4. AS ANÁLISES: AMBIENTE VIRTUAL E ESCOLAR
5.2 As análises dos blogs
5.2.4 Interfaces entre o ambiente escolar e o virtual: sujeito-4
É interessante refletirmos como o sujeito-aluno constrói sua identidade a partir da escrita de si, na escola, em um gênero que pertence ao ciberespaço, a escrita de um blog.
SD1:
um tempo vc persebe que o que eles fizeram na verdade vai sr pro teo bem, as vezes eles sao chatos e resmungam de tudo e mandam vc fazer tudo em casa lavar loça e coisas asim claro iso nao faz mal pr ningueeem mas as vezes éah chato e mts veze a gente não intende mt bem isso
Na SD1, o sujeito-4 refere-se à família. Em nenhum momento, ele escreve a palavra família ou pais, mas, pelo contexto e pelos termos usados, podemos notar que ele está fazendo referência a estes: um tempo vc persebe que o que eles fizeram na verdade vai sr pro teo bem.
O processo de constituição do sujeito e do sentido estão intimamente ligados, porque no momento em que o sujeito se identifica com uma determinada formação discursiva, está construindo sentido(s) para este discurso. Essa SD aponta laços de identificação do sujeito com a família, o que corrobora a manutenção de um status quo, de um imaginário sócio- histórico acerca da instituição familiar. Também podemos interpretar esse movimento do sujeito como um gesto de singularidade na sua produção escrita. Ora, ao designar os pais de
chatos, que resmungam de tudo e são mandões, esse sujeito utiliza palavras da ordem do senso comum, para dizer o que acha de seus pais. Porém, ele deixa claro que, com tempo vc
persebe que o que eles fizeram na verdade vai sr pro teo bem. Com isso, o sujeito tenta justificar o porquê de os pais agirem dessa maneira, o que demonstra uma determinação do outro e do lugar (de filho), já que estão escrevendo em um blog que pode ser acessado por qualquer usuário da internet, inclusive pelos seus próprios pais. Também há uma identificação com a maneira de pensar do jovem, os quais, em sua grande maioria, acham os pais mandões e chatos, assim como o sujeito-4.
SD2:
boom a minha infancia pasou mt mt rapido nao deo nem pra mim perceber quando vi ja tinha passado e no fundo sinto falta de ir passer e dizereem 'NOSSA QUE BEBE MAIS LINDO' ' MAIS QUE PEKENINHA MAIS FOFA' mas iso acontesse com qualker um tudo que éah bom um dia pasa nada éah pra sempre por mais q vc goste e
tudo mais no fundo vc sab que isso vai pasar e se vc não aproveitar enkanto éah tempo nos vamos ver que vaai pasar mt ms mt rapido msm a nosa adolesencia e por iso que devemos aproveitar cada segundo sendo unico e ineskecivel
O sujeito-4 inicia falando de sua infância e utiliza a repetição do termo mt mt para dizer que a infância passou rápido. Ela afirma que ainda sente saudade de quando era criança e faz uso de expressões que as pessoas diziam 'NOSSA QUE BEBE MAIS LINDO' ' MAIS QUE PEKENINHA MAIS FOFA' para declarar como era bom ser criança. Notamos que ela utiliza aspas e também letras maiúsculas para destacar que aquelas falas não eram suas, mas de outras pessoas, o que demonstra que, mesmo na escrita no mundo virtual, os sujeitos utilizam regras, que muitas vezes são ensinadas e “cobradas” pela escola, mas, ao mesmo tempo que segue regras, subverte muitas outras. E isso é uma regularidade na escrita desses
blogsque estamos analisando. Poderíamos dizer que esses adolescentes estão assumindo uma posição de resistência em relação às normas de escrita, pois, mesmo esta proposta de escrita de um diário virtual tendo sido elaborada na escola, eles estão ousando na maneira como estão escrevendo, como podemos observar nesta SD. Logo após, o sujeito-4 utiliza uma idéia do senso comum, remetendo a um conjunto de idéias aceitas por todos em relação à adolescência
aproveitar enkanto éah tempo nos vamos ver que vaai pasar mt ms mt rapido msm a nosa adolesencia e por iso que devemos aproveitar cada segundo sendo unico e ineskecivel. Aqui, também temos presente, no imaginário do adolescente, uma questão ideológica do modo de vida, de que se deve aproveitar cada segundo como se fosse único e inesquecível. Temos a preocupação do sujeito moderno com o agora, com o que é passageiro, eis a busca pela completude, que se concretiza, neste caso, com o aproveitar cada segundo da vida, levando ao preenchimento da sua falta, o que contribui para a constituição identitária do sujeito adolescente.
SD3:
fui crescendo e conkistando a confiança dos meos pais primeiro eles me dexaram começas sair tipo das 5 as 6 e talz e daew eu começeeei a chegar na ora certa e obedecer eles ate que eles começaram a me dexar saai mais e pra mim conseguir conquistar isso eu demorei mt e tive que chegar sempre na ora marcada e coisas assim so que uma vez meos pais me deram um orario e eu cheguei bem atrazada e daew eles me dexaram sem sai e talz so q dai eu aprendi a respeitar os orarios e a compreender as coisas, mts vezes os filhos podem não entendeeer mas os pais so quereem o seu beem mesmo as vezes eles fazendoo coisas que vcs nao gosta ou que te faz mal na ora vai pareçeer ruim mas depois que pasa
Na SD3, como em outras também observadas, temos a falta de sinais de pontuação, para sermos mais específicos, não é usado nenhum sinal de pontuação, o que aponta para características do discurso da oralidade, pois é como se ele estivesse fazendo um desabafo, como se não pudesse nem respirar. É o que acontece quando fizemos a leitura também.
O sujeito-4 faz referência à conquista da confiança de seus pais, que está relacionado ao fato de a deixarem sair e ela chegar na hora certa. Ela declara que demorou muito para conseguir conquistar isso, porém uma vez ela não chegou no horário determinado pelos seus pais e ficou sem sair de casa; foi assim que ela aprendeu a respeitar os horários.
Notamos que a construção de sua identidade como adolescente passa pela aquisição da confiança de seus pais, através da conquista da liberdade em termos de horário para sair e chegar em casa. Novamente, temos uma determinação em relação aos pais, mts vezes os
filhos podem não entendeeer mas os pais so quereem o seu beem mesmo as vezes eles fazendoo coisas que vcs nao gosta. Há várias marcas do discurso oral no texto escrito pelo
sujeito-4, como o uso das expressões talz e daew, o que demonstra uma singularidade na maneira de escrever, como se estivesse dizendo e não escrevendo em seu diário virtual.
É interessante destacarmos as duas maneiras que o sujeito escreve as palavras
conkistando e conquistar. Notamos que, na primeira grafia, há um movimento de resistência quanto à escrita padrão, o que podemos dizer que ocorre “voluntariamente”, pois a seguir ele escreve-a de acordo com as normas de escrita, ou seja, há uma oscilação na grafia das
palavras – como conkistando e conquistar, na mesma página do blog, o que mostra que não há uma regra fixa na maneira de escrever. Podemos afirmar que isto é uma marca própria de escrita desse sujeito-aluno, o que aponta para uma singularização.
Como podemos perceber, há uma necessidade do sujeito-autor de expor-se ao outro, na intimidade, na sua relação com os pais. O sujeito-4, ao expor sua vida, procura preencher os espaços de falta que lhe são constitutivos. Na internet, ele pode preencher a falta de amor, de confiança por parte dos pais, de segurança, etc, o que produz a ilusão de tudo dizer e de ter quase todos seus desejos atendidos, o desejo pela completude. Podemos afirmar que essa escrita que subverte será uma maneira do sujeito preencher essa falta. É assim que o sujeito-4 constitui-se como autor e constrói sua identidade através da escrita no diário virtual.