CAPÍTULO 2. UM MODELO STOCK-FLOW CONSITENT COM EMPREGO
2.3 EXPERIMENTOS
2.3.1 A introdução do JG nos Modelos 1 e 2
Comparamos, então, os resultados obtidos com o primeiro choque e o baseline. As considerações básicas sobre o JG simulado nos modelos são:
▪ O salário nominal recebido pelos contratados no JG é aproximadamente 50% do salário nominal pago pelas firmas.
▪ Os participantes dos JG (famílias 2) não pagam impostos.49
▪ As famílias 2 têm a propensão marginal a consumir de 1.
▪ O setor famílias 2 não possui riqueza na forma de ativos (depósitos e título público)
▪ Quando o JG é adicionado a taxa de desemprego é de aproximadamente 20%.
Seguindo o primeiro choque, ocorre um aumento do grau de utilização da capacidade produtiva (Figura 2.1 (a)). Esse aumento no grau de utilização da capacidade produtiva era esperado, dado que o JG incorpora uma parcela da população ao mercado consumidor. Como há um aumento de demanda por bens das firmas, o grau de utilização eleva-se acima do grau desejado pelas firmas. Isso eleva a propensão a investir da renda das firmas, que aumentam o I e, consequentemente o Y.
Como esperado, o grau de utilização converge em torno do grau de utilização desejado no longo prazo. Isso ocorre por intermédio do ajuste da propensão a investir, como pode ser observado na figura 2.1 (b). Nos 100 períodos seguintes à implementação do programa, o (ℎ) apresenta uma média de 0.1773 em comparação
48 Para mais informações sobre simulação de modelos matemáticos na área da economia, consultar os livros de Ronald Shone, ‘An introduction to economic dynamics’ e ‘Economic dynamics : phase
diagrams and their economic application’ e o livro do Giancarlo Gandolfo ‘Economic dynamics’.
49 Para uma futura simulação pretendemos cobrar imposto de renda dos trabalhadores do programa, assim como diminuir a propensão marginal a consumir.
ao baseline cuja média para o mesmo período é de 0.1699. Por conseguinte, a taxa de crescimento do capital após o choque aumenta (Figura 2.1 (c)).
Os gráficos na figura 2.1 registram essa dinâmica. Esses dois efeitos acarretam um aumento da taxa de crescimento do produto (figura 2.1 (d)). Na figura 2.3, pode- se observar que após a implementação do JG o produto está mais elevado. Por um tempo a adição do JG levará a um maior crescimento do produto, porém, o efeito permanente é apenas de nível. A propensão a investir converge novamente para o estado estacionário anterior ao choque, assim como as taxas de crescimento do capital e produto.
É esperado que um gasto do tipo do JG aumente o gasto do governo e, consequentemente, a dívida pública. Todavia, a literatura sobre o JG salienta que o impacto do programa sobre a dívida pública pode ser mais impreciso do que se é comumente esperado. Gastos como: seguro desemprego, transferências de renda, saúde pública e segurança poderão diminuir após a implementação do JG. Além disso, é esperado que o JG aumente o produto e, consequentemente, aumente a receita do estado por intermédio do aumento de arrecadação de impostos. Nosso modelo não consegue registrar essa dimensão de complexidade do programa sobre os gastos e receitas do governo. Porém, a figura 2.2 registra uma parte da dinâmica da dívida pública. Após o choque, a dívida pública em relação ao PIB aumenta. Contudo, após a assimilação do choque essa relação volta a cair e estabilizar em um patamar próximo ao patamar anterior ao choque.
Figura 2.1 – Grau de utilização, propensão a investir, taxa de crescimento do capital e produto (modelo 1) .78 .80 .82 .84 .86 .88 2400 2525 2650 2775 2900 3025 3150 .099 .100 .101 .102 .103 2400 2525 2650 2775 2900 3025 3150
(a) Grau de utilização (b) Propensão a investir da renda (h)
.00 .02 .04 .06 .08 .10 2400 2525 2650 2775 2900 3025 3150 .0095 .0100 .0105 .0110 .0115 .0120 .0125 .0130 2400 2525 2650 2775 2900 3025 3150
(c) Taxa de crescimento do capital (d) Taxa de crescimento do produto Figura 2.2 – Relação dívida pública-PIB
9.4 9.6 9.8 10.0 10.2 10.4 10.6 2400 2500 2600 2700 2800 2900 3000 3100 3200
Figura2.3- Produto (Y) (modelo 1)
240,000,000 280,000,000 320,000,000 360,000,000 400,000,000 440,000,000 480,000,000 2430 2435 2440 2445 2450 2455 2460 2465 2470 2475 2480 2485 240,000,000 280,000,000 320,000,000 360,000,000 400,000,000 440,000,000 2430 2435 2440 2445 2450 2455 2460 2465 2470 2475 2480 2485
(a) Produto após o choque 1 (b) Produto baseline
Fullwiler (2018, 2013) simulou a implementação do JG no EUA utilizando-se do modelo Fair. O autor salienta que, em sua simulação, “JG employees are assumed to
be unproductive. That is, their work adds nothing to national productivity or national output directly” (2013, p.79). Na elaboração do modelo 1 e adição do JG nós
enfrentamos a mesma questão. O trabalho dos empregados pelo JG não afeta diretamente o produto. O modelo 2 foi construído para capturar impacto direto do JG sobre o produto
Para o modelo 2 os impactos sobre o grau de utilização e sobre a propensão a investir da renda das firmas são idênticos ao verificado no modelo 1. Esse efeito não surpreende, pois, o programa, no modelo 2, tampouco afeta diretamente a capacidade produtiva das firmas do setor privado. Adiante, apresentamos os impactos do primeiro choque sobre o modelo 2 e o efeito no produto total. A seguir, considerações básicas sobre o modelo 2:
▪ O governo realiza um gasto na Firma X (compra serviços). ▪ A firma X contrata os desempregados.
▪ O salário nominal que a firma X paga é menor que o salário do setor privado e idêntico ao salário nominal do JG do modelo 1.
▪ O gasto que o governo realiza na firma X é exatamente o valor da massa salarial da firma X.
▪ A firma X só tem um fator de produção: trabalhadores.
▪ O comportamento do setor famílias 2 é idêntico ao modelo 1. Os empregados no JG consomem 100% da renda que recebem.
Nos modelos SM, normalmente, somente uma mudança na taxa de crescimento do gasto autônomo do modelo pode gerar um efeito permanente na taxa de crescimento da economia. Como a dinâmica de investimento do nosso modelo é baseada no SM, não surpreende que o efeito do choque 1 no modelo 2 gere efeitos apenas de nível. Como pode-se observar na figura 2.4(b), após a assimilação do choque a taxa de crescimento do produto total retorna para a taxa do gasto autônomo (0.01). A dinâmica de crescimento de longo prazo da economia continua sendo determinada pela dinâmica do gasto autônomo do modelo (𝐺).
A figura 2.4 (a) ilustra a taxa de crescimento do produto que é utilizada no cálculo do grau de utilização das firmas, essa taxa é idêntica ao modelo 1. Isso significa que o impacto do choque 1 no grau de utilização, na taxa de crescimento do capital e na propensão a investir da renda do modelo 2 é idêntico ao modelo 1.
Pela concepção do JG inserido no modelo 2 é possível observar o impacto
direto no produto total do sistema econômico (figura 2.5). Essa construção
fundamenta-se na perspectiva de que o JG não é idealizado como sendo uma transferência de renda. Logo, espera-se do JG impactos diretos sobre renda nacional. Com a introdução do impacto direto do JG sobre o produto podemos analisar de maneira mais detalhada a relação dívida pública- produto. Como pode-se observar na figura 2.6, logo após o choque 1 a relação dívida pública – produto total aumenta (assim como no modelo 1). Apesar do montante gasto pelo governo com o JG ser igual em ambos modelos, a relação dívida pública – produto total após a assimilação do choque converge para patamares inferiores em relação ao modelo 1. Esse resultado parece confirmar que os impactos de um programa tipo JG na trajetória da dívida pública é atenuado pelos efeitos positivos do JG na renda nacional.
Figura 2.4 – Taxas de crescimento do produto e do produto total (modelo 2)
.00 .02 .04 .06 .08 .10 2350 2375 2400 2425 2450 2475 2500 2525 2550 .00 .04 .08 .12 .16 2350 2375 2400 2425 2450 2475 2500 2525 2550
(a) Taxa de crescimento gy (Y = C+I+G) (b) Taxa de crescimento gyt (Yt = C+ I +G + Gs)
Figura 2.5 Produto total (Yt) e produto (Y) (modelo 2)
200,000,000 250,000,000 300,000,000 350,000,000 400,000,000 450,000,000 500,000,000 2430 2435 2440 2445 2450 2455 2460 2465 2470 2475 2480 2485
Figura 2.6- Relação dívida pública - Yt 8.8 9.0 9.2 9.4 9.6 9.8 10.0 10.2 2400 2500 2600 2700 2800 2900 3000 3100 3200
Baseando-se nos resultados, podemos concluir que o JG altera no curto prazo a dinâmica de crescimento da economia no modelo 1 e no modelo 2. Ao adicionar o impacto direto do JG no produto o modelo 2 aproxima-se um pouco mais da realidade. Acreditamos que uma etapa futura para o modelo 2 seja adicionar uma conexão entre o setor firma X e o setor produtivo privado. Essa conexão viria da necessidade de aquisição de bens da firma X junto ao setor produtivo privado e da aquisição de serviços públicos do setor produtivo junto à firma X. Um desdobramento possível dessa conexão seriam possíveis ganhos de produtividade.
Ademais, os autores que trabalham na formulação do JG salientam que o efeito inflacionário do JG na economia será muito pequeno e transitório50 (Wray et al, 2018;
Tcherneva, 2018; Fullwiler, 2013). Portanto, uma futura linha de expansão da pesquisa estaria na possibilidade de alteração nos níveis de preços na simulação do modelo.