2. Alcântara no Jornal do Commercio de São Paulo (1924 – 1925)
3.2. Trajetória de Alcântara neste jornal
3.2.2. Debate interno a partir do Jornal do Commercio
3.2.2.5 Sobre Imperialismos e Nacionalismos
3.2.2.5.1. Japoneses
Um suelto do começo de maio de 1924 notava as perspectivas ruins para a imigração japonesa que tinha como destino os Estados Unidos, já que se avizinhava o momento em que o Johnson-Reed Act entraria em vigor.297 O texto expressava preocupação em relação à
imigração de pessoas vindas deste país “forte” e “de instintos imperialistas”:
País de instintos imperialistas, forte - não deixa de ser, com (...) suspeita, que são recebidos seus filhos que venham armar suas tendas em terras estranhas. Assim, o problema da imigração toma as proporções de uma intensa questão nacional [para o Japão] que não pode deixar de provocar as mais vivas preocupações298
Depois de elogiar o japonês pelas suas qualidades e atentar para a atitude do governo de estudar cuidadosamente o lugar de destino do imigrante299, o suelto aponta a
inconveniência da imigração deste trabalhador devido à política então desenvolvida em solo japonês:
É indiscutível que o trabalhador japonês tem as suas qualidades: é sóbrio, é ativo, é enérgico. A política, porém, que tem desenvolvido a sua pátria, tem levado a lhe crear (...) um certo radicalismo (...) 300
Ao longo da série documental frequentemente observamos indicações, comentários sobre ou breves descrições de artigos da imprensa carioca, de oposição à imigração japonesa. Em setembro o artigo Contra os Amarelos, publicado pelo jornal O Imparcial alegava que os japoneses estariam vindo ao Brasil, ainda em formação, para “fatalmente representar um programa esboçado pelo seu governo”.301 Com a consolidação da restrição imposta pelos
Estados Unidos, a articulação da política imigratória japonesa via na América do Sul um destino em potencial. É o que se vê no suelto do JCSP de outubro de 1924:
297O GOVERNO JAPONEZ está tomando...Jornal do Commercio. São Paulo, 2 de maio de 1924, p.1. 298Idem, Ibidem.
299No mesmo texto comenta-se os investimentos do governo japonês para organizar sua imigração, quincluíao envio de funcionários ao exterior, para estudar as possibilidades de imigração, e a propaganda interna de incentivo à busca de terras estrangeiras. O GOVERNO JAPONEZ está tomando...Jornal do Commercio. São Paulo, 2 de maio de 1924, p.1.
300 Idem, Ibidem.
301 Jornal do Brasil. Jornal do Commercio. São Paulo, 4 de setembro de 1924, Imprensa Carioca, p.2.; O Imparcial. Jornal do Commercio. São Paulo, 4 de setembro de 1924, Imprensa Carioca, p.2.
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O Japão, hoje está a braços com um dos mais duros problemas que pode se plantar perante um povo e lhe exigir uma solução pronta e imediata. Os recursos naturais do Japão são insuficientes para alimentar uma população dez ou quinze vezes superior à que deveria ter. [...] Evoluindo para o industrialismo, também evoluiu para a luta de classes e os conflitos sociais aí são como em qualquer lugar culto do globo. A obra da civilização é nivelar. Não há altos e baixos. O Japão tem seus (...) problemas sociais, atualmente. É uma raça de energia e atividade, de inteligência. Quer resolvê-los, e bem. Ora, para a superpopulação só há um remédio: a imigração, o escoamento. O excesso debanda. É exportado. O homem aspira ao bem estar. Se não encontra em sua casa, busca na casa alheia. É fatal. A terra não é privilégio de ninguém. Pertence a todos. Logo o Japão deve deslocar o excesso de população para o exterior. Era isso o que fazia. Os EUA eram um excelente mercado para o Japão. Iam para ali amarelos aos milhares. 130000 chegou a ter a República americana. Mas o americano está com a preocupação
da eugenia e do imperialismo. O japonês isola- se . É orgulhoso. É-o também o americano. O conflito estalou:. Resultado: os Estados Unidos fecharam os
portos à emigração japonesa.(...) 302 253
Mais à frente o mesmo texto aborda a imigração para a América do Sul e Brasil. Deixa-se em aberto as perspectivas sobre o futuro dos destinos políticos do Japão - sugerindo, aqui, porém, que provavelmente se desenvolveria uma solução de inspiração extrema:
Resta a América do Sul. Terras imensas, despovoadas. O Brasil já tem 30. 000 japoneses. Este continente entra na preocupação dos estadistas e economistas nipônicos. Fala-se, até, no plano de uma companhia semi- oficial de imigração. Por ela - seria uma avalanche de japoneses sobre o continente. O Japão precisa exportar homens, pois a miséria e o número dos sem-trabalho é cada vez maior; a América precisa de braços para arrancar as riquezas da terra. [...] [o Japão] precisa ter uma imigração anual de 30 a 40 mil pessoas, sob pena de criar para si mesmo uma das situaçõe mais graves. Oras, os mercados melhores recusam receber seus trabalhadores. Países como o Brasil mesmo, com desertos a povoar, andam hesitantes [...]. As inspirações extremas chegam nessas ocasiões. O “lugar ao sol” até hoje não se conquistou com facilidade. O que farão os nipônicos escorraçados de toda parte, como cães? Incognita e trágica resposta, possivelmente.303
Uma suposta companhia de imigração subsidiada pelo governo brasileiro seria citada pelo repórter Neville O’Neill, do Herald Tribune, de Nova Iorque, ao comentar a imigração de japoneses para a América do Sul e reproduzida no JCSP pela United Press. A dimensão da imigração como potencial propagadora do imperialismo estaria na reafirmação do japonês como imigrante que não se assimila. O jornalista citado na matéria da United Press aponta para o fato de que alemães, russos e japoneses não se assimilam no Brasil, repetindo
302 O JAPÃO, HOJE… Jornal do Commercio. São Paulo. 19 out de 1924.p.1 Uma semana antes era divulgada a saída de 200 famílias de japoneses de Tóquio, rumo ao Brasil. Um terremoto no Japão por esses meses também gerou manchetes dizendo que os japoneses queriam reconstruir uma das cidades destruídas no Brasil.
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as observações do parecer de João de Faria sobre o projeto 291 de 1923, que atribuia principalmente à língua a recusa à assimilação.
a recente decisão do governo nipônico de incrementar a ida de japoneses para o Brasil tem sido muito comentada em toda a América do Sul, e [ O’Neil] salienta que as colônias russas, alemã e japonesa, nesse país, são outras tantas secções das respectivas pátrias, pois os colonos não fazem o menor esforço para se assimilar aos elementos nacionais. [...] Os representantes japoneses estudaram as condições gerais dos diversos países, assim como os sentimentos do seu povo para com o Japão, sua estabilidade política e outros fatores de importância. O Brasil foi vitorioso, pelo que a Companhia ‘Empreza Ultra Mar’, subsidiada pelo governo, se ofereceu para pagar a passagem dos migrantes que se destinam ao Brasil, e o preço de seu transporte para o interior deste país, principalmente para as cidades de Igua- (sic.). [Iguape, provavelmente] [ grifos meus]304
Passamos, na sequência, a avaliar a percepção acerca da Alemanha.