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Intenção e responsabilidade

1.1 Ética das virtudes

1.1.3 Intenção e responsabilidade

O terceiro elemento que pretendo tratar é a especificidade da ação em questão, visto que se trata de uma atividade específica do ser humano, envolvendo capacidades também específicas. Esta, por assim dizer, delimitação da atividade humana, é importante para especificar, ainda, o tipo de ação para a qual o juízo moral, entendido como deliberação e escolha, se direciona, a saber, uma ação intencional e responsável.

O critério de imputação para a responsabilidade do agente pode ser visto como o juízo moral realizado por ele, sem com isso afirmar que este seja um critério necessário de toda e qualquer imputação. Apenas assumo que o juízo moral é critério suficiente para observar o engajamento do indivíduo para com sua ação. Neste caso, a escolha deliberada tem um papel fundamental, pois é o comprometimento do indivíduo diante do que foi deliberado e será posto em prática, ou seja, a escolha deliberada expressa a intencionalidade do indivíduo, como também o torna responsável pela sua ação.

Neste sentido, o que marca a intencionalidade não é apenas a escolha por X, mas sim escolher X em preferência a Y. Este ponto é destacado por Mackie ao ressaltar as características de uma ação intencional. Para o autor, uma ação é intencional quando resulta de desejos e crenças do indivíduo ao dar preferência por algo no momento de escolha. Assim, a intencionalidade é garantida quando o agente tem a possibilidade de escolher entre alternativas que se apresentam, ou seja, quando o agente pode escolher X ou Y e dá preferência por X, podemos identificar uma escolha que implica na intenção do agente para com X. Neste caso, Mackie procura diferenciar uma ação intencional de uma ação voluntária, uma vez

que a voluntariedade é garantida quando o agente possui um conhecimento descritivo da situação na qual sua ação está inserida, sem que haja uma determinação causal para tal ato. Portanto, uma ação voluntária não implica no comprometimento da motivação individual, apenas na determinação causal e, neste caso, os desejos são vistos como causas, mas somente serão entendidos como elementos motivacionais quando acompanhada de deliberação ou reflexão. Ao passo que uma ação intencional implica tanto o conhecimento descritivo da situação, quanto o engajamento da motivação individual. Assim, uma ação tomada por impulso pode ser vista como voluntária, desde que se tenha a percepção daquilo ao qual o impulso tende, mas não como intencional, pois esta necessitaria de uma escolha entre alternativas. Com efeito, uma ação intencional estaria mais vinculada a uma descrição do que a voluntária (MACKIE, 1990, p.204-208).

Os temas da responsabilidade e da intencionalidade podem ser encontrados em Aristóteles, mas não há uma consideração sobre a responsabilidade ou sobre a intencionalidade de forma explícita. O que encontramos é uma discussão sobre a imputabilidade possível para as ações15. Neste sentido, não pretendo tratar das condições de imputabilidade de um modo geral. Pretendo limitar esta análise sobre a responsabilidade e a intenção procurando tratar como a escolha deliberada acarreta no assentimento do agente, e, mesmo não sendo a condição geral de imputabilidade, garante que o agente responda pela sua ação. Portanto, a escolha deliberada representa a intencionalidade do agente, fazendo com que seu juízo moral contenha estas mesmas características de intencionalidade.

Neste sentido, é possível destacar que, mesmo sendo a voluntariedade da ação o critério geral de imputabilidade, toda ação realizada por meio de uma escolha seria voluntária. Com efeito, toda ação com base em uma decisão do agente está sujeita a imputação. Deste modo, a escolha, realizada com base em uma deliberação, deve representar não apenas uma razão (justificação) para agir, mas também representar o envolvimento dos desejos do agente, sendo que ele pode tomar uma escolha sobre estes elementos ao ter deliberado previamente sobre aquilo que procura fazer.

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Sobre as interpretações das condições de imputabilidade em geral, que envolvem a ação voluntária, em que trata de destacar como o livro EN III é interpretado, ver (NATALI, 2004, p. 47-49). Para Natali, o que conta na imputação é a causa motora do agir. Neste sentido, o que importa observar é onde se situa a causa do movimento, e isso determina a voluntariedade da ação (p. 70).

Esta deliberação consiste em procurar aquilo que contribui para a realização de um fim, de tal modo que primeiro é necessária uma representação de um fim (ou objetivo), atribuindo qualidades ao mesmo, pois ele é representado como um bem ou como um mal. Nesta representação do fim já temos considerações racionais sobre os desejos envolvidos, visto que ele é estabelecido pelas virtudes.

No entender de Irwin, o desejo racional dever ser compreendido à luz da noção de eudaimonia, uma vez que ele é o resultado de algum tipo de deliberação sobre o que é o melhor a fazer, considerando o fim perseguido. Assim, um desejo é racional quando formado por uma deliberação sobre as regras da ação específica, considerando o plano do agente para sua eudaimonia. Com efeito, uma escolha deliberada seria formada por um desejo racional e uma deliberação, direcionada para uma ação particular que o agente acredita estar em seu poder. A consequência disso é que a escolha deliberada passa a demarcar um tipo especial de agente, isto é, a escolha deliberada se torna a marca característica de um agente responsável. Este tipo de agente não apenas seria capaz de agir sobre os desejos mais fortes, mas também pode afetar a força dos seus desejos por meio de uma deliberação adicional (IRWIN, 1980, p.128-131).

Neste caso, deve se conceder a possibilidade do agente estruturar seus fins por meio de deliberação. Portanto, não teríamos apenas deliberações sobre casos particulares, mas também deliberações sobre os fins subordinados, para que estes possam ser sistematicamente estruturados, tendo como orientação e motivação o bem final (eudaimonia), mas nada se afirma sobre uma possível deliberação sobre a

eudaimonia16. Sobre este ponto, Tomás de Aquino (Comentário à EN, Livro II, Lição 8, Questão 480) tem uma reflexão interessante, na qual um fim em uma determinada deliberação pode contar como um meio em outra deliberação, tendo em vista um fim superior, sendo que o único fim que não estaria sujeito à deliberação seria a

eudaimonia. Esta pode ser considerada como um modo ordenado dos fins, ou

mesmo um fim formal, o que permite a deliberação sobre tudo o que conta materialmente como fim (ZINGANO, 2008, p. 26).

O que pretendo ressaltar sobre a análise apresentada é o papel conferido à escolha deliberada na constituição de um agente responsável. Assim, quando o

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Isso pode ser encontrado em Irwin (1975, p. 576-578). Aqui o autor procura argumentar em relação a tese de que a decisão (escolha deliberada) correta depende do pensamento prático verdadeiro e do desejo correto. O autor destaca a sabedoria prática como uma virtude deliberativa, que diz respeito ao que contribui para uma vida boa para os homens em geral.

agente é capaz de uma escolha deliberada efetiva, seja considerando as condições internas, ou as condições externas, ele se torna responsável pela sua ação. Este é um ponto importante, na medida em que podemos compreender como um juízo moral está ligado a um agir responsável, ou seja, o juízo moral procura apontar as condições de realização de uma ação e, por consequência, de um fim, em que a escolha deliberada representa o assentimento racional do agente: “não se encontra em Aristóteles uma doutrina do assentimento porque sua doutrina da escolha deliberada é precisamente esta doutrina” (ZINGANO, 2007, p. 195).