Capítulo 3 – Percepções de Direito e Justiça pelos jovens
3.1 Os debates teóricos sobre Direito e Justiça
Os exercícios de poder nas relações de trabalho são perceptíveis através dos usos da hierarquia e imposição da disciplina dos empregadores sobre os trabalhadores, mas também as diferentes formas de resistência dos segundos derivam desse confronto. Entre as funções do Direito e da Justiça está o controle dessas relações.
Para Hobsbawm:
[...] os direitos, no sentido amplo de reivindicação de uma vida boa ou tolerável, não são fins em si mesmo, mas aspirações vastas que podem ser realizadas somente através de estratégias sociais complexas e mutantes, sobre as quais eles não esclarecem nada de específico (HOBSBAWM, 2000, p. 433).
43 Ius postulandi é uma locução latina que indica o direito de falar, em nome das partes, no
processo. No processo do Trabalho é o direito que a pessoa tem de estar em juízo, praticando pessoalmente todos os atos autorizados para o exercício do direito de ação, independente do patrocínio de advogado (MARTINS, 2011 p.185).
Analisando alguns depoimentos dos reclamantes pude relacionar o que foi alegado por eles com essa disposição teórica e conceitual de Eric Hobsbawm. Os jovens trabalhadores não aceitaram o modo como foram tratados pelos empregadores seja pela forma de dizer algo, pela imposição das tarefas que deveriam cumprir diferente do combinado quando da contratação ou porque colocaram a sua boa conduta em dúvida. E nessas situações não pareceram ou indicaram em suas falas que conheciam algum dispositivo legal, apenas percebiam que não poderiam ser tratados assim. Uma das raízes dos direitos, em seu caráter protetivo, está justamente no entendimento de ações que vigoravam por repetição e deixaram de ser aceitáveis.
Além disso, acrescenta a importância da institucionalização para que haja garantias nessas mudanças do que seja ou não tolerável:
Conceitos, tais como o direito de viver uma vida decente, somente podem se tornar operacionais numa sociedade construída de forma indireta, através de políticas e mudanças institucionais permanentes ( HOBSBAWM, 2000, p. 435).
Talvez fosse um pouco dessa expectativa que movesse os jovens trabalhadores ao buscar o amparo da Justiça do Trabalho. É fundamental refletir sobre as possíveis dificuldades deles em compreender os mecanismos jurídicos e a linguagem jurídica, mas é fácil supor que, ao se sentirem ultrajados ou diminuídos, buscassem uma resposta através do Judiciário.
Para Norberto Bobbio “direitos do homem são aqueles que pertencem ou deveriam pertencer, a todos os homens, ou dos quais nenhum homem pode ser despojado (2004, p.17)”. Para ele tais direitos são “caracterizados por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes, e nascidos de modo gradual, não todos de uma vez e nem de uma vez por todas (2004, p. 5)”.
Embora os direitos do trabalhador infantojuvenil no Brasil tenham sido regulamentados pelas legislações específicas, isso aconteceu em etapas, e essas determinações não estão díspares das legislações internacionais. Antonio Carlos Wolkmer, ao teorizar sobre os “novos direitos” relacionados às questões dos Direitos Humanos, considerou que o direito ao trabalho estaria enquadrado nos chamados direitos de segunda dimensão “que ensejam sua
garantia e concessão a todos os indivíduos por parte do poder público (2012, p. 22-23)”.
Nesse sentido, Wolkmer destaca a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o fortalecimento do movimento sindical internacional e a Constituição Brasileira de 1934 como instrumentos importantes para os avanços sociais. Pela Constituição Brasileira de 1934 era proibido o trabalho dos menores de 14 anos. A partir de 1937, foi atribuído ao Estado o encargo de assistir as crianças em caso de carência.
Já em 1946 foi determinada a proteção da criança desde a maternidade (Veronese, 2012, p. 52). Com essa sequência legislativa é possível observar que se enraizava o objetivo de proteção aos menores de 18 anos, numa clara sintonia aos ditames internacionais que se originaram ainda no século XIX. Mesmo considerando a existência das normas internacionais e nacionais, foi a organização dos trabalhadores que se constituiu o elemento principal para alterar a realidade do mundo do trabalho.
Como afirmou Benito Schmidt, referindo-se a um líder operário, no período pós 30, início do primeiro governo de Getúlio Vargas, “os planos do Governo Provisório concernentes às relações de trabalho não eram uma simples dádiva e sim uma resposta a décadas de lutas do movimento operário” (2004, p. 397). O trabalho infantojuvenil, junto com as reivindicações para as mulheres, constituía ponto sensível nas lutas sindicais por leis e direitos.
Irma Rizzini aborda as fragilidades dos jovens trabalhadores em Pernambuco e o descumprimento das leis, entre os anos de 1930 e 1950, quando “famílias do sertão eram recrutadas por agentes para o trabalho na dita fábrica (2015, p. 377)”. Para fortalecer o poder sobre esse grupo de trabalhadores necessitados pagavam baixos salários e desrespeitavam a proibição legal empregando os menores de 12 anos.
Ainda, segundo a autora, estabelecia-se uma relação entre os desprovidos e o trabalho obrigatório:
Em acessos de “limpeza e ordenamento social, a polícia recolhia os chamados “pivettes”- expressão datada de 1938 primeiramente no relatório de Sabóia Lima e hoje de uso corrente – e o juizado os enviava às colônias, onde seriam preparados para o trabalho agrícola ( RIZZINI, 2015, p. 380).
O quadro de dificuldades se agravava com a condição econômica das famílias o que obrigava o emprego de todos que pudessem trabalhar para suprir, minimamente, às necessidades do grupo. Ainda havia a fragilidade do poder dos pais perante a pressão da sociedade em retirar os pequenos desvalidos das ruas.
Evaristo de Moraes, por sua vez, analisou essa transformação sob o ponto de vista legal:
Foi a vida industrial moderna, com suas exigências brutais, com suas inexoráveis injustiças, que fez surgir esse corpo de doutrinas sociais econômicas que dão satisfação a umas tantas aspirações dos trabalhadores e que devem ser traduzidas em leis (MORAES, 1971, p. 24-25)
Quando a industrialização se ampliou no país os jovens trabalhadores também não usufruíam da mesma força de organização dos trabalhadores adultos através dos sindicatos, acabando por constituírem mão de obra pior remunerada e com menor poder de luta.
O empresariado emprega menores de idade devido à sua condição de explorado: o fato de se submeterem a baixos salários e regime disciplinar rigoroso, de não usufruírem de proteção e/ou benefícios, de não possuírem capacidade organizacional e reivindicatória, o que os tornam empregados com muitas obrigações e poucos direitos, e por não contar com a defesa das instituições de classe, como os sindicatos (RIZZINI, 2015, p. 388).
Nesse ponto percebi a falta de amparo sindical aos jovens trabalhadores nos processos de Pelotas como uma ausência importante no fortalecimento das reivindicações dos pesquisados.
Josiane Petry Veronese (2012) discutindo a questão da cidadania, que foi regulada pós 1930, aponta que haveria a vinculação desta cidadania com o reconhecimento da ocupação profissional pelo Estado. Dessa forma, eram excluídos os que tinham as ocupações e profissões não reconhecidas por lei, que não eram sindicalizados e não podiam ter o registro em carteira. Essa situação acabava alijando as camadas mais pobres da população das garantias trabalhistas (2012, p. 26).
Em vários processos não havia a identificação da profissão exercida pelos jovens, nem tampouco qualquer referência a registro da carteira de menor ou de filiação sindical. O não reconhecimento desses jovens trabalhadores como profissionais pode ter sido uma das razões da ausência de representação sindical nas demandas.
Para Veronese “a criança e adolescente na ótica menorista eram meros objetos de toda uma ideologia tutelar, de uma cultura que coisificava a infância” (2012, p. 50). Ela se refere à visão que foi instituída pelo Código de Menores de 1827 legislando formas repressivas, denotando a preocupação com a contenção dos menores que eram desvalidos e considerados como ameaças à sociedade.
Reforçando a análise anterior, em outra obra, Irene Rizzini e Pilotti (2009) exploram o pátrio poder e a relação da pobreza com a perda desse direito sobre os filhos. A família que fosse considerada incapacitada de manter os seus filhos poderia perdê-los para o Estado. Mesmo a despeito da proibição do trabalho pelo Código de Menores, antes dos 12 anos, muitos empregadores se aproveitavam do receio dos pais da possível perda do pátrio poder para burlar a legislação e empregar crianças ainda mais novas.
É justamente por outro viés, com a ênfase sobre a possibilidade dos jovens trabalhadores como “atores sociais”44
nos processos, no qual eles se opõem ao tratamento que lhes foi dispensado, que intento demonstrar com este capítulo. Logicamente que essa oposição e resistência enfrentam os limites legais e todo o aparato jurisdicional e estatal.
O conceito de domínio da lei percebe a esfera jurídica como campo de luta possível para os dominados, com a possibilidade de vitórias pontuais que, paradoxalmente, servem tanto para legitimar a exploração quanto para impor limites a esta. Tais capitulações serviriam aos governantes “para consolidar o poder, acentuar sua legitimidade e conter movimentos revolucionários” (THOMPSON, 1987, p. 356).
No mesmo contexto, conforme a análise de Speranza:
A complexidade do pensamento de Thompson sobre o Direito está, a meu ver, neste fio tênue que une os três aspectos apontados acima: a possibilidade de vitória pontual dos dominados no campo jurídico, a legitimação (fortalecimento) da dominação pela lei e a limitação do arbítrio dos dominantes (SPERANZA, 2014, p. 38).
Os processos que analiso demonstram “o fio tênue” nas vitórias pontuais com os julgados procedentes ou mesmo nas conciliações. Explicitam o exercício de disciplina e dominação pelos empregadores sobre os trabalhadores nas regulamentações do ambiente laboral, nas advertências e
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Expressão utilizada por Josiane Rose Petry Veronese. Ver mais em (WOLKMER, LEITE, 2012).
demissões, e denotam o arbítrio das limitações da lei, da linguagem e dos trâmites processuais.