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A ling uag em ex prime a separação radical entr e o homem e o ani mal. Na tradição filosófica, ela é produto da razão e procede de um enca- deamento de causas e efeitos sem ligação com o aqui e agora. Esquece- se assim de que a fala é sempre também ato destinado ao outro, a um órg ão sensível que deve recolhê- la. A linguag em, própria do huma no, jorra no seio de um conjunto de sensações portadoras de sentido. Ela é
patética e emocionante, pois exprime elementos emocionais que tanto quanto os elementos lógicos — senão mesmo mais — determinam a essência do homem. Nela, de maneira especificamente humana, além dos gritos do animal falam a alegria e a dor que são as modalidades pri meiras do ser no mundo.
A vida, tal como é geralmente ens inada e apres entada nos progra mas escolares, assume sempre uma feição de coisa morta. Ora, a vida tal vez seja a morte, de acordo com o célebre aforisma de Claude Bernanl, mas ela é com certeza totalmente o contrário de uma coisa: ela se defmr por um processo dinâmico, em perpétuo devir. Para Claude Bernaid, a vida resulta da destruição, ela própria compensada, a cada instante, pnt uma criação da qual o sexo é o cúmplice e talvez mesmo o autor.
O ponto que eu gostaria de desenvolver aqui é o da subjet ividadr <• ser vivo é um sujeito no mundo, em sen mundo. Eu vou falai r . .cm ul
mente do sujeito animal.
Acusou- se muito o behaviorismo de apreender os compor tamentos
t
| dos animais neg ando a eles toda e qualquer subjetiv idade e de distanciarI os pesquisadores do estudo de seus mecanismos nervosos subjacentes. I Essa acusação mereceria hoje, sem dúvida, uma revisão.
No primeiro período do darw inismo tr iunfa nte, alg uns, e stabelecen do a continuidade da evolução do psiquismo do animal com o do ho mem, tinha m cheg ado a um excesso de antropomorf ismo, indo até mes mo a atribuir aos animais poderes de raciocinar, amar e julgar,aponto de torná- los semelhantes aos heróis de La Fontaine. Dissertava- se então K com g ravidade sobre o ciúme dos peixes e o orgulho dos papagaios.
A preocupação com a obje tividade e a recusa da intros pecção e da analogia levaram esses autores a considerar o cérebro como uma caixa-
pi$ta, e o comportamento como resultado da associação entre um estí-
^ mulo e um efe ito (condicionamento clássico) ou entre uma resposta e s*i-i conseqüência (condicionamento instrumental ou operante). Isso I produzia a situação para doxal que consistia em considerar o cérebro
i num uma máquina de fazer associações, ao mesmo te mpo em que se ; recusava o conhecimento de suas engrenagens e mecanismos.
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I ver dade que, parale lamente , esse desejo furioso de objetividadeg| ü(lou alguns psicólogos comparatistas a estudarem os costumes dos ani mais (etologia) ev itando as derivas antr opomórficas, porém reconhecendo ttn animal um estatuto de sujeito diante de um meio que lhe é próprio.
() primeiro desses pesquisadores foi certamente Yerkes, que tudo es tudou, indo da minhoca até o mar inheiro norte- americano, passando pelo corvo e pelo macaco. Um primate center leva hoje seu nome em A tlanla, onde vive K anzi, um macaco bonobo (Pan paniscus), célebre por SUa inteligência e seus poderes de abstração. Yerkes tinha ensinado niiiílun as a reconhecerem os caminhos de um labirinto, em função de
pt... ou recompensas. Além do mais, ele mostrou a existência de
urna aprendi/,agem latente neste verme, quando familiarizado com o pipo s iti v o expei imental, e concluiu pela ex istência, neste anim al inteli-
. de mapas cognitivos de seu meio ambiente: a minhoca é capaz de fa=r i r ,i o l h a s em seu vaslo mundo!
A R E L IG A Ç Â O DO S S A B E RE S ■ • ▲ E D G A R M O R IN
Yerkes, este não foi mais o caso dos tr abalhos de von Uex küll, que che gou a conciliar uma abordagem objetiva do comportamento com a con sideração da subjetividade do animal. Esse pesquisador se distancia ao mesmo tempo do mecanicismo e do vitalismo, o que não o impede de descrever os comportamentos em termos de mecanismos. Esses são fer ramentas que um sujeito, o animal, utiliza para perceber e adaptar suas ações. O animal contém o operador, mais ou menos da mesma maneira como, para Didero t, o cravo vivo é, a um só tempo, ins tr umento e mús i co (O Sonho de d’Alembert).
O comportamento, diz von Uexküll, é “uma melodia de movimen tos cantados a duas vozes afinadas, a do sujeito que se comporta e a da situação”. A estrutura anatomofisiológica constitui um plano natural no interior do qual o sujeito constrói seu mundo perceptivo. O animal dá seu sentido ao objeto. Esse se torna, segundo a expressão de von Uexküll, um “motivo”. O exemplo de um pequeno crustáceo, o eremita- bernardo,* ilustra esse propósito. Consideremos o animal em presença de um objeto do mundo real: uma anêmona marinha. Numa primeira situação, o animal está desprovido de concha, ele tenta deslizar para o interior da anêmona; o objeto tem então o significado de uma casa. Numa outra situação, o animal já possui uma concha; ele se cobre com a anêmona, cujos galhos ele utiliza como defesa contra predadores; o objeto chama- se e ntão arma. Numa última situação, o animal não possui uma concha e está com fome, ele come a anêmona: o objeto torna-se nl alimento. O mundo pertence propriamente ao corpo do sujeito que II ir dá uma significação. Em sentido inverso, se considerarmos os mecnnr, mos cerebrais que subentendem o desejo, observaremos que estes sno unívocos. Seja qual for a natureza exprimida (fome, sede, cio etc.), t-.lr é obrigatoriamente especificado por seu objeto.
O antropomorf ismo consistiria em atribuir ao animal um mundo humano. Or a, a complex idade do mundo está ligada à complex idade du cérebro. Não existe s ubjetividade sem cérebro, o que é uma ev idêm ia às
* T am bém cham ado paguro, crustáceo de cápodr <| iir sc aloja em com Iwis tilmmlunadtss (N. T.)
vezes esquecida. E isso implica uma estrutura axial do animal com uma organização anteroposterior; a extensão e a riqueza do mundo apreendi do dependem das capacidades articulares do animal.
Em seguida, Buytendijk introduziu a dimensão temporal na análise dos comportamentos animais. Esta é a expressão observável de uma sig nificação vivida pelo animal entre um antes e um depois. Ela opõe os animais- org anismos sem ação af etiv a sobre o mun do e os animais- sujeitos e estabelece por outro lado uma hierarquia entre o homem e o animal. Es te último possui, como o primeiro, um mundo obje\ ivo orga nizado por um tempo e um espaço vividos, mas, paradoxalmente, é a faculdade de objetivação do tempo e do espaço que diferencia o liomem. Para este, o próprio sentido se torna perceptível. O animal contenta- se em c onhecer os fatos, mas sem saber que ele sabe. A co m plex idade lig ada ao articulado e à ação recíproca (flexão- extensão), da (| Ual a ling uag em representa a forma mais ev oluída, m ultiplica as lepresentações- ações. E a ling uag em nasce finalmente da subjetividade compartilhada.
O indivíduo só existe enquanto sujeito num mundo que lhe perten- Cr e o define, esse mundo dele, que eu chamo de espaço extracorporal, pi)t oposição ao espaço corporal, que é o próprio corpo, espaço no qual sr manifestam os três sistemas comunicacionais: o nervoso, o hormonal e d imunológico. O espaço extracorporal é a um só te mpo pr oduto do i uipo, seu criador e aquele que lhe dá ordens, graças à epigênese. O r ,| niço ex tracorporal é único, ele pertence r ealmente ao indiv íduo: é um mundo dele, cujo ta manho depende apenas de seu saber. Par a um astrô- Homo, o espaço extracorporal vai até A lpha de Centa uro, enquant o que
| iui,1 utn gato dos telhados ele não vai além da esquina. O mundo só exis-
| r no corpo porque o corpo produz o mundo , ou seja, o corpo fabrica i«U próprio saber. O cérebro é o espaço privilegiado que resume o tntpo; "metáfora actante ”, a representação é nele inseparável da ação. A í ropir scntações como simples tr anscrição do real não têm valor para liniii drlmiçiio do ser que, nesse caso, não passaria de uma máquina de apirrtnd(*l O lr.ll.
A RELIG AÇÃO DOS SABERES EDGAR MORIN
O corpo é o teatro do mundo. O mundo se ex prime nele sob as ins
tâncias do patético e não da razão, o que não passa de um instrumento lógico de tratamento do mundo. São as paixões que fundamentam o humano e lhe dão a palavra. A escola não pode ir contra o humano, ela deve ser uma escola dos sentimentos. Eu defendo o prazer, é claro, mas, mais do que isso, defendo a totalidade das emoções. São elas que permi tem o reconhecimento do outro. Processos que se opõem encontram- se no centr o das paixões. A escola não deve, portanto, r ecusar a disciplina, pois mais vale disciplinar o prazer do que ignorá- lo.