Capítulo 2 AUTORIDADE DE PRIMEIRA PESSOA
2.3 INTERPRETAÇÃO E A AUTORIDADE DE PRIMEIRA PESSOA
As consequências do externismo de Putnam e Burge, de acordo com Davidson (1987), retiram a autoridade que o agente epistêmico tem sobre suas crenças sob a alegação que “as palavras não estão na cabeça”, fazendo com que eles se tornem alheios as palavras que enunciam e gerando um outro tipo de ceticismo, o ceticismo a respeito da própria mente. Esse externismo do significado das palavras é também chamado de externismo semântico e culmina no ceticismo como expõe Smith na seguinte citação:
Um dos aspectos do externalismo semântico consiste precisamente em ser uma resposta ao ceticismo global sobre o conhecimento do mundo exterior. Segundo o externalismo semântico parte do significado das palavras (e, portanto, de nossos pensamentos) é determinada por fatores externos à mente e que nem sempre são notadas por ela e isso permitiria o conhecimento do mundo [...] Se, de um lado, essa forma de externalismo semântico parece garantir o conhecimento do mundo, ela deixa escapar o conhecimento de nossos próprios pensamentos, pois o que a água é pode não ser conhecido pelo falante e, portanto, parte de seu pensamento lhe é desconhecido. (SMITH, 2005, p. 141)
No artigo “Epistemologia Externizada” de Davidson (1990), se dirige a dois tipos de externismo, em específico, o social e o perceptual, usando os argumentos de Tyler Burge.
No externismo social, o conteúdo dos pensamentos e declarações de um indivíduo dependem da história causal dele com a sua comunidade linguística. Para Davidson (1990), existem três motivos pelos quais ele não está de acordo com o externismo social. O primeiro motivo para ele é o de que parece falso que o pensamento e a fala de um agente seja interpretada pelas mesmas palavras que outros agentes. Caso o conteúdo seja determinado por um grupo, qual grupo determinaria as normas? Há um grande pluralismo dentro de uma sociedade e cada grupo se entende a sua maneira. Para Davidson, um sujeito é melhor interpretado quando ele tem a intenção de que seu interprete entenda suas palavras. O segundo motivo, Davidson pensa haver um conflito entre o externismo social e o significado dos enunciados de um falante, porque, estando o significado das palavras estritamente ligadas ao contexto linguístico, sendo que grande parte delas são desconhecidas pelo falante, o agente epistêmico, em última instância, não teria consciência das palavras que usa, sendo assim, não teria autoridade sobre seus próprios pensamentos. Por fim, o terceiro motivo, Davidson não concorda com a ideia de experimentos mentais que propõe casos que fogem a experiência humana - por exemplo, o experimento mental das Terras Gêmeas. Davidson afirma que sua epistemologia depende da prática atual.
A partir desses três itens, percebe-se que a proposta de Davidson no seu externismo é: considerar a intencionalidade do agente sobre o significado das palavras que ele usa, a autoconsciência do agente sobre suas crenças e, por fim, a relação do agente com as suas crenças e o mundo natural, em um cenário da vida
cotidiana.
A respeito do externismo perceptual de Burge (1979), Davidson (1990) propõe unir o aspecto do conhecimento perceptual ao externismo social. Para ele ambos têm traços que combinados podem satisfazer as condições ser “internos” no sentido de pertencerem a um indivíduo e que dependa de bases sociais para a correção das palavras e enunciados.
No conhecimento perceptual, o conhecimento é obtido sobre a base do contato direto do agente epistêmico com o objeto, por exemplo, um agente ao ver uma vaca e ter uma crença de que aquilo é uma vaca, já o outorga conhecimento, ainda que ele não tenha maneiras precisas de afirmar que aquilo é uma vaca (não é um cavalo pintado como uma vaca). Dessa forma, no conhecimento perceptual, o agente torna-se, em parte, responsável por sua crença de que aquilo é uma vaca. A condição de ter autoridade sobre sua crença é necessária para o conhecimento, no entanto, não é suficiente, já que é necessário um critério que sirva de correção para crença. Nesse ponto, Davidson pretende preservar o conhecimento obtido pelo conhecimento perceptual, ainda que falível e adicionar o aspecto corretor que o externismo social desempenha através da ostensão pública das palavras.
O externismo perceptual, toma o objeto de crença como a causa da crença evitando, desse modo, intermediadores epistêmicos, como ideias, sensações, dados dos sentidos “O que fica no caminho do ceticismo global é, ao meu ver, o fato de devemos, da mais simples e metodológica maioria dos casos básicos, tomar os objetos de uma crença para ser a causa dessa crença”.(DAVIDSON, 1990, p. 201). Portanto, a causa da crença é o objeto que causa a crença. Fatores como regularidade, frequência, hábito, repetição e aprendizado tornam o agente mais ou menos apto a dar cedibilidade naquelas crenças. A relação causal que cada indivíduo teve com sua crença irá lhe fornecer os parâmetros básicos para significação dos objetos, já a ostensividade pública e os fatores sociais atuarão nas crenças do agente epistêmico dando-a objetividade no mundo compartilhado. Davidson ao preservar a autoridade do agente sobre seus pensamentos sustenta, de acordo com Silva Filho Davidson preserva o “espírito do cartesianismo, a saber, a ideia de que temos uma autoridade especial sobre nossos pensamentos e crenças”. (SILVA FILHO, 2005, p.158) Essa autoridade do agente sobre suas próprias crenças
que fará que ao ele enunciar uma frase ela seja informativa, ou seja, que ela carregue um conteúdo e, portanto, seja interpretável.
Outro ponto que Davidson concorda com Putnam e Burge é o de que as relações causais do agente com o meio natural irão determinar o significado de seus enunciados:
Defendo, juntamente com Burge e Putnam, se é que os compreendi bem, que essa ligação é estabelecida por interações causais entre as pessoas e partes e aspectos do mundo. As disposições para reagir de modo diferencial a objetos e ocorrências assim estabelecidas são fulcrais para a interpretação correta dos pensamentos e do discurso de uma pessoa. Se assim não fosse, não teríamos qualquer meio de descobrir aquilo que os outros pensam ou aquilo que querem dizer com as suas palavras. (DAVIDSON, 1987, p.12)
Dessa forma, para Davidson, é necessário considerar o aspecto do externismo que leva em conta o contexto sociolinguístico como parte fundamental na formação das crenças dos agentes epistêmicos, Davidson prossegue:
[...]não teríamos qualquer meio de descobrir aquilo que os outros pensam ou aquilo que querem dizer com as suas palavras […] Não se trata do fato de que todas as palavras e frases sejam assim tão diretamente condicionadas por aquilo a que se referem; podemos perfeitamente aprender a usar a palavra “lua” sem nunca a termos visto. O que se defende é que todo o pensamento e toda a linguagem devem ter um fundamento nestas ligações históricas diretas e que estas ligações condicionam a interpretação de pensamentos e discursos. (DAVIDSON, 1987, p.12)
Davidson se põe de acordo, sobre o aspecto de que estados fisiológicos não necessariamente dizem respeito a um estado mental, podendo dessa forma dois agentes se encontrarem em estados físicos idênticos (x) e ainda assim o agente (a) acreditar em (x) e o agente (b) acreditar em (b), Davidson expõe do seguinte modo: “Putnam afirma (corretamente, no meu ponto de vista) que duas pessoas podem ser em todos os aspectos físicos relevantes (químicos, fisiológicos, etc.) a mesma e contudo quererem dizer coisas diferentes com as suas palavras e terem atitudes proposicionais diferentes (tal como estas são normalmente identificadas)” (DAVIDSON, 1987, p. 12-13). O experimento das terras gêmeas segue nessa direção, ao mostrar que os gêmeos apesar de serem idênticos fisiologicamente referem-se, quando exposto a um elemento em comum, no caso a água da terra, terão crenças diferentes. E isto ocorre devido a relação causal que tiverem com o
objeto em questão.
A posição de Davidson (1991) será de pensar que a a significação das palavras e a formação de crenças de um agente epistêmico estão circunscritos em uma imagem comum de mente, mundo e realidade, sempre atuando em conjunto e numa relação intrínseca. O filósofo sugere pensar na situação de um aprendiz que faz declarações sobre o mundo e seu professor que o corrige nos momentos em que ele erra, “toda a linguagem devem ter um fundamento nestas ligações históricas diretas e que estas ligações condicionam a interpretação de pensamentos e discursos” (DAVIDSON, 1987, p.12) Nessa relação intersubjetiva as crenças perceptuais do agente são significadas pelo seu contato com o mundo compartilhado, onde, no caso, o professor, sendo afetado da mesma maneira que o aprendiz o ensina como usar suas sentenças.
O externismo de Davidson, na interpretação de Malpas (2005), é um tipo de “realismo cotidiano” que está relacionado na forma como um sujeito mantém um “envolvimento ordinário e cotidiano com o mundo”; não é uma tese metafísica que pretenda dar garantias absolutas sobre a realidade do mundo, por outro lado, uma tese que garanta os compromissos básicos que um agente epistêmico tem nessa relação. Davidson está preocupado em fazer com que sua filosofia não comprometa a vida cotidiana e as práticas comuns, mais que isso, ele pretende que as experiências humana ordinárias sejas a consequência da trajetória do seu pensamento.
Em “Epistemologia externizada” de Davidson (1990), chama a atenção para a conexão intrínseca entre a crença e o mundo:
O conteúdo do que aprendemos mais cedo e nas mais básicas sentenças ('Mamãe, Cãozinho, Vermelho, Fogo, Gavagai) deve ser determinado pelo que está no mundo e que causa e se sustenta como verdade. Isto é, como tenho reivindicado há um longo tempo, que os laços entre linguagem e mundo são estabelecidos e que restrições sobre significados são fixados; dado a proximidade de conexões entre pensamento e linguagem observações análogas servem para o conteúdo das atitudes. (DAVIDSON, 1990, p.200)
Desde a formação das sentenças de um agente epistêmico ainda na sua formação cognitiva da infância, o contexto em que ele está inserido, deve
proporcioná-lo situações favoráveis onde ele possa apreciar o contraste entre usar a palavra de forma apropriada e inapropriada. O erro é possível e, nesse contexto, necessário, pois, justamente na apreciação entre usar corretamente e não usar corretamente uma palavra é que se identifica a situação onde ela é verdadeira. Por sua vez, o mundo, tal como se apresenta e se sustenta, fornece as evidências para a identificação de seus aspectos e causa a crença de que ele é dessa ou daquela maneira.
No entanto, a identificação de crenças básicas sejam elas por conhecimento perceptivo - o que sugere serem passivo ao mundo - ou de alguma outra ordem, pressupõe crenças prévias. Ter uma crença, para Davidson, é um estado ativo com o mundo, uma relação, necessariamente, vinculada a ação de uma mente com outras e o mundo, entretanto, o conceito de mental não pode pertencer ao âmbito individualístico, para Davidson o externismo e a autoridade de primeira pessoa se intercambiam. Um padrão de uso de palavras fornecidos por uma comunidade pode conter menos equívocos no que diz respeito a significação, um indivíduo por si só pode ter a sua disposição menos vocabulário e não conseguir se expressar adequadamente em diversas situações, mas não se conclui que por estar enganado algumas vezes ele estará enganado sempre:
É claro que, em determinados casos particulares, ele pode enganar-se em relação àquilo em que acredita acerca do mundo; o que é impossível é que ele possa enganar-se a maior parte do tempo. A razão é óbvia: a menos que haja uma pressuposição de que o falante sabe aquilo que diz, ou seja, que está a usar corretamente a sua própria língua, não haverá nada para um intérprete interpretar. não podemos conceber algo como alguém a aplicar mal as suas próprias palavras de um modo regular. (DAVIDSON, 1987, p.18)
A autoridade da primeira pessoa desempenha, no projeto de Davidson, o papel de conferir ao agente consciência sobre seus estados mentais, essa consciência permite-o enunciar suas impressões sobre o mundo e torná-lo interpretável a uma audiência. Dessa maneira, o conceito do mental trabalha em conjunto com o agente em primeira pessoa, com as outras mentes e o mundo exterior que é o causador comum das crenças dos agentes, para Davidson, os fatores externos e internos referentes a linguagem “voltarão a estar todos juntos, como o deverão estar, assim que abandonarmos o mito do subjectivo, a ideia de que
os pensamentos exigem objetos mentais”. (DAVIDSON, 1987, p.19)
Essa será a sua ideia de triangulação, apresentada no capítulo subsequente. Apresentado o papel da autoridade da primeira pessoa e o externismo segundo Davidson o concebe, cabe mostrar diretamente o seu ponto de vista a respeito do conhecimento, a sua concepção do mental e, por fim, o objeto de pesquisa do trabalho o lugar das outras mentes no seu pensamento, agora reformulado para o interlocutor.