2 REVISÃO DE LITERATUTA: EDUCAÇÃO, GÊNERO E CRIMINALIDADE
2.6 INTERFACES IDENTITÁRIAS/SUBJETIVAS DE MULHERES APRISIONADAS
Diante da revisão de literatura, destaca-se a importância e emergência de estudos como este, que objetivem dar voz àqueles que por muitas vezes são silenciados e invisíveis diante das atuais conjunturas sociais e prisionais, evidenciando as múltiplas identidades e interfaces que se formam nesses espaços.
A priori, destaca-se a diferença entre identidade, subjetividade e objetividade, considerando que,
[...] a “identidade” pode ser compreendida como constituição do sujeito, desde que seu significado esteja na direção daquilo que se faz aberto e inacabado. Nesta perspectiva, a subjetividade é uma dimensão deste sujeito, assim como a objetividade que, a partir das relações vivenciadas, se faz construtora de experiências afetivas e reflexivas, capaz de produzir significados singulares e coletivos (MAHEIRIE, 2002, p. 31).
Todo processo de construção do sujeito é coletivo, rodeado de singularidades entrecruzadas que formam as múltiplas identidades e subjetividades. Maheirie (2002), sob uma visão psicológica, destaca que subjetividade é sinônimo da consciência do sujeito, sendo este “objetividade (pois é corpo) e subjetividade (pois é consciência), não podendo ser reduzido a nenhuma dessas dimensões” (MAHEIRIE, 2002, p. 35). A identidade, nesse sentido, vai aparecer enquanto produto das relações do corpo e da consciência com o mundo, diante do
78 contexto, tempo e espaço social em que se vive, de modo que o sujeito não apresentará apenas uma identidade pronta e acabada.
Hall (1999) destaca que com o advento da modernidade o sujeito apresenta múltiplas identidades, fragmentadas e nunca acabadas. Nesse sentido, a identidade da mulher presa vai além da criminosa, podendo ser também mãe, filha, esposa, irmã, prima, dentre outras, as quais as mulheres do cárcere constroem suas interfaces sociais e se apegam naquela que é aceita socialmente, construindo um outro de si. Se constituindo enquanto mulheres, que se ressignificam e adquirem processos educativos variados de antes, durante e após a prisão (p. 78).
Hall apresenta o efeito da globalização sob essas identidades plurirreferenciais:
[...] parece então que a globalização tem sim o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e “fechadas” de uma cultura nacional. Ela tem efeito pluralizante sobre as identidades mais posicionadas, mais políticas, mas plurais e diversas, menos fixas, unificadas ou trans-históricas. Entretanto o seu efeito geral permanece contraditório (HALL, 1999, p. 87).
O autor ressalta que as identidades estão em declínio, fazendo surgir novas identidades que fragmentam o indivíduo moderno, e constituem uma crise de identidade, sendo este um processo demasiadamente complexo, analisando como o conceito de identidade mudou: do sujeito do iluminismo (centrado e unificado, dotado de razão, identidade estável), para o sujeito sociológico (sujeito que forma-se por meio da relação com outras pessoas, fragmentando o sujeito estável produzindo o sujeito pós moderno) e depois para o sujeito pós moderno (não possui identidade fixa, a identidade enquanto uma celebração móvel um sujeito que se identifica de maneira diferente de acordo com o momento em que se vive) (HALL, 1999, p. 87).
Nesse contexto de identidades plurais, Alves, Melo e Cruz (2001) argumentam que a identidade é uma categoria do imaginário social, que se constrói dialeticamente no processo social mais amplo, repleto de contradições, considerando que: “[..] as possibilidades de diferentes configurações de identidades, metamorfoses que evidenciam imagens contraditórias, múltiplas faces estigmatizações e resistências à perda de uma identidade anterior à prisão” (p. 20).
A construção da identidade, para as autoras, se faz no cotidiano de cada presidiária, de modo que diferentes configurações e interfaces vão sendo construídas, um processo de perda de identidade anterior e resistências à nova identidade posta,
79 [...] a partir do delito, inicia-se um processo de perda da identidade do cotidiano da prisão (puta, ladrona, maconheira, passam a ser a identificação corrente). Mas em meio ao processo de perda da identidade anterior à prisão, vão se construindo resistências à perda da identidade anterior a prisão (a moça pobre, mas boa que roubou para comprar um terreninho para a mãe; a moça pobre, mas decente que foi levada ao crime e à droga por influência de traficantes e drogados [...] (MELO, et al, 2001, p. 22).
Destarte, as autoras evidenciam o misto de resistências e enquanto defesa à necessidade de configurar uma nova versão de si, sendo estas características de mulheres presas que resistem a nova identidade de criminosa e se reconstroem diante do papel de mulher de verdade, evidenciado na sociedade.
Dubar (2005), sobre a crise das identidades, demarca que a identidade de uma pessoa é o que ela tem de mais valioso e a perda dessa identidade é sinal de angustia e morte, uma vez essa é reconstruída ao decorrer de toda a vida, sendo produto dos processos de socialização, possuindo múltiplas dimensões. E é nessa processo e crise de reconstrução e perda de identidade que situamos as mulheres presas (p. 67).
Nessa mesma perspectiva, Costa (2008) nos orienta que
Muitas das mulheres traficantes, apesar de conscientes de que seu ato representa transgressão à norma penal e sabedoras do repúdio social sobre a figura do traficante, não se reconhecem como tal, pois para elas, as identidades relacionadas a vida doméstica – mãe, companheira, filha- sobrepõem-se àquelas que dizem respeito à sua condição de traficante. De fato, na visão das mulheres traficantes, suas múltiplas identidades não estão dissociadas no cotidiano [...] (COSTA, 2008, p. 45).
Com isso, a autora chama atenção para a busca de uma nova identidade que foge da identidade de criminosa por medo da repressão social, bem como por não se aceitar como tal, já que as outras identidades do cotidiano se sobrepõem a esta. As mulheres não querem ser os monstros da sociedade, aquelas que a maioria das pessoas querem distância, e mesmo burlando a ordem social se reconstroem diariamente a fim de fugir desse estigma por meio dos discursos.
Silva (2014, p.86), por sua vez, destaca que
[...] as presas quando a si produzem, produzem um saber que realça sua singularidade existencial, inscrevem o sentido de suas vidas, e modo a enfatizar uma vida coerente, reta. Combinam acontecimentos, ocorrências, associam elementos que entrelaçam o fio condutor de suas vidas e experiências, de modo que aparecem sempre como injustiçadas, vítimas.
80 As mulheres presas buscam em seus discursos se ressignificar, a maioria se colocando como vítima combinando acontecimentos e uma identidade que foge daquela vivenciada no sistema penitenciário. Assim, as presas buscam, em seus discursos, meios de livrar-se da culpa, se desdobrando e adquirindo múltiplas subjetividades, na busca do outro de si, o lado positivo, aquele aceitável pela sociedade e por elas mesmas.
Essas vidas são marcadas pelas contradições, bem como pela esmagadora vulnerabilidade social, nesse sentido, faz-se necessário pensar que
“[...] suas vidas não se explicam facilmente por um roubo, um furto, suas vidas resultam de processos históricos [...] além da luta pela independência feminina, luta que em grande medida modifica o papel da família tradicional, são pontos explicativos para essa situação de mulheres excluídas socialmente, envolvidas com o crime” (SILVA, 2014, p. 64).
Não obstante, definir a mulher presa vai além do simples conceito de bandida ou criminosa, sendo de suma importância pensar no contexto social dessas vidas miseráveis, fruto do desajuste social e da perversa lógica do capital.
A definição de sujeito e construção de sua identidade são obtidos por meio de discursos construídos em diferentes tempos e locais. O ser humano é “livre” para pensar, porém, obedece a regras, e precisa, a todo momento, explicar as suas escolhas através de discursos, e esses precisam agradar ao todo, por isso que a sociedade influência nos discursos e escolhas pessoais. De modo que mesmo sendo livres para escolher, em nome da moral e da ética, o sujeito é induzido a se auto supervisionar,
A arqueologia do saber, que o sujeito ocupa determinado lugar na ordem do discurso, que ele fala de um lugar, e, portanto, não é dono livre de seus atos discursivos [...]. Para ele, indivíduos diferentes podem ocupar o lugar de sujeito de um mesmo discurso, ou seja, a origem do discurso não estaria em sujeitos individuais [...] (FISHER, 2012, p. 54).
Nesse sentido, a arqueologia de Foucault, conforme Fisher (2012), nos leva a pensar sobre a ordem do discurso e sua influência sobre o social, de modo que o ser humano a todo momento precisa justificar suas escolhas por meio de discursos, porém, esses discursos precisam agradar ao todo, outrora, se não agradam e rompem com o contrato social são taxados de monstros, aqueles que devem ser punidos por toda uma sociedade.
Por conseguinte, as presas mesmo estando numa condição de “errantes”, imersas a processos de subjugação, dominação e coerção dos corpos, não se aceitam enquanto criminosas
81 ou como o mal da sociedade, colocando-se em seus discursos enquanto vítimas buscando um outro de si.
De acordo com Foucault (1970), na obra A Ordem do Discurso, o ser humano possui a vontade de obter a verdade, que põe em jogo o poder e o desejo, no entanto essa vontade de obtenção da verdade equipara-se a uma restrição de qualidade de discursos, um padrão construído pela sociedade, e por isso gera-se o medo do discurso.
Foucault (1970) nos orienta que é preciso pronunciar palavras, mesmo perante a caminhada arriscada e conflitante que é o discurso, pois entrar em uma discussão é entrar em um conflito e é preciso ter fundamentos para vencer esse conflito. É cômodo quando o outro simplesmente concorda, mas discursar é muito mais que simplesmente falar e o outro concordar. Discursar é uma luta, em que as armas são os argumentos e a força vem dos fundamentos. Sendo assim, o discurso é para o homem: “um lugar que o honra, mas o desarma e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele lhe advém” (FOUCAULT, 1970, p. 7).
É importante enfatizar que discursar é ter vontade de possuir a verdade, mas isso não quer dizer que o sujeito seja possuidor da verdade absoluta, pois vão existir inúmeras vontades de verdades advindas de diferentes seres humanos que são mascaradas pela verdade dominante. Desta forma, o discurso verdadeiro vai ser aquele que comanda no momento, aquele que exerce o controle sobre uma gama de pessoas.
Entende-se então que o discurso faz parte de um jogo de verdades, em que o sujeito se relaciona com o outro e consigo mesmo. As presas utilizam-se dessa arma poderosa para forjarem a identidade de criminosa. É nesse contexto de identidades plurais que situamos nossa pesquisa, celebrando a vida de mulheres paradoxais, que se constituem dessas interfaces identitárias fragmentadas e reconstruídas diante das situações vivenciadas dentro e fora das prisões. Identidades diversificadas e estigmatizadas que lançam um novo olhar sobre a mulher com uma nova identidade, dessa vez de criminosa. Essas mulheres carregam consigo outras identidades de mãe, filha, esposa, demarcando subjetividades próprias que burlam a identidade de criminosa perigosa.
2.7 UM RETRATO DA VIDA DE MULHERES DO CRIME E SUA RELAÇÃO COM A