1 CRUZANDO E RESSIGNIFICANDO FRONTEIRAS: AS MIGRAÇÕES
1.3 F RONTEIRAS HISTÓRICAS E MEMÓRIA DES / CONTÍNUA : I TÁLIA E B RASIL
1.3.1 Itália e italianidade: id-entidade e (in)visibilidade
Alguns meses atrás, na Itália, foi novamente proposta uma reforma do sistema de cidadania: o número de menores de idade não considerados italianos pela lei por serem filhos de pais não italianos, embora nascidos em território nacional, está crescendo sempre mais, assim como seus pedidos por acesso a direitos de cidadão. A reforma77, que prevê uma mistura entre ius soli e ius culturae, teve êxito positivo na Câmara dois anos atrás (2015)78, enquanto no Senado ainda a mais recente votação, de 23 de dezembro de 2017, não obteve o quórum necessário para ser aprovada. Sem querer nos aprofundar na proposta de lei e nos seus avanços e suas criticidades na discussão desta narrativa, considerando que se trata mais especificamente de migrações forçadas e movimentos migratórios, consideramos interessante oferecer algumas reflexões sobre o debate para pensarmos sobre alguns aspetos do complexo panorama cultural italiano e da construção de italianidade, com o intuito de mostrar como categorias da modernidade/colonialidade estão enraizadas no pensamento ocidental, tendo em
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O adjetivo italiano “compresente” deriva do substantivo “compresenza”, que significa estar presente com outros. Decidimos traduzí-lo desta forma, pois perderíamos parte do significado, considerando que uma tradução nunca traspõe todos os sentidos, mas envolve perda.
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Cf. Italia, 2015.
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Cabe ressaltar que a primeira proposta de lei de reforma da cidadania foi feita em 1999 e algumas propostas mantiveram-se no desenho de lei de 2003, que chegou à aprovação da Câmara só em 2015, sendo também afetada pelas diversas interrupções das legislaturas italianas que obrigavam o desenho de lei a começar o procedimento novamente. Desde 2015, está esperando a aprovação no Senado. Mais informações podem se encontradas em: <https://www.internazionale.it/notizie/annalisa-camilli/2017/10/20/riforma-cittadinanza-da-
sapere>. Acesso em: 12 nov. 2017. Sobre o desenho de lei, recomendamos a leitura de: <http://www.senato.it/leg/17/BGT/Schede/Ddliter/46079.htm>. Acesso em 23 jan. 2016. O debate da sociedade civil pode ser acompanhado por meio de uma página do Facebook a favor do ius
consideração que:
National citizenship, understood both as status in law and as practice, can indeed be a mirror and a pencil for the scholar and be used as such in order to comprehend, today, notions of national identity in historical perspective. (DONATI, 2013, posição e-book 5834-5836).
Lendo o relatório do procedimento da proposta de lei em trânsito no Senado (ITALIA, 2017c), cujo objetivo é a mudança da lei de 5 de fevereiro de 1992 nº 16, entendemos que a leitura italiana de cidadania é feita na equação com a nacionalidade. De fato, a proposta da reforma da cidadania visa modificar a lei de 5 de fevereiro de 1992 nº 190, cujo artigo primeiro recita:
Art. 1
1. È cittadino per nascita:
a) il figlio di padre o di madre cittadini;
b) chi è nato nel territorio della Repubblica se entrambi i genitori sono ignoti o apolidi, ovvero se il figlio non segue la cittadinanza dei genitori secondo la legge dello Stato al quale questi appartengono.
2. È considerato cittadino per nascita il figlio di ignoti trovato nel territorio della Repubblica, se non venga provato il possesso di altra cittadinanza. (ITALIA, 1992).
A lei de 1992 continua afirmando que, para o estrangeiro poder adquirir a cidadania italiana, precisa satisfazer três normas: ter nascido na Itália; ter residido sem interrupções em território italiano até a maioridade e, até o 19º ano de idade, declarar a vontade de adquiri-la.
Donati (2013) oferece uma interessante análise da história política da cidadania italiana e do conceito de italianidade, mostrando como o conceito de italianidade é historicamente complexo, pela história da península italiana, cuja unificação política aconteceu só em 1861, com mudanças significativas ao território atualmente incluído nas fronteiras do Estado. Isso fez com que, desde a origem política da Itália, as leis de transmissão de cidadania — nessa época se falava de
sudditi italiani —, em alguns territórios, envolvesse uma combinação de ius sanguinis com alguns elementos do ius soli, enquanto em outros houvesse uma
exclusividade de ius sanguinis79. Posteriormente também, no caso dos chamados
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Por exemplo, até 1865, quando foi introduzida a legislação nacional unificada, o sistema de cidadania era diferente nos territórios dos Estados pré-unificação e naqueles onde era válido o código sabaudo que concedia a cidadania com elementos combinados de ius sanguinis e ius soli para, por exemplo, filhos de estrangeiros nascidos no reino com 10 anos de residência; em
italiani non regnicoli, ou seja, considerados italianos por uma questão de origem do
território de nascimento, que, porém, não fazia politicamente parte dele — como o Ticino, a Córsega e Malta80 —, pode-se notar como a italianidade tinha uma origem etnográfica e geográfica, fazendo com que “the national concept of italianità was being shaped in a nonhomogeneous way” (DONATI, 2013, posição e-book 580-581). A autora continua mostrando a complexidade de conceitos como cidadania e italianidade afirmando:
The fact that the provisions concerning ius soli, naturalization and loss of subjecthood, to name just a few, were applied according to geography points to an important identity issue because, under these circumstances, the interrelated notions of italiano and straniero were being fashioned in an uneven and nonhomogeneous way. In effect, since in juridical terms it looked as if there were “many national citizenship(s) and many italianità” rather than “one national citizenship and one italianità,” our case study might indeed seem sui generis, especially if analyzed from the perspective of nation-statehood. Clearly, the existence and persistence of heterogeneous and chaotic citizenship provisions was, to say the least, atypical and not advisable within a context of political union because the populations of the peninsula, divided already from the point of view of linguistic dialects, regional cultural traditions and economic-social geography, were additionally separated by invisible civic borders, making the Italians almost foreigners among themselves. This is why introduction of a national civil code, inclusive of uniform citizenship norms valid for all, was seen as an additional state instrument to start “making the Italians” and strengthening the interrelated processes of statehood and nationhood. (DONATI, 2013, posição e-book 5858-5866).
Como relata esse trecho, a italianidade como identidade nacional foi construída, desde sua origem, por meio de negociações, mudanças e adaptações ao contexto sócio-histórico, criando uma relação italiano-straniero não homogênea e complexa: os italianos, pois, se vangloriam internacionalmente da diversidade e da variedade do panorama linguístico e cultural cuja origem foi o complexo cruzamento de culturas na história de um território que se espreita no Mediterrâneo.
Feita essa importante consideração histórica, podemos voltar à lei de 1992, que, na mesma linha, fundamenta o direito à cidadania por ius sanguinis, com elementos de ius soli para os filhos de não italianos nascidos em território nacional e nele residentes até a maioridade.
A centralidade do ius sanguinis também precisa de uma pequena divagação
outros territórios, onde valia, por exemplo, o código de Parma, era aplicado exclusivamente o ius
sanguinis (DONATI, 2013, posição e-book 547-624). 80
Nesses territórios a língua italiana era ainda largamente falada, as leis eram de tipo romano e historicamente foram ocupados por alguma população da península — por exemplo, os genoveses na Córsega (DONATI, 2013).
histórica. A Itália foi, até os últimos anos, um país de emigração: o período que é conhecido na Itália como o século das grandes migrações, da metade do XIX até o começo do século XX, de 1876 até 1976, viu emigrar um número considerável de pessoas. No segundo pós-guerra emigraram 77 mil italianos para a França, 14 mil para a Alemanha, 14 mil para a Suíça, 12 mil para Alexandria, no Egito, 6 mil para a Tunísia, 500 mil para os Estados Unidos e 500 mil para a América do Sul (CROCI; STIACCINI, 2016, p. 197).
Na América Latina, entre 1876 e 1976, emigraram mais de 5 milhões de pessoas, dentre elas 1,5 milhão para o Brasil, com uma taxa de retorno de 33%. Hoje, a Itália tem uma população de 60,6 milhões, de acordo pelo ISTAT - Istituto
Nazionale di Statistica, (ISTITUTO NAZIONALE DI STATISTICA ITALIANA, 2017),
com uma geral diminuição demográfica, com queda na taxa de nascimento e da população jovem.
Outro dado interessante, e pouco divulgado, é que, de acordo com o Dossier
statistico immigrazione 2017, resulta que emigraram 102 mil italianos em 2015,
número que chegou a cerca de 120 mil em 2016, tanto que, como confirma o relatório Istituto Nazionale di Statistica - ISTAT, o número de residentes com cidadania italiana caiu para 55,6 milhões, ou seja, 189 mil a menos, com um total de quase 5 milhões de italianos no exterior regularmente inscritos no sistema de
anagrafe internacional (AIRE- Anagrafe degli Italiani Residenti all’Estero - Cadastro
dos Italianos no Exterior).
Os cidadãos estrangeiros estão estimados em cerca de 5 milhões, dentre os quais, de 2008 até 2015, 71.672 nascidos em território italiano. Entre os considerados estrangeiros, 30% são da União Europeia, enquanto os não comunitários com permissão de residência regular são quase 4 milhões. Os “novos italianos”, ou seja, aqueles que obtiveram recentemente a cidadania, foram 29 mil em 2005, 66 mil em 2010, 178 mil em 2015 e 205 mil em 2016, dos quais cerca de 38% são menores de idade (ISTITUTO NAZIONALE DI STATISTICA ITALIANA, 2017).
No que diz respeito às migrações forçadas, 10% dos vistos de residência temporários são concedidos por motivos de asilo, e 9 em cada 10 migrantes forçados são homens. O caderno estatístico sobre pedidos de refúgio mostra que, nos anos 1990, os pedidos na Itália eram entre 2 mil e 20 mil, com picos em momentos específicos, como nos anos da guerra na ex-Iugoslávia. Foi só a partir de
2014 que os números subiram para 60 mil a 80 mil pedidos, chegando a cerca de 123.600 em 2016, a maioria do continente africano. Dado pouco comentado é que as Comissões Territoriais81, responsáveis por avaliar os pedidos, denegam uma média de 53% destes (ITALIA, 2017a).
Podemos ver que o número de italianos no exterior e o número de estrangeiros na Itália é praticamente igual, além do número atual de italianos emigrantes estar em contínuo crescimento, atingindo um significativo. É interessante pensarmos, também, sobre o modo como a cidadania é concedida a descendentes de italianos em linha direta masculina e feminina após 1948, apresentando documentos que comprovem a descendência.
Todos esses dados apresentados são os mesmos usados para fundamentar o discurso de invasão, luta da civilização contra a barbárie ou extinção da raça branca, que políticos e personagens públicos usam para fomentar o medo, a insegurança e a xenofobia, escondendo-se atrás de discursos de segurança pública, falta de recursos ou perda de valores culturais, entre outros motivos. Bauman (2008, p. 9), ao tratar do medo na modernidade, define o “medo derivado” como:
Uma estrutura mental estável que pode ser mais bem descrita como o sentimento de ser suscetível ao perigo; uma sensação de insegurança (o mundo está cheio de perigos que podem se abater sobre nós a qualquer momento com algum ou nenhum aviso) e vulnerabilidade (no caso de o perigo se concretizar, haverá pouca ou nenhuma chance de fugir ou de se defender com sucesso; o pressuposto da vulnerabilidade aos perigos depende mais da falta de confiança nas defesas disponíveis do que do volume ou da natureza das ameaças reais).
A estrutura moderna se fundamenta em um medo “difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante” que permite o controle hegemônico por meio do consenso na confiança de obter segurança e invulnerabilidade (AHMED, 2000; BAUMAN, 2008). Para Bauman, a população ocidental vive obcecada pelas fronteiras, forçadamente abertas ao mercado, enquanto se apresenta aos indivíduos como uma fonte de injustiças e um motivo para perpetuar a violência (BAUMAN, 2008). Tratando de acolhimento, o presidente da Comissão para as Liberdades Civis, Justiças e Assuntos Internos (Libe) do Parlamento Europeu afirma:
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Cabe ressaltar que seja na Itália, onde nas Comissões territoriais incluem um membro da polícia, que no Brasil, onde a regulamentação é feita pela Policia Federal, as migrações são vistas como um fenomeno ligado a segurança nacional.
I migranti, chiunque essi siano, vengono sempre più percepiti come una minaccia in quanto stranieri. È la figura dell’hostes, di romana memoria, che non facendo parte della civitas viene considerato suo potenziale e attuale nemico. (ITALIA, 2017b, p. 9).
Ao analisar os relatórios dos procedimentos legislativos que tratam de reforma da cidadania (ITALIA, 2017c, p. 26)82 ou os documentos referentes ao acolhimento de migrantes, nota-se que os assuntos mais destacados são: a necessidade de repensar as fronteiras abertas, como prevê o tratado de Schengen, após os últimos atentados terroristas para prezar pela segurança dos cidadãos europeus “bene primario che le società europee sono oggi chiamate a tutelare” (ITALIA, 2017c, p. 26); a importância de preservar a identidade cultural do país e o fato da facilitação da aquisição da cidadania poder também, de acordo com alguns senadores, incentivar o aumento do fluxo migratório de extracomunitari, considerados a priori carentes de capacidades profissionais e, portanto, incapazes de participar do desenvolvimento econômico e social do país, sendo, portanto, considerados um peso para o Estado social.
l’ingresso di extracomunitari nel Paese, nonostante la crescente pressione dei flussi migratori. Peraltro, si tratta di persone che non parlano la lingua italiana e prive di qualifiche professionali, le quali perciò non sarebbero
in grado di contribuire allo sviluppo economico e sociale [e] un
notevole incremento della platea, già particolarmente consistente, di quanti - acquisita la cittadinanza italiana - avrebbero diritto alle prestazioni sociali e previdenziali. Ciò potrebbe avere effetti molto negativi sul sistema
sanitario e sul welfare. Pertanto, a suo avviso, senza modificare la
normativa vigente, sarebbe preferibile accelerare l’iter amministrativo per il riconoscimento della cittadinanza italiana a coloro che hanno maturato i
requisiti prescritti, a conclusione di un percorso di integrazione sociale, culturale e linguistica e di effettiva condivisione dei principi costituzionali. (ITALIA, 2017c, p. 26, grifos nossos).
A solução proposta é um percurso de integração social, linguístico e cultural que leve a um “efetivo” compartilhamento dos valores constitucionais como requisito para adquirir a cidadania. A pressão de novos cidadãos que poderiam levar ao colapso o sistema de welfare, sem contribuir para o desenvolvimento do país, é lida em uma chave dicotômica nós-eles, sustentando a ideia de que o progressivo desmantelamento desse desenvolvimento seja causado pelo aumento das
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A lei de reforma do sistema de obtenção da cidadania para estrangeiros, aprovada pela Câmara, propõe que a criança que nascer na Itália ou entrar em território nacional até os 12 anos, tendo frequentado 5 anos de curso no sistema de instrução nacional ou de 3 ou 4 anos em cursos profissionalizantes, possa entrar com pedido de cidadania italiana.
migrações:
Il sistema sanitario italiano non riesce a garantire un’assistenza adeguata
neanche alle famiglie italiane con basso reddito, quindi un notevole
ampliamento della platea dei beneficiari sarebbe insostenibile, mettendo a rischio la fornitura dei servizi sociali. (ITALIA, 2017c, p. 46, grifos nossos).
A importância do ius culturae é colocada, ao longo do debate, como alternativa ao multiculturalismo, que não serviu para a “efetiva” integração; a leitura do ius culturae, porém, não unívoca, no trecho a seguir salienta, novamente, a importância de um processo de integração cuja efetividade seja possível verificar, ressaltando a concessão de cima para baixo por meio de cerimônias solenes. Essa relação hierárquica é destacada pela declaração aberta de que as democracias ocidentais são mais avançadas em termos culturais — sendo a aceitação dos valores inquestionada e inegociável —, e vista novamente em termos dualísticos e excludentes, pois aceitar os valores ocidentais requer abandonar os da própria cultura, também em termos de sentimento de pertencimento, como ressalta o último trecho:
verifica di una reale adesione ai valori democratici e ai principi
costituzionali, eventualmente anche attraverso cerimonie solenni, finalizzate a enfatizzare l’importanza dell’acquisizione dello status civitatis, presupposto per l’esercizio dei diritti, ma anche per l’adempimento dei doveri. Rileva che, a volte, gli stranieri che hanno acquistato la cittadinanza in un Paese occidentale continuano ad adottare i propri modelli culturali e non accettano gli stili di vita delle democrazie più avanzate. Basti pensare ai casi di mutilazioni genitali femminili o di sottomissione della donna, fenomeni che purtroppo si registrano anche in Occidente. (ITALIA, 2017c, p. 27, grifos nossos).
appare indispensabile un profondo ripensamento, soprattutto dopo gli attentati terroristici di Parigi, compiuti da immigrati di seconda e terza
generazione, ai quali è stata riconosciuta la cittadinanza francese per ius
soli. Del resto, a suo avviso, le politiche di integrazione sono destinate al fallimento, se i destinatari delle misure volte a favorire il loro
inserimento nella società conservano in realtà i propri usi e costumi e rifiutano di adottare uno stile di vita occidentale. [e] favorendo la
concessione della cittadinanza solo agli stranieri che dimostrino di condividere i valori sociali e culturali occidentali, improntati al principio di
parità tra uomo e donna e al riconoscimento del valore della vita umana, di rispettare le leggi e le tradizioni del Paese che li accoglie e di contribuire altresì al suo sviluppo. (ITALIA, 2017c, p. 56, grifos nossos).
Inoltre, segnala l’esigenza di costruire un percorso di effettiva integrazione degli immigrati, prima ancora di ogni intervento normativo, anche attraverso l’individuazione di un patrimonio di valori e principi connessi
riconoscimento di tale diritto a individui che, invece, continuano a sentirsi
parte del loro Paese d’origine. (ITALIA, 2017c, p. 52, grifos nossos).
A partir dessas palavras, sem querer generalizar a opinião pública italiana e europeia nem afirmar que a opinião política se fundamenta unicamente nessas opiniões — pois já lendo o iter do decreto-lei é possível ver opiniões contrastantes, embora, ainda que a favor da lei, sejam baseadas em um conceito de integração unilateral e economicamente justificado —, é possível ver como a cultura é vista de forma evolutiva em uma seta linear em direção ao progresso, na qual o “Nós” está na ponta e os “Outros” estão atrás. Há um julgamento de valores a respeito das culturas (GEERTZ, 2013) com a clara afirmação da superioridade da cultura ocidental (CASTRO-GOMEZ, 2005; SAID, 2007), a qual se adaptar sem negociações, após algum tipo de verificação de valores. Nas palavras do filósofo italiano Gianni Vattimo (2006, p. 21):
For me the decline of the West signifies the dissolution of the idea that there was a unitary significance and direction to the history of mankind. In the modern tradition, this idea supplied a sort of permanent foundation of western though, which considered its own civilization as the highest degree of evolution attained by mankind in general and which, on this basis, felt itself called upon to civilize, as well to colonize, convert, and subdue, all the other peoples with whom it came in contact.
Ressalta-se que o que defendemos não é uma abertura incondicionada ao outro, mas uma percepção das próprias categorias de valores e uma abertura a algum tipo de negociação em bases igualitárias, como fica mais claro ao longo deste texto. Defender-se-á que esse processo é possível só por meio de uma saída da Europa, vista como “a regional experience, with no God-given privilege to speak for all humanity” (DENIS, 1997, p. 152); ou seja, uma percepção da Europa como geograficamente localizada permitirá uma complexificação da leitura da realidade, superando a leitura dualista e linear.
Ao contrário, como salientei nos trechos citados, a inclusão do outro, sua integração no sistema político-cultural do Nós é vista de maneira funcional para um suposto desenvolvimento econômico do país, em termos de força de trabalho, que de alguma forma compense a obra de solidariedade do reconhecimento dos direitos, como um presente de cima-Nós para baixo-Outro. Dito por outro autor, com as palavras de Castro-Gomez (2005, p. 172-177):
El contraluz que establecen los filósofos iluministas entre la barbarie de los pueblos americanos, asiáticos o africanos (“tradición”) y la civilización de los pueblos europeos (“modernidad”) no sólo provee a futuras disciplinas como la sociología y la antropología de categorías básicas de análisis; también sirve como instrumento para la consolidación de un proyecto imperial y civilizatorio (“Occidente”) que se siente llamado a imponer sobre otros pueblos sus propios valores culturales por considerarlos esencialmente superiores.
Seja no debate sobre a reforma da cidadania ou na forma de acolhida dos solicitantes de refúgio, a integração é vista como uma consequência da