• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III – JERICOACOARA

3.1. Jericoacoara da colonização a lugar turístico

“A vila de pescador é conhecida como Jijoca de Jericoacoara, de toponímia composta e de origem tupi-guarani. Jijoca significa “casa das

rãs” e Jericoacoara “buraco das tartarugas”. Atualmente possui esta grafia, a qual foi mundialmente difundida pelo turismo, mas, também, foi motivo de várias divergências de opiniões sobre sua origem, pois diversos foram os nautas que aqui estiveram entre o século XVII e início do século XX, criando outras escritas como: Gericoacoara, Jaracoara, Geriguaguara, Jurucoacoara” (NUGA60, 1985:27).

Lima (2007) e Fonteles (2015) relatam que antes mesmo de qualquer atividade turística, Jericoacoara enquanto simples vila de pescadores, também foi recanto de piratas e navios estrangeiros, que vinham ao Ceará em busca das suas riquezas. Foi rota do descobrimento do navegador Vicente Yañez Pinzón61, em janeiro de 1500, anterior a chegada de Pedro Álvares Cabral62 em abril do mesmo ano, nas terras brasileiras. De acordo com NUGA (1985), em

60 Núcleo de Geografia Aplicada da Universidade Estadual do Ceará – NUGA/1985

61 Vicente Yáñez Pinzón, nascido em Palos de la Frontera, Huelva – Espanha, em 1462 e falecido no ano de 1514, foi um navegador e explorador espanhol, codescobridor da América e primeiro navegador europeu a chegar ao Brasil. Navegou com Cristóvão Colombo na sua primeira viagem ao novo mundo, em 1492, como capitão da caravela “La Niña”. Descobriu as costas do extremo norte do Brasil, em 26 de janeiro de 1500 no cabo de Santo Agostinho, portanto, três meses antes da chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro (Labrado 2003). 62 Pedro Álvares Cabral foi um fidalgo, navegador, explorador e comandante português, nascido na cidade de Belmonte em 1467 e falecido no ano de 1520 na cidade de Santarém, em Portugal. É considerado o descobridor do Brasil, devido a ter dirigido a primeira significativa expedição pela costa nordeste da América do sul. A família de Pedro Álvares Cabral estava conformada por onze filhos, no qual Cabral era o segundo. De família nobre, teve a oportunidade de gozar dos benefícios da corte, sendo instruído em combate com armas e luta corporal, além de formar-se em línguas e humanidades. Foi investido com o título de fidalgo pelo Rei João II.

123

suas faixas de praia, serviram de porto para navegantes, os quais fixaram as suas bases operacionais e fortes por sua privilegiada localização estratégica entre as capitanias de Pernambuco e Maranhão.

De acordo com Galvão (1995), Lima (2007) e Fonteles (2015), a ocupação em Jericoacoara sucedeu-se em 1614, no então Governo-Geral de Gaspar de Sousa63. Numa força armada denominada “Jornada do Maranhão”, dirigida por Jerônimo de Albuquerque64, que travou diversas batalhas contra os franceses nas costas brasileiras e com perspetiva de novas operações, fundou ao pé do serrote de Jericoacoara, o forte de Nossa Senhora do Rosário, mas com a derrota dos franceses o forte terminou por ser demolido. Segundo Araújo (1991), após estes acontecimentos, serviu de porto por algum tempo, até surgirem posteriormente outros portos, com melhores condições de acesso e mais próximos dos grandes centros produtores, contribuindo para o esvaziamento da vila.

Em 1500, o navegante português foi designado para conduzir uma grande expedição a caminho da Índia, utilizando a rota traçada anteriormente por Vasco da Gama. Para poder chegar ao seu destino, tornava-se necessário contornar a África. A tarefa tinha como objetivo regressar à Europa com especiarias, que eram mercadorias extremamente valiosas naquela época, e buscar estabelecer definitivamente os vínculos econômicos com a Índia, já que naquele momento, o comércio de especiarias estava sobre o domínio de negociantes italianos, árabes e turcos. A sua frota era constituída por caravelas e 13 naus, no entanto, terminou por afastar-se de África. Embora não saiba-se com exatidão se este desvio fora meramente acidental ou até mesmo proposital. Pedro Álvares Cabral acabou desembarcando em um local que acreditava ser uma enorme ilha. Ele a batizou de “Vera Cruz”, conforme o registro efetuado na carta de Pero Vaz de Caminha. Contudo, após a exploração do litoral e identificar algumas espécies nas florestas, nomeadamente o pau-brasil, terminou por mudar o nome do local descoberto. Posteriormente, o líder da expedição entendeu que aquela imensa extensão de terra possivelmente tratava-se de um novo território. Em razão deste facto, Pedro Álvares Cabral envia uma caravela para notificar sobre a nova descoberta ao Rei Manuel I. Este novo território estaria localizado dentro do hemisfério português, estabelecido no Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, portanto poderia ser reivindicado pela Coroa Portuguesa. Pedro Álvares Cabral havia chegado à costa nordeste da América do sul e a extensão de terra que havia reivindicado formaria o novo território português agora denominado Brasil (Peres, 1992).

63 O cargo de Governador-Geral foi criado em 17 de dezembro de 1548 com o objetivo de centralizar as atividades administrativas da Coroa Portuguesa na colônia. O governador-geral caracterizava-se como um servidor da monarquia portuguesa, dotado de poderes que lhe conferiam, com limitações, uma dignidade real, pois exercia nas terras coloniais, por delegação real, os poderes próprios do ofício régio. O nome do ocupante era sugerido pelo Conselho de Estado Português. O governador-geral acumulava amplas atribuições, que incluíam todas as matérias da administração, tendo que prestar contas de seus atos a Portugal. O primeiro regimento dado ao cargo foi o de Tomé de Souza, de 17 de dezembro de 1548 (Consentino, 2005).

64 Jerónimo de Albuquerque Maranhão – Foi um militar e administrador colonial português nascido no Brasil, Olinda – Pernambuco, em 1548. Travou imensas batalhas na defesa da coroa portuguesa e seus territórios. Responsável pela retomada aos franceses da Capitania do Rio Grande, atualmente, Estado do Rio Grande do Norte, sendo o fundador da sua capital Natal, em 1599. Posteriormente em 1614, é nomeado a Capitão da Conquista do Maranhão, destacando-se como o herói da retomada da Capitania do Maranhão, atualmente, Estado do Maranhão, na batalha de Guaxenduba, expulsando os franceses definitivamente do território português em 1615. Devido a este facto adicionou o nome Maranhão ao seu registro de nascimento (Silva, 2005).

124

Ainda segundo Araújo (1991), Galvão (1995) e Fonteles (2015), Jericoacoara permaneceu vazia por mais de dois seculos, sendo habitada novamente no século XX, por cinco famílias – Diogo Martins, José Vicente, Francisco Mundaú, Osório e Paulino, que fugiram da seca que castigava o interior do Ceará, ali encontraram refúgio, já que oferecia pesca em abundância. Conforme podemos visualizar na figura 12, tivemos a oportunidade de tomar o depoimento para pesquisa de campo do Sr. José Diogo Martins, filho do seu Diogo Martins e atualmente o morador mais antigo de Jericoacoara, considerado pelos moradores e estudiosos do turismo na região um “arquivo vivo” e um verdadeiro exemplo de longevidade para a região, com os seus 96 anos.

Figura 12 – Entrevista com o Sr. José Diogo Martins – Morador mais antigo de Jericoacoara

Fonte: O autor (2016)

Portanto, de acordo com o depoimento do próprio Sr. José Diogo Martins e ainda de acordo com Lima & Silva (2004) e Brandão (2014), a existência de alguns pequenos núcleos de agricultura familiar (plantações de coco, feijão, mandioca, batata doce) e, principalmente a atividade piscatória, foram praticamente as únicas atividades económicas da vila antes da chegada do turismo, sendo sempre descrito pela sua população como um local de muitas dificuldades socioeconómicas tais como: falta de emprego, baixo nível de rendimentos, dificuldades de acesso a educação, saúde e transportes.

Segundo Galvão (1995), Lima (2007) e Fonteles (2015), a grande variedade e quantidade de peixes sempre garantiram o crescimento da vila. A pesca foi desenvolvida no início artesanalmente, sendo usados como equipamentos a rede, linha de mão e a canoa que leva os pescadores ao mar. Apesar do surgimento posteriormente de barcos pesqueiros, a pesca

125

artesanal, ainda é atualmente a prática piscatória mais utilizada pelos pescadores como podemos observar na figura 13.

Figura 13 – Pesca artesanal no Parque Nacional de Jericoacoara

A B

C D

Fonte: ICMBIO (2012). Pesca de arrasto de praia no Parque Nacional de Jericoacoara.

A- Canoa utilizada, B- Recolhimento manual das redes, C- Extremidade fixada manualmente durante a operação e D- Coleta manual realizada pela comunidade local.

Fonteles (2015) relata um cenário de ascensão e declínio da atividade piscatória, entre as décadas de 1960 e 1970, do século XX.

“O auge da pesca em Jericoacoara se deu entre 1965 e 1973. Nessa época existiam cinco barcos e cerca de sessenta canoas empenhadas na atividade. [...] por volta de 1970 foi instalada na Vila uma fábrica de conserva de peixe, pelo industrial Manoel Lousada Vasconcelos, empreendimento este que teve pouca duração [...] Havia uma estrada que fazia o escoamento de produção piscatória para Fortaleza. A estrada foi tomada pela duna e pelas águas da lagoa de Jijoca, em 1973. Com o desaparecimento da estrada e com a morte do senhor Vasconcelos, a pesca começou a cair” (Fonteles 2015:135).

126

Na visão Lima & Silva (2004) e Lima (2007), a decadência da atividade piscatória ocasionou a saída de muitas famílias para outras praias e centros urbanos, restando na localidade somente um incipiente comércio, constituído por pequenas mercearias, bares e alguns vendedores de comidas aos pescadores, quando estes retornavam da pesca, bem como um pequeno grupo de trabalhos manuais, fazendo-se presente através da confeção de redes de pesca, tarrafas, caçoeiras e algumas peças de crochê. Para Fonteles (2015), o comércio era um intercâmbio de pescadores e agricultores da vizinhança através de trocas ou dinheiro, conforme descreve:

“Os primeiros forneciam o pescado, os segundos abasteciam o mercado local com géneros de primeira necessidade e frutas da região: manga, banana, caju, laranja [...] a base do comércio era a mandioca x peixe mantinha-se no mesmo período, sendo o lucro investido em pequenos animais [...] como ovelhas, porcos, galinhas e patos [...] o comércio é também representado por 15 pequenas mercearias, sendo os comerciantes os que possuíam maior renda familiar” (Fonteles, 2015:104).

Ainda de acordo com Lima e Silva (2004), Lima (2007) e Brandão (2014), no fim dos anos 1970, Jericoacoara passou a receber alguns turistas chamados “alternativos”, pois caracterizavam-se em estabelecer um maior contacto com o ambiente natural e paisagístico, buscando a interação com o local acabavam por hospedar-se nas casas dos nativos. Ainda segundo os mesmos autores, estes turistas alternativos ou “hippies”65 foram os primeiros a chegar e divulgar Jericoacoara, procurando sempre respeitar o lugar e as suas comunidades

65O movimento “hippie” nasceu e teve o seu maior desenvolvimento nos EUA a partir dos anos 60, onde muitos jovens passaram a contestar a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais. Os hippies adotavam, e ainda todavia adotam, um modo de vida comunitário tendendo a uma espécie de socialismo-anarquista ou estilo de vida nômade, em comunhão com a natureza, negavam o nacionalismo e a guerra do Vietnam, bem como todas as guerras, abraçavam aspetos de religião como o budismo, hinduísmo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com os valores tradicionais da classe média americana e das economias capitalistas, sendo caracterizado por um movimento de contracultura. Eles abominavam o patriarcalismo, o militarismo, o excessivo poder governamental, às corporações industriais, a massificação, o capitalismo e o autoritarismo. Esta é uma das características que a torna uma cultura peculiar: eles têm um ideal de uma sociedade, de paz e amor, que inovou, conquistando cada vez mais adeptos em todo o mundo. Os hippies começaram a fabricar objetos para obterem o seu sustento. Por meio da produção e venda de objetos artesanais a cultura hippie mostra a sua arte, os seus valores e divulga a sua cultura para todos os povos. Outro aspeto considerável é o constante e permissivo uso de drogas. Os hippies alegavam que as drogas ajudavam a "abrir a mente”, embora algumas correntes dentro do próprio movimento já começam a contestar este facto. Podemos destacar também que através da música folk, blues e principalmente o rock constituíram uma identidade dentro desse movimento, fazendo com que conseguissem expressar através disso a sua filosofia de vida (Fialho & Duarte, 2012).

O Festival de Woodstock representou um marco no movimento de contracultura hippie. Realizado em 1969, atraiu mais de 450 mil pessoas para uma fazenda em Bethel, nos subúrbios de Nova Iorque. Nos três dias de realização do evento (15, 16 e 17 de Agosto), tudo era permitido: as drogas tornaram-se legais e a liberdade para o amor era total. Estávamos perante um verdadeiro movimento de contra cultura (Fialho & Duarte, 2012).

127

nativas, tendo como lema a simplicidade e a tranquilidade, desprendendo-se de valores materiais, procurando viver em sintonia com o ambiente natural a sua volta.

Jeri (como se referem os moradores e frequentadores) “foi citada internacionalmente pelo jornal americano The Washington Post, em 15 de Março de 1984, numa lista dos dez lugares mais belos do mundo, facto que despertou o aumento considerável de sua procura por turistas nacionais e estrangeiros” (Lima & Silva, 2004:16).

De acordo com Fonteles (2015), Jericoacoara possui uma paisagem de grande valor cénico, estético, ecológico e económico, caracterizada por praias, lagoas, dunas, coqueiros, vegetação rasteira e com destaque o serrote que funciona como ponto estratégico, visualizado de longe por terra ou por mar, juntamente com a fruição do rude, do novo, aliada à boa receção dos desportos náuticos, pela conjuntura de ventos fortes e boas ondas, transformou-se em um paraíso a ser desvendado, conforme podemos observar no mosaico de fotos da figura 14.

Figura 14 – Mosaico de Fotos Jericoacoara

128

Segundo Galvão (1995), Lima & Silva (2004), Lima e Molina (2007), Brandão (2014) e Fonteles (2015), resultante de uma prática já realizada em escala mundial, o turismo entrou na vila de Jericoacoara, de forma madura e suficientemente capaz de deixar as suas impressões. Portanto, a explosão da atividade turística nos últimos anos interferiu de forma significativa na comunidade, causando uma série de impactos positivos e negativos na vida dos moradores.