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O novo paradigma ambiental e a AAE

Capítulo Terceiro

3.1 O novo paradigma ambiental e a AAE

A grande dúvida que se levantou quando, em meados do século XX, eclodiu a denominada crise ambiental - e que, até hoje, continua por ser respondida satisfatoriamente - não teve meramente a ver com a exigência de encontrar soluções operacionais para problemas ambientais concretos, mas sim, com a incerteza quanto à relação que o Homem deve manter com o Ambiente.

Actualmente, a magnitude (existencial) desta crise obriga a um permanente regresso à ‘terra’, em todos os sentidos, cobrindo todas as esferas da realidade, natural e social, atingindo a base económica e política da sociedade e os valores éticos, estéticos e até religiosos que norteiam o relacionamento do Homem com o ambiente que o rodeia (Beckert, 2004). É a esta visão holística que Beckert se refere como a “nova mundividência” que emerge na nossa relação indissociável, não só com as questões ambientais, mas connosco próprios. Nas palavras de Soromenho-Marques (1998), é exactamente esta urgência introspectiva que distingue o novo paradigma ambiental:

“O ambiente constitui hoje uma esfera onde se cruzam discursos e acções, incertezas e esperanças. Perfila-se como um horizonte regulador de alcance longo e estratégico, modulando em seu torno, e na variedade das suas facetas, não apenas um novo paradigma dentro da cultura, mas sobretudo obrigando a(s) cultura(s) a repensar(em)-se à luz de um novo paradigma cuja identidade e estrutura estão ainda em formação.” (Soromenho-Marques, 1998)

Esta nova forma de olhar o Ambiente, ou seja, de o Homem se ver a si próprio, revela duas características fundamentais da nossa modernidade:

A subjectividade cultural que permite o desenvolvimento de identidades ambientais diversas e portanto de expressões ambientais várias;

O carácter agregador e multifacetado do Ambiente, onde se cruzam e intersectam áreas com percepções da realidade tão distintas como são as ciências naturais, as ciências sociais e humanas, as áreas culturais, a economia ou a política.

Pode-se portanto afirmar que a crise ambiental instalada é um motor essencial na profunda mudança de valores da sociedade actual, com particular incidência nas práticas associadas à actividade científica que, no passado, sempre acreditou na conquista humana da Natureza por meio de tecnologias específicas e cientificamente apoiadas. Com a perspectiva a longo prazo de uma possível fatalidade ecológica, a confiança neste modelo vê-se assim ensombrada por uma realidade que já não pode ser manipulada arbitrariamente. Neste contexto a ciência dos nossos dias procura um novo caminho que se adapte às características do novo paradigma ambiental:

“... a narrativa englobante emergente da ciência pós-moderna enfatiza o envolvimento em vez da transcendência, a cooperação em vez da conquista, o todo em vez das partes. Pode, portanto, inspirar os seus seguidores a adaptar-se melhor, a longo prazo, às exigências ecológicas da bioesfera e assim prolongar a presença humana no planeta.” (Callicot, 2004)

O próprio Ambiente não é mais – se é que alguma vez o foi – um conceito assente exclusivamente nos princípios científicos, mas sim uma visão global das interrelações entre todos os sistemas de percepção da vida. A ciência (aplicada) continua, e bem, a ser utilizada como um instrumento privilegiado para iluminar decisões de carácter ambiental, mas esta influência só é decisiva se colocada num contexto de envolvimento colectivo, isto é, se conseguir responder às necessidades de cooperação, e convergência, entre as várias percepções e sensibilidades diferentes que influenciam as opções e os processos de desenvolvimento da sociedade.

Esta urgência em pensar o Ambiente de uma forma holística e agregadora vem colocar o ónus nos aspectos comunicacionais, nomeadamente nas relações de força inter-subjectivas, entre grupos e interesses, e na capacidade da ‘voz’ ambiental se exprimir transdisciplinarmente. Actualmente, em plena crise ambiental, torna-se prioritário desenvolver uma melhor argumentação ‘ambiental’; construir visões totais mais bem fundamentadas, mais consistentes e ecologicamente mais inspiradas; e consequentemente, adoptar políticas e estratégias mais equilibradas (Glasser, 2001).

instrumento desenvolvido para antecipar problemas ambientais estritamente ecológicos, acabou por evoluir, em meados da década de setenta, para abordagens mais abrangentes de avaliação, incluindo outros domínios de análise, como o económico e o social, que antes ignorava. Foi, aliás, a partir desta necessidade de cobrir todas as esferas da realidade, que nasceu a noção de avaliação estratégica do Ambiente, tendo surgido com o nome de AAE no início dos anos noventa. Em sintonia com o novo paradigma ambiental, hoje em dia discute-se com naturalidade a subjectividade inerente a estes processos de avaliação, nomeadamente nos pressupostos e valores que têm guiado a sua prática ao longo do tempo, e da maneira como estes se relacionam com outros valores da sociedade.

Neste contexto, a autoridade exclusiva dos valores científicos nos processos de avaliação ambiental, onde o mito de neutralidade científica tem predominado, começa agora a ser questionada:

“Natural science has a reputation of being value free and objective. This view is inherited from the basic natural science disciplines like mathematics, physics and chemistry and transferred into applied assessment tools such as EIA. However, these tools are never free of value.” (Knoll, 2005)

O carácter marcadamente tecno-científico dos instrumentos de avaliação de impactes, como a AAE, reflecte também ele um julgamento valorativo e uma percepção específica sobre a sociedade (ver fig. 3.1). Estes valores e percepções estão por sua vez relacionados com as posições e interesses particulares dos técnicos de avaliação que, neste contexto, nunca podem assumir uma posição integralmente objectiva.

Ciências empíricas (física, matemática, química, etc.)

Ciências básicas

Ciências naturais (zoologia, botânica, Ecologia, etc.)

Instrumentos de avaliação de projectos AIA; Avaliação de risco

Ciências

aplicadas Instrumentos de avaliação estratégica AAE

Figura 3.1 – Subjectividade inerente aos intrumentos de avaliação ambiental (adaptado de Knoll, 2005)

A AAE é um instrumento intrinsecamente ligado ao conceito de Ambiente e, como tal, de análise subjectiva e fortemente contextual. É neste sentido um instrumento com uma grande amplitude de reflexão, e deve ser reconhecido e aproveitado como tal. Isto implica saber

Níveis incrementais de subjectividade e

de valores subjacentes

lidar com a natureza multi-dimensional dos problemas ambientais, que são, por sua vez, percepcionados de forma distinta pela variedade de actores relevantes a níveis estratégicos de decisão. Perceber como é que se pode estabelecer o diálogo e a comunicação ao nível dos diferentes valores e percepções sobre o Ambiente é pois um grande desafio para a AAE.