• Nenhum resultado encontrado

O Estado-nação e as fronteiras da modernidade

1 CRUZANDO E RESSIGNIFICANDO FRONTEIRAS: AS MIGRAÇÕES

1.1 F RONTEIRAS : LIMITES PERFORMATIVOS CONTINGENTES

1.1.2 O Estado-nação e as fronteiras da modernidade

Como frisamos anteriormente, um aspecto importante a ser evidenciado é a ligação entre as políticas atuais para migrantes e o Estado-nacão (WIEVIORKA, 2015). Consideramos que o mito da homogeneidade do Estado-nação baseado nos três pilares — território, língua e identidade (RIZVI; LINGARD, 2010) — ainda existe. Já Nimako e Willemsen (2011) consideram o Estado-nação baseado em um patrimônio comum constituído por religião, língua e ascendência étnica. No entanto, as duas definições baseiam-se em elementos de continuidade, como se existisse uma substância invariável a ser transmitida de geração em geração (BALIBAR, 2009). Essa mesma narrativa de homogeneidade é, a nosso ver, traduzida para as fronteiras supranacionais, embora Balibar (2009, p. 193) aponte que as “(super)borders”, ou “fronteiras globais”, sofreram um processo de enfraquecimento ou fortalecimento, dependendo de quem aquele limite separa, refletindo o sistema mundial.

Como lembramos, o primeiro pilar da União Europeia é o Tratado de Amsterdã que, de um lado apresenta o território europeu como espaço de livre circulação, liberdade, segurança e justiça, mas que, por outro lado, diminuiu a segurança para refugiados e requerentes de asilo, institucionalizando o princípio de segurança do espaço europeu. Ressalta-se que a Europa está sendo chamada, por vários teóricos, de “fortaleza Europeia”72.

Para Sayad, os movimentos migratórios foram sempre analisados a partir das categorias do Estado-nação, pois:

civilizações que ela impôs seu poder inquestionável: “El eurocentrismo, por lo tanto, no es la perspectiva cognitiva de los europeos exclusivamente, o sólo de los dominantes del capitalismo mundial, sino del conjunto de los educados bajo su hegemonía” (QUIJANO, 2007a, p. 94).

72

“Fortress Europe” é um termo usado comumentemente não só entre os estudiosos da área, como também nas mídias, para realçar a dificuldade de entrar em território europeu e para lembrar os milhares de mortos em naufrágios. De grande impacto é, a nosso ver, a obra de Gabriele Del Grande (2017), um jovem diretor de cinema italiano que criou um observatório e um

blog chamado Fortress Europe, no qual é possível encontrar material sobre as migrações,

especialmente uma exaustiva revisão, a partir de 1988, de todas as vítimas das fronteiras e matérias como vídeos e fotos sobre refúgios, centros de expulsão e de acolhida, além de histórias de vida, etc. O material foi gerado em seis anos de viagens ao longo das fronteiras do Mediterrâneo. Para uma revisão histórica acadêmica dos movimentos migratórios do Setecento até agora, sugere-se a leitura de Sassen; Gregorio, 1999. Na obra, a autora mostra como esses fluxos não dependem de livre escolha individual, mas de movimentos estruturais ligados ao sistema político e econômico. Já sobre políticas migratórias europeias, recomendamos a leitura de Caviedes, 2004.

l’immigrazione costituisce il limite dello Stato nazionale, una fronteira che permette di comprendere ciò che lo stato intrinsecamente (la sua verità fondamentale), una frontiera (ontologica, si potrebbe dire) dell’essere stesso dello Stato che, per potere esistere, si è dato delle frontiere nazionali. (SAYAD, 1996, p. 10).

Refletir sobre a migração significa, portanto, refletir sobre o funcionamento do Estado em um processo de lembrança da sua gênese histórica e social com o intento de desnaturalizar seus fundamentos. Questionar a naturalização do Estado- nação significa também, de acordo com o autor, questionar as nossas categorias mentais e a nossa visão de mundo, que estão pautadas nas categorias nacionais, interiorizadas em nós, e por meio das quais pensamos as migrações. O sociólogo e filósofo, porém, ao pensar as migrações como fato universal, parece pensar o Estado-nação também como categoria universal, e não como categoria moderna/ocidental/colonial.

Para tanto, as atuais migrações requerem um olhar que saiba transbordar o Estado-nação em uma perspectiva diaspórica ou transnacional, como veremos no terceiro capítulo. Nesse sentido, as políticas baseadas no triângulo território, língua e identidade não conseguem dar as respostas necessárias a esse fenômeno, também no caso de ampliação dos confins territoriais a entidades supranacionais.

Como se podem pensar sobre pessoas em movimento em categorias fixas e essencialistas? Embora a globalização tenha enfraquecido o conceito de Estado- nação, cujas caraterísticas principais foram ou estão sendo mudadas, o mito de sua naturalidade e homogeneidade está bem longe de desaparecer (WRIGHT, 2015). Pode-se afirmar que assistimos a um movimento que visibiliza a pluralização de identidades religiosas, linguísticas e culturais, e esses encontros com as diferenças, se de um lado desestabilizam e desafiam a ideia de homogeneidade da identidade nacional, do outro provocam movimento para a manutenção da ordem, estabelecida de cima; da homogeneidade, embora imaginada, e da pureza, nunca existida.

Antes de analisar as implicações desse movimento de pluralização, acredita- se que seja importante entender o objeto em crise. Qual é o conceito de nação desafiado? Como se forma a identidade nacional?

Embora o uso da palavra “nação”, em território europeu, seja mais antigo (NAZIONE, 2008), ele se carrega de novos significados a partir do século XVIII, com os movimentos romancistas que ligam o conceito de “nação” àquele de “pátria” e

depois com o surgir dos primeiros Estados-nação, quando ao significado político e jurídico de “Estado” se ligam indissoluvelmente o elemento geográfico — o território — e o elemento étnico — a população. Esse último é visto, de acordo com a ideologia moderna do século XVIII, como socialmente, culturalmente e linguisticamente homogêneo (HOBSBAWM; RANGER, 1983).

Atualmente, o que parece ser um desafio é esse conceito moderno de Estado-nação pelo qual um determinado Estado em um determinado território corresponde uma nação que fala uma língua e compartilha uma cultura. Balibar e Wallerstein (1991) ressaltam que, dependendo da época histórica e dos contextos sociopolíticos, a percepção da correspondência dos três elementos muda. O que queremos salientar é que a criação do conceito moderno do Estado-nação, nascido sob a ideologia burguesa moderna e até então cristalizado, fundamenta a sua existência política na projeção de uma preexistente unidade “étnica” ou “popular”:

The idea of nations without a state, or nations “before” the state, is thus a contradiction in terms, because a state always is implied in the historic framework of a national formation (even if not necessarily within the limits of its territory). But this contradiction is masked by the fact that national states, whose integrity suffers from internal conflicts that threaten its survival (regional conflicts, and especially class conflicts), project beneath their political existence to a preexisting “ethnic” or “popular” unity. (BALIBAR; WALLERSTEIN, 1991, p. 331).

O que está em crise, portanto, é a ideia de homogeneidade e universalidade gerada por meio de narrativas que ajudaram a criar uma etnicidade imaginada e compartilhada, homogênea e estática. Essas narrativas da nação têm que ser entendidas no seu próprio contexto de criação: os nascentes Estados europeus do século XVIII, cujos objetivos eram fortalecer a coesão sociocultural quando dominavam os valores da burguesia, como “individualismo, igualdade, liberdade, propriedade, universalidade, contrato e tolerância” (SAVIANI, 1990, p. 174).

Diante da heterogeneidade socio-linguístico-cultural, as narrativas da nação moldaram uma uniformidade e uma universalidade ideais, fazendo-as parecerem naturais, objetivas e imutáveis. Como lembra Bruner (2003, p.6), “Common sense stoutly holds that the story form is a transparent window on reality, not a cookie cutter imposing a shape on it”.

A união natural e estática entre os elementos fundadores se sustenta na tradição vista por Eric Hobsbawm e Terence Ranger (1983) como o conjunto de

regras e rituais com conteúdo simbólico que, pela repetição, inculcam determinados valores e normas. Essa repetição ritual narrativa produz e reproduz a identidade da nação, a identidade dos seus habitantes e a realidade na qual essas personagens agem. De acordo com Jerome Bruner (2003), as narrativas - sejam histórias, mitos ou contos - além de nunca serem inocentes, moldam a interpretação dos fatos, criando a realidade do mundo no qual vivemos e as identidades de seus habitantes.

Compartilhar histórias e narrativas, portanto, além de fortalecer a coesão cultural, cria uma comunidade interpretativa. Essa comunidade participará dos mesmos hábitos interpretativos (MONTE MÓR, 1999), fazendo com que as narrativas pareçam naturais e inquestionáveis, bem como colocando as bases da capacidade intersubjetiva. Nas palavras de Bruner (2003, p. 16): “Being able to read another’s mind need depend no longer on sharing some narrow ecological or interpersonal niche but, rather, on a common fund of myth, folktale, ‘common sense’”.

Essa visão de homogeneidade e de uniformização ajudou a criar uma visão dicotômica e de oposição entre nós e eles, entre a nossa cultura e a cultura deles, o que, a nosso ver, está na base dos conflitos atuais. Essa divisão dicotômica concretiza-se nas políticas de acesso à cidadania, que ajudam a entender a visão de identidade nacional ou supranacional, embora esse assunto seja considerado multifacetado e dinâmico.

Como anteriormente colocado, e como veremos mais aprofundadamente a seguir, neste capítulo, a cidadania, entendida do ponto de vista sociológico, fornece um sentimento de pertencimento a uma comunidade e oferece uma identidade, estabelecendo a quem somos iguais e de quem somos diferentes (DONATI, 2013). Impõe, pois, uma norma hierarquizante que divide e atribui espaços.