CAPÍTULO 2 – A SUSTENTAÇÃO TEÓRICA DO ESTUDO
2.2 Interculturalidade, identidade e língua(gem)
Hoje, milhões de pessoas vão de um lado a outro frequentemente, vivem de forma mais ou menos duradoura em cidades diferentes daquela em que nasceram e modificam seu estilo de vida ao mudar de contexto. Essas interações têm
efeitos conceituais sobre as noções de cultura e identidade.
(GARCIA CANCLINI, 2015, p.44-45, grifo meu).
O momento atual, de globalização acelerada, tem intensificado a mobilidade e a comunicação humana, o que nos remete a contextos diversos em que os sujeitos estão cada vez mais em interação com diferentes pessoas de
outras comunidades, utilizando diferentes meios comunicativos. Seguindo essa lógica, onde há interação, há negociação de identidades, diálogos interculturais e pluralidade de línguas, o que vem desestabilizando os modos como vínhamos construindo nossas ideias sobre as questões culturais e de identidade, como ressalta Garcia Canclini na citação que abre esta seção.
Entretanto, visando um futuro mantenedor das tradições intactas e inventadas (HOBSBAWM; RANGER, 1984) é que os discursos fascinados pela construção de uma nação inventada buscam preservar os padrões sociais dando a eles uma pretensa unidade, ainda que, nas palavras de Patel (2012, p.113), vimos reiteradamente testemunhando que
[...] o Estado-Nação, símbolo da modernidade, entra em declínio e, como consequência, os mapas culturais já não coincidem com as fronteiras nacionais, facto acelerado pela intensificação da globalização que atinge os sujeitos de forma directa ou indirecta (PATEL, 2012, p. 113).
Portanto, o fenômeno da globalização, vem contribuindo, em larga escala, para deslegitimar o ideal moderno e colonial, tornando inadequada a lógica territorialista para a compreensão do sujeito e de suas identidades e práticas sociais (HALL, 2006; CANAGARAJAH, 2013). Woodward (2011) afirma que as transformações globais econômicas atingem, de modo significativo, as relações sociais, descentrando-as. E são, justamente, esses deslocamentos, de acordo com a autora, que levam à desconstrução de identidades nacionais e/ou culturais preestabelecidas.
Essa desconstrução ou desestabilização das identidades, que se tornam cada vez mais fluidas, ocorre na interação com o outro, daí o caráter discursivo das identidades. Nessa direção, Torquato (2019, p. 206) destaca que “o estudo das práticas linguísticas na superdiversidade implica observar como os sujeitos e os grupos negociam e põem em jogo essas distintas e múltiplas identidades nas interações”.
Assim, ao nos debruçarmos sobre as questões de linguagem estamos diante de negociações de identidades entre os falantes, as quais só podem ser compreendidas conforme a lógica local, uma vez que cada grupo/indivíduo comporta em si a heterogeneidade. Sendo assim, para compreender as negociações de identidades na colônia holandesa de Arapoti, um contexto
multilíngue, faz-se necessário entender como os seus moradores percebem as língua holandes e portuguesa nas práticas comunicativas em que estão inseridos, bem como vivem essa diversidade linguística.
Na atualidade, percebemos o contato cada vez maior entre grupos sociais distintos, o que faz com que as pessoas tenham que, de alguma maneira, “conciliar” e fazer dialogar, no seu dia a dia, diferentes culturas, defrontando-se, assim, com a interculturalidade e os desafios que isso traz no seu bojo (JANZEN, 2005; GARCIA CANCLINI, 2013; 2015).
Importa destacar que a noção de cultura é aqui entendida, em consonância com o que apregoa Maher (2007a), isto é,
[...] como um sistema compartilhado de valores, de representações e de ação: é a cultura que orienta a forma como vemos e damos inteligibilidade às coisas que nos cercam; e é ela quem orienta a forma como agimos diante do mundo e dos acontecimentos. [...] A cultura, assim, não é uma herança: ela é uma produção histórica, uma construção discursiva. (MAHER, 2007a, p. 261-262).
Desse modo, questões culturais remetem às (re)elaborações comunitárias ou individuais mediante as quais “os indivíduos se reconhecem, se auto representam e assinalam significações comuns ao mundo que os rodeia" (MONTIEL, 2013, p.18), ou seja, a um “[...] conjunto de processos sociais de produção, circulação e consumo da significação na vida social” (GARCIA CANCLINI, 2015, p. 41).
Ainda que, como argumenta Garcia Canclini (2015, p. 44), afirmar que “a cultura é uma instância simbólica na qual cada grupo organiza sua identidade é dizer muito pouco nas atuais condições de comunicação globalizada”, já que é preciso considerar as construções identitárias na atualidade levando em conta o surgimento, cada vez mais acelerado, de novas tecnologias de comunicação, além do impacto das intensas trocas econômicas e da intensificação dos movimentos migratórios.
Sublinhe-se que as culturas são suscetíveis a mudanças conjunturais nos ambientes em que são constituídas, e, por isso mesmo, são sempre dinâmicas, mutáveis (CUCHE, 2002). A globalização, em conjunção com os avanços tecnológicos e o recrudescimento de movimentos migratórios que vimos presenciando, têm evidenciado o fato de que as culturas, consideradas
conjuntos de valores, representações e ações de grupos sociais localizados em territórios físicos muito bem delimitados estão sendo, cada vez mais, modificadas e re-territorializadas, passando a se constituir, e a se fazer representadas e negociadas, em diferentes espaços, inclusive no ciberespaço (KRAMSCH; BONER, 2010; BLACKLEDGE; CREESE, 2012).
Nessa conjuntura, é preciso ter em mente, portanto, a impossibilidade de considerarmos a “pureza cultural”, um pressuposto no projeto político da modernidade, já que as culturas se caracterizam, cada vez mais, por seu hibridismo. García Canclini (2013) explica que hibridações culturais são
[...] processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. Cabe esclarecer que as estruturas chamadas discretas foram resultado de hibridações, razão pela qual não podem ser consideradas fontes puras (GARCIA CANCLINI, 2013, p. XIX).
Refletir sobre processos culturais, por isso, implica, conforme esse mesmo autor, (re)conhecer formas como os sujeitos se situam em meio à heterogeneidade e entender como se produzem as suas hibridações. Cada vez mais as “categorizações culturais” se tornam insuficientes na busca pela compreensão das relações sociais, uma vez que estão alicerçadas numa noção tradicional de cultura, deslegitimada pelos processos de hibridação continuada, cuja diferenciação “[...] se encontra justamente nesse caráter performativo do conceito de cultura, situado sociohistoricamente” (GARCÍA CANCLINI, 2013, p. XXIX).
São, portanto, infinitos os diferentes modos de (re)conhecer a vida social, orientados pelas formas como narramos as manifestações culturais na sociedade. A complexidade, no entanto, não se encontra em nossas narrativas em si, mas nas questões culturais, cada vez mais imprevisíveis. A crescente mobilidade com que as relações estão se reinventando tem nos orientado a novas propostas para a compreensão do cultural, em contraposição, como já dito, à noção de pureza, cujo objetivo é tornar as relações sociais passíveis de uma previsão.
A ocorrência de descentramentos de padrões culturais e a ausência de referentes culturais fixos ou sólidos têm implicações para os processos de
construção identitária. Os fluxos e as interações que ocorrem nesses processos diluíram fronteiras e alfândegas, assim como a autonomia das tradições locais, propiciam também mais formas de identidades híbridas, já que novas ordens instáveis de sujeito passaram a transcender as demarcações dos territórios modernos cujas fronteiras rígidas estabelecidas pelos Estados modernos se tornaram porosas (GARCÍA CANCLINI, 2013, XXIX).
Temos, então, que, se antes acreditávamos que as identidades estavam firmemente assentadas nas tradições do passado e eram delimitadas por um dado território, com as novas conjunturas que vimos testemunhando, a existência de um eu coerente e fixo, pré-determinado e tenuamente justificado, passa a ser questionado por vários estudiosos. Silva (2009, p. 96-97), por exemplo, é enfático quando advoga que a identidade “não é uma essência; não é um dado ou um fato – seja da natureza, seja da cultura [...] A identidade é instável contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada” (SILVA, 2009, p. 96-97). E na mesma esteira de pensamento, Montiel (2013) afirma que, a partir da desestabilização das certezas que tínhamos outrora,
[...] abriu-se um complexo processo de reconfiguração das identidades culturais e nacionais, que por ora se manifestam como identidades híbridas, fragmentadas e transitórias, que favorecem o encontro e a fusão das identidades culturais tradicionais com manifestações emanadas do processo da globalização (MONTIEL, 2013, p. 19, grifos meus).
Esse é o motivo pelo qual Hall (2006, p. 07), ao refletir sobre a reconstrução epistemológica pela qual os conceitos de identidade e sujeito vem passando, afirma que, na perspectiva pós-moderna, “[...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio”.
Logo, assim como as culturas, as identidades sociais também são fluídas e instáveis, já que devem ser compreendidas, não como conjuntos de categorias fixas, imutáveis e puras (CUCHE, 2002; JANZEN, 2005; HALL, 2006; SILVA, 2009; GARCÍA CANCLINI, 2013), mas, sim, como produtos de ações sociais situadas, que “podem se modificar e se recombinar para dar conta de novas circunstâncias” (BUCHOLTZ; HALL, 2004, p. 376).
Bucholtz e Hall (2004), assim como Hall (2006), Silva (2009), Woodward (2011) e Moita Lopes (2013), dentre outros, enfatizam o papel crucial
do discurso, isto é, da linguagem em uso, dentre outros recursos simbólicos, nos processos de constituição das subjetividades. Assim, “a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. (SILVA, 2009, p. 96-97).
É importante destacar que, nesses processos discursivos, as identidades culturais são não simplesmente nomeadas, mas também hierarquizadas:
A identidade e a diferença estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações. As classificações são sempre feitas a partir do ponto de vista da identidade. Isto é, as classes nas quais o mundo social é dividido não são simples agrupamentos simétricos. Dividir e classificar significa, neste caso, também hierarquizar. Deter o privilégio de classificar significa também deter o privilégio de atribuir diferentes valores aos grupos assim classificados. (BUCHOLTZ; HALL, 2004, p.82).
Mas, se a construção das identidades é, certamente do âmbito do discurso, ela, como insiste Maher (1996), não está alojada, necessariamente, ontologicamente, no interior de uma dada língua, de uma língua específica. A esse respeito, afirma a autora:
[...] percebo identidade como sendo um construto sociohistórico por natureza e, por isso mesmo, um fenômeno essencialmente político, ideológico e em constante mutação [...] e a construção
da identidade não é do domínio exclusivo de língua alguma
(MAHER, 1996, p.117).
Essa asserção vai de encontro à antiga crença de que apenas uma língua representaria uma nação: a diversidade desconcertante que caracterizava a língua real em contextos reais eram, nessa perspectiva, reduzidas, segundo Blommaert (2014), a apenas um agregado de formas e regras que organizam diferentes combinações de tal forma que uma dada materialidade linguística se tornava “‘a língua’ e ponto final” (BLOMMAERT, 2014, p. 71). Assim, a negação da diversidade linguística se tornou uma estratégia para o fortalecimento do Estado-Nação, do qual a, assim considerada, “língua nacional”, tornou-se um artefato. Isso se justificava porque, havia, muitas vezes, “o desejo de recuperar
alguma identidade nacional essencializada e uma língua que pudesse ser emblemática dessa identidade” (WEI, 2011, p.12)20.
Claro está que tal projeto estava assentado em uma noção de língua – e, por analogia, de identidade cultural/nacional – como um sistema abstrato, contável, autossuficiente e descritível em sua totalidade21. Essa é uma
concepção equivocada do conceito, como vem sendo apontado por inúmeros pesquisadores, inclusive da Linguística Aplicada, que contra argumentam insistindo que as línguas são, na verdade, e nada mais e nada menos, do que práticas, resultantes de interações entre seres humanos, entre sujeitos sociais. E é essa concepção de língua como prática social (MOITA LOPES, 2006) que embasa este trabalho de tese.
Essa noção de língua deriva da proposta bakhtiniana de pensarmos o construto de uma perspectiva interacional, isto é, pensar a essência social da língua nas relações entre os sujeitos. Isso implica dizer que não é possível separarmos os usos linguísticos de seu conteúdo ideológico, pois as línguas se constroem nas relações dialógicas entre os falantes, que por sua vez são construídos na e pela língua(gem). Revozeando Volóchinov (2018, p. 98), a natureza do signo linguístico é, portanto, um “fenômeno ideológico par
excellence”.
É sabido que as línguas são aspectos importantes nos processos de identificação cultural dos grupos sociais. Mas, considerar um dado grupo social não significa dizer que as mesmas visões sobre as línguas serão compartilhadas por todos os seus membros. Cada um de nós se apropria diferentemente delas a fim de agirmos em sociedade. Desse modo, assim como as culturas, as línguas não devem ser vistas como sistemas fechados e acabados.
E é nesse sentido que César e Cavalcanti (2007) propõem uma metáfora, a da língua como caleidoscópio, para podermos melhor entendê-la como uma prática social que emerge nos/dos discursos construídos pelos
20No original: “There was often a desire to reclaim some essentialized national identity and a language that could be emblematic of this identity”.
21 Esclareça-se que é essa concepção reificada do conceito de língua que possibilitou – e possibilita – com que línguas fossem – e ainda sejam – “inventadas” como forma de sustentar noções tradicionais de purismo e estabilidade, as quais, frequentemente, como dito anteriormente, dão sustentação à legitimidade de Estados-Nações, a ordens monolíngues e à relação pretensamente fundante entre língua e identidade (MAKONI, PENNYCOOK, 2007).
sujeitos. Para essas pesquisadoras, a língua quando pensada sob a ótica da multiplicidade de seus usos vai
[...] sendo feita por diversos pedaços, cores, formas e combinações, é um jogo de (im)possibilidades fortuitas e, ao mesmo tempo, acondicionadas pelo contexto e pelos elementos, um jogo que se explica sempre fugazmente no exato momento em que o objeto é colocado na mira do olho e a mão o movimenta; depois, um instante depois, já é outra coisa. [...] parece uma imagem feliz para deslocar as concepções de língua das concepções de nação e território estabilizados politicamente e de níveis hierárquicos [...] (CESAR; CAVALCANTI, 2007, p. 61).
Ao assumir, em consonância com o que apregoam essas autoras, esse ponto de vista, oriento-me, neste trabalho, por uma concepção epistemológica que considera a natureza multifacetada, diversa das línguas, o que, forçosamente, deve direcionar nosso olhar para os usos que os falantes fazem delas nos contextos em que atuam. Desse modo, também eu entendo que, minha meta, como pesquisadora, é buscar a
multiplicidade e complexidade linguística e cultural natural em qualquer comunidade ou sujeito falante, ao invés de procurar a ‘unidade’ na diversidade; se encararmos realmente o múltiplo, as ‘misturas’, as diferenças, ao invés de buscar as semelhanças estruturais para justificar uma pretensa unidade sistemática da língua (CESAR; CAVALCANTI, 2007, p. 61-62).
Assim, assumo aqui a perspectiva que reconhece a língua como discurso, como “produto” de relações sociais – ao mesmo tempo em que atua mediando essas relações –, e que são, portanto, cultural e historicamente situadas e marcadas por relações de poder. Isso faz com que eu concorde com Moita Lopes (2006, p. 102), quando ele apregoa que nossa tarefa, como pesquisadores, é buscar “a problematização da vida social, na intenção de compreender as práticas sociais nas quais a linguagem tem papel crucial”.
Considerar a língua como prática social, compartilhada entre os sujeitos nas práticas sociais, portanto, como fenômeno permeado por diferentes visões, valores sobre ela, foi relevante na condução da pesquisa aqui descrita, uma vez que minha intenção era compreender como os participantes estavam concebendo as línguas de seus repertórios verbais.
Por fim, esclareço, antes de dar início à próxima seção, que o conceito de identidade linguística, que me foi útil durante o processo de análise dos registros selecionados para esse fim, é entendido, neste trabalho, como referente “às interpretações culturais das relações que os falantes estabelecem com as línguas que compõem seu repertório verbal” (MAHER, 2010, p. 38).
2.3 Bi/Multilinguismo: de visões idealizadas a uma real compreensão da