Nós começamos esse capítulo evidenciado a separação artificial entre cognição e afeto, feita por diversos campos de estudo. Nossa tarefa ao longo das últimas páginas foi, precisamente, dirimir essa concepção e mostrar as conexões existentes entre esses domínios, tanto em nível de adaptação quanto de raciocínio e tomada de decisões. Isso nos levou a revisão de diversas propostas feitas por didáticos das ciências que buscaram inserir a vertente afetiva. Essas propostas, embora valiosas, parecem entender afetividade numa perspectiva apenas motivacional, como algo apartado do “eu cognitivo”, que aparece ocasionalmente para facilitar ou inibir a aprendizagem. Mesmo versões mais de vanguarda acabam por espelhar-se no modelo de dimensões, ao contrário de sobreposições entre os domínios afetivo e cognitivo. Outra constatação consiste na ausência de modelos que relacionem explicações e afetividade. Quando falamos isso nos referimos às respostas afetivas implicadas no explicar, diferentemente das respostas aos conteúdos particulares das explicações, ou motivações suscitadas por tais conteúdos.Na parte final, apresentamos
sentimentos. Podemos dizer que esse capítulo não teve a finalidade de nos trazer nenhuma conclusão definitiva, sua função é mais instrumental. O leitor irá perceber que muito sobre o domínio afetivo ainda será dito ao longo dessa tese.
A primeira e mais simplória relação que se estabelece entre afetos (emoções, atitudes e crenças) e aprendizagem é cíclica. De um lado, a experiência de aprendizagem provoca diferentes reações e influi na formação de crenças. Por outro, as crenças defendidas pelo sujeito têm uma conseqüência direta em seu comportamento em situações de aprendizagem e em sua capacidade de aprender. Ao aprender, o aluno recebe estímulos contínuos associados a problemas, atuações do professor, mensagens sociais, que geram certas reações emocionais e sentimentos, positivos ou negativos. Essa reação está condicionada por suas crenças. Se o indivíduo depara-se com situações similares repetidamente, produzindo o mesmo tipo de reações afetivas, então a ativação da reação emocional (satisfação, frustração, etc.) pode ser automatizada e se “cristalizar” em atitudes. Essas atitudes e emoções influem nas crenças e colaboram para sua formação (GÓMEZ- CHACÓN, 2003).
Essas interações, embora esclarecedoras, são insuficientes aos nossos propósitos. Nós precisamos estabelecer elementos que, além de definir os componentes do domínio afetivo, ajudem na construção dos argumentos que se seguirão. Assim, podemos destacar que:
(a) Emoções são respostas organizadas além da fronteira dos sistemas psicológicos, incluindo o fisiológico, o cognitivo, o motivacional, e o sistema experiencial. Surgem como resposta a um acontecimento, interno ou externo, e possuem uma carga de significado positiva ou negativa para o indivíduo.
(b) Emoções e sentimentos são participam do mecanismo que permite aos indivíduos antecipar ações fazer previsões e tomar decisões.
(c) Emoções e sentimentos são processos biológicos que alteram o estão corporal e cognitivo, contribuindo para o registro das experiências vividas e o modo como elas são lembradas e utilizadas (representações dispositivas).
(d) Um indivíduo está continuamente experimentando sentimentos (sentimentos de fundo).
(e) Crenças possuem conteúdo afetivo.
(f) Emoções podem influenciar a formação e o fortalecimento de crenças.
(g) Os tipos de valorizações relacionadas com o ato emocional sucedem o acontecimento de alguma percepção ou discrepância cognitiva na qual expectativas do sujeito são desrespeitadas. Tais expectativas são expressões das crenças do indivíduo.
O melhor achado desse capítulo, em nossa opinião, é a capacidade humana de acumular conhecimento afetivo e decidir a partir dessa bagagem, algo a ser explorado em profundidade em momento oportuno.No próximo capítulo, vamos explicar o conceito de explicação e, principalmente, o de entendimento, o resultado cognitivo esperado da explicação. Nosso desafio é ligar o universo da afetividade exposto nesse capítulo com o do explicar, construindo a noção de sentimento de entendimento.
CAPÍTULO
2
EXPLICANDO MODELOS, EXPLICAÇÕES,
ENTENDIMENTO E SENTIMENTO DE ENTENDIMENTO
2.1 - Introdução
Explicar fenômenos do mundo físico é um dos principais objetivos das Ciências Naturais. O homem sempre se preocupou em entender a enorme diversidade das ocorrências do mundo que o envolvia, as quais o deixavam muitas vezes perplexo e não raro amedrontado; prova disso é a multiplicidade de mitos e metáforas que imaginou para justificar a existência do mundo, de si próprio, a vida e a morte, o movimento dos astros, a sucessão regular do dia e da noite, as mudanças de estações, o relâmpago e o trovão (HEMPEL, 1970). O que eram os mitos senão fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criações do espírito que ofereciam ao homem arcaico “uma explicação do mundo e do seu próprio modo de existir no mundo” (ELIADE, 2000, p. 17). O mito explicava como, graças aos entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja a origem da vida, uma planta, o movimento dos astros ou um comportamento humano. No pensamento primitivo, o mito sempre se referia a realidades. O mito cosmogônico era “verdadeiro” porque a existência do mundo o provava; o mito da origem da morte era igualmente “verdadeiro” porque era provado pela mortalidade do homem. Independentemente do apelo para entes ou agentes sobrenaturais, é inegável que essas explicações eram satisfatórias
psicologicamente e “davam a quem as aceitava o sentimento de uma compreensão, porque lhe aplacava a perplexidade; neste sentido eram ‘respostas’ às perguntas formuladas” (HEMPEL, 1970, p.65).
Gradativamente, os elementos ocultos ou sobrenaturais foram substituídos por correlações racionais de experiências, um meio para explicar os fenômenos naturais em uma concepção de universo apoiada clara e logicamente em nossa experiência, porém apta a uma verificação objetiva. Acontecimentos naturais passaram a ser creditados a causas naturais. Padrões gerais passaram a ser procurados fora da esfera do mágico ou sobrenatural, e adequados ao modo como o mundo é construído. Assim, a ciência ofereceu um meio muito mais poderoso de explicar, entender e controlar a natureza. A Ciência, hoje, se constitui em uma “severa disciplina prática e mental, na qual as hipóteses que não se possam provar somente sobrevivem quando se mostram extremamente férteis” (RONAN, 1987, p.16). Mas, estes dois pontos de vista guardam semelhanças. Ao que parece o núcleo comum é à busca de entendimento. Se, de um lado, a Ciência nasceu para auxiliar o homem no controle do seu ambiente, de outro, atende a necessidade básica de oferecer entendimento sobre o mundo, função similar a do mito na antiguidade. Isso porque construir explicações é parte constitutiva do viver humano, a ciência apenas capitaliza essa potencialidade (GOPNIK, 1996). Caso contrário, o saber científico deteria monopólio, não haveria religião, por exemplo. Todavia, a busca do sentimento de compreensão, que fala HEMPEL, força motriz originalmente encontrada nas explicações primordiais sobre o mundo, perdeu vigor em favor da lógica universal e de controle da natureza. A ciência progrediu na exacerbação da racionalidade, e em particular, da retirada de variáveis psicológicas e afetivas. Nesse capítulo, iremos reclamar esse valor inicial das explicações científicas, de um lado, e demonstrar a necessidade de considerar-se critérios afetivos na avaliação das explicações escolares, de outro. Nós iremos, inicialmente, discutir a noção de modelos e como eles são utilizados na produção de explicações na Ciência e também como entidades mentais. Em seguida, analisamos o conceito de explicação na Ciência, no cotidiano e na Educação Científica. Isto nos ajudará a distinguir entendimento científico de entendimento na Educação Científica. Finalmente, propomos uma definição de sentimento de entendimento, associando características cognitivas e afetivas do explicar.