2. A COMPLEXIDADE NO CONTEXTO INFORMACIONAL
2.3 Inteligência conectiva
38 gerada por sua ordenação, como nas complexidades residuais desse processo, refletidas em desordem informacional.
Focando inicialmente em observar essa inteligência complexa, marcada por incertezas, instabilidades e grande volume informacional, nota-se que, por ser gerada via intensa interatividade, possui características próprias que demandam uma análise específica.
39 Uma interessante perspectiva para observar como essa inteligência conectiva se constitui, está em, ao invés de dirigir o olhar aos indivíduos, como proposto pelo termo
"coletivo", observar o movimento interativo autorreferente da web, como sugerido por Kerckhove com a expressão inteligência conectiva. (DE KERCKHOVE, 1997).
As redes apoiam a extensão do que conhecemos como mente em associações novas e conectivas (não coletivas!). Eles estão fornecendo o ambiente operacional para a convergência de todos os dados. Uma mente que ainda podemos chamar de nossa está se derramando nas redes à medida que as envolvemos de forma mais interativa, mais íntima e sensorial do que nunca (DE KERCKHOVE, 1997, p. 25).
Com essa visão mais panorâmica do sistema que privilegia as estruturas e fluxos da rede, compreende-se melhor que, para a inteligência conectiva fluir, necessita-se de um design facilitador. No contexto da internet, essa arquitetura fundamenta-se na interatividade.
Um aspecto importante que se relaciona com a inteligência conectiva, mas também com a vigilância e com a desinformação, é algo viabilizado pelos computadores e que Kerckhove denomina como a numerização dos conteúdos (DE KERCKHOVE, 1997).
Sobre a relação dessa numerização com a vigilância, embora Kerckhove não faça essa associação em sua obra, numerar conteúdos é também uma forma de rastreá-los e identificá-los, tem-se, na própria premissa da internet, um aspecto de vigilância presente na base de seu design.
Sobre a relação dessa numerização com a inteligência conectiva e a desinformação, o ponto está na convergência propiciada por essa numerização dos conteúdos: “Cem anos depois, assiste-se com os computadores a uma numerização dos conteúdos que os tende a homogeneizar de uma forma paradoxal: os elementos que ‘entram’ ficam todos reduzidos ao mesmo denominador comum, o digital, mas este permite a jusante a particularização infinita das combinações entre esses elementos" (COELHO, 2001).
Se, na base da inteligência conectiva está uma evolução das possibilidades interativas reais, essa "homogeneização" resultante da numeração dos conteúdos é o caminho para essa evolução acontecer. A partir desse ponto, pode-se referir à homogeneização como convergência, uma convergência bastante abrangente e viabilizadora de novas possibilidades de inteligência. Na leitura de Coelho sobre De Kerckhove, consta que:
A interatividade real só está disponível por meio da numerização. Trata-se de uma etapa fundamental, que constitui uma redução de todos os fluxos a um denominador comum, que é uma espécie de equivalente geral, tal como o dinheiro: esse denominador comum são as unidades binárias (a relação 0/1). Ele permite a convergência das diversas indústrias: o telefone, a rádio, os computadores e a edição.
Esta convergência realiza-se em três patamares: primeiro, temos a convergência numérica, ou convergência dos conteúdos; depois, temos a convergência dos suportes, reunindo os diferentes "meios" sob o mesmo regime operacional; por fim, a convergência dos utilizadores, que é um dos aspectos da famosa globalização. É esta
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arquitectura [sic] que permite a planetarização do saber e das consciências (COELHO, 2001).
Se, por um lado, essa convergência é chave para uma inteligência conectiva, é também por ela que a desinformação trafega, uma vez que as narrativas ganham novas camadas em um contexto transmídias, onde o real e o falso podem se misturar, a cada transição, entre conteúdos ou entre mídias. A possibilidade de acrescentar camadas a um conteúdo gerando novos conteúdos é um recurso que serve tanto à inteligência conectiva como à desinformação. Nesse ponto, a escala global que Kerckhove refere com o termo planetarização, consequente dessa arquitetura, não se restringe a planetarização do saber e das consciências, mas também de uma escalada da desinformação.
Para compreender a interligação da numerização à convergência e à desinformação, vale retomar a análise de narrativa transmidiática sobre o caso da suposta associação entre as vacinas de Covid-19 à redução na performance dos sistemas imunológicos.
Apesar da questão mais abrangente, relacionando vacinas a efeitos inesperados, ser um discurso existente desde a década de 1980, a relação entre Covid-19 e HIV é uma ocorrência mais recente. Seguindo, especificamente, essa trilha da história, temos uma narrativa que se inicia em um conteúdo disponível no site Before It’s News, associando-se a um relatório do serviço de saúde britânico e, depois, migrando para as redes sociais (Facebook e Youtube) na forma de um conteúdo enunciado por meio de uma live do presidente brasileiro. Posteriormente, torna-se um conteúdo de programa de rádio, também disponibilizado na internet, algo no formato de insert, citado em meio a uma longa entrevista à rádio. Todos esses conteúdos convergem para uma mesma narrativa, possuindo a chamada numerização citada por De Kerckhove, criando a possibilidade de interação entre esses conteúdos e seus respectivos autorreferenciamentos no ambiente digital. O caso pode ser adotado como um exemplo de convergência de conteúdos e dos suportes, sustentando uma narrativa base que recebe camadas de sentidos a cada novo conteúdo “numerizado” que se gera.
Há, também, outro aspecto para além do design tecnológico e sua arquitetura de convergência: o afetamento cultural. A alteração das narrativas desdobra produtos culturais de forma autônoma, dada a fusão entre produtores e consumidores de conteúdos em um mesmo indivíduo. Essas hibridizações, também contemplando integração entre mídias, são próprias de uma cultura de convergências, como nomeia Jenkins, onde conteúdos são constantemente estendidos e transformados, nem sempre em linha com a lógica original idealizada:
E fãs de um popular seriado de televisão podem capturar amostras de diálogos no vídeo, resumir episódios, discutir sobre roteiros, criar fanfiction (ficção de fã), gravar
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suas próprias trilhas sonoras, fazer seus próprios filmes – e distribuir tudo isso ao mundo inteiro pela Internet. (JENKINS, 2009, p.42).
A possibilidade irrestrita de geração de novos conteúdos a partir, simplesmente, da inserção de camadas sobre uma narrativa original, é uma facilitação própria do design da internet, tendo, como efeito, o aumento do volume informacional na rede e, consequentemente, sua desordem, resultando em complexidade.