Primeira República como a obtenção de matéria prima. O papel, o corpo responsável por ser suporte de todo o escrito, de todo o trabalho editorial é um deles como também avaliam Martins e Luca: “outra interferência de peso advinda das imensas dificuldades pra obtenção de papel, obstáculo crônico na imprensa brasileira; razão pela qual o surto jornalístico pouco se valeu da produção interna do produto.” (2006, p. 43). Tal fato foi a mim evidenciado quando lendo ao jornal Correio de Campina deparei-me com a seguinte situação:
Aos nossos assignantes
Tendo se exgotado o nosso deposito de papel, somos forçados a suspender temporariamente a circulação desta folha, até que nos chegue o papel que encommendamos aos fabricantes em Noruega, por intermedio do Senr. M. P. Lauritzen, nosso correspondente na Capital do Estado. (AOS NOSSOS, 25/04/1915, s/p).
A viagem do papel norueguês seria longa até Campina Grande e, não