Além dos Navios Mineiros, a Força Naval do Nordeste-FNNE ordenou que o Cruzador Rio Grande do Sul também se dirigisse à costa sergipana. Quem chegou primeiro à região do naufrágio do Baependi foram os aviões de guerra, que sobrevoaram a área marítima, mas os seus pilotos comunicaram às suas autoridades não terem descoberto nada, a não ser uma larga mancha de óleo e a movimentação de um navio e de um veleiro nas proximidades da foz do Rio Real. A Força Aérea Brasileira (FAB), então, enviou mais um avião para Aracaju, a pedido do Ministro de Guerra, a fim de resgatar os náufragos militares e recolher informações mais precisas das agressões. Então, às 11 horas da manhã do dia 17 de agosto, o Major José Maria de Morais e Barros – do Estado Maior Regional - embarcou no avião da FAB com o intuito de cumprir tal missão.
Ao chegar à capital sergipana, o Major Morais e Barros percebeu que a tragédia naval era maior do que se imaginava, então rapidamente tratou de emitir às 15 horas um novo telegrama para a 7ª Região Militar, onde constavam outros navios torpedeados. Eis o seu conteúdo:
K 23 ARACAJU SE 45848/51 – 179 – 15 H URGENTE RESERVADO GEN. CMT 7ª R. M. RECIFE PE AGUARDO TRIPULANTES E POSSIVELMENTE AINDA REGRESSAREMOS HOJE PT TORPEDEADO COSTA SERGIPE PRÓXIMO SÃO CRISTÓVÃO ANÍBAL BENÉVOLO SOSBRANDO NÁUFRAGOS RECOLHIDOS ESTÂNCIA (PT) ENCONTRADO BALEEIRA NR 4 ARARAQUARA COM 4 NAUFRAGOS (PT) MORAIS E BARROS MAJ. E.M. 7ª R. M. 214
Diante dessas novidades devastadoras, resolveu-se embarcar imediatamente de volta ao Recife/PE, onde os feridos receberiam um atendimento médico-hospitalar especializado e seriam ouvidos sobre os torpedeamentos navais. Às 17 horas do dia 17 de agosto, o referido avião pousou no Campo do Ibura conduzindo de regresso o Major Morais e Barros, que acompanhou os náufragos militares do Baependi: o Capitão Lauro Reis, o Tenente José Joel Marcos, um civil, dois sargentos e um soldado. Eles foram conduzidos ao Hospital Militar, pois se encontravam extremamente abalados emocionalmente e alguns com graves escoriações pelo corpo.
Através dos depoimentos recolhidos pelo major, percebeu-se uma situação de extrema dramaticidade: o ataque surpresa do submarino e o afundamento rápido do navio após o impacto de dois torpedos. Os náufragos calcularam em cerca de três minutos o intervalo de tempo entre o primeiro impacto e o afundamento do navio.
214 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren].
Ficou também apurado que o Baependi navegava sem uma certa previsão de segurança no caso de um sinistro: 1 - Não houve sequer exercícios de salvamento durante a viagem. Nem foram colocadas na posição devida as baleeiras do navio; 2 - O Comandante do navio, não encarava a hipótese de ser atacado neste trecho costeiro do Brasil.
A barra de Estância se tornou o lugar das histórias navais no tempo da Segunda Guerra Mundial. A área do município se localiza na região litorânea, ao extremo sul de Sergipe. A sede, por sua vez, situa-se ao sudoeste do território municipal, na confluência entre os rios Piauitinga e Piauí. Daí, tornando-se navegável até o Oceano Atlântico. Em 4 de maio de 1848, foi elevada à categoria de cidade, desmembrando-se de Santa Luzia do Itanhi. Nos tempos coloniais, as atividades navais e a criação de gado vacum ajudaram no desenvolvimento da povoação. Desde 1848 até o século XX, então cidade de Estância, registrou um crescente progresso econômico, com novos investimentos215 na citricultura, no comércio de varejo e na indústria têxtil e de energia.
A cidade de Estância, nos anos de 1940, contava com um singelo atracadouro chamado de Porto de Areia. A intensa movimentação de saveiros, de canoas e de outros pequenos barcos exigia a presença de um agente naval da Marinha do Brasil para ordenar as atividades náuticas. Foi justamente este agente naval que comunicou à Capitania dos Portos de Sergipe, por volta das 20h10min, a chegada de 29 náufragos na cidade de Estância, no dia 16 de agosto de 1942. O Capitão de Corveta, Gentil Homem de Menezes216, informou o sinistro à Diretoria da Marinha Mercante e ao Lloyd Brasileiro, tendo este providenciado a condução dos náufragos.
Na medida em que a tragédia se tornava mais compreensível, a referida autoridade naval pôde tomar as providências em caráter de urgência. 1 – Comunicou-se com os representantes da Capitania dos Portos de Alagoas, Bahia e Pernambuco; 2 – Requisitou a presença de navios de guerra para socorrer os náufragos à deriva e fazer frente aos agressores; 3 – Relatou sobre o sinistro ao Estado Maior da Armada, no dia 16 de agosto de 1942.
De forma brutal, os submarinistas inimigos solaparam a liberdade de navegação na costa de Sergipe, o Capitão Gentil Homem de Menezes logo determinou à Agência da Capitania dos Portos de Alagoas, em Penedo, que sustasse a saída do navio Apodi, com
215 ESTÂNCIA In: ENCICLOPÉDIA dos municípios brasileiros. Sergipe e Alagoas. Rio de Janeiro: IBGE. XIX Volume. 1959.
216 O baiano Gentil Homem Joaquim de Menezes nasceu na cidade de Valença, em 18 de agosto de 1903. Filho de Hermenegildo José de Menezes e Herondina Paiva Menezes. Entre 1920 (praça de aspirante) a 1960 (contra-almirante post-mortem), assumiu várias funções na Marinha de Guerra do Brasil. No tempo dos torpedeamentos navais era Capitão dos Portos do Estado de Sergipe, por ter prestado importantes trabalhos costeiros ali, foi condecorado com a Medalha de Serviços de Guerra (Duas Estrelas) e promovido a Capitão dos Portos do Estado do Rio de Janeiro. Faleceu em 8 de julho de 1960.
viagem marcada para o Porto de Aracaju. Estava apto para zarpar aguardando águas do Rio São Francisco. Graças à agilidade de suas ações, o referido capitão conseguiu preservar as vidas dos passageiros e tripulantes do Apodi.
Enquanto a autoridade marítima se preocupava com a movimentação naval ao norte de Sergipe, ao sul, o prefeito de Estância, Arquibaldo Silveira, junto às elites locais e populares, tomou medidas urgentes, como por exemplo: enviar diligências às praias; encontrar casas para abrigar os náufragos; hospitalizar os casos mais graves; sepultar os cadáveres nos cemitérios da região. O esforço dos estancianos ganhou o reconhecimento do interventor federal Augusto Maynard Gomes, que os felicitou: ―prestaram serviços patrióticos e humanitários serviços aos náufragos nos angustiosos instantes que passaram as vítimas da estúpida agressão do vandalismo totalitário‖.217
No dia 17 de agosto, sentindo-se mais revigoradas, um comboio de automóveis levou os náufragos para a cidade de Aracaju. As vítimas do Baependi, que eram militares, receberam um tratamento diferenciado, pois foram convocados a prestar esclarecimentos sobre o sinistro e a embarcar imediatamente no avião da FAB com destino à cidade do Recife, em Pernambuco.
Voltando ao depoimento do náufrago Lauro Moutinho dos Reis, dois aspectos em seu testemunho foram extremamente reveladores. Em primeiro lugar quando ele afirmou que ―ao se afastar do local do naufrágio viu uma embarcação iluminada que parecia um navio, vindo do lado do mar‖.218
E continuou, ―houve intenção de se remar ao encontro desse navio, mas que devido forte vento contrário, mar grosso e péssimas condições da baleeira, sem leme e com apenas dois remos decidiu o piloto comandante da baleeira desistir e seguir para a costa‖.219
Segundo aspecto intrigante recordado por Lauro Moutinho dos Reis foi que ―durante a noite de quinze para dezesseis quando o depoente se encontrava na baleeira, quando ele e seus companheiros ouviram fortes ruídos que foram interpretados por uns como trovões e por outros como tiros de canhões‖.220
217
A ESTÂNCIA. Estância, SE, 30 de agosto de 1942.
218 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren]
219 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren]
220 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren]
Com base no cruzamento de dados documentais analisados para esta pesquisa e pela noção de tempo citado pelos náufragos, pode-se supor que o navio iluminado que foi avistado pelos náufragos era o vapor Araraquara221. Já os fortes ruídos que ouviram depois, na noite de 15 para 16 a bordo da baleeira, não vinham de trovões e nem tiros de canhões, mas talvez, das sucessivas explosões geradas pelo torpedeamento do Araraquara. Interessante perceber como este segundo ataque submarino reverberou nas vítimas do Baependi quando estas ainda estavam ao sabor das ondas, na costa de Sergipe.
3.2 ARARAQUARA ATACADO NO TRAVÉS COM ARACAJU
Figura 3 – Navio Araraquara. (ca. 1930)
Fonte: indetectável. Acervo do professor Luiz Antônio Pinto Cruz.
O Araraquara atravessou a área de naufrágio do Baependi, sem que a sua tripulação se apercebesse dos salvados e vítimas ao seu redor. O 1º Tenente de Artilharia José Joel Marcos, náufrago do Baependi, afirmou que ―viu aproximar-se do local um navio completamente
221 O navio Araraquara era armado em iate, visando a navegação de grande cabotagem. Ele pertencia à frota dos ―Ara‖ do Lloyd Nacional. Fora construído na Itália nos estaleiros de Cantiori Nevale, em Trieste e registrado na Capitania dos Portos do Rio de Janeiro em 1937, sob o número 42. Deslocava 4.871 toneladas de registro, por 2.974 líquidos, medindo 117 metros e 970 centímetros de comprimento, por 16.379 de boca, 7.440 de pontal e 5.410 de calado. Sua velocidade máxima era de 12 milhas horárias. A tripulação compunha-se de 41 homens.
iluminado, mas devido ao vento e mar muito agitado, pouco depois o perdeu de vista‖.222
Contudo, quem não o perdeu de vista foi o U-507, que seguiu a seu encalço. Antes de atacá-lo, os submarinistas alemães o estudaram por inteiro, registrando o nome, as proporções, o peso da embarcação, a nacionalidade, a rota de viagem e a velocidade. Era uma prática de identificação bastante comum no tempo da Batalha do Atlântico. Estas informações eram reunidas no diário de bordo do referido submarino alemão. Depois disso, os tripulantes se preparavam para a manobra de ataque, só esperando a posição ideal.
O Araraquara avançava sentido norte, via-se o clarão de Aracaju mais à frente. Eram 21 horas, da noite de 15 de agosto de 1942, quando se encontrava de soslaio à capital sergipana. Ele foi atingido por dois torpedos na posição de Lat 11º 53‘ S e Long 37º 22‘ W. Na medida em que a água invadia os seus compartimentos, o Araraquara começou a adernar a estibordo. Provavelmente, a luminosidade de Aracaju ao fundo contribuiu para silhuetar o Araraquara, facilitando assim, a investida militar do U-507.
Naquela situação tumultuosa, o caos se instalou a bordo. De acordo com a náufraga Alaíde Lemos Cavalcante, de repente, ―ouvimos um fortíssimo estrondo acompanhado de um tremendo abalo no vapor. Espalhava-se o pânico, a confusão. Gritos lancinantes varriam a noite escura‖.223
Não houve tempo hábil para se usar o equipamento de salvatagem, inclusive porque a maioria dos passageiros e tripulantes estava recolhida aos camarotes àquela hora.224
Em meio à escuridão reinante e como navio bastante adernado, muitos hesitaram em pular no mar. Diante da crescente inclinação, homens e mulheres desesperados se moviam a bordo engatinhando ou agarrando-se à estrutura naval. Quem insistiu em ficar ali ou nadava nas suas imediações acabou arrastado pela forte sucção da água, quando o mar tragou o Araraquara.
À superfície oceânica, o drama persistiu através dos choros e gritos de socorro. Sem nada para se segurar e boiar, a maioria dos náufragos teve o seu corpo engolido pelo mar da guerra. Os clamores das vítimas podiam ser ouvidos dentro da estrutura metálica do U-boat. Em tempo de guerra naval raramente havia espaço para cordialidade ou compaixão. Afinal, o Brasil era uma nação inimiga da Alemanha nazista.
222 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren]
223 CORREIO DE ARACAJU. Aracaju, SE, 20 de agosto de 1942.
224 GAMA, Arthur Oscar Saldanha da; MARTINS, Hélio Leôncio. A Marinha na Segunda Guerra Mundial.
História Naval Brasileira. v. Quinto. Tomo II. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha/Serviço de
O náufrago Milton Fernandes da Silva225, piloto do Araraquara, apresentou uma sucessão de episódios dramáticos. Ele avistou um pedaço da tolda do botequim que se desprendeu do navio e nadou até ele, onde subiu e ainda conseguiu recolher a bordo mais três pessoas: Eralkildes Bruno de Barros (o 3o maquinista), Esmerino S. Siqueira (moço do convés) e Oswaldo Costa (subtenente do Exército). Seguiram à mercê das ondas, sem encontrar outras pessoas a socorrer. Até que Milton teve a ideia de apanhar os restos navais na água. Colocou sobre a sua tábua o que julgava contribuir para a flutuação. E assim, recolheu: pequena prancha, cavalete, saco de farinha de trigo e balão defensa. Deste último, ele aproveitou o chicote do cabo para amarrar sobre as tábuas. A pequena prancha e o cavalete serviram de lastro, isto é, faziam peso na tábua, afundando-a, evitando que a crista das vagas as arrebentasse. Das vinte e uma horas, do dia 15, às quinze horas do dia 17 de agosto de 1942, os náufragos lutaram pela sobrevivência em mar aberto. Sempre empurrados pela corrente marítima e ventos fortes no sentido da costa de Sergipe.
O Araraquara foi torpedeado às nove horas da noite do dia quinze na altura de Aracaju, cerca de quarenta milhas; que o navio recebeu dois torpedos, o primeiro atingiu a casa de máquinas apagando a iluminação do navio e que o segundo atingiu o mesmo local, porém mais para a popa em consequência do que o navio adernou completamente submergindo de quilha para cima e girando de bombordo para boreste; que o depoente lançou-se n‘água com o colete salva-vidas pois que os barcos não puderam se desamarrar do navio; que um dos barcos apareceu com quilha para cima; que se agarrou ai outros náufragos, como o maquinista Erotildes Bruno de Barros, Tenente Osvaldo Costa e o moço de convés Esmerino Elias da Silva, o qual também enlouqueceu jogando-se na água; que os dois restando inclusive o depoente lutando com grandes dificuldades à mercê das águas vieram dar à Fazenda da Barra de Manoel Sobral, aonde foram muito bem tratados; que depois, por canoa, foram para São Cristóvão e daí para Aracaju de automóvel por providência de José Garcez Vieira, então Prefeito de Aracaju; que não viu holofote e nem o submarino atacante; porque entrava de serviço as vinte e quatro horas, despertando com o choque do primeiro torpedo, momento em que o comandante do navio passava e lhe perguntou ―o que é isso‖? Ao que o depoente respondeu: - ―navio foi torpedeado e indo a pique‖; que o Comandante acrescentou ascenda as luzes, o que não era mais possível, pois o torpedo atingira a casa de máquinas, isso ocorrendo na ponte de comando aonde fica perto o camarote do depoente; que aí houve tentativas de arriar as baleeiras não sendo possível; que depois de chegado à Aracaju soube de outros náufragos, tendo visto apenas um de nome Caetano Moreira Falcão, passageiro do navio; que não viu o primeiro comissário no momento do ataque, mas viu o segundo comissário na ponte das baleeiras acalmando os passageiros de nome Pascoal Visconti; que chegou a ver os pilotos correrem para suas baleeiras; [...]que as baleeiras estavam preparadas de víveres vários inclusive água; que entre Rio e Bahia fizeram com os passageiros um exercício de salvatagem tudo ocorrendo com presteza e ordem; que não houve pedido de socorro porque o torpedo atingiu a casa de máquinas impossibilitando de apitar; que ignora se o telegrafista pediu socorro, julgando não haver tempo para isso; que o comandante do navio era o senhor Lauro
225
Milton Fernandes da Silva com vinte e sete anos de idade, natural de Alagoas, filho de João Luís da Silva falecido e D. Amélia Fernandes da Silva, casado, marítimo.
Augusto Teixeira de Freitas, que o depoente julga haver o comandante perecido, que mais nada sabe.226
Com astúcia e improviso, os náufragos souberam criar condições navais para seguir à deriva. Cansaço, tontura e fome afetaram a estrutura mental daqueles homens. O abalo psicológico criou um clima de tensão. Um dos náufragos enlouqueceu e começou a ficar agressivo. Era o moço de convés, Esmerino S. Siqueira, que parecia desconectado com a realidade trágica circundante. Já se passavam trinta e seis horas à deriva. E o referido náufrago se lançou no mar. Tempos depois, o tenente Osvaldo Costa começou também a dar sinais de perturbação mental. O náufrago Milton recordou destes dias angustiosos no mar de Sergipe.
O moço de convés demonstrou perturbação mental, pedindo alimento aos companheiros, dizendo ter ouvido bater a campainha para o café, depois tentou agredir o tenente, o que evitamos; em seguida, desesperado de fome e sede, ele atirou-se ao mar, sendo impossível qualquer salvação. Logo após, o segundo tenente começou a demonstrar o mesmo sintoma, perguntando pelos colegas. Então, Milton indagou o seu nome e ele respondeu ser Oswaldo Costa. Tentei acalmá-lo, mas foi impossível, atirou-se n‘água. Com cuidado para não haver desequilíbrio nas poucas taboas que ainda nos restavam, agarrei-o pelas botas, conseguindo colocá-lo novamente sobre as mesmas. No entanto, poucos minutos depois, colocando-se numa atitude agressiva, dizendo que eu e meu companheiro estávamos embriagados, que ia para casa, fez-se novamente ao mar, sendo desta vez, impossível salvá-lo. Restavam agora, na taboa, somente eu e o terceiro maquinista. Assim, continuamos sempre avistando o clarão da cidade de Aracaju, para onde éramos levados.227
Com duas baixas entre os seus tripulantes, a balsa seguiu o seu trajeto ao sabor das ondas. Em seu depoimento, Milton ainda rememorou ter avistado, na madrugada do dia 16 de agosto, luzes de explosões na área de naufrágio do Araraquara. Tais explosões foram geradas, em sua opinião, pela detonação das garrafas de ar comprimido e dos tanques de óleo. Com toda certeza, nenhuma luz o animou tanto quando o clarão de Aracaju. Era terra firme à vista. Para os dois náufragos, a luz urbana representava um momento de esperança em meio a tantas desgraças. Na medida em que eles se aproximavam da Barra de Aracaju, já conseguiam perceber as casas ao longe. Contudo, as rajadas de ventos e a força da corrente os arrastaram em sentido sul, paralelo à praia. Eles flutuaram em direção à Barra de São Cristóvão, e depois, atingiram a praia de Itaporanga.
Ao clarear o dia, [...] continuamos nesta luta, até aproximadamente às 9 horas, quando avistamos uma coroa, para lá nos dirigimos. Notei que a maré enchia, e calculando que na preamar, talvez não desse pé na dita coroa do Rio Vasa-barris, e
226 BRASIL. Ministério do Exército. Inquérito Policial Militar (IPM). Torpedeamento Baependi. 6ª Região Militar. 1942. Arquivo Histórico do Ministério do Exército. Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. [Coletânea de documentos sobre os sinistros de agosto de 1942: Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará, Jacira e Hammaren]
227
SILVA, Milton Fernandes da. Relatório da Última Viagem do Navio Motor Araraquara. Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1942, p. 2.
que estando fracos, pois, há 36 horas não dormíamos, nem nos alimentávamos, convenci ao meu companheiro que não devíamos descansar e sim nadar para terra, da qual já avistávamos os coqueiros. Assim ficamos somente uns 10 minutos, a fim de refazer as forças e fizemo-nos ao mar, nadando em direção da praia de Itaporanga, aonde chegamos às 15 horas.228
Apesar de exaustos, eles conseguiram subir nos coqueiros dispersos na região itaporanguense e retiraram os seus frutos. A água de coco revigorou aqueles homens, que se