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Interpretantes e Outros Entendimentos da Dança

Estabelecida a estrutura de representação indicial da dança, é possível passar às estruturas de sua compreensão. Já foi apresentada neste trabalho a noção do Contato Virtual que se estabelece entre os corpos de bailarinos e públicos. Virtual no sentido de que o público, para entender a obra, não precisa dança-la junto dos bailarinos, mesmo que seu meio de realização seja a concretude dos corpos. O Contato virtual é a terceiridade do primeiro nível de entendimento da Dança, aquele que se propôs chamar de Estilo. O terceiro nível desse entendimento também é uma forma de terceiridade, que se chamou de Experiência Estética. É dentro desse nível que se localizam as categorias de formação de entendimentos – isto é, de interpretantes – para a dança.

Os interpretantes do signo são de três ordens, conforme discutido: Emocional, Energético e Lógico. O Interpretante Emocional é um interpretante da ordem de qualidades. Ele identifica as reações que alguém tem frente ao que é presenciado e interpretado. Por exemplo, na segunda parte da cena Slow [Anexo 4 – DVD – Vídeo 1], o conjunto da movimentação lenta, arrastada com os demais elementos apresentados, pode trazer a sensação melancólica a alguém que assiste. Essa é apenas uma possibilidade do Interpretante Emocional, que será altamente variável dependendo de cada pessoa, de suas experiências prévias e das respostas espontâneas que terá para aquilo a que assiste.

Um segundo nível é o interpretante Energético, da ordem da reação, do esforço corporal – que pode ser tanto através do esforço mental de entender aquilo que é apresentado, como através do esforço em movimentação, em resposta ao que se vê. Está nesse nível a participação do público na coreografia Passo a Passo. O coreógrafo oferece o vídeo e a instrução. Na hora o bailarino convida as pessoas a dançarem e algumas de fato sobem ao palco e realizam um Interpretante Energético, dançando junto da companhia. O vídeo (como convite e provocação) força o público a sair do Interpretante Emocional, e força o

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interpretante Energético: mesmo que a pessoa não queira dançar junto da companhia, ou não se sinta à vontade para subir no palco na hora em que for chamada, ela será forçada a reconhecer o convite, e realizar o esforço mental da decisão (seja ela de participar ou não).

Nesses exemplos, tem-se que o Interpretante Emocional é o nível da Estesia, o nível do impacto, que pode ser o único nível de análise de uma obra, porém o que se identifica nesse espetáculo é um desejo do coreógrafo de forçar a continuidade do interpretante, obrigando à plateia o nível da Resposta Corporal. Também se encontra a Resposta Corporal num nível menos consciente, nos casos em que o público, a partir da sugestão do movimento da coreografia, passa a se movimentar, mesmo que em formas micro-perceptivas, mas estimulado cinesiologicamente pela dança a que assiste.

Assim, ilustram-se as duas associações que se estabelecem entre movimento e informação. Na seção anterior foi apresentada a informação que é convidada à modificação pelo movimento, agora, foi mencionado o movimento que convida à modificação. Essas duas formas de informação motora se articulam independentemente como estruturas de continuidade, da movimentação e da informação, destacando a grande associação entre estes elementos que é fundamental à dança.

O terceiro nível do interpretante, o Interpretante Lógico, foi identificado como o nível da Análise: a capacidade de organizar e articular aquilo que se percebe e se sente dentro, não apenas de um esforço, mas de uma consideração, ponderação, avaliação, juízo. Esse procedimento foi identificado indiretamente no exemplo da cena Duo Só e da consideração a sua referência prévia em outro espetáculo da companhia. Nesse caso, o trabalho com o nível da Análise, o Interpretante Lógico, demandaria extrapolar as sensações provocadas pela coreografia e questionar características diferenciadoras entre essa cena e as demais do espetáculo, que poderiam fazer o público perceber que existe um

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deslocamento entre ela e o todo. Um pouco mais de proximidade com a companhia, ou mesmo a referência à música do espetáculo original (presente na versão da estreia de no Singular [Anexo 4 – DVD – Vídeo 10]), poderia levar à localização desse deslocamento no tempo e espaço histórico da obra de Rodovalho.

O que se propõe nesta pesquisa é que mesmo o nível da Análise poderia ser desdobrado em três graus, para se entender melhor a localização da Experiência Pessoal, grau de primeiridade da Análise; a Percepção Comparativa, grau de secundidade; e finalmente a Análise Crítica, grau de terceiridade.

Esses três níveis foram desenvolvidos, sobretudo, para localizar, dentro da teoria que aqui se propõe, o posicionamento do teórico. Como público especializado, o crítico ou o teórico de dança está numa posição ambígua, tanto no lugar geral do público, sujeito a todas as possibilidades interpretativas, como num lugar de especialista que registrará um ponto de vista, portanto pendendo para a continuidade dos níveis de Análise. Enquanto o público geral pode ou não avançar para além da Estesia, ou da Experiência Pessoal, o teórico se coloca programaticamente na posição de alguém que avançará por esses terrenos.

Isso cria uma inversão do processo de construção de sentido, que deixa de ser aquilo que sugere ou não, provoca ou não os níveis de análise, e passa a ser um objeto de estudo, programaticamente avaliado em cada um dos níveis. Mesmo que essa avaliação seja possível e possa ser verdadeira, é preciso atentar para uma característica de multiplicidade de possibilidades comunicativas da arte. O trabalho em um nível não é algo melhor ou mais desenvolvido do que o trabalho em outro nível. Sobretudo, na Análise Crítica torna-se necessário identificar os conteúdos que são propostos e apreendidos e os níveis em que eles se apresentam. E como mencionado no terceiro capítulo, o trânsito entre os níveis é completamente ligado às possibilidades de variações dos conteúdos, cada nível

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se prestando melhor a uma forma de comunicação, Emocional, Energética ou Lógica, da Experiência Pessoal, da Percepção Comparativa ou da Análise Crítica.

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