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Capítulo 2 – Detalhamento e análise dos processos: as questões

2.5 Iolanda e o regramento interno da Casa das Meias

Entre os poucos processos do gênero feminino como reclamante, está o da jovem trabalhadora, chamada Iolanda Pereira Monquelatte, que demandou contra a Casa das Meias (casa comercial) através do processo 352 de 25/02/1945 onde ela era reclamante (empregada) e Abud, o reclamado (empregador).

Iolanda tinha 17 anos, era moradora da Vila Castilhos, e procurou a Justiça do Trabalho acompanhada por seu irmão Ariovaldo, sapateiro.

Ela trabalhou nessa loja de novembro de 1942 a março de 1945, ou seja, desde os 14 anos de idade. Trabalhou 2 anos, 4 meses e 22 dias gozou apenas um período de férias.

No dia 31 de março de 1945 foi despedida sem aviso prévio. Seus pedidos foram: Indenização por despedida injusta Cr$ 260,00, aviso prévio de Cr$130,00 e pagamento de 15 dias de salário pelas férias não gozadas Cr$

65,00 num total de Cr$ 455,00. Iolanda apresentou no processo um atestado de 3 de abril referente a 28 de março de 1945.

A reclamante foi indagada pelo procurador da reclamada:

Por que não apresentou justificação da falta? Que faltou ao serviço por motivo de moléstia e que foi despedida porque o patrão queria que a declarante assinasse documento afirmando ter faltado ao serviço sem motivo justificado. Se não tinha atestado médico para apresentar ao empregador?Que tinha e estava nos autos (processo 352/45).

Em sua defesa o empregador alegou que Iolanda havia descumprido o regulamento interno da loja ao faltar o serviço e não apresentar o atestado e se recusando a assinar o documento declarando que descumprira o regimento.

Sobre a legalidade do regulamento interno nas empresas, Mesquita (1991, p. 268) especifica que não havia na legislação na década de 1940 um dispositivo sobre a permissão ou a proibição de regulamentos da própria empresa. Atribuiu o pouco uso destes ao fato da legislação trabalhista ser minuciosa e que se complementaria através dos usos e costumes do ambiente laboral, sem a necessidade da expressão escrita.

Portanto, desde que não ferisse as determinações legais e fosse conhecido por todos os empregados, seriam válidas as determinações e as sanções impostas por um regimento interno elaborado pelo empregador.

Figura 04 Imagem do processo nº 352/45 do acervo NDH-UFPel

Como observado no regulamento interno da loja se a trabalhadora faltasse ao serviço, sem motivo justificado ou atestado médico, na primeira vez seria suspensa por 5 dias e na segunda vez seria demitida.

Os vogais da Junta de Conciliação e Julgamento (que são os juízes não togados representantes dos empregadores e dos empregados) decidiram pela procedência dos seus pedidos, dando razão à Iolanda, mas o presidente da Junta, que é um juiz bacharel, acatou a tese da defesa de abandono de emprego alegada pelo empregador. “O presidente diz que a única prova foi o testemunho e que este disse ter a reclamante sido repreendida pelo patrão e ter abandonado o emprego por mais de 30 dias”. O mais não passando de puras alegações e votando pela improcedência dos pedidos.

No entanto, mesmo com o voto discordante do juiz presidente da Junta, o resultado final foi pela procedência da reclamação, condenando o empregador ao pagamento dos Cr$455,00 em 10 de setembro de 1946.

Desconheço as razões de fundo que levaram Iolanda a buscar o arbítrio da Justiça, se por motivação pessoal ou alertada do fundamento jurídico de seu pedido. No entanto, ela possuía o atestado médico, que foi juntado nos autos, disso adveio a sua recusa, segundo ela, em assinar o documento, para o empregador, que lhe atribuiria uma falta não justificada.

O regramento interno evidenciava a ausência de incentivo e somente obrigações e punições. A utilização não está desprovida de aspectos legais, é um regramento cuja punição aos atrasos e ou ausências pode ser amparado pelo artigo 482 que trata da desídia36.

Também há um comando do empregador sobre uma situação, no mínimo curiosa, de proibição no vestuário das empregadas que é a de não poder trabalhar sem meias. Talvez essa determinação fosse relacionada com a

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O empregado labora com desídia no desempenho de suas funções quando o faz com negligência, preguiça, má vontade, displicência, desleixo, indolência, omissão, desatenção, indiferença, desinteresse, relaxamento. A desídia pode também ser considerada um conjunto de pequenas faltas, que mostram a omissão do empregado no serviço, desde que sob a forma de advertência verbal. A configuração se dará com a última falta. Ver MARTINS, 2010, p. 379- 380.

importância das trabalhadoras valorizarem, para os clientes, os produtos comercializados pela loja.

Com o objetivo de compreender melhor a sociedade na época dos processos pesquisados encontrei uma consideração sobre a postura das mulheres trabalhadoras no jornal A Alvorada de 6 de março de 1948:

A sociedade moderna coopera grandemente para a maior facilidade de agir dos mocinhos bonitos e pelintras: a simplicidade do traje da mulher, a exposição da metade do corpo nu, sem meias, e

algumas de raio x (grifo meu) o longo trajeto entre o lar e o serviço

(A Alvorada, 1948, f.01).

O trecho acima foi escrito por Vargas que era secretário do jornal e no contexto de sua escrita ele fez uma relação entre o agir dos moços e as roupas das mulheres. Indicando, no meu entendimento, que havia uma provocação nesse modo de vestir e a expressão “longo trajeto” como um risco ampliado por serem trabalhadoras e andarem pelas ruas. As moças não eram só disciplinadas pelos empregadores, mas pela própria sociedade.

Foucault analisou o poder disciplinar e a utilização das regras de controle do tempo, vestimenta, mobilidade e saber para estabelecer formas de dominação, mas também considerou que havia a resistência de quem era exigido o comportamento disciplinado (2000, p.137).

Os processos que analiso demonstram além da questão disciplinar, as queixas dos empregadores sobre as atitudes imaturas, as situações de violência entre os jovens trabalhadores e o questionamento das determinações e alterações nas atividades laborais. Mas foram um caminho possível para Iolanda e outros obterem o atendimento aos seus pedidos e a garantia de alguns direitos.

Rinaldo José Varussa (2012, p. 75) analisa, em sua pesquisa, que os processos “conceberam e fizeram das vias judiciais uma possibilidade de enfrentar diferentes situações de conflito vividas nas e a partir das relações de trabalho.” Portanto, a lei pode não ser a garantia da não violação dos direitos, mas ao menos é um meio, para os trabalhadores, de tentarem resgatar as suas perdas.