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O programa job guarantee em um modelo stock-flow consistent

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

JULIA ALENCAR OMIZZOLO

O programa job guarantee em um modelo stock-flow

consistent

Campinas

2019

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

JULIA ALENCAR OMIZZOLO

O programa job guarantee em um modelo stock-flow

consistent

Prof. Dr. Antonio Carlos Macedo e Silva – orientador

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Ciências Econômicas.

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA JULIA ALENCAR OMIZZOLO E ORIENTADA PELO PROF. DR. ANTONIO CARLOS MACEDO E SILVA.

Campinas

2019

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas Biblioteca do Instituto de Economia

Mirian Clavico Alves - CRB 8/8708

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: The job guarantee program in a stock-flow consistent model Palavras-chave em inglês:

Stock-flow analysis Full employment policies Unemployment

Área de concentração: Ciências Econômicas Titulação: Mestra em Ciências Econômicas Banca examinadora:

Antonio Carlos Macedo e Silva [Orientador] Fabiano Abranches Silva Dalto

Lucas Azeredo da Silva Teixeira

Data de defesa: 27-02-2019

Programa de Pós-Graduação: Ciências Econômicas

Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)

- ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0001-9199-5717 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/0096477992320893

Omizzolo, Julia Alencar, 1991-

Om5p OmiO programa job guarantee em um modelo stock-flow consistent / Julia Alencar Omizzolo. – Campinas, SP : [s.n.], 2019.

Omi Orientador: Antonio Carlos Macedo e Silva.

Omi Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto

de Economia.

Om i1. Politica de pleno emprego. 2. Análise fluxo-estoque. 3. Desemprego. I. Silva, Antonio Carlos Macedo e, 1959-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Economia. III. Título.

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

JULIA ALENCAR OMIZZOLO

O programa job guarantee em um modelo stock-flow

consistent

Prof. Dr. Antonio Carlos Macedo e Silva – orientador

Defendida em 27/02/2019

COMISSÃO JULGADORA

Prof. Dr. Antonio Carlos Macedo e Silva - PRESIDENTE Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Prof. Dr. Fabiano Abranches Silva Dalto Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Prof. Dr. Lucas Azeredo da Silva Teixeira

Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica da aluna.

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Agradecimentos

Apesar do curto espaço de tempo para a realização desse trabalho posso afirmar que foi um período de grande aprendizagem. Devo grande parte desse avanço ao meu orientador, o professor Antônio Carlos Macedo e Silva. Gostaria de agradecê-lo por estar presente nessa etapa da minha formação.

Agradeço as professoras Simone de Deos e Carolina Trancoso Baltar por organizarem as atividades da pós-graduação que proporcionou um espaço para debater o andamento da pesquisa.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Sem a agência de fomento esse trabalho não seria possível.

No segundo semestre de 2018 o professor Randall Wray passou aproximadamente duas semanas no Instituto de Economia da Unicamp ministrando um curso. Gostaria de agradecer o professor Wray pelos seus comentários sobre essa dissertação. Gostaria de agradecer a Lidia Brochier por sua ajuda na construção do modelo SFC.

O período de pós-graduação pode ser um momento muito estressante. Portanto, gostaria de agradecer aos meus amigos que ajudaram a tornar os dias mais leves.

Minha família, mesmo distante, foi uma fonte de carinho e suporte. Gostaria de agradecê-los por sempre acreditarem no meu potencial.

Enzo Matono Gerioni nem 1000 páginas de agradecimentos seriam o suficiente para agradecer todo o seu carinho, amor, atenção e suporte. Muito obrigada.

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Resumo

Mesmo em períodos econômicos de crescimento acelerado parece existir uma incapacidade de economias capitalistas atingirem e, mais importante, manterem pleno emprego. Dentro do pensamento econômico heterodoxo existem inúmeras recomendações de políticas econômicas voltadas para o combate do desemprego e diminuição das desigualdades sociais. No decorrer das últimas duas décadas, uma vertente Pós Keynesiana, conhecida atualmente como Modern Money Theory (MMT) ganhou notoriedade dentro do pensamento heterodoxo. A recomendação de política econômica dessa vertente conhecida como Job Guarantee (JG) ganhou popularidade e vem recebendo grande atenção, que nunca havia sido dispensada às demais propostas Pós Keynesianas, no debate público nos EUA. O JG é baseado em uma proposta de combate ao desemprego, presente nos trabalhos de Hyman P. Minsky na década de 60, chamada Estado Empregador de Última Instância. Apesar da expansão da literatura MMT, identificamos poucos trabalhos focados na formalização do Job

Guarantee (JG). Com a identificação dessa lacuna na literatura, procuramos contribuir

através da construção de um modelo Stock-Flow Consistent (SFC) que inclua a adoção de um programa nos moldes do JG.

Nosso trabalho analisa quais os impactos promovidos pela adoção desse programa sobre as trajetórias da taxa de crescimento econômico, do grau de utilização da capacidade produtiva, da taxa de emprego e da relação dívida pública/PIB. Essas análises são feitas por intermédio da simulação de um modelo Stock-Flow Consistent (SFC), com uma função de investimento baseada no modelo Supermultiplicador Sraffiano (Serrano e Freitas, 2015;2017). Nossa expectativa inicial de resultados era de que haveria resultado positivo sobre taxa de crescimento e taxa de emprego, um aumento temporário do grau de utilização, com posterior retorno ao grau desejado pelas firmas e um efeito neutro ou pequeno aumento da dívida pública/PIB.

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Abstract

Even in periods of rapid economic growth there seems to be an inability of capitalist economies to achieve and, more importantly, maintain full employment. Within heterodox economic thinking there are innumerous recommendations of economic policies aimed at combating unemployment and reducing social inequalities. Over the last two decades, a Post Keynesian strand, known as Modern Money Theory (MMT) has gained notoriety within heterodox thinking. Their policy recommendation know as Job Guarantee (JG) has gained popularity and has received great attention, which has never been dispensed with the other Post Keynesian proposals, in the public debate in the USA. The JG is based at a proposal to combat unemployment, present in the works of Hyman P. Minsky in the 1960s, called the Employer of Last Resort (ELR). Despite the expansion of the MMT literature, we identified only few works focused in to formalize the Job Guarantee (JG). With the identification of this gap in the literature, we seek to contribute through the construction of a Stock-Flow Consistent (SFC) model that includes the adoption of a JG program.

Our work analyzes the impacts of the adoption of this program on the trajectories of the economic growth rate, the degree of utilization of productive capacity, the employment rate and the public debt / GDP ratio. These analyzes are done through the simulation of a Stock-Flow Consistent (SFC) model, with an investment function based on the Sraffian Supermultiplier model (Serrano and Freitas, 2015; 2017). Our initial expectation was that, with the JG implementation, there would be a positive result on growth rate and employment rate, a temporary increase in the degree of utilization, with a subsequent return to the desired degree by firms and a neutral or small increase in public debt / GDP.

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LISTA DE VARIÁVEIS

𝑖 Taxa de juros nominal

𝑌 Produto

𝑌𝑓𝑐 Produto de plena capacidade 𝐺 Gasto do governo nas firmas

𝐶 Consumo total

𝐶 Consumo das famílias

𝐶𝑗 Consumo das famílias que fazem parte do programa de emprego

𝐼 Investimento

𝐺𝐷 Dívida do governo 𝐾 Estoque de capital 𝑣 Razão Capital - Produto ℎ Propensão a investir da renda 𝛿 Depreciação do capital

𝛾 Sensibilidade do investimento aos desvios do grau de utilização 𝑢 Grau de utilização da capacidade produtiva

𝑢𝑛 Grau normal de utilização da capacidade produtiva 𝑔𝑘 Taxa de crescimento do capital

𝐿 Estoque de empréstimos 𝐹 Lucro líquido

𝐹𝑔 Lucro bruto

𝐹𝑈 Lucros não distribuídos 𝐹𝐷 Lucros distribuídos

𝑊𝐵 Massa salarial das famílias 𝑠𝑓 Fração dos lucros retidos 𝑈𝐶 Custo Unitário

𝑁 Número de trabalhadores contratados pelas firmas 𝑌ℎ Renda das famílias

𝐵 Estoque de títulos públicos 𝐷 Estoque de depósitos

𝑌𝑑 Renda disponível das famílias 𝜏 Alíquota de impostos

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𝑆ℎ Poupança das famílias

𝑉 Riqueza das famílias

𝛼1 Propensão a consumir da renda do trabalho 𝛼2 Propensão a consumir da riqueza

𝑁𝑑 Demanda de desejada de trabalhadores

𝑁𝑝𝑒 Número de trabalhadores com plena capacidade

𝑁𝑗 Número de trabalhadores contratados pelo programa do governo

𝑔𝑔 Taxa de crescimento do gasto do governo 𝑇 Imposto pagos pelas famílias

𝑊𝐵𝑗 Massa salarial do programa de emprego do governo 𝑊 Salário nominal das famílias

𝑊𝑗 Salário nominal do programa de emprego do governo

𝑝𝑟 Produtividade do trabalho

𝑝 Preços

𝜌 Mark-up das firmas

𝜂 Parâmetro da função de trabalhadores contratados 𝑑𝑒𝑠𝑒𝑚𝑝 Número de desempregados

𝑑𝑒𝑟 Taxa de desemprego

𝑌𝑗 Renda das famílias do programa do governo

𝑌𝑑𝑗 Renda disponível das famílias do programa do governo 𝜏2 Fração de impostos das famílias do programa do governo 𝑆𝑗 Poupança das famílias do programa do governo

𝑉𝑗 Riqueza das famílias do programa do governo

𝛼3 Propensão a consumir da renda das famílias do programa do governo 𝜔 Porcentagem de trabalhadores contratados pelo JG

𝐹𝑥 Lucro bruto da firma X (modelo 2)

𝐺𝑠 Gasto do governo na firma X (modelo 2) 𝑌𝑠 Produto do setor produtivo (modelo 2) 𝑌𝑡 Produto total da economia (modelo 2)

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LISTA DE TABELAS

Tabela 2.1 - Principais contribuições para os modelos SFC...34

Tabela 2.2 - Balanço Patrimonial dos setores institucionais...37

Tabela 2.3 - Matriz de transações e fluxos de fundos...37

Tabela 2.4 - Balanço Patrimonial dos setores institucionais modelo 2...46

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LISTA DE FIGURAS

Figura 2.1 – Grau de utilização, propensão a investir da renda, taxa de crescimento

do capital e produto (modelo 1) ...56

Figura 2.2 – Relação Dívida/PIB (modelo 1)...56

Figura 2.3 – Produto (Y) (modelo 1) ...56

Figura 2.4- Taxa de crescimento do produto e do produto total (modelo 2)...58

Figura 2.5- Produto total (Yt) e Produto (Y) (modelo 2)...58

Figura 2.6 – Relação Dívida/PIBt (modelo 2)...59

Figura 2.7 – Grau de utilização da capacidade produtiva (choque 2)...60

Figura 2.8 – Taxa de emprego do setor privado...60

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 13

CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO JOB GUARANTEE ... 17

1.1 O QUE UMA POLÍTICA ECONÔMICA CONSEGUE CUMPRIR? ... 18

1.1.2 Conexão entre a MMT e o JG ... 22

1.2 O JG NO SÉCULO XXI ... 24

CAPÍTULO 2. UM MODELO STOCK-FLOW CONSITENT COM EMPREGO PÚBLICO ... 29

2.1 O JG EM MODELOS DE SIMULAÇÃO ... 29

2.2 A METODOLOGIA SFC ... 33

2.2.1 Estrutura Contábil do Modelo 1 ... 35

2.2.2 Equações Comportamentais ... 39

2.2.3 Estrutura Contábil do Modelo 2 ... 46

2.3 EXPERIMENTOS ... 52

2.3.1 A introdução do JG nos Modelos 1 e 2 ... 54

2.3.2 A Implementação do JG em Fases ... 59

2.3.3 Caminhos Futuros ... 61

CONCLUSÃO ... 63

Referências Bibliográficas ... 65

ANEXO 1. VALORES DOS PARÂMETROS E VARIÁVEIS EXÓGENAS DO MODELO 1 ... 70

ANEXO 2. VALORES DOS PARÂMETROS E VARIÁVEIS EXÓGENAS DO MODELO 2 ... 71

ANEXO 3. IMPACTO DO CHOQUE 1 NO CONSUMO DAS FAMÍLIAS 1 ... 72

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INTRODUÇÃO

Diante da incapacidade de economias capitalistas atingirem e, mais importante, manterem pleno emprego durante um longo período, diversas correntes de pensamento econômico sugeriram (e ainda sugerem) possíveis soluções para a ociosidade de parcela significativa da força de trabalho. As possibilidades colocadas por economistas são variadas e incluem estímulo à demanda agregada, qualificação dos trabalhadores, redução de impostos sobre empresas, subsídios governamentais a determinados setores, entre outros. Não obstante a variedade de soluções propostas, a questão permanece em aberto, causando prejuízo econômico e social.

Dentro da escola pós keynesiana, mais especificamente, há uma preferência por recomendações de estímulo aos gastos, privado ou público, devido ao entendimento do desemprego involuntário como resultado da falta de demanda na economia. Ainda que possamos concordar com a intuição da perspectiva pós keynesiana, consideramos que uma política econômica de estímulo aos gastos parece não ser suficiente para a manutenção de um nível de atividade econômica compatível com o pleno emprego.

Hyman Minsky, comumente identificado com a escola pós keynesiana, propôs uma solução que não se repete em outras vertentes dessa mesma escola ou em outras escolas de pensamento econômico. Sua proposta era que o Estado fosse uma espécie de Empregador de Última Instância1, ou seja, simplesmente assumisse a

contratação da força de trabalho não absorvida pelo setor privado, independentemente do nível de atividade econômica. Durante décadas, tal proposta foi praticamente ignorada até ser resgatada por L. Randall Wray, em 19982. O resgate

dessa proposta ocorreu juntamente com o surgimento de uma nova vertente pós keynesiana, conhecida atualmente como Modern Money Theory (MMT). Assim como qualquer outra teoria econômica, a MMT possui uma dimensão teórica, que nesse caso se debruça sobre a capacidade do governo realizar política macroeconômica doméstica, e uma dimensão propositiva, que nesse caso é o programa conhecido

1 A obra de Minsky sobre a essa política pública é relativamente extensa. O livro ‘Ending poverty: Jobs,

not welfare’, organizado pelo Levy Economics Institute, contém uma coletânea de artigos sobre o tema.

Para mais, no Hyman P. Minsky Archive é possível encontrar trabalhos sobre o tema que não estão presentes no livro.

2 ‘Understanding Modern Money: The Key to Full Employment and Price Stability’. Esse livro foi traduzido para o português com o seguinte título: ‘Trabalho e Moeda Hoje”.

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como Job Guarantee (JG)3. O JG baseia-se na proposta elaborada por Minsky em

meados de 1960.

Antes de aprofundarmos na exposição da proposta desse trabalho faz-se necessário esclarecermos o que consideramos como pós keynesianos, em virtude dos diversos recortes possíveis. A controvérsia sobre a definição de pós keynesianos pode ser sumarizada em duas abordagens: uma definição mais estreita e uma definição mais abrangente. Existem diversos argumentos que suportam ambas abordagens. Os autores que defendem uma definição mais estreita, por exemplo, Paul Davidson, apontam que dessa maneira preserva-se uma coerência na escola pós keynesiana (Lavoie ,2014, p. 42). No presente trabalho optamos por adotar a definição mais abrangente do pensamento pós keynesiano.

Nas últimas décadas, autores como Keynes, Kahn, Goodwin, Kaldor, Pasinetti, Joan Robinson, Sraffa e Kalecki se propuseram a estruturar abordagens alternativas para pensar sobre questões teóricas e práticas da Economia Política. O enfoque desses autores sobre aspectos da ciência econômica, como a relevância da demanda, dos arranjos institucionais e o papel do Estado na economia, serviu para estabelecer as bases teóricas para diversas correntes de pensamento alternativo (Harcourt ,2006). Uma posição mais abrangente sobre a definição de pós keynesianismo procura incorporar contribuições de diversos autores salientando os pontos em comum. Lavoie (2014) e Eichner and Kregel4 (1975) são exemplos de autores que propõem uma

abordagem mais abrangente. Apesar do amplo espectro da abordagem escolhida, não enxergamos um problema de coerência nessa definição abrangente do grupo. A adoção de definição com tamanha amplitude exige o reconhecimento da existência de heterogeneidades e disputas dentro do pensamento pós keynesiano. No entanto, consideramos instrumental essa forma de definição para o nosso objetivo, uma vez que, esse trabalho inclui a proposta econômica conhecida como Job Guarantee (JG) em um modelo macroeconômico do tipo Stock-Flow Consistent (SFC) que se utiliza

3 Na realidade, a MMT também propõe que o Banco Central mantenha a taxa de juro de curto prazo próxima a zero. Essa proposta de política econômica, porém, não é objeto de análise na presente dissertação.

4 Durante as décadas de 60 e 70, economistas norte-americanos influenciados, principalmente, pelas teorias de Keynes e Kalecki foram decisivos para a institucionalização da escola pós keynesiana. O artigo de Eichner & Kregel (1975), busca destacar os elementos comuns ao pensamento pós keynesiano, que podem ser resumidos em quatro pontos principais: i) foco no princípio da demanda efetiva, no curto e no longo-prazo; ii) o estudo de uma economia monetária da produção; iii) o ambiente de decisões é um ambiente de incerteza fundamental e; iv) a importância do tempo na teoria, o tempo é histórico e irreversível (Lavoie, 2014, p.37; 2011).

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de uma função de investimento baseada no Supermultiplicador Sraffiano (SM), presente em Brochier e Silva (2018).

No decorrer das últimas duas décadas, a MMT ganhou notoriedade dentro do pensamento heterodoxo, por corretamente “prever” a crise da zona do euro e por sua contribuição para iluminar a coordenação entre Tesouro e Banco Central na operacionalidade das políticas monetária e fiscal. Simultaneamente, a proposta do JG também ganhou popularidade e vem recebendo grande atenção, que nunca havia sido dispensada às demais propostas pós keynesianas, no debate público nos EUA5.

Apesar da expansão da literatura MMT no decorrer das últimas décadas, poucos trabalhos de formalização do JG foram realizados. Apenas mais recentemente, temos trabalhos como de Godin (2012), Murray (2013) e Fullwiler (2013; 2018). Com a identificação dessa lacuna na literatura, procuramos contribuir através da construção de um modelo Stock-Flow Consistent (SFC) que inclua a adoção de um programa nos moldes do JG. Nosso intuito é de analisar quais os impactos promovidos pela adoção desse programa sobre as trajetórias da taxa de crescimento econômico, do grau de utilização da capacidade produtiva, da taxa de emprego e da relação dívida pública/PIB. Nossa expectativa inicial de resultados era de que haveria resultado positivo sobre taxa de crescimento e taxa de emprego, um aumento temporário do grau de utilização, com posterior retorno ao grau desejado pelas firmas e um efeito neutro ou pequeno aumento da dívida pública/PIB.

A presente dissertação se divide em dois capítulos, além desta seção introdutória e de uma seção para considerações finais. No primeiro capítulo, retomamos a origem do programa na obra de Minsky, as principais características e o debate no qual a proposta estava inserida. Em seguida, atualizamos o JG para o debate da MMT e discutimos sucintamente as principais contribuições que, aglutinadas, dão forma à MMT. Procuramos esclarecer qual a relação entre MMT e JG, procurando diferenciar as considerações teóricas das considerações propositivas. Finalmente, apresentamos a configuração do JG nas propostas mais atuais promovidas pelos principais autores da MMT. Esse passo é essencial para a

5 Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel de Economia, escreveu um artigo no New York Times

(What’s Wrong With Functional Finance? (Wonkish) para criticar a fundamentação teórica da MMT. No

site da Bloomberg é possível encontrar um crescente número de matérias a respeito da MMT como por exemplo: ‘Three Things to Keep in Mind About the MMT Debate’.

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construção do modelo, pois a partir da identificação da configuração do JG podemos especificar as equações que dão forma aos modelos apresentados no capítulo 2.

Iniciamos o segundo capítulo com um mapeamento dos modelos macroeconômicos que incorporam o JG em suas análises. Apresentamos uma breve exposição sobre as características do JG nos modelos e os resultados das simulações. Os três modelos analisados, a despeito das diferenças na metodologia, parecem apontar para a mesma direção sobre os efeitos do JG no sistema econômico. Em seguida, introduzimos elementos específicos da metodologia SFC, como as tabelas contábeis dos modelos, para, então, descrever detalhadamente as equações comportamentais escolhidas para cada modelo. Por último, realizamos análise e conclusões com base em dois experimentos. O primeiro é a implementação completa do JG em um mesmo período, e o segundo choque consiste na implementação em fases do programa.

(17)

CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO JOB GUARANTEE

Nos últimos 25 anos, um grupo de autores6 trabalha na formulação de uma

proposta de política pública que tem como objetivo central implementar um programa para a geração de emprego para todos que desejam e estejam dispostos e aptos a trabalhar. Essa política pública recebeu diversos nomes no decorrer dos anos;

Employer of last Resort (ELR), Job Guarantee (JG) e, o mais recente, Public Service Employment (PSE)7. As críticas8 estimularam o refinamento da proposta - e do corpo

teórico que suporta o programa - ao apontarem pontos importantes e carentes de esclarecimento e desenvolvimento. Por exemplo, os mecanismos de financiamento do programa, a organização prática e os impactos mais concretos da implementação do JG sobre variáveis macroeconômicas, como o nível de preços.

Em razão desse longo período dedicado à formulação do programa há uma vasta literatura sobre o tema. Podemos identificar uma primeira fase na literatura focada no desenvolvimento da base teórica que suporta o programa, respondendo críticas, examinando precedentes históricos e estudos de experiências parecidas em alguns países (Murray e Forstater, 2013). Atualmente, podemos identificar uma segunda fase de desenvolvimento da proposta; as publicações passaram a tratar de aspectos mais práticos do JG, descrevendo questões referentes ao funcionamento e organização, valor do salário a ser pago e o tipo de emprego que a proposta criaria para a economia dos Estados Unidos da América (EUA).

Este capítulo tem como objetivo apresentar uma visão geral sobre a literatura produzida. Para tal, está dividido em duas partes. A primeira busca revisar a trajetória da literatura, sumarizando as principais contribuições, desde sua origem nos trabalhos de Minsky durante as décadas de 60 e 70 até a conexão da proposta com a Modern

Money Theory (MMT). A segunda baseia-se, essencialmente, em dois trabalhos

recentes e mais completos sobre a proposta; Wray et al (2018) e Tcherneva (2018). Assim, conseguimos esclarecer as características atuais do programa e relacioná-las com os modelos SFC desenvolvidos no próximo capítulo.

6 Notadamente, Randall Wray, Pavlina Tcherneva, Scott Fullwiller, Stephanie Kelton, Fadhel Kebob, Matthew Forstater, William Mitchell, Jan Kregel.

7 Wray et al (2018).

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1.1 O QUE UMA POLÍTICA ECONÔMICA CONSEGUE CUMPRIR?

A crise financeira global (CFG), iniciada em 2007, suscitou um debate acerca da aderência da teoria mainstream à realidade econômica daquele momento. Evidenciou, também, os desafios teóricos (na ciência econômica) e políticos que a sociedade necessita enfrentar. Por sua vez, uma parte do trabalho de Hyman P. Minsky ganhou um novo reconhecimento no círculo econômico e no debate público, por tratar de temas relacionados à instabilidade financeira. Suas ideias sobre o combate à pobreza e manutenção de pleno emprego, contudo, não receberam tanto reconhecimento.

O conjunto de trabalhos iniciais9 de Minsky que associam emprego e redução

da pobreza está concentrado na década de 60 e início da década de 70, portanto, durante o auge de crescimento econômico dos EUA no pós-guerra. Mesmo nesse ambiente de crescimento, com estímulo à demanda agregada, o autor notava as limitações da política pública em estimular a criação de emprego para todos e, consequentemente, combater a pobreza.

No âmbito da teoria econômica, o período pós-guerra foi caracterizado por uma revolução intelectual do pensamento econômico10. Além disso, esse período -

conhecido como a “Golden Age” do capitalismo norte americano - foi também o período no qual as políticas econômicas identificadas como sendo de cunho “keynesiano” predominaram.

Essas políticas “keynesianas”, com objetivos de promover o pleno emprego, dependiam de um ambiente favorável de estímulo ao investimento privado. Incentivos, como crédito fiscal para investimento, foram práticas comuns da estratégia de investimento do período pós-guerra (Tobin,1966, apud Wray, 2013). Minsky sumarizou essas estratégias de investimento em duas:

a) estratégias fundamentadas na ideia de que o problema do desemprego está no trabalhador, devendo, portanto, ser resolvido com ações focadas no treinamento e educação formal dos desempregados;

9 Posteriormente, trabalhos retomaram a proposta do Employer of Last Resort, como é o caso de sua principal obra, Stabilizing na Unstable Economy, de 1986.

10“Something happened to economics in the decade of the 1950s that is little appreciated by most

economists and even by professional historians of economic thought: the subject went through an intellectual revolution as profound in its impact as the so-called “Keynesian Revolution” of pre-war years”

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b) as políticas de estímulo à demanda agregada (pump priming) pelo governo para fomentar os gastos do setor privado, especialmente, gastos com investimento (Wray, 2013).

Em relação às políticas do tipo a) Minsky enfatizou: “The war against poverty

must not depend solely, or even primarily, upon changing people, but it must be directed toward changing the system” (1965 [2013], p.1)11. A frase realça a postura do

autor em relação a natureza do desemprego. Não é simplesmente um problema de baixa “atratividade” do trabalhador para o setor privado. Ou seja, a maior qualificação do indivíduo desempregado não garante o surgimento de uma vaga de emprego. Políticas de treinamento somente criam uma oportunidade melhor para o indivíduo nas vagas existentes12.

À medida que Minsky aprofundava sua argumentação sobre o desemprego, o papel governamental mostra-se mais claramente. “To achieve and sustain tight labor

markets13 in the United States requires bolder, more imaginative, and more

consistent use of expansionary monetary and fiscal policy to create jobs than we have witnessed to date” (Minsky,1965 [2013], p.1, grifo próprio). No texto o autor entra em

detalhes sobre uma proposta de criação de empregos pelo governo federal. A título de exemplo, o primeiro ponto de debate é o abandono do padrão ouro: “[...] we

continue to try to live with gold standard, expansionary monetary policy is not available as a weapon to achieve tight full employment.” (Minsky,1965 [2013], p.18). Logo, o

pleno emprego deve ser o objetivo final da política pública. Nos anos seguintes Minsky aprofunda sua proposta para obter e manter o pleno emprego na economia dos EUA.

No artigo de 1968 o autor destaca a importância do empregador de última instância para a distribuição de renda. O programa tem como objetivo diminuir as diferenças das rendas derivadas do trabalho nos EUA. Minsky utiliza o caso dos trabalhadores das zonas rurais para ilustrar o impacto e alcance de uma política pública nos moldes do empregador de última instância. “Although we currently view

11 A guerra contra pobreza a qual o autor se refere é a política pública de combate à pobreza do governo do presidente Lyndon B. Johnson (1964). O combate a pobreza baseava-se em programas de treinamento e educação. (Wray, 2013, p. xi).

12 Não significa que Minsky seja contra programas de qualificação. “Once tight full employment is

achieved, the second step is to generate programs to upgrade workers. I am afraid that in the poverty campaign we have taken the second step without the first, and perhaps this is analogous to the great error-producing sin of infielders – throwing the ball before you have it” (Minsky, 1965 [2013], p.25).

13 “Tight full employment exists when over a broad cross-section of occupations, industries, and

locations, employers, at going wages and salaries, would prefer to employ more workers than in fact do” (Minsky, 1965[2013], p.3).

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the crisis in income distribution as centering around the urban ghettos, much of poverty is rural. An employer of last resort, willing and able to hire all who offer to work, will have a large impact on the poorer rural areas” (1968 [2013], p.40). O final do texto

ressalta a importância de continuar estudando a proposta e os impactos na população. Porém, o objetivo principal da política econômica proposta é claro:

“[…]it is to take the labor force as it is and make sure that fitting jobs are available. Instead of the demand for the low-wage worker trickling down from the demand for the high-wage worker, such a policy should result in increments of demand for present high-wage workers “bubbling up” from the demand for low-wage workers” (1968 [2013], p.40).

Para mais, Minsky questionou a ênfase dada pela visão convencional do período ao investimento privado na determinação da taxa de crescimento do produto e na capacidade de atingir o pleno emprego. “Underlying the emphasis upon private

investment as the preferred way to achieve full employment is the view that economic growth is desirable, and that the growth rate is determined by the pace of the private investment” (Minsky,1973, p.97). No entanto, a estratégia de estímulo ao investimento

privado não seria desejável pois não seria capaz de obter e, principalmente, manter o pleno emprego.

Em um trabalho de 1973, Minsky esclarece sua posição sobre as estratégias focadas no investimento privado e exprime mais claramente a conexão entre as suas principais agendas de pesquisa, a hipótese de instabilidade financeira (HIF) e as políticas públicas para a criação de emprego.

O autor observa quatro falhas na estratégia de estímulo do investimento privado. Primeiramente, o potencial de estimular relações financeiras frágeis. Ao dar incentivos fiscais para as empresas, por exemplo, a confiança dos empresários aumenta e ao mesmo tempo as margens de segurança ao tomar empréstimos diminuem. Essa dinâmica pode estimular um boom de investimentos financiados por dívidas e, consequentemente, diminuir a estabilidade do sistema financeiro. Em segundo lugar, a estratégia de investimento privado aumenta a participação do capital no total da renda, agravando a desigualdade entre os trabalhadores e os setores que têm capital para investir. Terceiro ponto, pode criar o potencial para um processo inflacionário de demanda. Por fim, aquece a demanda por, primeiramente, trabalhadores de maior qualificação que consequentemente ganham maiores salários,

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aumentando assim a desigualdade de renda dentro da força de trabalho (Minsky, 1973; Wray, 2013).

Em oposição a uma política pública voltada para o estímulo do investimento privado, Minsky sugere um programa de emprego público, o que significa uma reordenação significativa de prioridades das políticas públicas. Uma política de criação de emprego pelo Estado deveria acomodar as capacidades que os desempregados apresentam. Os indivíduos seriam contratados por um salário mínimo nacional, afetando diretamente a distribuição de renda ao determinar um piso efetivo de salário nominal. Esses trabalhadores seriam melhor utilizados em atividades que são intensivas em trabalho, como manutenção de parques e estruturas públicas. As áreas, bairros e grupos populacionais mais afetados pelo desemprego seriam os grupos que justamente receberiam a maior proporção do produto produzido por esse programa (Minsky,1973).

As políticas de estímulo à demanda agregada utilizando-se do investimento privado têm um grande respaldo dentro da literatura heterodoxa. Todavia, para Minsky, as políticas públicas deveriam ter como principal objetivo a criação e manutenção de empregos. Dessa maneira, a política tem, em suas palavras, um efeito

“bubbling up”. Uma política direcionada para criação de empregos opera primeiramente na estabilização de renda e criação de empregos para os trabalhadores

que estão na menor faixa de renda (Tcherneva, 2011).

Entendemos que a exposição das ideias do autor seguidas de sucessivas citações torna-se um pouco exaustiva. Contudo, esse tipo de apresentação nos ajuda a entender a origem da proposta de criação de empregos. O título dessa subseção torna-se mais claro quando entendemos que para o autor o principal problema da pobreza e distribuição de renda encontra-se no desemprego. Portanto, o papel da política pública é o de combater o desemprego. O Employer of Last Resort (ELR) parte, então, do diagnóstico do autor de que os problemas da nossa economia residem na insuficiência do sistema econômico em prover – e manter- emprego com uma

renda digna para todos, mesmo quando o governo utiliza políticas de estímulo ao

investimento privado.

Um grupo de pesquisadores pós keynesianos resgatou a conexão entre as linhas de pesquisa de Minsky e se voltou a temas ligados à consistência teórica e a viabilidade empírica da implementação de um programa JG, em sistemas monetários

(22)

soberanos14 (Wray 1998; Tcherneva 2003, 2008, 2018; Kelton 2018; etc). Essa

vertente pós keynesiana ficou conhecida como Modern Money Theory (MMT), em decorrência do título de sua obra fundadora15. A próxima subseção tem o intuito de

esclarecer as bases teóricas que fundamentam o JG.

1.1.2 Conexão entre a MMT e o JG

Podemos identificar duas dimensões da MMT, uma relacionada ao corpo teórico e outra dimensão propositiva (JG). A base teórica da MMT consiste de uma aglutinação de importantes contribuições no âmbito da teoria pós keynesiana, sendo as principais delas (além da própria endogeneidade da moeda) a abordagem chartalista da moeda, estabelecida, inicialmente, por Georg Friedrich Knapp, em sua obra “The State Theory of Money” [1905 (1924)]16 e compatível com trabalhos de

Mitchell Innes (1913 ,1914); as finanças funcionais de Abba Lerner (1943); a perspectiva de Minsky (1986) sobre o funcionamento do sistema bancário e financeiro e, por fim, a abordagem de balanço setorial de Godley (1996) (Fullwiller, Kelton & Wray, 2012). Valendo-se das contribuições desses autores, a MMT criou um corpo teórico coerente e com uma perspectiva sobre a política macroeconômica, especialmente o nexo entre política fiscal e monetária, bem como suas limitações e consequências, a partir de um entendimento alternativo sobre a natureza da moeda17.

A teoria chartalista da moeda - em contraste com a visão de que a moeda deriva seu valor do material do qual é feita18 - destaca que a moeda é uma relação de dívida/

crédito e que a moeda é uma criatura do Estado. Sendo assim, o Estado possui a prerrogativa de escolher a moeda de conta da economia, impor obrigações

14 Kregel (2009) ao tratar sobre o JG define de maneira direta o que é moeda soberana para a literatura MMT. A seguir a frase: “This is a programme that is designed for a single country, on the condition that

it is subject to monetary sovereignty, i.e., the government taxes in and produces its own currency, without setting an external value of the currency” (2009, p.8, grifo próprio).

15 Podemos, com segurança, afirmar que Understanding Modern Money, publicado por Wray, em 1998, é a obra que inaugura a MMT.

16 Knapp cunhou o termo moeda chartal para expor a ideia de que o valor da moeda não está ligado ao material de sua confecção, mas, à aceitação do Estado no pagamento de tributos. Keynes, em “Treatise

on Money” aceitou, explicitamente, a abordagem chartalista.

17 “[…] the Chartalist view of money, if fully understood, would lead to a very different view of appropriate

monetary and fiscal policy goals.” (Wray, 1998, p. 19).

18 Segundo Tcherneva “Orthodox theories fail to differentiate the money of account from the empirical

object that serves as money, leading to several irresolvable conundrums of monetary theory” (2006,

(23)

recíprocas (impostos, tributos, multas e taxas) denominadas na sua própria moeda de conta e ser o único emissor da moeda que é aceita como forma de pagamento dessas obrigações (Wray, 2015).

É a partir dessa perspectiva chartalista que Keynes expõe, em seu Treatise on

Money, a sua visão sobre a moeda:

Thus the age of money had succeeded to the age of barter as soon as men had adopted a money of account. And the age of chartalist or State money was reached when the State claimed the right to declare what thing should answer as money to the current money of account – when it claimed the right not only to enforce the dictionary but also to write the dictionary. To-day all civilized money is, beyond the possibility of dispute, chartalist (KEYNES,

1930, p.4).

Tal qual Georg Friedrich Knapp, Keynes apresenta sua concepção de dinheiro como instituição peculiar, em que a relação entre crédito e dívida é crucial para compreender a dinâmica da economia capitalista. Além disso, a concepção chartalista é de uma moeda guiada pelos impostos, como revela Keynes ao dizer que “Knapp

accepts as ' money '—rightly, I think—anything which the State undertakes to accept at its pay-offices, whether or not it is declared legal tender between citizens (1930[1971]: 6).” Ou seja, moeda é um monopólio público. E no âmago desse

monopólio está o papel dos impostos como meio de validar a moeda criada pelo Estado. Minsky, tal qual Keynes, também reconhecia o papel dos impostos como criador de demanda pela moeda do Estado, como fica claro ao dizer que “[…] the need

to pay taxes means that people work and produce in order to get that in which taxes can be paid” (Minsky, 1986, p.258). Em outras palavras, há uma precedência lógica

dos gastos do governo sobre os tributos.

Abba Lerner (1943), a partir da abordagem chartalista, desenvolveu as leis de finanças funcionais. Segundo o autor, a política econômica deve ter uma função clara - alcançar e manter a prosperidade econômica - e deve ser entendida a partir do efeito que exerce sobre a manutenção do nível de pleno emprego e controle do nível de preços (Lerner, 1943, p.38). Nas palavras do autor “[…] principle of judging only by

effects has been applied in many other fields of human activity, [...]. The principle of judging fiscal measures by the way they work or function in the economy we may call Functional Finance” (1943, p.39). Logo, devemos entender as políticas

macroeconômicas a partir do efeito que exercem sobre a manutenção do nível de pleno emprego e controle do nível de preços. “[…] Functional Finance rejects

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completely the traditional doctrines of "sound finance" and the principle of trying to balance the budget over a solar year or any other arbitrary period” (Lerner, 1943, p.41).

Portanto, podemos entender que proposição do JG como uma política de gasto governamental direcionado para geração e manutenção de pleno emprego,

priorizando sua função social para a economia sobre a dinâmica da dívida pública.

Uma grande parte da contribuição da MMT para a literatura pós keynesiana consiste, portanto, no resgate de ideias que já estavam presentes no início do século XX em autores como Keynes e Lerner, mas que haviam sido relegadas ao segundo plano (ou até mesmo completamente esquecidas) pelo pensamento pós keynesiano. Talvez a contribuição original mais importante da MMT tenha sido o estudo detalhado da coordenação das operações entre o Tesouro e o Banco Central (Wray, 2015, p.2). Do ponto de vista operacional, a realização de gastos do governo implica em reservas bancárias creditadas nas contas que bancos comerciais mantêm no Banco Central, ao passo que a tributação significa redução dessas reservas. Quando o governo realiza deficit (superavit), há aumento (redução) da quantidade de reservas disponíveis no mercado interbancário, consequentemente, pressionando para baixo (cima) a taxa de juros do overnight (Wray, 1998, p. 75; Forstater & Mosler, 2005, p. 538-539; Bell, 2000, p. 603). Assim, o impacto esperado pelo resultado das contas do governo é distinto do estabelecido pela teoria convencional e por parte dos economistas pós keynesianos, que esperam uma elevação da taxa de juro de curto prazo como reflexo de deficits orçamentários do governo.

O esclarecimento do funcionamento das operações do governo ao realizar um gasto em conjunto com as contribuições teóricas de diversos autores heterodoxos possibilitou à MMT explorar de maneira mais contundente os limites das políticas fiscal e monetárias no sistema econômico. Logo, o JG é fruto da ruptura dos autores com o pensamento econômico que domina a condução das políticas econômicas nos últimos anos.

1.2 O JG NO SÉCULO XXI

Segundo a MMT, as considerações teóricas sobre o espaço de política fiscal de uma economia são válidas para todos os países de moeda soberana. O JG, por sua vez, exige considerações mais especificas sobre a institucionalidade de cada

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país. Atualmente, os esforços da literatura estão focados no desenvolvimento do JG para a economia do EUA19. Nosso trabalho não tem como intuito discutir o programa

em uma institucionalidade específica, portanto, vamos nos limitar a listar somente as suas características mais gerais. A título de curiosidade, segundo as simulações para a economia do EUA, a implementação de um programa JG com um salário de 15 dólares a hora mais um pacote de benefícios, geraria um aumento na criação de empregos no setor privado em torno de 4,2 milhões de vagas em relação ao cenário

baseline (cenário da simulação sem a implementação do JG).

O JG é um programa que tem como objetivo principal criar empregos, com um salário decente, para todos indivíduos que desejam e possam trabalhar (Tcherneva 2018, Wray, 2013, Wray et al 2018) A implementação do JG levaria, portanto, a economia para o “verdadeiro” pleno emprego. Nessa literatura, o pleno emprego é definido como uma situação na qual qualquer pessoa em idade legal para trabalhar, que queira e possa, é capaz de obter um trabalho remunerado com condições de trabalho decentes. Essa definição ampla inclui não somente os novos entrantes no mercado de trabalho, como os desempregados que não são computados nas estatísticas oficiais e indivíduos que estão em situações precárias de trabalho (Tcherneva, 2018).

Além do objetivo central, Tcherneva (2018) elenca objetivos adicionais do JG, dentre os quais estão os principais:

• Servir a um propósito público.

• Estabelecer um salário mínimo efetivo para a economia como um todo.

• Operar como um “buffer stock de emprego” para a estabilização dos ciclos de negócios

• Aumentar a estabilidade de preços utilizando-se dos mecanismos do buffer

stock e do salário mínimo.

• Ser utilizado como instrumento para enfrentar outros problemas sociais, como o meio ambiente, falta de creches e asilos, etc.

19 O relatório publicado, em abril de 2018, pelo Levy Economics Institute of Bard College , “Public service

employment a path to full employment” detalha as características de um programa do tipo JG para a

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Para atingir esses objetivos, o JG possui algumas características que o diferenciam de qualquer outra proposição de política de geração de empregos. A primeira é o pagamento de um salário mínimo, que é ajustado de acordo com as condições de vida do país, a todos os indivíduos aptos e dispostos a trabalhar. A contratação ocorre independentemente das características dos trabalhadores, como qualificação, experiência no mercado de trabalho, gênero, cor e crenças. Ademais, o salário estabelecido no JG fica abaixo do salário de mercado, pago pelo setor produtivo privado, evitando, assim, que o programa concorra com as firmas pela obtenção de força de trabalho necessária à atividade produtiva. A escolha do salário do programa, portanto, é essencial, pois ao mesmo que não deve pressionar os salários de mercado, deve garantir que os empregadores tenham que pagar salários dignos sob o risco de não conseguirem contratar a força de trabalho que necessitam.

O trabalho contratado poderia, a princípio, exercer uma grande variedade de funções, inclusive a reforma de parte da infraestrutura do país. Contudo, como atualmente na maioria dos países os grandes projetos de infraestrutura envolvem contratos do governo com grandes empresas privadas, o JG não seria utilizado para a realização de grandes projetos de infraestrutura20. Nesse sentido, os modelos

construídos e apresentados no capítulo 2 não contemplam a possibilidade de utilização da força de trabalho para realizar obras de infraestrutura.

A MMT recomenda que o programa deve entrar no orçamento do governo central (países com moeda soberana sempre são capazes de financiar o programa), mas centralizar a administração do programa na esfera federal. Ao contrário, seria desejável que a administração do programa fosse local, pois, assim, é possível direcionar a criação de empregos para os desempregados de cada comunidade e ao mesmo tempo suprir necessidades especificas de cada região.

Outro atributo importante é que o programa não pretende eliminar outros programas sociais já existentes, pois serviria apenas como uma alternativa para aquela parcela da população que deseja e possa trabalhar. Para os demais indivíduos, que não se encaixam nessa situação e, ao mesmo tempo, não conseguem obter meios de sobrevivência, os programas de transferência de renda seriam mantidos. Vale ressaltar, porém, que é possível que as transferências tenham papel reduzido se

20 O programa de empregos públicos do New Deal (o WPA), por exemplo, foi responsável por um avanço da infraestrutura da economia americana.

(27)

os efeitos positivos do JG se concretizarem. Programas de qualificação e educação também seriam parte das opções dos trabalhadores participantes do JG, fornecendo aos interessados uma maior chance de contratação no setor produtivo privado. Os participantes do programa não são especiais, logo, estariam sujeitos a todas as leis trabalhistas nacionais e o não cumprimento da lei, em um primeiro momento, levaria à retirada do trabalhador do programa. O trabalhador teria mais duas chances de adequar-se as normas do programa, a terceira infração levaria ao desligamento permanente do indivíduo do JG (Tcherneva, 2018, Wray, 2013, Wray et al, 2018).

Os efeitos positivos do pleno emprego extrapolam a variação do produto ou outras variáveis macroeconômicas mensuráveis. Apesar da pouca atenção recebida, os benefícios sociais e psicológicos associados ao emprego são reportados na área da psicologia, nos permitindo esperar uma generalização desses benefícios no caso de um programa da proporção do JG. Entre tais benefícios, temos a mitigação da pobreza, redução de problemas de saúde, de abuso de álcool e drogas, além de menor incidência de suicídio. A exposição ao desemprego pode afetar o bem-estar psicológico, a autoestima e a eficiência cognitiva dos indivíduos, dificultando o retorno ao mercado de trabalho. Com o JG, tais efeitos poderiam ser evitados, facilitando o

retorno dos trabalhadores ao setor produtivo privado (Wray, 2007; Darity & Goldsmith,

1996)21.

Por fim, o programa seria um estabilizador automático do ciclo econômico. Em momentos de crescimento econômico, o setor privado recruta trabalhadores do JG, reduzindo os gastos do governo com a manutenção do programa e, consequentemente, reduz o estímulo à demanda agregada. Por outro lado, em momentos de crise, o JG acolhe os indivíduos que perderam seus empregos e possibilita a manutenção das habilidades adquiridas no trabalho, ampliando os gastos do governo com o pagamento dos salários. O aumento de gastos do governo estimula a demanda agregada e alenta a economia em recuperação. Assim, as flutuações do nível de atividade econômica tornam-se menores devido à característica de estabilizador automático do JG. Enquanto existem outros estabilizadores automáticos já em funcionamento na maioria absoluta das economias, como o próprio orçamento

21 Estamos apresentando somente um breve argumento sobre a relação entre desemprego e problemas psicológicos e sociais. Consideramos que essas relações, claramente, necessitam de uma pesquisa mais extensa para serem abordadas de maneira compreensível.

(28)

do governo federal, o JG teria capacidade de estabilização adicional relevante, devido ao grande tamanho do programa (Wray, 2013; Wray et al ,2018).

Procuramos reunir as principais características do JG que nos guiaram na construção de modelos SFC que incorporem o programa em uma economia hipotética. Com essas características em mente, apresentamos no capítulo a seguir dois modelos SFC e os resultados da implementação do JG na trajetória econômica.

(29)

CAPÍTULO 2. UM MODELO STOCK-FLOW CONSISTENT COM EMPREGO PÚBLICO

O capítulo anterior apresentou as principais considerações teóricas que amparam a proposta de criação de empregos públicos. Ademais, resumiu as características do JG em seu estágio atual de desenvolvimento. Os aspectos teóricos do programa já foram amplamente debatidos pelos autores da proposta assim como pelos críticos. Todavia, a exploração do JG em modelos macroeconômicos dinâmicos parece ser uma agenda de pesquisa ainda pouco avançada. Antes de apresentarmos as características do nosso modelo SFC, vamos realizar um breve levantamento sobre a incorporação de uma política nos moldes do JG em modelos de simulação macroeconômicos.

2.1 O JG EM MODELOS DE SIMULAÇÃO

Os aspectos teóricos do programa (JG) já foram amplamente debatidos pelos autores da proposta assim como pelos críticos. Todavia, a exploração do JG em modelos macroeconômicos dinâmicos parece ser uma agenda de pesquisa ainda pouco avançada. Encontramos três modelos macroeconômicos que se propuseram a modelar uma política econômica nos termos do JG. Cada modelo utilizou-se de uma metodologia distinta. Godin (2012) utiliza-se de um modelo SFC, Fullwiler (2018;2013) do modelo Fair e Murray (2013), um modelo do tipo matriz de insumo-produto de Leontief. A despeito das diferentes metodologias os três modelos apresentam resultados semelhantes no que diz respeito ao estímulo positivo do JG no crescimento econômico.

O tema que orienta o trabalho de Godin é a diminuição da emissão de monóxido de carbono na economia. Portanto, o JG é modelado para a criar empregos voltados para a diminuição do consumo de energia dentro do modelo e, consequentemente, diminuir a emissão de gases poluentes.

A estrutura da economia modelada é bastante complexa. Três setores industriais são introduzidos, com o intuito de registrar a interdependência na

(30)

precificação22. A configuração inicial do modelo consiste em três setores produtivos,

dois setores famílias (os trabalhadores e os capitalistas), um setor bancário e o setor governamental. Antes da implementação do programa no modelo a parcela de agentes não empregada no setor privado recebe uma espécie de seguro desemprego, uma transferência no valor de aproximadamente 11 dólares.

A introdução de um “JG verde” na economia não altera muito o modelo. A única diferença em relação a configuração inicial é a de que com o JG os trabalhadores desempregados não recebem mais o seguro desemprego, pois, estão empregados pelo Estado recebendo um salário mínimo no valor de aproximadamente 20 dólares por hora (Godin, 2012, p.19). O principal impacto da adição do JG está na diminuição do consumo de energia pelos setores governamental e famílias. Os trabalhadores contratados pelo JG realizam trabalhos que aumentam a eficiência do consumo de energia do governo e do setor das famílias. A inclusão do impacto do JG no consumo de energia faz com que o modelo não retorne para o estado estacionário.

Os resultados das simulações apontam que em um primeiro momento a adição do JG aumenta a taxa de emprego do setor privado. Esse efeito ocorre devido ao fato de o JG aumentar também a renda de setores famílias. O aumento de renda dos setores famílias faz com que o consumo de bens aumente, o que acarreta um aumento do investimento e, por conseguinte, aumenta a demanda por trabalhadores. A combinação desses efeitos faz com que do produto da economia aumente.

Como é esperado de uma política de aumento de gastos do governo, após a implementação do JG é observado, no curto prazo, um crescimento no nível da dívida pública. Contudo, alguns efeitos positivos do JG na economia atuam no sentido de diminuir essa relação após a assimilação do choque na economia. Por exemplo, a medida que o setor produtivo privado é estimulado a demanda por trabalhadores desse setor aumenta, o que significa diminuição de trabalhadores no JG.

. As conclusões derivadas da simulação, portanto, são que o JG é uma maneira direta para acabar com o desemprego involuntário e combater a pobreza. Como trata-se de um JG verde, a implementação do programa diminui o consumo dos trata-setores beneficiados pelos trabalhadores do JG (governo e famílias). Por fim, os custos

22“Godley and Lavoie (2007), often have only one production sector justify this assumption for the sake

of simplicity. Lee (1998) criticizes this choice, pointing out the lack of pricing interdependencies. This critique does not apply to our model since we will be able to observe some pricing interdependence as the three productive sectors are using output of other industries as input for their own production” (Godin,

(31)

agregados do JG devem diminuir à medida que o programa estimula a demanda agregada por intermédio do aumento de renda, que acarreta no aumento do consumo (Godin, 2012, p.21).

Por fim, o segundo choque do modelo é baseado no debate sobre a diferença do impacto do JG na economia em comparação com um efeito keynesiano “tradicional” de estímulo de demanda agregada (GDA)23. Para possibilitar essa análise

é necessário desligar o impacto do JG na diminuição de energia.

A política de GDA modelada consiste no aumento do gasto do governo no total de 6%. Os resultados da simulação registram que o impacto do GDA no PIB é maior do que o impacto do JG (Godin, 2012, p.22). Esse resultado era esperado, uma vez que, no modelo do Godin o JG não afeta diretamente o produto.

A relação dívida/PIB no choque de GDA é inferior em relação ao nível anterior ao choque. E a taxa de emprego privada aumenta mais no choque de GDA do que com a implementação do JG. Por último, o segundo experimento revelou um ponto interessante a respeito da dinâmica da renda e da riqueza nos setores famílias. A renda e riqueza aumentam mais com o JG do que com o GDA.

O modelo proposto por Murray (2013) tem o intuito de estudar os desdobramentos da implementação do JG no setor produtivo privado e nos consumidores. Para tal, o autor elabora uma economia hipotética fechada que consiste em três grupos participantes: capitalistas (setor produtivo), trabalhadores e o governo. O grupo capitalista consiste em cinco setores produtivos. O nível de preços é constante no modelo.

Primeiramente, uma simulação sem o programa e, consequentemente, sem o governo é feita para estabelecer o cenário baseline. Nessa configuração inicial, tanto a população assim como a produtividade crescem à uma taxa exógena. Sendo que, a produtividade é utilizada como uma proxy para avanços tecnológicos. Segundo a simulação, uma economia com essas características não é capaz de manter o pleno emprego.

O JG é adicionado no modelo com a introdução do setor governamental e do setor JG na matriz de insumo-produto do modelo base. O setor JG não utiliza nenhum insumo intermediário e necessita apenas de força de trabalho para produzir (Murray, 2013, p.113). Em outras palavras, o JG produz apenas serviços e utiliza-se apenas

(32)

de um único fator de produção, a força de trabalho. Um elemento interessante do modelo desenvolvido por Murray é de que o valor do salário pago pelo JG é idêntico ao salário pago pelo setor produtivo privado24.

Como trata-se de um modelo do tipo insumo-produto existe mais de um setor produtivo, sendo assim, o impacto do JG pode variar entre os setores produtivos. O objetivo dessa seção não é elucidar os detalhes da metodologia de insumo-produto, portanto, não vamos reportar os resultados referentes a cada setor.

No agregado, a adição do JG no modelo tem um efeito positivo sobre o consumo. O aumento de consumo faz com que ocorra um aumento na demanda por insumos produtivos. O que acarreta um aumento na produção e na demanda por trabalhadores. O setor privado, portanto, contrata trabalhadores empregados no JG, o que significa um aumento na taxa de emprego do setor privado. Por intermédio do efeito multiplicado, o produto aumenta. Nesse modelo o impacto do JG no produto ocorre apenas de maneira indireta, mediante o aumento do consumo.

O modelo elaborado por Fullwiler (2018;2013) é o mais completo e complexo entre os três modelos analisados nessa seção. Primeiramente, o modelo Fair é uma representação da economia do EUA. Portanto, as simulações de Fullwiler estão beseadas no comportamento de uma economia real. Sendo assim, surgem análises que não estavam presentes nos dois modelos anteriores sobre o valor do salário e números absolutos de empregados pelo programa.

A simulação do modelo Fair com o JG permite visualizar mais claramente os efeitos contracíclicos do JG na economia. Momentos de menor relação do deficit/PIB no modelo coincidem com os momentos de expansão da economia. Por exemplo, no final da expansão dos anos 90 a relação deficit/PIB do modelo encontra-se em seus menores patamares, assim como o total de gastos com o JG (Fullwiler, 2013). O JG nesse modelo também impacta positivamente no crescimento do produto em relação a trajetória sem o JG. Além disso, o modelo de Fullwiler é capaz de medir os impactos inflacionários do JG na economia. O efeito inflacionário do JG na economia é muito moderado. O programa parece causar apenas um efeito único no momento da implementação.

Independentemente da metodologia utilizada e da maneira como o programa está modelado, os três modelos examinados apresentaram resultados consistentes

(33)

com os benefícios e custos elencados pela literatura sobre o JG. Para mais, os modelos de Godin (2012) e Murray (2013) registram apenas o efeito indireto do JG no produto. O que significa que as estimativas sobre os efeitos do JG no crescimento do produto são conservadoras. Uma vez que, na realidade, a implementação de um programa como o JG estimularia multiplicadores tanto do lado da demanda como da oferta (Murray, 2013).

Os modelos SFC elaborados na próxima seção apresentam algumas características dos três modelos expostos anteriormente. Procuramos avançar na elaboração de um modelo de simulação com JG ao incorporar o impacto direto do programa no PIB, também, focamos nossa análise no papel do JG para o crescimento econômico25.

2.2 A METODOLOGIA SFC

Os trabalhos de Wynne Godley e James Tobin, no último quarto do século XX26,

são pioneiros na metodologia SFC. Em particular, a corrente de modelos desenvolvidos a partir das contribuições de Godley ganhou respaldo crescente na literatura heterodoxa27.

No artigo de 1996, que traz as primeiras análises de experimentos de simulação com um modelo totalmente integrado (Lavoie & Zezza, p.4, 2012), Godley destacou a relevância do trabalho de Tobin para o desenvolvimento da sua linha de pesquisa com modelos de simulação. Contudo, no mesmo artigo, o autor distingue seu trabalho no que consiste à teoria que fundamenta o comportamento dos agentes no modelo. Mais precisamente, Godley critica o tratamento dado à moeda e ao crédito na teoria

mainstream e propõe-se a construir um modelo que, apesar das simplificações,

representa uma economia monetária mais realista.

25 A MMT e, consequentemente, o JG não tratam do tema do crescimento econômico. O ponto principal do JG é mitigar a pobreza, o crescimento econômico – caso ocorra – seria uma consequência e não o objetivo principal da política econômica.

26 Caverzasi e Godin (2014) apresentam uma extensa análise dos pilares do estudo do movimento dos fluxos e estoques monetários, identificando trabalhos desde o início do século XX.

27 “A radically different macro-economic tradition does exist although this is largely, for the time being,

ignored. The names which come first to (my) mind are Wicksell, D.H.Robertson, Keynes (when not writing the General Theory), Kaldor, Graziani and Hicks, particularly Hicks (1989) as well as a large number of authors in the post-Keynesian tradition (e.g. Chick, Davidson, Sheila Dow, Wray, Minsky and Moore) (Godley,1996,p.2).

(34)

Na tabela 2.1 procuramos sumarizar alguns dos trabalhos fundamentais para o progresso da metodologia SFC.

Tabela 2.1: Principais contribuições para os modelos SFC

A despeito de Tobin ter contribuído para fundamentar elementos importantes da metodologia SFC, é no trabalho de Godley que podemos identificar uma assimilação da teoria pós keynesiana na construção de modelos de simulação, como ressaltou o autor: “the real world is characterised by a huge and complex structure of

interdependent institutions […]. I do not accept that these institutions are "veils" with nothing more to do than passively sponsor or facilitate the optimising aspirations of individual agents; […]” (1996, p.3). Portanto, podemos entender os modelos SFC

fundamentados na abordagem iniciada por Godley como uma tentativa de reproduzir, pelo menos parcialmente, a complexidade do sistema econômico real. O modelo apresentado nesse capítulo procura seguir essa tradição e incorporar uma linha de pesquisa do pensamento pós keynesiano ainda pouco debatido no âmbito de um modelo SFC, a política socioeconômica de garantia de emprego para todos pelo Estado29.

O capítulo 1 do presente trabalho trouxe uma revisão da literatura sobre o JG, sumarizando as bases teóricas que sustentam a proposta assim como um detalhamento dos elementos que a compõem atualmente. Nesse capítulo elaboramos dois modelos SFC, para explorar os impactos do JG no sistema econômico, buscando

28 Caverzasi e Godin (2014, p.161).

29 Vamos nos referir a essa política como Job Guarantee (JG).

Trabalhos Principais contribuições

Tobin (1980 e 1982)

Estabelece métodos que ainda são utilizados na literatura SFC como, por exemplo, as matrizes de contabilidade28

e a formalização da escolha de ativos.

Godley (1993 e 1996)

Incorpora o arcabouço pós keynesiano na fundamentação das equações comportamentais do modelo.

Godley e Lavoie (2007)

O livro tornou-se referência (enciclopédia) para a construção de modelos SFC atuais.

(35)

reproduzir alguns dos elementos descritos sobre o JG no capítulo anterior. A diferença entre os dois modelos reside na maneira pela qual o JG entra na economia. No modelo 1 os impactos da implementação do programa na economia são registrados apenas pelo intermédio do aumento do consumo no setor produtivo privado. Portanto, na estrutura contábil, o JG é descrito como uma transferência, ainda que na concepção do programa esses trabalhadores estão sendo contratados para prestar serviços para o governo e a população. O modelo 2 é elaborado para que o JG tenha um impacto

direto sobre o produto. Com o intuito de ressaltar as consequências da criação de

empregos no produto e a diferença entre JG e uma mera transferência de renda. Um elemento curioso dos modelos SFC é que normalmente o setor governamental não contrata trabalhadores30. O papel do governo restringe-se

basicamente à três funções: comprar bens/serviços das firmas, determinar a taxa de juros de curto prazo (Banco Central) e cobrar impostos do setor privado. Logo, os modelos 1 e 2 ampliam um pouco o papel do setor governamental.

Na próxima subseção apresentamos a estrutura contábil dos dois modelos e as equações comportamentais escolhidas.

2.2.1 Estrutura Contábil do Modelo 1

No centro dos modelos SFC estão duas matrizes contábeis; a matriz de balanço patrimonial dos setores institucionais e a matriz de transações e fluxo de fundos da economia. As tabelas 2.2 e 2.3 representam, respectivamente, as matrizes do nosso modelo. A matriz de balanço patrimonial registra os estoques de ativos e passivos dos setores institucionais e, por sua vez, a matriz de transações e fluxo de fundos registra as variações dos fluxos monetários e as mudanças nas variáveis de estoque, durante o período determinado, causadas por esses fluxos (Nikiforos e Zezza, 2017).

O modelo simula uma economia de crédito puro, fechada e sem inflação31 que

contém cinco seguintes setores: famílias 1, contratadas pelo setor de produção;

famílias 2, que trabalham no programa do governo; firmas, que são o setor de

30 Por exemplo, em Godley e Lavoie (2007a) nenhum dos modelos apresentados inclui contratação de trabalhadores pelo setor governamental. No modelo DSZ (2008), construído para ser um benchmark para os modelos SFC o governo apenas compra bens das firmas, cobra impostos e remunera os títulos públicos.

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