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1.4 Super panoptismo e sinoptismo

1.4.2 Sinoptismo de Thomas Mathiesen

Mathiesen (1997, p. 216) ao ilustrar o sistema de regras que regulam a vida do homem pensado por Foucault, que controlam cada detalhe do aspecto comportamental humano se questiona: o por quê dele ilustrar contrastes? Os contrastes citados se referem a diferentes perspectivas de lidar com o cenário criado pela figura do “criminoso” ao longo das décadas; agora, vislumbrava-se a punição observacional para além do corpo humano e da barbárie que costumava instaurar-se em meio à sociedade.

A primeira conclusão admitida por Mathiesen (1997, p. 216-217) é de que a pretensão de Foucault é de fato ele querer trabalhar a temática da mudança na natureza de punir, do físico às prisões; em seguida entende a transição entre punir o corpo e moldar a alma. Uma

terceira hipótese é admitida, a de que Foucault por fim, tinha como objetivo trabalhar a perspectiva da mudança na ordem social e que, certamente esse era o seu ponto essencial.

Para o autor, o apelo às prisões na modernidade pode ser observado de certa forma como uma “técnica de poder” e transforma o crime em objeto da intervenção penal; com as transformações propostas a partir do panóptico e as sucessivas e divergentes visões de se encarar questões acerca da vigilância é que se estabeleceu por consequência uma nova construção social, pelo menos de forma introspectiva.

Para Mathiesen (1997, p. 217) o panóptico apresentado por Foucault representa um movimento fundamental ou a transformação de uma situação onde muitos veem os poucos para o cenário onde os poucos é que veem a grande maioria. É interessante ressaltarmos como o panóptico é analisado pelo autor em relação aos efeitos que produz nos observados, afinal suas constatações nos guiam a uma noção de que pautados no princípio da vigilância, estamos produzindo de maneira subjetiva formas de autocontrole, que por consequência da informação e da comunicação disciplinam os demais seres sociais a se enquadrarem no que ele chamou de “capitalismo da sociedade democratizada” (MATHIESEN, 1997, p. 218).

A perspectiva do Sinoptismo (ou Synoptism) surge na linguagem de autor ao abordar o que entendeu ser as próprias ramificações do panóptico de Foucault; de certa forma o que se coloca em debate a partir destas questões é o ênfase que a sobrevivência tem no processo teorizado, um vez que há a necessidade de permanência do indivíduo em meio à observação constante. Mathiesen (1997, p. 219) ao observar o desenvolvimento moderno na Noruega, conta que foi capaz de perceber o princípio do panóptico, onde os poucos veem os muitos, e que de certa forma, a polícia europeia ao se “computadorizar” adquiriu um sistema que opera de forma semelhante à temática pensada em princípio para operar somente nas casas de correção e penitenciárias.

Mathiesen (1997, p. 220) nos ensina que o desenvolvimento contemporâneo é um extensivo sistema que possibilita a vigilância, e que tal noção se instaurou a partir da comunicação em massa e da mídia especializada, decorrentes do período moderno. São questões implícitas e explicitas que mudaram os traços sociais enquanto que a vigilância se expande. O sistema da mídia pode corresponder em paralelo ao panoptismo em sua estrutura, uma vez que opera de forma onde muitos veem os poucos, agora sob a lógica da camada

majoritária ver os VIP’s, os repórteres, as estrelas e quase uma nova classe de atmosfera projetada (MATHIESEN, 1997, p. 219).

Para Mathiesen (1997, p. 219) não apenas o panoptismo como o sinóptico caracterizam a transição moderna da nossa sociedade atual, sendo o panoptismo composto pelo “sin” derivado da palavra grega “syn” que significa “juntos/unidos” ou “ao mesmo tempo” e é silaba visual, ao unir-se com o termo “óptico” que representa a vigilância, em sentido oposto ao clássico, pois agora, muitos observam os poucos.

É necessário salientarmos que o panóptico e o sinóptico de Mathiesen (1997, p. 218) possuem paralelos, que este último chamou de “paralelos no desenvolvimento” e que tais estruturas basilares que sustentam ambas percepções precisamente juntas controlam o funcionamento da sociedade moderna.

Ao falar de paralelos o autor demonstra que com a aceleração de ambos ao se vislumbrarem no período moderno, afinal o crescimento do jornal, por exemplo, pressupõe uma ciência de caráter compreensivo e desenvolvimento técnico que facilitou historicamente a distribuição de periódicos e a troca de notícias que por consequência ampliou a comunicação entre os cidadãos instaurando assim mudanças políticas (MATHIESEN, 1997, p. 220). Essas transformações sociais podem ser atreladas, sob a ótica do autor, ao surgimento de uma larga classe média abarcada pela noção de funcionamento dos grandes mercados.

A inovação social traz consigo novas condições sociais e com a comunicação em massa e o consequente sucesso do cinema (que passou do preto e branco até a entrega de cores e som) impulsionou a mobilidade das famílias e problematização de temáticas e abordagens ao lotar teatros e cinemas, lógica essa que contraria para Mathiesen (1997, p. 220) a tese de Foucault, que afirma que na modernidade nos distanciamos de uma situação onde muitos veem os poucos como prevê o sinóptico.

O pós-segunda guerra trouxe consigo inúmeros avanços, entre eles, os alçados pela televisão, afinal o sinóptico básico caracterizado pela mídia até então, foi fundamentalmente aperfeiçoado pela televisão que desenvolveu centenas de milhões de telespectadores que poderiam ver os poucos nos palcos (MATHIESEN, 1997, p. 221). Primeiramente esse

fenômeno se deu através da captura de câmeras, que se transformou na possibilidade da observação presencial através da realização de grandes eventos.

A partir dos anos 80 tivemos grandes avanços com as tecnologias de vídeo bem como as chamadas “tecnologias digitais”, que criaram novos caminhos de comunicação e formas para tal e essa noção nos guia ao que Mathiesen (1997, p. 221) chama da privatização destes canais com consequente descentralização deles em polos que desenvolveram assim muitos sinópticos; porém, há de se ponderar que igualmente a esses sinópticos se demonstraram muitos panópticos e sistemas de vigilância.

Para o autor neste ponto a sociedade estava se desenvolvendo de uma situação onde muitos veem os poucos para uma concretude onde poucos veem muitos (MATHIESEN, 1997, p. 222). Fica claro para Mathiesen (1997) que a visão histórica do panóptico de Foucault bem como sua estrutura pode estar incorreta, uma vez que se trata de um resgate dos anos 1700 e 1800 onde a sociedade se portava de outra forma.

Historicamente a abordagem da vigilância se colocava como medida de sucesso para controlar medidas, mas também há de se salientar que ocorreram momentos em que falhou ao atingir seu objetivo, sendo essa uma caraterística dos sistemas de dados moderno. Para Mathiesen (1997, p. 223), o sinóptico é igualmente antigo, mas com ênfase na máxima difusão de impressões visuais, de som etc., enquanto que Foucault enfatiza sua estrutura na ausência da mídia. Entretanto, o panóptico e o sinóptico se desenvolveram através de uma interação íntima, até mesmo através de uma fusão uma com a outra afinal, nas mesmas instituições que se pautaram no panóptico, havia a presença do sinóptico.

Mathiesen (1997, p. 223) entende que o panóptico era inquisitorial, mas dele provia-se a manifestação do sinóptico por consequência, traçando assim uma interação ou fusão entre ambos.

O Panóptico e o Sinóptico podem ser vistos nas antigas capelas das prisões dos anos 1800. Havia o panóptico, pois o ministro poderia ver todos os prisioneiros sentados e isolados em seus estandes, mas ao mesmo tempo havia o sinóptico nestes prisioneiros, que de seus estandes poderiam ver uma pessoa, o ministro no seu posto (MATHIESEN, 1997, p. 223).

Nos tempos modernos essa interação se demonstrou de forma diversa já que agora em segundo momento ambos se desenvolveram como base de métodos da articulação das tecnologias, que “controlam os consumidores” (MATHIESEN, 1997, p. 224).

Atualmente configurou-se uma situação onde coletam informações necessárias e as combinam com outras peças informacionais nas páginas da web, que é acreditada como algo feito para todos. Entretanto, Mathiesen (1997, p. 224) observa que inicialmente os usuários destinatários destas informações e destas combinações de dados eram seletos, a começar por um percentual de 75% de homens geradores de um perfil que em um segundo momento era vulnerável a um controle econômico e político por meio da internet.

Para Mathiesen uma importante questão a ser estudada atualmente é se a mídia realmente representa poder. Foucault nos demonstra que a soberania extraída da vigilância é uma manifestação de poder, mas pensar nessa soberania a partir do gradual exercício de vigilância para Mathiesen (1997, p. 225-226), se trata de um poder que se dissipa gradualmente. Se isso é verdade, e todos que conhecemos na mídia são apenas figuras ornamentais sem poder, a omissão de Foucault acerca do sinoptismo pode não ser tão séria.

O que é possível de ficar claro é que para Mathiesen (1997, p. 226) o poder se encontra na delimitação de grupos dentro da representação da nossa mídia em massa, logo o que foi pensado por Foucault passa a ser uma microforma de poder, logo, um “micro poder” que é necessário igualmente.

O que nos é pertinente ressaltar ainda dos apontamentos de Mathiesen (1997, p. 229) é que vigilância é mais uma forma de controle, ou seja, implica na regulação do comportamento ou atitude dos indivíduos; e assim, a disciplina pensada por Foucault é novamente mais um sinônimo de tais termos.

Logo o aspecto principal do panoptismo para Mathiesen (1997, p. 230) consiste no crescimento da modernidade velada de forma secreta na indústria da vigilância, e o que deve nos preocupar são os controles ou disciplinas impostas, ou seja, nossos comportamentos; e nesse sentido o sistema de vigilância moderna é muito distinto das antigas prisões panópticas.

Para Mathiesen (1997, p. 229-230) mesmo que Foucault tenha encerrado questões acerca da punição física com seus discursos ele não “cessou o corpo dócil” do homem em ser um objeto de atenção, o colocando em uma posição onde esse mesmo corpo se tornou a máquina de poder a qual o princípio da vigilância explora. O sinóptico por sua vez, se utiliza de outra máquina, a mídia em massa e a atenção que gera controlando não somente a disciplina humana, como sua consciência (MATHIESEN, 1997, p. 230-231).

Por fim, há de se concluir que o panóptico moderno mantem a vigilância da qual o sinóptico se fortifica e isso pode implicar no fato de que o panóptico e o sinóptico se alimentam um do outro (MATHIESEN, 1997, p. 231).

Notícias dessas partes do panóptico – sobre prisioneiros, roubos, assassinatos – são as melhores peças informativas que o sinóptico – televisão e os tabloides dos jornais – podem encontrar. Dentro do sinóptico, esse material é purgado, transformado em puramente criminal – e o que já foi originalmente um pequeno segmento da experiencia humana, cria estereótipos e se traduz em parte relevante, mas oculta do processo penal (MATHIESEN, 1997, p. 231).

Logo, podemos entender que o sinóptico possibilita a criação de um padrão comportamental na mídia que vai ser comunicado como algo a ser seguido. Na sequencia estudaremos como peças informativas atuam no sinóptico e em como esse material pode ser refletido na esfera penal.