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3. AS INVISÍVEIS DO CÁRCERE BRASILEIRO

4.1 VISITANDO O XILINDRÓ

Em outubro de 2017, foi feita uma visita inicial à Unidade Prisional de Paulo Afonso (BA) a fim de conversar com o diretor sobre os propósitos da pesquisa e solicitar autorização.

110 Na parte de fora do Presídio, a pesquisadora sentia-se pequena, diante daqueles muros extremamente altos, com rolos de fio bem entrecruzados, ligados à uma eletricidade que não se sabe de onde vinha. Na parte da frente do presídio, de início via-se o plantão policial e do outro lado, um portão com grades apertadas e resistentes, que dava acesso aos carros que traziam os presos. Um outro portão menor dá acesso aos visitantes e funcionários. Na entrada deste portão, existe uma pequena grade que anuncia por onde caminhar, logo a frente um sistema de detector de metais, e, ao lado, existe um pequeno espaço onde localizam-se dois agentes penitenciários de plantão, encarregados de identificar e liberar a entrada na Unidade Prisional. Sempre junto aos agentes, encontrava-se um ou dois policiais que observavam o fluxo de idas e vindas de maneira atenta.

A pesquisadora, do lado de fora, sob um sol escaldante, ventos quentes que traziam a poeira daquele lugar sem calçamento, tentava comunicação com as pessoas que estavam dentro daquele espaço que de início parecia ser tão inatingível. Algumas pessoas que também aguardavam do lado de fora, tentavam puxar conversa e uma senhora perguntou: - “O que uma moça bonita como você veio fazer no xilindró? Eu venho porque é o jeito, meu netinho tá ai nesse muquifo”.

Sob um pequeno buraco quadrado feito na parede e gradeado, conversava-se com a agente penitenciária de plantão, solicitando autorização de entrada para dialogar com o diretor da Unidade Prisional. No mesmo momento, a agente passou um rádio, e o diretor se propôs a receber a pesquisadora. No momento da entrada, solicitou-se a documentação, o celular, pertences e assinatura de um termo de entrada na Instituição como visitante pesquisadora. Ao caminhar pelo corredor e passar pelo local onde estava o detector de metais, no processo de revista, o coração desta pesquisadora que aqui vos fala batia mais forte, era um misto de alegria por estar tendo acesso ao ambiente, bem como um receio e medo por este mesmo motivo. Não dava para saber o que se encontraria dentro desta Unidade.

Acompanhada de um policial, a pesquisadora foi bem recebida pelo diretor que, com muita educação, ouviu os objetivos da pesquisa e se colocou à disposição para auxiliar no que fosse preciso nos estudos. Autorizando a pesquisa, assinando o termo de anuência e no mesmo momento passando um rádio para o coordenador de atividades educacionais e laborais, destinando para ele a função de dar entrevistas e suportes de entradas e saídas. Sua justificativa de encaminhamento ao coordenador, se deu pelo fato de se tratar de uma pesquisa em educação e o coordenador disponibilizar-se-ia de um maior tempo para dar atenção no que fosse preciso.

111 Já com o termo de anuência assinado, tratou-se de inscrever o projeto junto ao comitê de ética nacional, que com a aprovação deu-se início a coleta dos dados. Embora no primeiro momento não tenha enfrentado barreiras, já com a autorização do diretor geral e com o parecer do comitê de ética travou-se uma luta para ter acesso novamente à Unidade. Foram 5 visitas interditadas, ora porque estava chegando internos e não havia como entrar, ora, porque era dia de visita e não teria ninguém para acompanhar a pesquisa, em outro momento a justificativa da agente foi a falta de outro funcionário; e no quinto dia justificou-se a impossibilidade de entrada em detrimento da calça da pesquisadora, que de acordo com a agente de plantão tinha um buraco não permitido.

Diante desses entraves, percebeu-se que seria necessário estabelecer uma confiança, e venceu-se pelo cansaço. Na sexta visita, a mesma agente cansada de dizer não, encaminhou a pesquisadora para o coordenador de atividades laborais que de forma muito educada se comprometeu com a pesquisa, disponibilizando seu número de celular e estabelecendo um cronograma de visitas.

A partir daí, iniciou-se as visitas de observação participante junto às presas e presos, chegando de mansinho, com muita cautela e vontade de ouvir e ser ouvida, foi se conquistando os pesquisados e o seu entorno, que se habituaram com as visitas frequentes e já abriam os portões sem desculpas ou justificativas.

Essa descrição de diário de campo fornece um empreendimento educativo, visto que a educação no que se refere a punição dos corpos está imersa em cada cena descrita, no formato da arquitetura, nos portões, nos cadeados, no sistema de entradas e saídas, nas normas, nas regras, enfim, todo o conjunto de funcionamento do sistema prisional reflete normas educativas/formativas para todos os indivíduos que os frequenta. Formas de vivencias educacionais que afetam a cada um de maneira diferente, de acordo com a finalidade de entrada neste espaço. Mas assevera-se que este espaço de punição, vigilância, educação, marca o indivíduo ousado que se atreve a explora-lo.

Destarte, visitar o xilindró nos leva a assumir uma educação não escolar somando-se a outras áreas do saber, como a Sociologia, o Direito e, por sua vez, a Antropologia. Esta última, de acordo com Roberto Cardoso de Oliveira (1996), relaciona-se ao olhar, ao ouvir e ao escrever, fomentando uma reflexão epistemológica, com base na etnografia que favorece um momento fecundo de interpretação e produção cientifica.

Oliveira (1996) destaca que o modo como olhamos e ouvimos o campo da pesquisa perpassa o modo como entendemos a realidade, sendo estas duas áreas os atos cognitivos mais

112 preliminares do trabalho de campo, sendo no ato de escrever que a reflexão do conhecimento se constrói crítica e cientificamente. De acordo com Tania Dauster (2007), entre a antropologia e a educação há a produção de um diálogo produtivo, de modo que não se trata de transformar o profissional da educação em antropólogos, mas de estabelecer relações e posturas na “interpretação de fenômenos tidos como de socialização ou de Educação. Isto implica em outras formas de problematizar e de construir o objeto de pesquisa de doutorado e mestrado” (DAUSTER, 2007, p. 197).

Desta forma, a antropologia atrelada à educação favorece assumir relações e posturas, construindo o conhecimento de modo peculiar, “metaforicamente, trata-se da aprendizagem de uma outra linguagem, de um outro código quer levaria o profissional a elaborar outras dúvidas sobre os fenômenos tidos como educativos dentro e fora da escola” (DAUSTER, 2007, p. 201).

Visitar o xilindró é ter acesso aos seus mais variados processos educativos no que se refere à disciplina imposta, às punições, às regras, às adaptações, às formas de falar, de agir, de se comunicar, enfim, adentrar no cárcere é adentrar em processos de educação não formais que atrelados à antropologia nos favorece um olhar crítico e reflexivo sobre a realidade, desmontando discursos do sendo comum, descortinando um sistema prisional que é tão temido e receado por grande parte da população.

4.2 PERFIL DOS/AS PRESOS E PRESAS DO PRESÍDIO REGIONAL DE PAULO