1.5 Big data, monitoramento por satélite e redes sociais
1.5.3 Inteligência artificial, perfis genéticos e algoritmos
O ser humano carrega consigo o desejo de conhecimento, e tal inquietude faz parte de sua natureza; esse fenômeno não é apenas relativo à autossatisfação humana, mas sim o anseio de constituição do homem como pessoa. Agamben (2010, p. 46) nos ensina que o termo “persona” significa máscara, e que é através dela que o indivíduo desempenha seu papel na sociedade, juntamente com sua linhagem genética. Nessa lógica temos que a persona se transforma em personalidade, que irá por fim ditar o espaço de desenvolvimento do agente na vida em sociedade.
A persona pode eventualmente significar a capacidade jurídica ou até mesmo a dignidade política do homem, e esse anseio por reconhecimento é por fim, um anseio pela máscara, que através da personalidade atrelada a si, constrói o indivíduo (AGAMBEN, 2010, p. 46). Imersos nessa esfera, outros indivíduos são necessários a partir da lógica de que eles são capazes de reconhecer outros, e sua identidade pessoal.
Na segunda metade do século XIX técnicas utilizadas pela polícia se atrelavam de forma decisiva na transformação do conceito de identidade humana, e a partir desse ponto, a
identidade já não era mais atrelada essencialmente ao reconhecimento e prestigio social do homem, mas se tratava de uma resposta a necessidade de garantir outra forma de repressão a reincidência criminal pelos oficiais da polícia (AGAMBEN, 2010, p. 47-48).
Nesse cenário desenvolvem-se os “defensores da sociedade”, que muitas vezes operam contra a aparência humana e acabam por constituir uma ofensiva persistência. A necessidade de ser capaz de identificar determinada pessoa reclusa por um crime nesse ponto foi condição necessária para o funcionamento do sistema judiciário das penas contemporâneo (AGAMBEN, 2010, p. 49).
A identidade para Agamben (2010, p. 50) passou de representar a função social da “persona” para o reconhecimento biológico do ser humano, pertencente a um banco de dados; a máscara humana é removida em troca de formas de reconhecimento identificáveis advindos das tecnologias, penetrando assim no cerne íntimo do homem. Técnicas antropométricas desenvolvidas para o manejo de criminosos historicamente evoluíram para o recolhimento de digitais, e assim, as técnicas estipuladas no contexto do criminoso e estrangeiros com a chegada do século XX se disseminaram na sociedade (AGAMBEN, 2010, p. 50). Assim, técnicas aplicáveis a reincidentes criminais tendem a se expandir a todos os cidadãos.
Com o desenvolvimento de tecnologias biométricas que são capazes de obter as digitais do indivíduo ou até mesmo escanear opticamente a retina ou a íris humana ultrapassam o alcance das delegacias e demais métodos policiais, se disseminando no cotidiano dos homens. O ingresso em estabelecimentos, industrias etc. estão condicionados sob o desenvolvimento frenético de tais tecnologias, e assim cabe ao homem fazer parte desse meio (AGAMBEN, 2010, p. 51).
Países Europeus por exemplo, estão desenvolvendo tecnologias pautadas no reconhecimento de digitais e de traços faciais humanos para a realização de transações bancárias por parte do indivíduo, enquanto que, países ocidentais, especialmente, se preparam para estabilizar bancos de dados de perfis genéticos de seus cidadãos em nome da saúde pública e como forma de segurança social ao reprimir a criminalidade (AGAMBEN, 2010, p. 51).
Em razão da expansão das taxas de encarceramento derivadas da política repressivista americana surgiram as penas ditas “intermediarias”, como a prisão domiciliar, os centros disciplinares, a vigilância eletrônica ou até mesmo telefônica (com o auxílio de “grampos”); e com isso houve uma proliferação deste sistema carcerário para além das grades, uma vigilância penal que perseguia o indivíduo atribuindo ao sistema uma autoridade superior a que tinha até então (WACQUANT, 2004, p. 54).
A proliferação de bancos de dados criminais e a expansão dos meios de controle a distância permitiram dar um impulso da noção de “luta contra a criminalidade” para o tema que embasou campanhas eleitorais posteriormente (WACQUANT, 2004, p. 54). A implantação de bancos de dados informatizados logo se deu nas mais diversas esferas, e a conexão entre a “captura” e a “observação” para Wacquant (2004, p. 54) no sistema penal possibilitou o que hoje conhecemos como fichas criminais, conforme o explica o excerto abaixo:
[...] existem hoje perto de 55 milhões de “fichas criminais” (contra 35 milhões há uma década), referentes a cerca de 30 milhões de indivíduos, ou seja, quase um terço da população adulta masculina do país! Têm acesso a esses bancos de dados não apenas as administrações públicas, como o FBI ou o INS (encarregado da fiscalização dos estrangeiros) e os serviços sociais, mas também, em certos casos, as pessoas e os organismos privados. Esses “rap sheets” são corriqueiramente utilizados, por exemplo, pelos empregadores para descartar os aspirantes a emprego com antecedentes. E não importa que os dados que aí figuram sejam frequentemente incorretos, prescritos ou anódinos, até mesmo ilegais. Sua circulação coloca não apenas os criminosos e os simples suspeitos de delito na mira do aparelho policial e penal, mas também suas famílias, seus amigos, seus vizinhos e seus bairros.
Com os bancos de dados, Wacquant (2004, p. 54) narra uma situação onde diversos estados, que eram detentores de tais dados passaram a disponibilizar tais informações em sites da internet, permitindo assim que qualquer indivíduo tivesse acesso sem a menor barreira eletrônica quanto a informações judiciais de um condenado. Em outubro do ano de 1998, o FBI (federal bureau of investigation) colocou em funcionamento nestes bancos de dados o perfil genético de centenas de milhares de condenados, que com o encarceramento inseriam ao sistema um conjunto de amostras de sangue e saliva à administração das penitenciárias, e tal situação narrada na concepção do autor, é o que podemos chamar de fichamento genético (WACQUANT, 2004, p. 55).
Para Fornasier e Wermuth (2015, p. 9), as informações genéticas humanas combinadas aos crescentes avanços científicos instituem uma situação onde o homem se torna “vulnerável” e “transparente” em meio à exposição informacional que os bancos de dados são capazes de coletar.
A partir destas noções é possível entendermos que os dados genéticos podem ser considerados “dados sensíveis” e derivados de questões “extraordinariamente delicadas” (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 10) e podem incidir diariamente na rotina dos indivíduos apresentando-se assim como ferramentas para arbitrariedades, que podem nos levar a práticas discriminatórias.
O Direito Penal atualmente vive uma expansão quanto sua aplicação, afinal presenciamos diariamente a flexibilização das garantias criminais com o desrespeito à princípios constitucionais no que tange a antecipação da intervenção punitiva de nosso Estado (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 11). Para Fornasier e Wermuth (2015) busca-se na contemporaneidade a análise de provas por intermédio de tecnologias avançadas, estas que, aplicadas ao âmbito da criminologia buscam identificar, por exemplo, autores de fatos delitivos por meio da criação de bancos de dados genéticos em países europeus e nos EUA.
No Brasil, podemos vislumbrar o uso de dados deste gênero por meio da lei nº 12.654/2012 (Lei de Execução Penal, para prever a coleta de perfil genético como forma de identificação criminal), que para os autores acima citados está em fase experimental, afinal a criação de bancos de dados de perfis genéticos pode ser vista sob uma ótica onde vislumbra-se a criminologia atuarial, que buscava punir, intimidar ou reabilitar o indivíduo (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 13).
Entretanto, é necessário destacar que é passível de entendermos uma outra ótica da implantação destes perfis de dados genéticos no âmbito da persecução penal, através do paradoxo estadunidense da superlotação, já que Fornasier e Wermuth (2015, p. 14) entendem que há por trás disso uma lógica econômica que incide na incapacitação dos criminosos habituais de alto risco, com a atenção voltada em evitar que os presídios venham a ser ocupados por delinquentes eventuais, traçando perfis seguros.
Fornasier e Wermuth (2015, p. 14) nos ensinam que a criminologia atuarial busca por si só características recorrentes de um comportamento humano que seria tido como criminoso, sob forma de preveni-lo; evidencia-se, entretanto, nestas categorizações uma racionalização do homem em meio ao Estado.
Neste sentido, o sistema penal brasileiro alçado pelo Estado sempre esteve a favor dos interesses das hegemonias conservadoras, sendo a imposição da ordem necessária para o progresso e tendo o Direito penal sido um importante instrumento para gerir e disciplinar as classes populares (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 15).
É interessante ressaltarmos que, enquanto os discursos acerca da criminologia na Europa ocorreram como formas de crítica à ordem Estatal da repressão, no Brasil o cenário se inverteu, pois de acordo com Fornasier e Wermuth (2015, p. 16-17) esse discurso se pautou na tentativa de legitimar a afirmação da burguesia. A tipificação da vadiagem, como exemplifica os autores, é um ótimo exemplo para encararmos como mesmo após a abolição da escravatura, ainda se remanesceu um estigma a comunidade negra, que continuava sujeita à permanecer como classe servil.
Nesse sentido, se o sistema punitivo brasileiro já foi pensado/estruturado a partir de um objetivo bem definido, qual seja, a segregação/eliminação dos riscos representados pela existência de classes perigosas (pobres), dita seletividade foi incrementada com as reformas neoliberais que se verificam na sociedade brasileira nas ultimas décadas, e, no campo penal, pelas recentes novações que se busca consolidar, a exemplo do caso dos bancos de perfis genéticos (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 18).
Logo no Brasil atualmente, para Fornasier e Wermuth (2015, p. 19) há um modelo de ordenamento social onde a delinquência das classes subalternizadas é atribuído o papel de criação de medo e insegurança, logo cria-se um ambiente propício para o controle e eliminação dos setores da população em desafeto com os interesses hegemônicos.
Nessa lógica podemos questionar: qual a relação podemos estabelecer, portanto, entre as digitais e a biometria humana e seu código genético? O que fica claro, desde já, é que a nova identidade que emerge na contemporaneidade é a identidade sem pessoa. A redução do homem à vida nua é atualmente a sua base de identidade no que tange seu reconhecimento como cidadão; perde-se o nome ou nacionalidade para tornar-se logo, um número pertencente
a um banco de dados e reduzido por fim ao nível de criminoso em potencial. A identidade sem pessoa nos guia então à ilusão de que não há, portanto, uma unidade social, mas sim, uma multiplicação infinita de máscaras (AGAMBEN, 2010, p. 52-53).
Podemos vislumbrar que por fim, o etiquetamento do indivíduo está associado classicamente a posição social por ele ocupada (FORNASIER; WERMUTH, 2015, p. 23) e assim, dada a necessidade quantitativa do sistema penal em conter certos indivíduos, e em meio a uma sociedade que é fruto da miscigenação, Fornasier e Wermuth (2015, p. 21) nos questionam: quantos não serão inseridos em tais bancos genéticos?
2 A EXPECTATIVA DE ESTAR SENDO OBSERVADO, A CONSTRUÇÃO SOCIAL