Capítulo Quarto
4.2 Intersubjectividade e agir comunicacional
Como referido anteriormente, qualquer indivíduo está intimamente ligado a contextos valorativos particulares (culturais, profissionais, éticos, morais, psicológicos, etc.), que influenciam a sua percepção da realidade e consequentemente a maneira como interage socialmente. Como diz McCarthy (1987):
45 Mesmo numa simples transmissão de dados, existem valores implícitos de comunicação – quanto mais não seja o
pressuposto de que o receptor da informação sabe interpretar os dados enunciados.
“As intenções e interesses individuais ou os desejos e sentimentos não são essencialmente privados mas ligados à linguagem e à cultura e portanto inerentemente susceptíveis de interpretação, discussão e mudança” (McCarthy, 1987)
A atitude do indivíduo na interacção social torna então possível uma relação diferente do tipo de atitude que um observador assumiria para com as entidades de um mundo exterior a si próprio. Assim, numa relação comunicacional, a divisão estanque entre os intervenientes - que Weber (1958) deu a ver apontando a solidão e isolamento modernos – deve ser, na lógica Habermasiana, substituída por uma complementaridade – por uma compreensão mútua entre sujeitos capazes de falar e agir (Habermas, 1990a).
Nesta perspectiva, o reconhecimento da subjectividade inerente à percepção individual não pode definir um princípio unilateral da comunicação, mas sim um princípio de reciprocidade, onde ambos os intervenientes reconhecem a intercepção de subjectividades que se estabelece em qualquer processo de comunicação e, perante tal reconhecimento, procuram um espaço mútuo de identificação – o espaço de intersubjectividade:
“O espaço de intersubjectividade [é] um espaço de reconhecimento mútuo e de formação racional da vontade – é também o espaço da articulação dos níveis de vida quotidianos (cultura, crenças, tradição, valores de memória colectiva) que constitui o pano de fundo de formação quer de uma identidade colectiva quer, através das suas dimensões pragmáticas, de constituição do Eu e do Tu, de uma identidade subjectiva particular.” (Silveirinha, 2004)
Este espaço é guiado pelo reconhecimento mútuo entre indivíduos que assumem que os outros também são capazes de exercer o entendimento e o diálogo e, nessa medida, os processos de comunicação só terão êxito se os participantes adoptarem atitudes de respeito semelhante e estabelecerem regras de interacção recíproca, que regulem a multiplicidade de percepções presente nos discursos. Para Habermas (1990) a actividade argumentativa deve assentar numa acção regulada comunicativamente segundo regras de carácter intersubjectivo:
“Every consensus rest on an intersubjective recognition of critisable validity claims; it is thereby presupposed that those acting communicatively are capable of mutual criticism.” (Habermas, 1981)
Foi nesta linha de pensamento que Habermas (1990b) fundou a teoria do agir
comunicacional47, partindo do pressuposto que é pela comunicação que se interage
socialmente com o mundo, em vez de o usar individualmente de forma instrumental:
“Communicative action can be understood as a circular process in which the actor is two things in one: an initiator who masters situations through actions for which he is accountable and a product of the traditions surrounding him, of groups whose cohesion is based on solidarity to which he belongs, and of processes of socialization in which he is reared. (…) The actor stands face to face with that situationally relevant segment of the lifeworld that impinges on him a problem, a problem he must resolve through his own efforts. But in another sense, the actor is carried or supported from behind, as it were, by a lifeworld that not only forms the context for the process of reaching understanding but also furnishes resources for it. The shared lifeworld offer a storehouse of unquestioned cultural givens from which those participating in communication draw agreed-upon patterns of interpretation for use in their interpretative efforts.” (Habermas, 1990b)
Habermas também coloca a comunicação dentro do contexto das comunidades, dos valores comuns que as definem (“lifeworld”), e que condicionam a interpretação dos indivíduos, referindo-se inclusivamente à coesão valorativa entre grupos sociais:
“These ingrained cultural background assumptions are only one component of the lifeworld. The solidarity of groups integrated through values and the competences of socialized individuals also serve as resources for action oriented toward reaching understanding.” (Habermas, 1987)
A linguagem tem um papel primordial nesta teoria, seguindo autores como Mead, Garfinkel, Witgenstein ou Gadamer:
“Habermas case is that communicative action makes a full use of languages functions relating to objective, social and subjective worlds when the other models relate to only one or two.” (Szczelkun, 1999)
Para Habermas é portanto crucial que, em qualquer processo comunicativo, haja não só um entendimento comum (intersubjectivo) em relação aos valores e linguagens subjacentes, como um acordo prévio relativo a determinadas regras de validade do discurso:
“Agreement in the communicative practice of everyday life rests simultaneously on intersubjectively shared propositional knowledge, on normative accord, and on mutual trust” (Habermas, 1990)
47 Tradução que julgo ser a mais adequada ao termo anglo-saxónico “Comunicative Action” por implicar uma conduta social,
mais do que uma mera acção – este termo é também usado por alguns tradutores de Habermas, nomeadamente por Artur Morão em “Técnica e Ciência como «Ideologia»” (Habermas, 2001).
De acordo com Habermas, de cada vez que participamos numa acção comunicativa, reinvindicamos implicitamente quatro regras de validade48:
“(1) that we have chosen a manner of expression that is comprehensible to the person(s) addressed, (2) that our propositions are factually true, (3) that we sincerely believe what we say, and (4) that what we say is an appropriate utterance with respect to the normative rules that we and our partners in communication agree should govern our interaction” (Dayton, 2002)
Estas regras implícitas de validade são frequentemente abreviadas para (1) inteligibilidade, (2) veracidade, (3) sinceridade, e (4) integridade (Dayton, 2002). Na interpretação de Maeve Cooke (1994) as regras de validade são os pressupostos (obrigatórios) do agir
comunicacional de Habermas: (1) os participantes comunicativos usam as mesmas
expressões da mesma maneira; (2) todos os argumentos relevantes são incluidos na discussão; (3) a única força dominante é a força do melhor argumento; e (4) os participantes partilham a motivação de achar o melhor argumento possível.
Com a teoria do agir comunicacional Habermas confronta dois ideais de racionalidade – comunicativa e instrumental – que considera dominarem as relações sociais das sociedades democráticas contemporâneas: A racionalidade comunicativa, associada à teoria do agir
comunicacional, entende a comunicação como uma interacção mediada segundo regras de
validade que definem as expectativas recíprocas de comportamento, e que têm de ser entendidas e reconhecidas pelos interlocutores (Habermas, 2001). Em oposição, a racionalidade instrumental entende a comunicação como uma acção impositiva (e manipulatória nesse sentido), em que a informação é produzida e comunicada de forma estanque (a partir de pressupostos técnicos), baseada na análise tecnocrática associada aos sistemas económicos e administrativos das sociedades democráticas. Cooke (1994) faz uma distinção simples destes dois tipos de racionalidade:
“Whereas Habermas describes action oriented towards understanding (...) as communicative action, he describes action oriented towards success as instrumental action. (…) [P]articipants in [instrumental] action instrumentalize one another as a means for achieving their respective success” (Cooke, 1994)
O quadro 4.1 apresenta as diferenças conceptuais e implicações pragmáticas entre o agir
Com o agir comunicacional, o que Habermas pretende é fazer basear os processos de decisão das sociedades numa racionalidade comunicativa, opondo-se à consciência tecnocrática dominante. Blyler (1994), referindo-se à lógica de Habermas, afirma que:
“[P]eople no longer have a voice in decisions that bear on their social lives because all problems are resolved back into technical ones, viewed under the aegis of the technical cognitive interest, and the solution of technical problems is not dependent on public discussion.’” (Blyler, 1994)
Quadro 4.1
Agir comunicacional versus agir instrumental
Regras orientadoras da
acção Normas sociais Regras técnicas
Uso da linguagem Linguagem simples
intersubjectivamente partilhada Linguagem livre de contexto
Comportamento dos participantes Expectativas recíprocas de comportamento Prognósticos/imperativos condicionados Mecanismos de aquisição de conhecimentos
Internalização de papéis Aprendizagem de habilidades e qualificações
Objectivo da acção Conformidade com as normas por
meio do reforço recíproco
Solução de problemas (obtenção de fins)
Sanções no caso de infracção das regras
Castigo em virtude de sanções convencionais: fracasso perante a autoridade
Ineficácia: fracasso perante a realidade
‘Racionalização’ Emancipação, individuação;
extensão da comunicação isenta
Aumento das forças produtivas; extensão do poder de disposição técnica
Fonte: adaptado de Habermas (2001)
Todavia, para Warren (1995) o agir comunicacional de Habermas oferece uma estrutura teórica fundamental para analisar os discursos que povoam os processos de decisão pública, mas não para fundamentar as decisões:
“All [decisional] practices are going to be in violation of precepts of communicative rationality to greater or lesser degree. Conversely, glimmerings of communicative rationality should be apparent in
almost all practices (…) [C]ommunicative rationality is not supposed to be an attainable ideal, but rather a critical principle.” (Warren, 1995)
Apesar da relativização do ideal habermasiano, o seu agir comunicacional desenvolve uma base fundamental para as democracias que se querem deliberativas, i.e., para as democracias capazes de gerar comunicação pública nos processos respectivos de decisão:
“Habermas pode ser desafiado por traçar fronteiras demasiado rígidas (...) Em todo o caso, a tónica é ainda nas associações que são eminentemente políticas. Só por elas é possível deliberar no interesse geral. É esta ênfase numa perspectiva do político que exige (...) uma comunicação deliberativa” (Silveirinha, 2004)
Habermas foi o mais poderoso inspirador daquilo a que chamou de “teoria discursiva da democracia”: uma racionalidade comunicativa capaz de fundamentar, através do agir
comunicacional, a prática dos processos de decisão democráticos. O seu ideal está longe
de ser aplicável na plenitude, mas a sua racionalidade trouxe uma nova forma de pensar a democracia, principalmente na ênfase dada aos processos de decisão dialógicos.
No contexto desta dissertação o que o agir comunicacional propõe, na prática, é um conjunto de princípios/regras de comunicação que orientam uma relação (justa) de intersubjectividade. Isto é, uma relação em que a comunicação existe para promover a mudança, através de um processo constante de ajuste mútuo de valores, e não numa pura estabilização de valores por uma qualquer conduta institucionalizada. Isto significa que, assumindo os princípios da racionalidade comunicativa de Habermas, a AAE reforça a sua natureza comunicativa – por oposição ao carácter instrumental típico dos instrumentos deste género49 – aumentando o seu potencial de influência ao nível das discussões estratégicas
ambientais.