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— (…) fim.

Aquele fim seria um dos tantos começos na vida daquela jovem pululante de cabelos mais rebeldes que sua essência. A cama gemia e reclamava das dores impingidas ao gradil, mas o êxtase era tão grande que dificilmente a pequena jovem daria ouvidos aos gritos dos seres animados ou inanimados. E, naquele quarto, cujas paredes rachadas deduravam que fora branco, verde, rosa e agora azul, ela dizia:

— Quando crescer, vou ser igual à Branca de Neve! — vestindo um pijama tão rasgado que o tempo tivera dó de estragar o resto, berrava a frase com ênfase.

— Filha, a verdadeira heroína dessa história é a bruxa, não a princesa. Ela estava o tempo todo tentando alertar do verdadeiro perigo. — a mãe passa a mão no ombro da filha para deitá-la na cama.

Meio ressabiada com a fala da mãe, meio sonolenta, a menina se afoga nos sonhos com o único pensamento de que o bem sempre vence o mal, uma verdade insofismável.

A menina era uma mãe zelosa com as bonecas, tão cuidadosa que sacrificou as férias trabalhando por um real a semana para comprar panelas e um fogão com o escopo de alimentar as filhas. Uma introdução dos pais ao capitalismo combinada com o sacrifício que apenas uma mãe de verdade faria pelas filhas de mentira.

Assistia novelas, filmes de romance, desenhos e ouvia histórias de

creme. Seu marido seria lindo, teria uma Ferrari e uma mansão na França.

Conforme os anos foram passando, percebera que não tinha o corpo de uma princesa, a altura de uma princesa, o cabelo de uma princesa, nem a cor de uma princesa. Escondia-se do mundo com um capuz, todavia, apesar do pega-pega com o espelho, não conseguia se esconder.

Depois do cansaço ter vencido a degradação, resolveu sorrir.

Sorriu porque um dia sentou com a genética em uma mesa de bar. Entre um copo de cerveja e outro, a genética silabava que renegar a beleza dada, é ter vergonha da origem. Amava tanto a origem que não via mais sentido em não se amar. E, depois de muita leitura e tropeços, percebeu que o grande objetivo da maioria dos filmes e meios similares é a infelicidade das pessoas.

Se um indivíduo é feliz, não precisa ser etiquetado ou curar sentimentos de forma paliativa por meio de compras desnecessárias.

Nossa economia precisa girar e a infelicidade é a grande moeda do sistema.

Decidiu que a própria infelicidade não seria fonte de lucro, em um protesto silencioso, resolveu ser feliz.

Entretanto, ainda procurava um príncipe.

Nas andanças, escolheu o futuro rei da monarquia. Um príncipe com All Star preto: alto, moreno, forte e com um sorriso, um sorriso… No começo, promessas, odes, sonhos e desejos. Contudo, com o tempo, o príncipe começou a se importar com a classe social dela, a achar que era burra demais para estudar no mesmo lugar que ele, passava dias sem ligar e além de roubar o coração da moça, no meio do caminho, o príncipe resolver levar também o seu dinheiro e dignidade. Mas, na cabeça dela, ele era o príncipe, se o encantador rapaz não tivesse bradado que queria romper por estar gorda e não ter os parafusos no lugar, talvez, até hoje, acharia que ele era o príncipe.

Passou por vários príncipes que viraram sapos, trasgos, medusas, íncubos, os quais, por um tempo, conseguiram transformá-la em um monstro trancafiado na torre da amargura e indiferença.

Distante de todos, até dela mesma.

Brigando com os problemas e aflições amorosas, um dia encontrou uma outra princesa dos tempos de escola, a qual estava na fila para ingressar na grande carruagem metálica, apelidada carinhosamente de ônibus. Na cabeça, vieram as lembranças empoeiradas da colega de classe, uma das garotas rotuladas como “popular”. Lembrava daquela moça de curvas atraentes e riso fácil, cujos cabelos balançavam pra lá e pra cá no ritmo da vontade do vento. De repente, a mulher, que não mais se assemelha com aquela garota, vira para cumprimentá-la, o rosto não só está desgastado pelo tempo, mas arroxeado. O sorriso, antes tão branco, estava incompleto e desgastado. O corpo antes tão jovial tornou-se um pergaminho dos maus tratos, naquele momento, contou que estava fugindo para tentar viver.

A colega, agora de curvas cansadas, era a introdução ao apodrecimento do mundo.

E depois dessa princesa, outras princesas contaram o que acontecia depois do fim do conto de fadas: tapas no rosto, socos (algumas voltavam recorrentemente na esperança de ser “só esta vez”), estupros, tentativas de suicídio, passadas de mão (no ônibus, na rua, seja criativo(a) em imaginar os lugares), abuso de professores, chefes, colegas de trabalho, desrespeitos psicológicos, nomes pejorativos por praticar a mesma conduta que o sexo oposto, fotos expostas para o público e todas na espera constante para saber quem será a próxima a entrar na estatística do extermínio de uma princesa a cada duas horas.

Hoje em dia, a menina do começo da história é uma mulher de cabelos comportados e um pouco brancos, minguada e acrimoniosa, vive e ouve o que a

carinho, tenta ensinar que o melhor amor é o próprio e envenena as princesas com a maçã da verdade.

Mas a verdade distorce tanto nossas verdades que é mais reconfortante acreditar na mentira.

A mentira, tanto na ficção quanto no mundo real, só é descoberta no final da história.

E o final de um conto de fadas, pode ser o fim de uma vida.

A mulher experiente, injustamente apelidada como bruxa, apenas deseja que as princesas sejam rainhas do próprio destino.

Criação

Ivanildo Antonio dos Santos Pessôa