As casas seguiam o traçado da rua no terreno plano, sem variações. A longa parede descascada de ora porta, ora janela, em intervalos precisos, se misturava às roseiras que cresciam em frente a cada uma das casas para florescerem na mesma estação.
Não era primavera. A rua se alongava como um deserto de paralelepípedos sob derramadas pétalas, jogando no ar o cheiro de todas as manhãs. Ao sair, voltei os olhos para a casa, examinando a pintura destratada, decaída como as roseiras fustigadas pelo verão. Ao correr o olhar pela borda da rua, naquele corredor geminado, pude rever no final uma única saída de emergência como se quisesse esquecer da numeração linear das portas e do desenho da calçada ladrilhada cruzando cada janela, cada passo dado. Logo eu que empunhara bandeiras por diferentes esquinas, gritando meus motivos, combatendo digressões, suportando a ardência dos vergões na alma, agora ali, naquele beco sem saída, condenado a viver toda a vida com aquelas mesmas pessoas e torturado pelas longas paredes que se fechavam para comprimir o ar de meus pulmões. Por um momento, retive a atenção na fachada das casas como visão do espólio de minha guerra terminada: a paz e o silêncio conquistados para sempre ao lado daquelas pessoas que nada me diziam. Mas permaneciam todas ali, convivendo a minha volta, espelhando o meu retrato.
Guardava admiração pela família dos Ramos, filhos educados, ambos cursando faculdade, os pais trabalhavam o dia inteiro e cultivavam uma púrpura vida familiar. Passeavam sempre de mãos dadas, os semblantes lívidos, o caminhar discreto. A roseira defronte a casa deles era a mais bem cuidada da rua e a primeira a florescer todos os anos, espinhando inveja nos demais moradores.
Os Ramos eram a família que qualquer pessoa, até mesmo eu, sempre sonhava ter.
Em frente ao mar de rosas dos Ramos morava o Alcides, funcionário público, o cabelo alinhado, a barba impecavelmente aparada, o passo firme marcando o cloque-cloque do solado de couro sobre o basalto da calçada. Alcides
estar dormindo. A voz desafinada, vivamente irritante, apagada. Acendi o rosto com um lampejo de que talvez pudesse estar apagada para sempre. Há algum tempo não a via pela rua com suas perguntas insistentes sobre a família cada vez que eu retornava do trabalho. E no que isso poderia interessá-la? Ela já deveria saber: minha família estava sempre bem. A resposta só podia ser a mesma, sem floreios.
A vizinha da casa ao lado era a melhor amiga de Dona Zena na rua. O destino sabe colocar algumas pessoas na mesma calçada. A mulher de maquiagem rebocada, o corpo encurvado pela altura e pelo dorso pesado, tinha nome desconhecido na vizinhança já que, à boca miúda, era chamada de a louca do quarenta e cinco. Saía todas as manhãs com o seu chapéu de palha trançada, fizesse chuva ou sol, e sua sacola de um transparente desbotado à procura de uma feira qualquer na cidade. Na volta, ao cruzar com as crianças que brincavam no meio da rua, a louca mostrava um frasco de vidro escuro a sacolejar entre as mãos e se deliciava com os gritos dos pequenos enquanto ameaçava abri-lo para liberar o monstrinho ali aprisionado. A partir daí, descambava um corre-corre entre a criançada, deleitando a misteriosa mulher que, sorrindo, seguia apreciando o camuflado frasco.
Estranho mesmo foi perceber que a janela da casa trinta e seis já estava aberta. O morador, um jovem de poucas palavras, não era quase visto na rua. A roseira que ocupava sua calçada formava um disforme emaranhado de galhos mortos. A luz do sol quase não alcançava a úmida fachada, colorida de um verde musgoso que destoava das demais casas. Pude perceber uma sombra no fundo da janela entreaberta, decerto o mesmo vulto que Dona Zena afirmava avistar algumas noites cruzando rapidamente a rua até entrar em casa. Detive-me ali ao constatar que a sombra parecia disparar mudas pancadas contra a cabeça, estremunhando em aparentes soluços de raiva como se resfolegasse de um grande susto. Resolvi aproximar-me da abertura na intenção de desvendar a cena, mas fui prontamente impedido pelo brusco fechar da janela. Monstro moral! O que me levava a pensar que poderia ajudá-lo invadindo sua privacidade? E não teria ele o direito de cuidar da própria vida? Voltei-me para o fim da rua, que já estava próximo, e segui caminho.
Foi na saída, ou entrada, já que a rua na verdade terminava em si mesma, que encontrei a última casa, ou primeira, em mudança. Os novos moradores descarregavam móveis e pesados caixotes, trazendo nos rostos a ansiedade anônima do novo lar, sem que ninguém os ajudasse ou importunasse.
Libertos, soltos, estranhamente à vontade naquela rua desconhecida, por vezes até liberavam gargalhadas como se rissem de todos, como se todos não pudessem rir.
Eu sabia que depois de cruzar a frente dessa casa poderia encontrar o mar novamente e lembrar de quando ainda era o único morador da rua, sem casas ao redor para me roubarem o horizonte. Aqueles que agora ali chegavam, descarregando suas novas vidas para dentro de casa, teriam para si essa visão privilegiada sem sequer saberem que a esposa do Ramos mantinha um caso com o vizinho da frente, o Alcides, nem que a louca do quarenta e cinco só enlouqueceu de fato depois que a sua suposta amiga, Dona Zena, passou a lhe chantagear, ameaçando contar à família sobre o seu envolvimento amoroso com o neto, o jovem do trinta e seis, e aquela, num ato de insensatez, resolveu exibir num vidro a todos os da rua, como mostrengo de sua vergonha, a genitália morta do neto, mas também eles não saberiam, nem saberão, que tudo isso durará pouco, um tempo menor do que a vinda do dia em que lhes roubarão sem piedade o mar dos olhos, tão rápido e imperceptível que nem chegará a doer depois que a bomba amarrada à roseira de minha casa, programada para daqui a alguns minutos, lançar a rua inteira para os ares, porque é fácil soterrar tudo isso quando acabamos um mundo, ou quando o mundo acaba em nós.