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Interfaces entre o ambiente escolar e o virtual: sujeito-2

No documento 2008AnaPaulaPaulettiJobim (páginas 150-153)

4. AS ANÁLISES: AMBIENTE VIRTUAL E ESCOLAR

5.2 As análises dos blogs

5.2.2 Interfaces entre o ambiente escolar e o virtual: sujeito-2

Rasia (2007), no artigo A escrita digital: espaço intervalar de subjetivação considera a escrita virtual, mais que uma linguagem, uma discursividade, com formas próprias de inscrição, que tecem lugares de pertencimento e de exclusão, lugares fronteiriços. Conforme a autora, esses lugares instauram-se a partir de outra tessitura, tramada pelos fios de uma memória que não é cognitiva e nem cronológica, mas lacunar, como o é toda memória. E que também é histórica, pois se ressignifica nas diferentes apropriações e deslocamentos. Como veremos nas SDs:

SD1:

Eu knd era pekena ..hehehe abraçando a Jamile ;)

Na SD1, determinadas marcas lingüísticas como pekena e a imagem mostram o movimento que o sujeito faz ao remeter a memória discursiva (a infância). Ao escrever, traz o passado ao texto, o que Pêcheux (1975) denomina como o encontro de um acontecimento com a atualidade, ou seja, através de certas marcas da escrita e com uma fotografia, há um movimento do passado. Notamos que a palavra pekena pode menciona o fato do sujeito-2 estar na infância e não somente o tamanho, o que podemos interpretar como um gesto de singularidade. Também chama a atenção o uso da palavra hehehe, para demonstrar uma

risada, pois como fazer isso em um texto escrito? O sujeito utilizou uma onomatopéia, aproximando a escrita ainda mais da oralidade e do leitor do diário virtual.

SD2:

Eu agoora de grande.. sou uma menina legal companheira gosdto mto d ouvir musiks q todos os tipos .. sou extrovertida ..gosto de sair me diverti com as amigas ..ouvir musik conversar ..Naum suporto falsidades mintiras ..adoro tirar fotos ..

Na SD2, a palavra grande é utilizada para referir o momento atual do sujeito, ou seja, a adolescência. Há um deslizamento de sentido em relação às expressões empregadas para fazer referência à infância pekena (passado) e a adolescência grande (presente). Tais expressões revelam mais do que uma informalidade no processo da escrita, pois mostram a constituição da identidade do sujeito-2 que parece ser construída através do que ele era e do que ele é hoje. Também notamos, mais uma vez, uma identificação do sujeito com o grupo de amigos e também com o que ele gosta de fazer, tirar fotos e ouvir músicas. E isso faz parte do imaginário e do dia-a-dia de vários adolescentes, principalmente depois do surgimento de câmeras digitais e do MP3, que possibilitaram, além de tirar fotos e ouvir músicas, anexar esses recursos na internet. Aqui, também temos a presença de uma característica do jovem moderno e globalizado, principalmente que é imposta pela mídia, pois muitos que não têm estes recursos tecnológicos são considerados desatualizados, ou seja, “fora de moda”. O

sujeito-2utiliza reticências cada vez que quer mudar de assunto, um recurso parecido com o uso do parágrafo.

Na SD2, chama a atenção o fato de o sujeito declarar que é legal, companheira,

extrovertida, e que gosta de ouvir música, sair com as amigas e tirar fotos, justamente características que se esperam de uma menina legal. Isso nos aponta para a determinação não só do lugar de quem está falando (aluna produzindo um blog na escola), mas também do lugar do outro que irá ler o seu diário virtual. Então, embora haja traços de singularidade nessa escrita, ela não chega a romper com a determinação do lugar e do outro. É importante destacarmos que os sujeitos produziram o blog na esfera escolar, mas o ambiente de escrita é outro: o computador. Assim, é diferente a maneira destes alunos se singularizarem quando não é só o professor que irá ler o que eles produziram, pois há uma outra maneira de se subjetivar, como podemos perceber em nossas análises. Há uma busca do sujeito-2 de construir sua identidade num movimento constante de se complementar e de se espelhar no outro.

SD3:

essa foto naum podia faltar neeh .. do timãaõ so gremistaa SEMPRE

Na SD3, o sujeito declara ser torcedora do Grêmio, mesmo que a bola não entre e que

o estádio se cale, reforçando que a construção de sua identidade passa sempre pelo outro. Na parte escrita, temos a repetição da palavra mesmo, usada para dar ênfase ao que o sujeito sente pelo time de futebol, pois, mesmo acontecendo várias coisas ruins, ele continuará torcendo pelo Grêmio. Ao falar do manto sagrado temos a presença de outro discurso, o religioso, o que aproxima o fazer parte de uma torcida à religião, como se o time fosse uma religião. Ele afirma que o Grêmio é sua vida e sua história. Também justifica porque essa foto não pode faltar em seu diário virtual, pois será sempre gremista. Este “recorte” que o sujeito traz em seu blog mostra a forte determinação do outro (time de futebol). Na escrita, ele reforça o que produz na imagem, pois temos um fundo azul, uma das cores do time, o símbolo do Grêmio em forma de coração e as estrelas que lembram como o time já foi vitorioso diversas vezes.

No blog do sujeito-2, havia, na lista de seus blogs favoritos, a citação de inúmeros diários virtuais relacionados ao Grêmio. Segundo Di Luccio e Nicolaci-da-Costa (2007), a escrita virtual possibilita a criação de uma comunidade virtual gerada pelo uso de recursos disponibilizados pelo hipertexto. Notamos que a leitura de um blog leva a leitura de outros, pois os autores do diário virtual e o próprio leitor deixam links de seus blogs favoritos, para que sejam visitados por outros usuários da internet. Isso cria a possibilidade do leitor ter acesso a um vasto número de diários virtuais, o que possibilita e multiplica em muito os efeitos de geração de rede ou comunidade virtual. Conforme as autoras citadas acima, essa comunidade de blogs não é estática de leitores e escritores, mas é uma comunidade dinâmica, para qual ler e escrever são dois lados de uma mesma moeda, ou duas atividades levadas a

cabo pelas mesmas pessoas. E esse dinamismo da rede é, em grande parte, gerado pelo hipertexto, que possibilita a mobilidade, agilidade e dinâmica na produção de textos digitais.

No documento 2008AnaPaulaPaulettiJobim (páginas 150-153)