1.3 O Campo da Política
1.3.3 Interfaces entre os campos do jornalismo e da política
Miguel (2014) critica o fato de que a ciência política reconhece a existência dos meios de comunicação, mas, em geral, não vê neles maior importância. Se os cientistas políticos tendem a restringir a importância da mídia, os estudiosos da comunicação costumam exagerá-la (GOMES, 2004; RUBIM, 2000). O pensamento de Bourdieu torna-se útil, mais uma vez, para entender as relações entre a comunicação midiática e a política.
É necessário produzir um modelo para a compreensão da relação entre meios de comunicação e política, capaz de apreender a interconexão entre as duas esferas, a centralidade crescente da mídia no jogo político atual e, também, o fato de que a política não se tornou um ramo do entretenimento ou da publicidade, como muitos querem – em vez disso, é regida por objetivos e lógicas diferentes. Para tanto, é útil uma ferramenta conceitual retirada da sociologia de Pierre Bourdieu, a ideia de campo [grifo do autor]. (MIGUEL, 2014, p. 150).
Mídia e política podem ser entendidas, dessa maneira, como campos relativamente independentes, na medida em que retêm sua própria lógica, mas sobrepostos, já que interferem, em larga escala, um no outro. (MIGUEL, 2014; BOURDIEU, 2011; 1997).
A mídia é, nas sociedades contemporâneas, o principal instrumento de difusão das visões de mundo e dos projetos políticos; dito de outra forma, é o local em que estão expostas as diversas representações do mundo social, associadas aos diversos grupos e interesses presentes na sociedade. O problema é que os discursos que veicula não esgotam a pluralidade de perspectivas e interesses sociais. As vozes que se fazem ouvir na mídia são representantes [grifo do autor] das vozes da sociedade, mas essa representação possui um viés. O resultado é que os meios de comunicação reproduzem mal a diversidade social, o que acarreta consequências significativas para o exercício da democracia. (MIGUEL, 2014, p. 153).
A democratização da esfera política implica, portanto, tornar mais equânime o acesso aos meios de difusão das representações do mundo social, prossegue Miguel. O caminho
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passa por mais pluralismo, permitindo que grupos sociais, em especial os dominados, participem do debate político. Retomando Bourdieu, o capital político é uma forma de capital simbólico, pois depende do reconhecimento dos próprios pares. Cada vez mais, a visibilidade nos meios de comunicação se torna condição essencial para a geração de capital político.
Para Miguel, no entanto, mídia e política formam dois campos diferentes, guardam certo grau de autonomia entre si, e a influência de um sobre outro não é absoluta, nem livre de resistências. A autonomia do campo do jornalismo é permanentemente tensionada por sua inserção no campo econômico, uma vez que os grupos de comunicação buscam a ampliação do faturamento e do lucro. Jornalistas e produtores culturais, no entanto, possuem capacidade de resistência e se esforçam por respeitar, mesmo que em grau mínimo, os códigos profissionais próprios do seu campo.
Em suma, é necessário reconhecer a persistência de certa autonomia do campo da mídia, o que faz que os padrões de conduta compartilhados por seus integrantes sejam uma força atuante dentro dele. No caso específico do jornalismo, isto inclui um compromisso com a ‘verdade’ e a ‘objetividade’, critérios para determinar sua competência e a respeitabilidade pelos pares. A violação dessas normas, notadamente em submissão a ditames econômicos ou políticos, é frequente, mas impõe ônus que não podem ser ignorados. (MIGUEL, 2014, p. 157).
Se o controle sobre a agenda e sobre a visibilidade garante centralidade aos meios de comunicação no processo político contemporâneo, os agentes políticos orientam suas ações para o impacto presumível das mídias. São os “pseudo-acontecimentos”, como definiu Daniel Boorstin (1971), referindo-se a acontecimentos que não são espontâneos, mas planejados com o objetivo de virarem notícia. A preocupação de Boorstin era com o jornalismo que teria se desviado de sua função de registrar os fatos, passando a produzi-los.
Os agentes detentores de maior capital político são capazes de orientar o noticiário e a agenda pública através de entrevistas e declarações. Segundo Miguel, por mais alto que seja o grau em que sua influência se faça perceber, as mídias se submetem às definições básicas do campo político. Mas não se pode reduzir essa relação ao predomínio de um sobre o outro. Trata-se, observa Miguel, de uma relação muito mais complexa.
O exame da microrrelação entre o jornalista e sua fonte permite observar o entrelaçamento de práticas distintas, de agentes que pertencem a
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diferentes campos e, portanto, se orientam na direção de objetivos diversos. Contudo, devido à dinâmica própria de sua interação, precisam incorporar em alguma medida a lógica um do outro. Sob pena de perder a fonte, o jornalista deve ponderar aquilo que publica, calculando seus efeitos no campo político; e fazer concessões aos interesses do outro, divulgando informações que julga pouco relevantes ou ainda minimizando o destaque de certas notícias (mas nunca ao ponto de comprometer a própria credibilidade). Já a fonte, para manter seu acesso privilegiado à imprensa, deve reconhecer o material que é útil ao jornalista e, sobretudo, manter a própria confiabilidade diante dele, não transmitindo informações equivocadas em busca de benefícios de curto prazo. (MIGUEL, 2014, p. 166).
Ou seja, os dois agentes permanecem vinculados a seus próprios campos e procuram a ampliação de seus capitais simbólicos específicos. A relação envolve ajustes delicados. O discurso político precisa se adaptar ao novo ambiente gerado pelas mídias, bem como a prática política incorpora recursos das técnicas publicitárias e do marketing. A relação se torna mais complexa, pois, ambos os campos incorporam objetivos derivados do campo econômico.
A compreensão dessa rede de influências cruzadas permite entender a utilização da mídia como forma de pressão política em busca de objetivos econômicos, um fenômeno comum, por exemplo, em estados periféricos do Brasil, onde jornais ou emissoras de rádio e TV podem estar a serviço de empreiteiras ou concessionárias de serviços públicos, mas observável também em centros maiores ou em âmbito nacional. Neste caso, a colonização da empresa de mídia pela lógica econômica não ocorre na forma da luta pelo mercado, mas da perseguição deliberada de determinados resultados políticos. (MIGUEL, 2014, p. 170).
Assim, a tarefa de desvendar o jogo político atual passa pelo entendimento da inter- relação entre os três campos, numa complexa conjugação entre as influências mútuas, resistências, composições, ajustes delicados e anseios por autonomia que animam os diversos agentes de cada campo.
Assim como Ruellan e Miguel, Wilson Gomes (2004) reforça que, no jogo do poder, há permuta entre jornalistas e agentes políticos, que trocam informações e favores. Sem esse tipo de negociação, ambos teriam maiores dificuldades em obter prestígio em seus campos específicos. No caso dos jornalistas, lembra Gomes, sem acertos com as fontes perderiam possibilidades de furos3 e informações privilegiadas.
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Por isso é tão comum que fontes influentes, particularmente do governo, façam publicar informações negativas, falsas ou não, sobre os adversários, recurso conhecido nas redações como “plantar notícias” ou “circular rumores” contra os outros. Por este instrumento, faz-se chegar às redações rumores e histórias que servem para favorecer ou prejudicar imagens ou simplesmente funcionam como recados internos para demarcar posições nos jogos de compensações e força no interior do campo político. (GOMES, 2004, p. 158).
O agente político busca fazer com que sua pauta de interesse se transforme em pauta para o jornalismo. O mesmo ocorre de forma inversa. Quando as agendas coincidem há evidente benefício para o agente político, que ganha evidência e visibilidade. Gomes considera que há uma forma ativa e outra retroativa com a qual o agente político busca coincidir sua agenda com a das mídias jornalísticas. Na forma ativa, o mundo da política busca convencer o público da relevância dos seus temas, pois as agendas da população (audiência) tendem a ser as agendas dos meios de comunicação. Na forma retroativa, o campo político busca descobrir qual é a agenda prioritária da audiência, especialmente a “agenda latente”, guardada no imaginário social (GOMES, 2004, p. 159).
Quando a agenda já está explicitada, a concorrência interna entre os agentes políticos em disputa no campo é grande e a exposição tende a se repartir pela totalidade dos agentes ou todos acabam sendo envolvidos por uma aura de insinceridade (jornalismo e público passam a considerar a adesão à agenda como um ato movido apenas por perspectivas de ganhos). Quando a agenda é latente, aquele que a identifica e produz discursos, atos e fatos que a satisfaçam tem maior chance de sucesso, frequentemente conquistando o principal lugar de fala e podendo atribuir insinceridade a qualquer concorrente que queira ocupar o proscênio, enquanto dele próprio só se pode afirmar a autenticidade. (GOMES, 2004, p. 159).
Identificar uma agenda latente, obviamente, exige sensibilidade para o domínio da cena e dos artifícios cênicos, diz Gomes, planejamento e, frequentemente, pesquisa de opinião e estratégias de marketing e relações públicas. Já a lógica do jornalismo acaba produzindo um efeito de despolitização ou de desencanto com a política.
Pelo fato de que o essencial de sua competência consiste em um conhecimento do mundo político baseado na intimidade dos contatos e das confidências (ou mesmo dos rumores e dos mexericos) mais que na objetividade de uma observação ou investigação, eles [os jornalistas] tendem, com efeito, a levar tudo para um terreno em que são peritos,
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interessando-se mais pelo jogo e pelos jogadores do que por aquilo que está em jogo, mais pelas questões de pura tática política que pela substância dos debates, mais pelo efeito político dos discursos na lógica do campo político (a das coligações, das alianças ou dos conflitos entre pessoas) que por seu conteúdo [...]. (BOURDIEU, 1997, p. 135).
Para o sociólogo francês, os jornalistas acabam produzindo e propondo uma visão cínica do mundo político. Isso também ocorreria por conta da ação dos conselheiros e consultores políticos, encarregados do marketing político.
Essa atenção exclusiva ao ‘microcosmo’ político e aos fatos e aos efeitos que lhe são imputáveis tende a produzir uma ruptura com o ponto de vista do público ou pelo menos de suas frações mais preocupadas com as consequências reais que as tomadas de posição políticas podem ter sobre sua existência e sobre o mundo social. (BOURDIEU, 1997, p. 137).
Para Miguel (2014), a representação política concede centralidade aos meios de comunicação de massa, como intermediários fundamentais do debate público e da produção da agenda política.
De fato, a mídia de massa modifica em profundidade nossa experiência no mundo, tornando-nos participantes de uma ‘realidade ampliada’, incorporando um fluxo permanente de vivências vicárias e conectando nossas circunstâncias locais a processos de abrangência muito mais ampla. (MIGUEL, 2014, p. 137).
Miguel considera que o jornalismo é um foro informal e cotidiano de legitimação ou deslegitimação dos diversos sistemas peritos. Ao utilizar o conceito de Giddens, Miguel lembra que o próprio jornalismo é um “sistema perito” que está sujeito a “provas de efetividade”. Um característica distintiva do jornalismo está na relativa incapacidade que o público tem de comprovar a confiança depositada quanto à veracidade das informações, quanto à justeza na seleção e hierarquização do que é relatado e quanto à justeza dos critérios que levaram ao enquadramento de determinados fatos e não de outros. É a própria concorrência entre as empresas que funciona como mecanismo de controle, o que, obviamente, é insuficiente. A competição entre os veículos tem levado à uniformização dos conteúdos.
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