2 A INTERAÇÃO NAS INTERFACES DOS TABLETS
2.1 A INTERATIVIDADE E A LINGUAGEM DIGITAL
A interatividade faz parte de um cenário envolto por múltiplas possibilidades, de modo que são muitas as abordagens possíveis na busca de sua significação. Por vezes, fala-se de forma indiferenciada acerca de interação entre agentes, interação social e interação mediada por computador, o que gera conclusões simplistas sobre o tema. O conceito, que frequentemente é trabalhado sob a perspectiva mercadológica e tecnicista, é melhor compreendido quando se passa a “valorizar a complexidade dos processos interativos” (PRIMO, 2007, p.55).
Como explanou-se inicialmente, de acordo com as conclusões de Primo (2007), a interação deve ser vista por meio do prefixo “inter”, que significa “entre”. A interação mútua se vale da construção negociada, enquanto ela é causal na interação reativa. Assim, no primeiro plano, é a interação entre os agentes que media a comunicação e promove a cooperação, e não os polos opostos. Isso significa que a interação nas interfaces deve representar a melhor possibilidade de recuperação, troca, compartilhamento e distribuição de informações relevantes.
Santaella (2004) também discorre sobre o campo semântico do termo de forma sistêmica, ao identificar que a grande marca do leitor imersivo (o usuário das mídias digitais) é a interatividade. A autora fala sobre três tipos de leitores: o leitor contemplativo, que é o meditativo; o leitor movente, que é o fragmentado; e o leitor imersivo, que é o virtual. O primeiro tipo procura o isolamento para absorver o conteúdo e se concentra na leitura como uma atividade solitária. O segundo está no nível intermediário, e começa a se acostumar com a rapidez e a diversidade de informações advindas das primeiras transformações tecnológicas que impactaram as mídias. Por fim, a autora traça o perfil cognitivo do leitor imersivo, aquele que se depara com as tecnologias digitais, com a web, com o hipertexto e com a hipermídia – a quem ela também chama de internauta ou navegador.
Nas teorias semióticas de Santaella (2004), a interação está na medula dos processos cognitivos. Ao conceituar o fenômeno da interatividade, a pesquisadora recorre a Kretz (1985 apud SANTAELLA, 2004) para categorizar os diferentes níveis de interação:
● Interatividade zero – os meios são consumidos linearmente do começo ao fim;
● Interatividade linear – quebra-se a sequência (avanços e recuos) de leitura durante o contato com o meio;
● Interatividade arborescente – existe uma seleção em menu, uma escolha em relação a parte a qual ser quer explorar;
● Interatividade linguística – busca-se palavras-chave e formulários para filtrar o que interessa na leitura do meio;
● Interatividade de criação – conteúdos e mensagens são compostos por correspondência; e
● Interatividade de comando contínuo – permite a modificação, o deslocamento de objetos sonoros ou visuais mediante a manipulação.
Segundo esta categorização, a escrita em suporte impresso ou manuscrito permite apenas a análise da interatividade “zero” ou “linear” na linguagem usada pelo homem em relação ao meio. É na passagem do impresso para o digital que serão observadas as revoluções mais significavas da linguagem sob as perspectivas da interação e da cognição. Chartier (2002) diz que a linguagem digital tende a satisfazer a aspiração de concepção de uma linguagem universal, que responda à necessidade de uma língua convergente e comum, representada por signos, símbolos, tabelas, quadros. Santaella (2004) explica que a capacidade de colocar todas as linguagens dentro de uma raiz comum permite à linguagem digital que todas as linguagens se misturem durante sua formação.
De fato, a linguagem digital realiza a façanha de transcodificar quaisquer códigos, linguagens e sinais, sejam estes textos, imagens de todos os tipos, gráficos, sons e ruídos, processando-os computacionalmente e devolvendo-os aos nossos sentidos na sua forma original, o som como som, a escrita como escrita, a imagem como imagem. Entretanto, por ter a capacidade de colocar todas as linguagens dentro de uma raiz comum, a linguagem digital permite, esta sua façanha maior, que linguagens se misturem no ato mesmo de sua formação (SANTAELLA, 2007, p. 85).
Com o aparecimento da tecnologia da comunicação digital, Chartier (2002) discorre sobre uma “tríplice ruptura”: (1) nova técnica de difusão da escrita; (2) nova relação com os textos; e (3) nova forma de inscrição. Existem, então, três revoluções: a revolução da modalidade da técnica da produção da escrita; a revolução da percepção das entidades
textuais; e a revolução das estruturas e formas mais fundamentais dos suportes da cultura escrita. As linguagens, contudo, jamais perderam a capacidade de coexistência e contaminação diante das possibilidades oferecidas pelas tecnologias da informação e da comunicação. Atravessar a ponte do impresso ao digital significa ir ao encontro de uma nova ferramenta de elaboração da mensagem: a hipermídia convergente.
Quando a palavra, o som e a imagem podem se misturar em um mesmo espaço (ainda que distribuído em camadas horizontalizadas e verticalizadas), a escrita experimenta uma reestruturação em sua essência, segundo Santaella:
Tenho chamado atenção para o fato de que, diferentemente da revolução gutenberguiana, a hipermídia não incide apenas no modo como se produz e reproduz a escrita. Embora também envolva esse aspecto, a hipermídia vai muito além. Trata-se de uma nova maneira de se produzir o texto escrito na sua fusão com as outras linguagens, algo que transforma a escrita no seu âmago, colocando em questão a natureza mesma da escritura e dos seus potenciais (SANTAELLA, p. 85, 2007).
Santaella (2007) acredita que a hibridização de linguagens; a organização não linear dos fluxos informacionais; a cartografia de navegação; e o agenciamento interativo do usuário é o que caracteriza de modo mais completo a linguagem digital. A linguagem digital é, sobretudo, uma linguagem híbrida, ou até mesmo “cíbrida”. De acordo com a autora, o cruzamento e a integração de elementos de comunicação no mundo digital proporcionaram mudanças no modo como eles são percebidos não apenas integrados, como também isoladamente:
O computador não nos coloca apenas diante de um novo tipo de tecnicidade, mas traz consigo uma linguagem cíbrida, ou seja, o hibridismo sígnico e midiático que é próprio do ciberespaço. É notório que os conceitos de escritura e de texto vêm passando por transformações profundas desde que as tecnologias digitais emergiram. A integração do texto, das imagens dos mais diversos tipos, fixas e em movimento, e do som, música e ruído, em uma nova linguagem híbrida, mestiça, complexa, que é chamada de hipermídia, trouxe mudança para o modo como não só o texto, mas também a imagem
e o som costumavam ser entendidos (SANTAELLA, 2007, p.84).