2. Alcântara no Jornal do Commercio de São Paulo (1924 – 1925)
3.2. Trajetória de Alcântara neste jornal
3.2.2. Debate interno a partir do Jornal do Commercio
3.2.2.5 Sobre Imperialismos e Nacionalismos
3.2.2.5.3. Italianos
Em maio, pouco antes da Conferência Internacional de Emigração, um suelto atribuía características imperialistas e radicalizadas ao governo japonês e tratava a ameaça italiana como exagero. Respondendo a interlocutores que enxergavam a possibilidade do “mussolinismo (...) transpor nossas fronteiras” o autor argumentava que , no fim das contas, o fascismo não serviria ao Brasil.310 Como vimos, a terceira sessão da Conferência - das
quatro existentes - foi presidida pelo chefe da delegação brasileira. Nela, as delegações italiana e espanhola propuseram um projeto de resolução sobre a verificação das alterações ocorridas na família do emigrante311 depois de seu estabelecimento no país de destino. Tal
projeto consistia no controle dos documentos de emigrantes em terras estrangeiras: as autoridades locais ficariam obrigadas a comunicar aos cônsules estrangeiros as modificações ocorridas nas famílias. Marcada por um prolongado debate, a sessão teve como desfecho a
308 A ALEMANHA CONTINUA A ASSOMBRAR...Jornal do Commercio. São Paulo. 16 out de 1924. p.1 309 O fascismo na Alemanha. Jornal do Commercio. São Paulo. 19 out de 1924. p.1
310 Há quem diga por aí certa apologia do mussolinismo que bem pode, em oportunidade precisa, transpor as nossas fronteiras… na metáfora de certos oradores, já anda, até, a ‘marcha contra roma’ inculcada com uma exaltação verdadeiramente meridional. Cf. HÁ QUEM diga por aí… Jornal do Commercio. São Paulo, 3 de maio de 1924, p.1.
311Conferência Internacional de Emigração. Jornal do Commercio. São Paulo, 27 de maio de 1924, Telegramas do Exterior , p.2.
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retirada do projeto312, impugnado por França, Suíça, Estados Unidos, Brasil, Argentina,
Venezuela, Paraguai e Inglaterra. Durante a sessão de encerramento, o discurso do delegado brasileiro James Darcy reiterava a preocupação em deixar delimitada a possibilidade de intervenção dos países europeus em terras brasileiras:
(...) não se deveria intervir nos negócios dos países estrangeiros, como também os países de imigração não deveriam estender sua intervenção além dos próprios territórios (...) devem colaborar intimamente para recíproca colaboração e interesse.313
Na leitura de David Aliano,314 as discordâncias sobre o controle da documentação de
emigrantes nos países de destino seriam efeito de uma divergência anterior, a respeito da concepção de cidadania. O autor afirma que enquanto o governo italiano defendia o direito decorrente do sangue, Jus Sanguini, outros países, geralmente americanos, defendiam o direito decorrente do solo escolhido, Jus Soli. Segundo Aliano, a Itália tinha o objetivo de expandir o conceito de cidadania pelo sangue como meio de estender seu controle às colônias italianas radicadas no exterior, aumentando o alcance da política imperialista fascista.315
O relatório da comissão brasileira da CIE, publicado em 1925, comentava que os resultados da Conferência demonstravam uma preocupação maior em traçar princípios legislativos para países que recebem imigrantes:
[...] As resoluções, declarações e votos formulados pela recente Conferência de Roma contém princípios, mais ou menos explicitamente formulados, que visam, de certo modo, a legislação dos países imigratórios. [...] 316
As conclusões da delegação brasileira enviada à Conferência indicavam uma postura intervencionista por parte do governo italiano . Nesse sentido, pode-se afirmar que o enredo de Brás, Bexiga e Barra Funda se contrapõe ao interesse manifestado por Espanha e Itália de ter controle sobre as famílias de emigrantes em seu solo de destino. Na obra, o imigrante italiano tende a se integrar ao meio e ao povo paulista no decorrer das gerações, a partir do consórcio com o meio e com a gente brasileira, constituindo um novo tipo, um novo mamaluco, o ítalo-paulista. Não por acaso, na recepção de Brás, Martim Damy observava que
312Conferência Internacional de Emigração. Jornal do Commercio. São Paulo, 28 de maio de 1924, Telegramas do Exterior, p.3.
313 A sessão de encerramento. O Discurso do chefe da delegação Brasileira. Jornal do Commercio. São Paulo, 2 de junho de 1924,Telegramas do Exterior, Conferência Internacional de Emigração, p.1.
314 ALIANO, David. Mussolini's National Project in Argentina. (The Fairleigh Dickinson University Pressserires in italian studies). Madison, N.J.: Fairleigh Dickinson University Press, 2012, pp.35-36
315 Idem,p. 36
316 BRASIL.Relatório apresentado ao presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil pel Ministro de
Estado da Agricultura, Indústria e Comércio Miguel Calmon du Pin e Almeida. Ano de 1924. Rio de janeiro:
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o livro de Alcântara seria “considerado por Mussolini como nocivo à ideia cacete e impertinente da italianitá criada pelo fascismo”317
O receio com o imperialismo italiano começava a tomar contornos mais concretos depois da Conferência. Logo após a sua realização, a milícia fascista dos camisas negras foi incorporada oficialmente ao exército e o deputado socialista Matteotti, opositor do fascismo e líder da oposição na Câmara Italiana, foi sequestrado. Seu corpo foi descoberto em setembro e seu assassinato foi atribuído à partidários do fascismo.318 Um indício desse
incômodo com a interferência do governo italiano está na ata de reunião da Liga Nacionalista de São Paulo319, veiculada na seção de anúncios, que informa envio, depois de uma longa
discussão, de ofício à prefeitura de São Paulo, contra a construção de uma estátua de Mussolini na cidade.320 Na mesma ata era publicado que a Liga oficiou à Academia de
Medicina do Rio de Janeiro, parabenizando-a pelo parecer contrário à vinda de japoneses.321
Para o leitor que acompanha as notícias pelo JCSP, os contornos incômodos do fascismo acentuam-se em outubro de 1924, com o brutal assassinato de Ercole Lertua, deputado italiano da região de Placencia, mutilado de guerra, que havia formado uma dissidência interna no fascismo e por isso fora espancado até a morte por seus correligionários. Ao comentar o fato, Guastini afirmava que “em consciência, não se pode atribuir a responsabilidade pelos desatinos de seus sequazes” a Mussolini, mas pondera que
Depois do tenebroso caso Matteotti, acreditava-se que os crimes políticos da península não mais se verificariam. Isso entretanto não se deu. De então para cá, os jornais europeus e os telegramas tem divulgado longa série de delitos praticados em diferentes pontos da Itália, inspirados pela cega paixão partidária. Não se pense, porém, que essas cenas degradantes se desenrolam apenas no grande país amigo. (...) Elas se registam em toda a parte, sendo todavia forçoso
317DAMY, Martin. Brás, Bexiga e Barra Funda de António de Alcântara Machado. Jornal do Commercio, São Paulo, 6 de abril de 1927, Espírito dos Livros.
318GAMA, Stiurnírio.“O Respeito às Liberdades…”. Jornal do Commercio. São Paulo. 18 de junho de 1924, p.1 319A Liga Nacionalista de São Paulo foi fundada oficialmente 25 de janeiro de 1917. Como indica Patrícia Hansen, a LNSP daria ênfase na prática da instrução pública e na consequente promoção da “efetividade do voto”. Se articulou como um organismo político que se opunha a diversos setores do PRP, ainda que mantivesse componentes de dissidências internas deste partido em suas fileiras. Seus membros distinguiam-se principalmente por representarem as elites civis do empresariado paulista, a exemplo de Julio de Mesquita, dono do jornal O
Estado de São Paulo, e acadêmicas, provenientes, por exemplo, dos quadros da Faculdade de Direito. Cf.
SETEMY, Adrianna. DICIONÁRIO da elite política na Primeira República. Verbete LIGA NACIONALISTA . Disponível em .http://cpdoc.fgv.br/dicionario-primeira-republica/1, HANSEN, Patrícia. Um discurso, duas ligas. Olavo Bilac e a criação da Liga da Defesa Nacional (1916) e da Liga Nacionalista de São Paulo (1916-1924). Trabalho apresentado no VIII Colóquio Tradição e Modernidade no mundo Iberoamericano, realizado em Coimbra em setembro de 2011. In: Olavo Bilac, ideólogo do nacionalismo brasileiro.Relatório final do projeto de pesquisa apoiado pelo Programa de Apoio ao Pós-Doutorado no Estado do Rio de Janeiro da CAPES/FAPERJ (09/2010-08/2011), p126
320Liga Nacionalista. Jornal do Commercio. São Paulo, 8 de maio de 1924, p.5.
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reconhecer que depois do advento do fascismo, tão salutar para o seu revigoramento, a Itália tem concorrido para as estatísticas com o maior contingente [ilegível] (…) os maus fascistas - os elementos ruins existem em todos os partidos - tem prestado péssimos serviços ao seu ilustre condutor. A tragédia de Placencia (...) é disso mais uma prova eloquente. Os fascistas, depois do assassínio, opuseram- se à prisão dos criminosos, e, por via das dúvidas, facilitaram a prisão de 60 dissidentes companheiros da vítima [...] O rigor do governo em relação aos trucidadores de Matteotti e aos agressores de outras personalidades em evidência não conseguiu, pois, conter os impulsos sanguinários (...)322
Nota-se, portanto, que embora haja percepção sobre o risco de imperialismo italiano em solo nacional através dos imigrantes, havia esforço para que a ameaça em potencial fosse relativizada, e o próprio fascismo era com frequência visto de forma nuançada.