2. A COMPLEXIDADE NO CONTEXTO INFORMACIONAL
5.1 O design da internet
inviável, sendo necessário um apontamento mais claro de como será a gestão de dados, uma vez que essa vigilância líquida é dada como certa.
Embora já se tenha um movimento avançado com relação à realidade aumentada, ainda existe uma barreira importante: a questão do device de acesso, os óculos. Os equipamentos têm evoluído bastante, mas colocar óculos para emular um ambiente sem sair de onde está ainda é um procedimento que enfrenta algumas resistências culturais a serem superadas para uma melhor experiência do usuário.
No entanto, com a pandemia, as experiências no contexto das escolas e a alteração radical no mundo do trabalho criaram uma predisposição a essa evolução na desterritorialização, embora ainda exista um caminho a percorrer para que tudo aterrize em um novo paradigma ou em uma nova internet.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao relacionar complexidade, vigilância e desordem informacional, refletindo sobre o impacto dessas relações na subjetivação do indivíduo moderno, a conclusão deste trabalho se apresenta inicialmente sob três aspectos: o papel determinante do design da internet no contexto complexo do digital, a ambiguidade do dirigismo narrativo, ora se apresentando como liberdade de escolha ao usuário, ora limitando suas percepções, e a demanda identitária como norma social, afetando a forma como o indivíduo e a sociedade produz memória e conhecimento.
Além de discorrer sobre os pontos acima, as considerações finais refletem sobre possíveis contrapontos aos problemas ressaltados na pesquisa, abordando a importância de um letramento desse indivíduo, bem como, de uma revisão sobre o modelo socioeconômico estabelecido com as progressões da internet.
5.1 O design da internet
Iniciando pela importância do design da internet para as relações traçadas nesse estudo, são destacadas as seguintes questões: 1) a convergência da web, e seu desenho descentralizado intensificando o volume de informação na rede, 2) a vigilância como dispositivo nativo do sistema e 3) o efeito da construção de experiências interativas muito focadas no atendimento dos anseios dos usuários.
Sobre a convergência viabilizada na internet, interessante observar como esse aspecto contribui na geração de complexidade informacional, uma vez que a convergência da rede é
123 chave para seu crescimento exponencial e rizomático. Como uma imensidão de imagens, textos, sons e vídeos, transitam na rede mediante uma mesma lógica digital, a construção de narrativas híbridas e transmidiáticas torna-se possível, aumentando ainda mais o volume de informação na rede.
Sob a premissa de que todos os conteúdos, bem como suas interações, são
“numerizados”, como mencionado em Kerckhove (1997), o sistema da web permite construções narrativas que eventualmente possam se iniciar em um programa de televisão, expandir-se para discussões nas redes sociais, estendendo-se a debates em podcasts ou programas de rádio. Sendo que todos esses movimentos podem ser intercambiados, gerando a cada novo passo, mais dados e narrativas, ou seja, mais informação.
Outro aspecto do design da rede, associado a esse aumento informacional e de complexidade, está na sua descentralização do polo informacional, marcada pela existência de múltiplos pontos de criação e distribuição de informação. Aqui, vale retomar também um movimento que ilustra bem essa descentralização que é o fenômeno prosumer, mencionado no primeiro capítulo, reunindo em cada indivíduo, os papéis de audiência, produtor e distribuidor de informação.
Nessa perspectiva, a convergência e a descentralização assumem, no design da web, o papel de vetores desse contexto caótico, no qual a desordem informacional apresenta-se como um efeito natural. Compreendendo desordem informacional por esse entendimento expandido para além das notícias, incorporando também as trocas de dados, os registros das interações digitais, bem como toda uma diversidade narrativa, na qual se misturam publicidade, opiniões, notícias, artigos científicos e também discursos de ódio, vazamentos, entre outros.
5.1.1 Vigilância nativa, a experiência do usuário e o design de retenção
Entre os demais pontos relacionados com a questão do design da internet está o apontamento da vigilância como um dispositivo original da web, algo evidenciado em Galloway (2004), sob o conceito de protocolo, compreendido por uma ferramenta que estabelece mecanismos de observação, registros e interferência no fluxo geral da rede. Como já mencionado no capítulo 2, o autor pondera que essa cobertura abrangente, característica de uma vigilância que se consuma por modulação e controle, “torna o protocolo perigoso”, dado mais impacto a essa interferência, pois ele “[...] atua para tornar concretos nossos desejos fundamentalmente contingentes e imateriais”.
124 Além disso, vale observar que a origem da internet transcende sua gênese militar, pois além do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, seu início também contou com a presença de “redes científicas, institucionais e pessoais” (CASTELLS, 1999), misturando múltiplas demandas de vigilância, sendo talvez esse fator que leve ao modelo dessa vigilância nativa ser distribuída, como citado em Fernanda Bruno (2014) ou, líquida para ficar nos termos de Bauman e Lyon (2014).
Essa vigilância nativa da internet se efetiva pela possibilidade permanente do rastreamento digital, a exemplo dos cookies, bem como, pela necessidade de uma observação sistemática para que a rede cumpra seus requisitos de entregar a informação de interesse a quem a procura, a exemplo dos algoritmos. Com essa arquitetura, onde a vigilância é um elemento de base, seu exercício se expande, tornando-se ainda mais normalizado e, por consequência, mais distribuído e líquido.
A questão de entregar a informação de interesse a quem a procura permite direcionar o debate a um outro aspecto do design: o atendimento dos anseios do usuário como prioridade para a concepção das experiências digitais. Esse pensamento geral, inspirado no conceito de customer centricity, pode ter um efeito colateral nocivo.
No campo da informação, criar mecanismos que proveem somente aquilo que supostamente é de interesse do usuário tem severas consequências sociais, a exemplo das chamadas bolhas de informação (FERRARI, 2021) ou da prática de uma publicidade pervasiva de desinformação dirigida, a exemplo do caso Cambridge Analytica também citado no capítulo 2.
Ainda dentro desse campo das experiências digitais, um outro ponto pode ser agregado aqui. Há, de uma forma geral, nas plataformas digitais uma espécie de design de retenção.
Trata-se de um desenho de experiência do usuário que age em função de segurá-lo naquele determinado espaço digital, como por exemplo um site ou uma rede social. Embora o modelo comunicacional da internet seja próprio ao hipertexto, sugerindo uma experiência que transite livremente de uma plataforma a outra sem obstáculos. De uma forma geral, o desenho de experiência do usuário das plataformas tem frequentemente a premissa de reter o usuário em um mesmo espaço.
No caso das redes sociais, sair de uma plataforma, como Instagram, ou até mesmo o Whatsapp, para se aprofundar em uma determinada notícia, acessando-a externamente, não é um movimento facilitado no design das experiências digitais. A proposta é mantê-lo sob a lógica daquele silo, onde rolar na tela tem mais valor do que o click para um ambiente externo, como se a rede fosse evoluindo por silos independentes. Ainda que o usuário insista e saia do