4.6 Na busca do sentimento de entendimento
QUESTIONÁRIO
Parte A 1) Quais motivos o levaram a fazer o curso de Física (relação com o conhecimento)? 2) Havia algum assunto (fenômeno, tecnologia) que o intrigava durante o Ensino Médio?
Parte B 3) “Lembro-me ainda hoje do meu primeiro dia de aula de ciências. Na escola pública que freqüentava, ciências era uma disciplina ministrada na quinta série. Eu tinha 11 anos recém-feitos e guardo na memória os sentimentos de entusiasmo e alegria quando a professora nos contava que a matéria era constituída de átomos e moléculas. Não me recordo bem dos detalhes do conteúdo ensinado. Se ela apresentara a diferença entre gases e líquidos, ou se discutira sobre a água, o ar ou outra substância qualquer. Seria pedir muito à memória 30 anos depois. Porém, os sentimentos continuam vivos até hoje” (Maurício Pietrocola).
Na sua história existe algo semelhante, uma explicação que fez sentido para você, isto é, deu certa satisfação (alegria) em conhecer? (cite mais de uma se houver).
As duas primeiras questões referem-se as motivações ligadas ao conhecimento de Física. A segunda, em particular, direciona-se a busca de explicação sobre o mundo natural e artefatos. A terceira mostra um contexto, a partir do qual busca-se evocar nos licenciados a lembrança de explicações significativas, e quais sentimentos eles obtiveram com elas.
5.2.1 - A amostra
Responderam o questionário completo, 18 alunos da terceira fase do Curso de Licenciatura em Física da Universidade do Estado de Santa Catarina e 10 alunos dos Institutos de Física e Química da Universidade de São Paulo16. Além disso, 45 alunos das turmas de Metodologia do Ensino de Física I e II da Universidade de São Paulo, dos semestres 2005/02 e 2006/01 responderam a parte A do questionário.
5.3 - Resultados
Como nosso interesse está em mapear a dimensão afetiva, partimos de um caminho menos ortodoxo. Ao contrário de mostrar primeiro os episódios nos quais são mencionados atributos afetivos, nós extraímos das narrativas as cargas afetivas e depois tentamos reconstruir os episódios as quais elas se referem. Vale ressaltar que não estamos preocupados com perfis individuais, queremos o comportamento geral da amostra. Assim, nos 73 questionários, nós contamos, considerando apenas uma citação para cada narrativa, 155 palavras afetivas (SHAVER et al., 1987). A figura 5.1 mostra as contagens individuais para as palavras. Como suspeitávamos percebe-se um pico nas palavras satisfação, gostar, interesse e curiosidade. Este ponto será explorado melhor nas próximas seções.
A fim de identificar os tipos de emoções mencionadas, nós codificamos as palavras em termos do que os psicólogos chamam de emoções básicas. Existem muitas listas. A
16 Os dados obtidos em São Paulo contaram com a colaboração da bolsista de iniciação científica Talita
lista de IZARD (1977), inclui interesse, alegria, surpresa, angústia, raiva, medo, vergonha, desgosto, desrespeito e culpa. EKMAN (1984) focalizam sua pesquisa em medo, raiva, surpresa, desgosto, tristeza e felicidade. A lista de EPSTEIN (1984) inclui, medo, raiva, tristeza, alegria, amor e afeição. SHAVER et al. (1987) sugerem a perspectiva prototípica para classificação das emoções. A abordagem prototípica baseia-se na comparação entre emoções citadas envolvidas em episódios reais e a comparação com o protótipo ou características prototípicas, Isto é, emoções são percebidas e compreendidas com referência a emoções prototípicas. Finalmente, sugere que a codificação inicial de um episódio emotivo ocorre provavelmente no nível básico da hierarquia emotiva. Por exemplo, no modelo, satisfação encontra-se em um nível inferior dentro da emoção alegria, da mesma maneira que entusiasmo, porém alguém pode estar satisfeito sem estar entusiasmado, entretanto nos dois casos a emoção alegria estará presente.
0 5 10 15 20 25 30 am or sim patia carin ho enca nto praz er gost ar inte rres se curio sida de afin idad e perd a dive rtim ento vont ade outr as palavras
Figura 5. 1 - Freqüência das palavras afetivas
SHAVER e seus colegas partiram de uma lista inicial de 213 palavras emotivas, as quais foram reduzidas posteriormente a 135, distribuídas em 6 grupos (níveis básicos): amor (3 subgrupos), alegria (8 subgrupos), surpresa, raiva (6 subgrupos), tristeza (6 subgrupos) e
medo (2 subgrupos). Nós distribuímos as palavras afetivas citadas nos episódios descritos pelos participantes do estudo, a partir das subcategorias de SHAVER et al. Por exemplo, a experiência emocional de satisfação, foi incorporada a categoria alegria (ver tabela 5.1).
Tabela 5. 1 - classificação das emoções segundo SHAVER et al. (1987).
Amor
Alegria Raiva Interesse Tristeza CuriosidadeAmor Satisfação Ódio Interesse Perda Curiosidade
Paixão Agradável Vontade
Atração Prazer Gostar Divertimento Simpatia Encanto Carinho Fascínio Afinidade
Ao final, obtivemos uma mescla das listas de IZARD (1977), EKMAN (1984) E EPSTEIN (1984). Para cobrir as classes de palavras que ocorreram freqüentemente, mas não estavam cobertas nestas classificações, nós adicionamos a categoria curiosidade (MASLOW, 1954; GÓMEZ-CHACON, 2001). A figura 5.2 apresenta a freqüência de ocorrência destas emoções nos episódios narrados pelos sujeitos pesquisados. Alegria foi a emoção mais freqüentemente mencionada, ocorrendo 52 vezes com 6 diferentes palavras referindo-se a tal estado emocional positivo. A segunda classe de emoção mais freqüentemente mencionada foi amor ocorrendo 49 vezes com 7 palavras diferentes. Interesse aparece como a terceira emoção mais freqüente, com 30 ocorrências, seguido de curiosidade com 16 ocorrências. Finalmente, as emoções tristeza e raiva, ocorreram, 2 e 1 vez, respectivamente.
Inúmeros trabalhos teóricos e empíricos mostram que emoções podem ser descritas em duas dimensões independentes (MANO & OLIVER, 1993). A primeira, o afeto positivo, reflete a extensão na qual uma pessoa sente-se prazerosamente engajada com o ambiente, ativa mentalmente, alerta e determinda; enquanto, a segunda, o afeto negativo, é um fator geral de angústia subjetiva e engajamento desprazeroso que envolve raiva, desprezo, desgosto, culpa, medo e nervosismo (WATSON et al., 1988). Então, nós codificamos, ainda, as emoções nas dimensões: positiva _ curiosidade, interesse, amor e alegria_ e negativa_ tristeza e raiva (WATSON & TELLEGEN, 1985; IZARD, 1977; SHAVER et al.., 1987; PETERSON, 1999). No total, a freqüência de emoções positivas foi de 147 ocorrências, contra 3 ocorrências de emoções negativas. Por tratar-se de uma
parcela praticamente irrelevante das emoções suscitadas, parece razoável descartarmos, daqui para frente, a análise de eventos ligados às emoções negativas.
Figura 5.2 - Freqüência das emoções
0 10 20 30 40 50 60 curios idade interes se amor alegri a tristez a
raiva outros
curiosidade interesse amor alegria tristeza raiva outros
Como se havia previsto, a motivação para realizar o curso de física contém um núcleo central voltado ao afeto positivo. Este núcleo central, entretanto, permite uma subdivisão que merece um esclarecimento mais profundo. Em primeiro lugar, interesse e curiosidade emergem dos dados como emoções de base epistemológica (BERLYNE, 1966; ELLSWORTH, 2003). Quando um estudante resolve seguir uma carreira científica algumas questões devem, no mínimo mentalmente, ser respondidas: Por quê física? Por quê o ensino de física e não a pesquisa básica? Quais as perspectivas? O que me interessa na física? As respostas a estas perguntas vinculam-se diretamente a noção de interesse. Para IZARD (1977), interesse é a emoção positiva mais freqüentemente experimentada, fornecendo grande parte da motivação para o aprendizado, o desenvolvimento de habilidades e competências e realizações criativas.Ele resulta de um aumento na estimulação neural, geralmente trazido por alguma mudança ou novidade, mas também determina como as pessoas selecionam e persistem em processar preferencialmente certas informações do ambiente (HIDI, 1990). Em um estado de interesse a pessoa mostra sinais de atenção e curiosidade. Segundo SILVIA (2005), interesse é uma emoção associada com curiosidade, exploração, busca de informação e aprendizagem. Porém, interesse e
curiosidade possuem características distintas, configurando-se como reações emocionais diferentes, embora estejam relacionadas. De acordo com KUBOVY (1999), estar curioso é ter prazer a partir da aprendizagem de algo que você não sabia previamente. WADSWORTH (1998), afirma que curiosidade é o “o desejo de conhecer coisas e atribuir sentido a elas” (p. 171). Humanos preferem ambientes mais dinâmicos quando comparados com meios menos complexos, ao mesmo tempo em que apreciamos o conhecido, freqüentemente nos sentimos atraídos pelo novo. Fundamentalmente, curiosidade é o impulso que nos leva a exploração e, em última instância, entendimento de algo novo. Perguntas típicas de uma mente curiosa seriam: Por quê o céu é azul? Por quê existe dia e noite?
Alegria - satisfação - agradável - prazer - divertimento - encanto - fascínio Interesse - interesse - vontade Curiosidade - curiosidade Amor - amor - paixão - atração - gostar - simpatia - carinho - afinidade EMOÇÕES DE BASE VALORATIVA EMOÇÕES DE BASE
EPISTEMOLÓGICA Fazer Entender
Entender Fazer
Desejo
Figura 5.3 - Dimensão afetiva positiva na relação com a Física (Matemática e Química)
Por outro lado, amor e alegria, incluem-se e uma classe que podemos chamar de emoções de base valorativa, pois se referem mais ao valor afetivo atribuído pelo indivíduo
a uma proposição, ação, objeto, conceito ou representação, do que a busca de informação no ambiente, através de sua exploração prática ou cognitiva. É um sentir-se em relação a algo. Por exemplo, uma experiência escolar rica, na qual o aluno tenha participado atentamente, discutido e entendido profundamente um determinado conteúdo fará com que ele, provavelmente, registre um sentimento positivo com relação àquela experiência, na estrutura afeto-cognitiva. CARSON (1960) faz notar que "primeiro é estimulada a emoção; as emoções servem de catalizador na busca de conhecimento. Uma vez encontrada, a informação tem significado duradouro" (p. 45). Isto é, nós lembramo-nos do que compreendemos, e a nossa capacidade de dominar a compreensão depende da nossa motivação e das nossas emoções. A figura 5.3 representa a classificação da dimensão afetiva com relação à Física (Matemática e Química)17, nas bases epistemológica e afetiva, segundo a descrição acima.
A interação entre as categorias está longe de ser biunívoca. Isto significa dizer que um indivíduo com alto interesse em assuntos científicos apresentará sentimento de satisfação quando exposto assuntos de cunho científico, por sua vez esta satisfação aumentará o interesse e a curiosidade sobre questões do tema, as duas bases emotivas são realimentadas, como sugere a ligação na figura 5.3. Tal separação é apenas por conveniência teórica.
Até o momento tratamos de apresentar a dimensão afetiva com relação à escolha das carreiras de Física (Matemática e Química), sem referência aos eventos ou representações responsáveis em edificar a estrutura, o que faremos a partir deste momento. Em particular mostraremos que a busca de explicações e a seu entendimento, ocupam lugar de destaque no contexto afetivo da escolha da prática de uma disciplina científica, bem como do seu aprendizado.