• Nenhum resultado encontrado

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.2 Interferências antrópicas nos mares e oceanos

Dentre os graves problemas ambientais vivenciados pela sociedade contemporânea, talvez um dos mais significativos, dada a sua magnitude, diz respeito à intervenção antrópica nos ecossistemas marinhos. A interferência humana nos oceanos, verificada por meio da poluição crescente das águas, pela pesca e pela caça intensiva e predatória para fins comerciais e industriais tem sido objeto de preocupação de uma parcela importante da comunidade científica mundial.

Igualmente, acredita-se que os desastres provocados com imensos vazamentos de navios petroleiros, o lixo que chega aos oceanos pelos esgotos e o aquecimento global, este último provocado pela queima excessiva de combustíveis e biomassa, têm contribuído para comprometer a estabilidade ecológica desses ecossistemas e acelerar a destruição de várias formas de vida ali presentes. Atividades humanas intensivas que, segundo algumas teorias, devem contribuir para levar a médio ou longo prazo à desestabilização dos grandes sistemas ambientais, podendo tornar a vida insustentável no planeta.

Pesquisas recentes que abordam a atual interferência humana nos ecossistemas do mundo inteiro apresentam números preocupantes quanto ao desaparecimento de plantas e animais, quanto à perda de biodiversidade em ritmo intenso e em praticamente todo o planeta, principalmente a partir da expansão econômica e cultural da Europa Ocidental na era moderna (CROSBY, 2004). Esses números são impressionantes pelo seu crescimento vertiginoso, principalmente quando se reporta aos últimos cinquenta anos da nossa história recente, quando se intensifica a expansão civilizatória e o processo de globalização econômica. Acerca da perda da biodiversidade em todo o mundo, Ponting (1995) faz as seguintes considerações:

38

Entre 1600 e 1900, uma espécie animal foi extinta a cada quatro anos, na década de 1970, esse nível cresceu para aproximadamente 1.000 por ano. Atualmente, cerca de 25.000 espécies de plantas, 1000 espécies de pássaros (10 por cento do total mundial) e mais 700 espécies de animais (incluindo particularmente os mais vulneráveis, como o tigre, o jaguar, o leopardo, o puma, a cheeta, a jaguaritica, vinte e três tipos de baleias, quatro tipos de rinoceronte, dez de ursos e dois de panda, o gorila das montanhas e o elefante africano) estão próximos da extinção.15 (Grifamos).

Com justificativas pouco convincentes, como o de promover o desenvolvimento e o progresso da humanidade, grupos econômicos vêm intensificando em todo o planeta a exploração dos recursos naturais com fortes efeitos sobre o desaparecimento de várias espécies da fauna e da flora terrestre e marinha. Nos mares, conforme expôs Tonnessen & Johsen (1982), se verifica um ataque intenso e inescrupuloso contra os cetáceos que, embora controlada a caça no final do século passado, registros históricos dão conta que essas espécies vêm sendo capturadas para atender interesses humanos desde a Idade Média.

No caso particular das baleias, maiores animais vivos do planeta, são atribuídos ao ser humano os ataques mais prolongados que já foi feito a uma única ordem animal. Por vários séculos, do Mar Mediterrâneo ao Pacífico, da Antártica ao Atlântico Sul, dezenas de espécies de baleias foram caçadas pelos mais diferentes motivos e para atender as necessidades dos mais diferentes povos. A caça para fins comerciais reduziu significativamente o quantitativo de algumas espécies de baleias em dimensão e velocidade sem comparativos em toda a história das relações entre sociedade e natureza.

Mais recentemente, com a introdução de modernos artefatos técnicos de caça e captura (o arpão com explosivo, por exemplo) e com o avanço tecnológico da indústria naval a partir da segunda metade do século XIX, com forte influência no setor de navios baleeiros, a caça foi intensificada e expandida alcançando áreas do alto mar e tornando possível inclusive caçar espécies maiores e mais rápidas. Os modernos navios com suporte industrial passaram a processar os derivados baleeiros ainda em alto mar em ritmos de produtividade crescentes, fenômeno que ampliou a matança e o quase extermínio de algumas espécies. O Brasil também participou por vários séculos da economia baleeira mundial, os cetáceos foram caçados no litoral brasileiro desde o início da colonização e contribuíram, através das armações baleeiras, para a ocupação de uma parte considerável da região litorânea. (ELLIS, 1969).

15

39 Apesar dos esforços de alguns governos e ambientalistas contrários à “pesca” comercial de derivados baleeiros, as tentativas de manter a inserção da atividade na economia mundial ainda não cessaram. Países como Japão, Islândia e Noruega continuam caçando baleias na região da Antártica, mesmo sob olhar crítico de uma parcela importante da opinião pública internacional. No caso específico do Japão, sob alegação política e justificativa ética de “caça para fins científicos”. Todavia, parece evidente que a quantidade significativa de baleias mortas anualmente por baleeiros japoneses não são realmente para pesquisas, mas para o atendimento de demandas do mercado japonês. Já a Islândia e a Noruega caçam com fins

assumidamente comerciais,16 desrespeitando vinte anos de interdição,17 o que tem gerado

protestos de vários países contrários a essa atividade, especialmente do governo da Austrália. Apesar da moratória suspendendo a caça à baleia por tempo indeterminado, ocorrida em fins do século passado, estima-se que mais de 14 mil baleias ainda foram mortas depois desse período.

O Japão e a Islândia, segundo os organismos internacionais de proteção aos animais, são os principais responsáveis pela morte dos cetáceos. Com o argumento de que o objetivo é obter informações sobre o tamanho e a estrutura das populações desses animais, os japoneses, principalmente, têm promovida a caça sistemática nos mares da Antártida, ignorando o apelo dos países membros da International Whaling Commission e de algumas organizações de proteção dos animais.

Nesse contexto de luta contra a atividade baleeira, entidades como a World Society for the Protection of Animals (Sociedade Mundial de Proteção dos Animais - WSPA, sigla em inglês), têm liderado o movimento de contestação ao posicionamento assumido pelo Japão, Noruega e Islândia frente à manutenção da caça ao cetáceo, em completo desrespeito ao acordo de 1986. A WSPA tem chamado a atenção da opinião pública sobre a possibilidade de liberação da retomada da caça à baleia para fins comerciais e industriais, caso não haja uma mobilização para pressionar os governos desses países a recuar em suas posições.

16

Islândia e Noruega se negaram a assinar o protocolo que originou à moratória que suspendeu a caça comercial em 1986. De acordo com artigo publicado pelo professor Castellucci, em razão do agravamento de uma crise financeira, a Islândia, por exemplo, autorizou no ano de 2006 uma cota anual de 150 baleias da espécie minke para seus caçadores. A Noruega, que também pratica baleação comercial, permitiu naquele mesmo ano uma cota de captura de 1.052 baleias Minke. Disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/especial- baleias-salvas-pelo-petroleo. Acesso em 20 de jan. 2010.

17

A International Whaling Commission (IWC), criada em 1946, decretou a partir do ano de 1986 a suspensão em todos os mares da caça aos cetáceos. A decisão visava analisar a situação dos estoques baleeiros para se evitar o colapso de determinadas espécies. Essa organização internacional conta atualmente com 85 países consignatários. O Brasil se tornou membro dessa Comissão em 1974 e assumiu, principalmente depois de 1987, um papel importante na luta contra a caça comercial dos cetáceos.

40 Além do consumo da carne que alcança preços promissores em algumas cidades

asiáticas,18 sabe-se que o Japão desenvolveu, a partir de grandes investimentos em ciência e

tecnologia, utilizando-se de matérias primas derivadas de algumas espécies de baleias, um segmento industrial de cosméticos e fármacos bastante lucrativo. Esse fator é, para grande parte dos críticos à postura do Japão de continuar caçando baleias, o verdadeiro motivo que justifica o desrespeito à moratória internacional de 1986.

Outro problema levantado pela WSPA diz respeito ao bem-estar dos animais. Segundo alguns órgãos que atuam em defesa dos animais, as dificuldades de se matar animais de grande porte, parcialmente submersos no mar, como ocorre com as baleias, dá margem a graves problemas de bem-estar dos mesmos. Como alerta a WSPA, no âmbito da Comissão Baleeira Internacional, questões relacionadas ao bem-estar dos animais continuam sem receber a atenção devida. De acordo com a divulgação da própria entidade, uma coalizão global de mais de 950 organizações de bem-estar animal em 154 países, se organizam com a intenção de assegurar o reconhecimento internacional de que o debate sobre a caça de baleia não é apenas uma questão de quantidade e conservação, mas também de sofrimento animal. Questão ética que ganha notoriedade dentro do movimento ambientalista pelo fim da caça aos grandes mamíferos aquáticos, como as baleias, que vêm sendo caçadas nos oceanos com técnicas consideradas pelos ambientalistas como brutais e desumanas.

Os ambientalistas alertam, igualmente, para as tentativas dos japoneses de retomar a caça às baleias em escala comercial. Anualmente, representantes daquele país na Comissão Baleeira Internacional sugerem a abertura das discussões sobre a retomada da atividade, com alguns poucos países aliando-se ao Japão no desejo da suspensão da medida que determina a proibição da caça para fins comerciais.

18

Em tom de denúncia, em artigo publicado no site oficial do Greenpeace, dia 15 de maio de 2008,

“Greenpeace descobre uma rede de tráfico de carne de Baleia Japonesa”, discorre-se que o preço do quilo

de carne de baleia contrabandeada, sendo ela de boa qualidade, pode alcançar no mercado receptor (Japão), algo em torno de € 85,00. Em valores atuais e em moeda nacional, cerca de R$ 212,50. Disponível em <http://www.greenpeace.org/portugal/pt/noticias/greenpeace-descobre-uma-rede-d/>. Acesso em fev. 2011.

41

CAPÍTULO IV

4. A ORDEM CETÁCEA: DIVERSIDADE BIOLÓGICA E ORIGENS DA