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Jesus como cordeiro para judeus e samaritanos no interior da comunidade

1.1 PONTOS COMUNS ENTRE JUDEUS E SAMARITANOS

1.1.2 Jesus como cordeiro para judeus e samaritanos no interior da comunidade

A celebração da Páscoa judaica e samaritana acontece com o sacrifício do cordeiro, como memória da passagem de Deus. As narrativas comuns aos dois povos trazem forte acento litúrgico e o cordeiro se torna o símbolo material daquela noite. O cordeiro, comum aos judeus e samaritanos, ao qual essa pesquisa se refere, é propriamente o Cordeiro Pascal, aquele que recorda a noite de preparação para a saída do Egito. Essa liturgia traz samaritanos e judeus para a mesma origem e os possibilita participar da fé em Jesus como o Cordeiro de Deus.

O cordeiro na tradição comum de judeus e samaritanos se configura como um possível ponto de unidade, isto é, ver Jesus como cordeiro seria um caminho para a convivência entre os judeus e samaritanos que aderiram à comunidade do Discípulo Amado, havendo, assim, proximidade entre os dois grupos acerca deste tema.

Para os judeus presentes na comunidade joanina, há ainda uma particularidade: às vezes pode parecer que a imagem do cordeiro esteja mais ligada à população de Jerusalém, por estar lá o Templo onde se oferecem os sacrifícios, no entanto não se pode perder de vista que também os judeus da Galileia guardavam as festas de peregrinação, não podendo se excluir os judeus da diáspora. Os judeus da Galileia realizavam caravanas (cf. Lc 2,41) em direção a Jerusalém na época das festas122. O ali se definiam como os „israelitas de Delos que oferecem essas primícias ao santuário de Garizim‟. A localização dessas inscrições, na proximidade da sinagoga, sugere que judeus e samaritanos estavam estabelecidos no mesmo bairro.”

118 Idem ibidem, p. 106. 119 Cf. Idem ibidem, p 109.

120 Cf. MAIER, Johann. Entre os dois testamentos, p. 56.

121 Cf. LOHSE, Eduardo. Contexto e ambiente do Novo Testamento, p. 14.

122 Cf. ARAUJO, Gilvan Leite. História da festa judaica das tendas, p. 93: “festas de peregrinação judaicas, ou seja, pessach, fazendo memória da libertação do Egito, shavout, fazendo memória da Lei/Aliança no Sinai, e Sucot, fazendo memória dos quarenta anos pelo deserto.”

Quarto Evangelho dá testemunho que, por ocasião de uma festa, alguns gregos desejaram conhecer Jesus (cf. Jo 12), expondo, de forma enfática, que Jerusalém era o centro cultual do judaísmo, o que leva todos os judeus a conhecerem e manterem viva a memória das festas, inclusive da Páscoa e tudo que a envolve, como a imagem do cordeiro.

Na Galileia123, a pesquisa bíblica tem indagado pela vida judaica em uma terra considerada sincrética. Muitos habitantes da Galileia não eram de origem israelita, de formaque também os costumes se diferenciavam, todavia, na mesma Galileia persistia forte influência teológica do Templo de Jerusalém124, segundo Schmidt, graças à expansão asmonéia125. Para Horsley, Jesus e seu movimento estavam profundamente enraizados nas tradições de judaicas126, o que os agrupava entre os peregrinos galileus que iam a Jerusalém para as festas127. Também Pagola informa sobre a prática do judaísmo na Galiléia, mesmo diante da distância geográfica,

De fato, Roma, Herodes e Antipas os tratavam como judeus, respeitando suas tradições e sua religião. Por outro lado, as escavações fornecem dados inquestionáveis sobre o caráter judaico da Galiléia que Jesus conheceu. Por toda parte aparecem miqwaot ou piscinas para as purificações: os galileus praticavam os mesmos ritos de purificação como os habitantes da Judéia. A ausência de carne de porco na alimentação, os recipientes de pedra ou o tipo de sepulturas falam claramente de sua pertença à religião judaica.128

Quanto aos judeus da diáspora, eles se dirigiam a Jerusalém por ocasião das festas, mas também em cada região estavam estabelecidas as sinagogas, o que mantinha

123 Cf. GUIJARRO OPORTO, Santiago. La tradición sobre Jesús y los comienzos del cristianismo en Galilea. EstB. Madrid, v. 63, n. 04, 2005, p. 476.

124 Cf. HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia: o contexto social de

Jesus e dos rabis. São Paulo: Paulus, 2000, p. 157: “ao longo de sucessivas gerações, a Galiléia foi incorporada ao estado-templo pelo sumo sacerdócio asmoneu.”

125 Cf. SCHMIDT, Francis. O pensamento do Templo de Jerusalém a Qumran, p. 112: “tratava-se também de fazer das regiões anexadas um território que participasse da santidade do Templo e cuja população fosse inteiramente judaica. Daí a política de judaização forçada das populações vencidas, a entrada do judaísmo marcando-se pela adoção da circuncisão e das leis judaicas. Assim os idumeus, e sob Aristóbulo I (104-103 ) os itureus na parte norte da Galiléia.”

126

Cf. HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia, p. 161: “Jesus e os primeiros integrantes do seu movimento, naturais de aldeias como Nazaré, Caná, Cafarnaum e Corazim, deviam ter suas raízes profundamente firmes nas traduções israelitas.”

127 Idem ibidem, p. 38: “o fato de que a Galiléia não estava mais sob a jurisdição política do Templo (após a morte de Herodes Magno 4 a.C.) e dos sacerdotes de Jerusalém, levanta a questão sobre o tipo de influência que Jerusalém pode ter tido sobre a Galiléia. Estudos sobre as peregrinações às festas no Templo, como a Páscoa, fizeram uma avaliação exagerada do número de peregrinos em geral e dos galileus em particular. Há evidências literárias para alguns peregrinos da Galiléia, mas os números provavelmente baixos.”

sempre presente a tradição e a memória do povo por meio do texto sagrado e a lembrança das festas religiosas.

Como já mencionado, no culto o cordeiro passou a evocar não só a memória da passagem, mas também uma figura expiatória (cf. Lv 16). No Dia da Expiação, o sangue é aspergido sobre o sumo sacerdote e sobre o povo; na Páscoa o sangue é aspergido sobre o umbral das casas. Com isto, a evocação de Jesus como Cordeiro Pascal traz profundamente a memória do Êxodo. Aliás, segundo Mateos e Barreto, o Evangelho segundo João está envolvido pelo projeto do Êxodo129, ou seja, o Quarto Evangelho retoma as raízes da fé de Israel, onde estão presentes as tribos do Norte e do Sul.

No entender do Evangelho segundo João, o projeto de libertação iniciado na saída do Egito é concluído em Jesus130, o cordeiro imolado para a vida do mundo. Portanto, o Cordeiro Pascal não só passa a ser uma identidade de cunho judaico para a comunidade joanina, mas também dá espaço para a compreensão samaritana. Ainda que no ambiente samaritano tenha a esperança messiânica, a partir de Dt 18,15-20, e espere o Filho de José131, este povo conhece bem a tradição do Cordeiro Pascal, o cordeiro que livrou os primogênitos da morte e salvou o povo (cf. Ex 12,13), de modo que a tipologia do cordeiro atribuída a Jesus podia contribuir para a convivência entre judeus e samaritanos no interior da comunidade. Mas, considerando que a comunidade joanina possui sua formação também com a presença de personagens vindos do Movimento de João

129 Cf. MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de João, p. 07: “O tema da Páscoa-aliança leva em si o tema do êxodo e, com ele, inclui todos os temas subordinados: a presença da glória na Tenda do Encontro ou santuário (114;2, 19-21) 19,36, o cordeiro (1,29, 19,36), a Lei (3,1ss), a passagem do mar (6,1), o monte (6,3), o maná (6,31), o caminho do seguimento de Jesus (8,12), a passagem da morte para a vida (5,24), a passagem do Jordão ( 10,40). Está intimamente relacionado com o tema do Messias (1,17), que como outro Moisés, tinha de realizar o êxodo definitivo e, portanto, com o da realeza de Jesus. (1,49; 6,15; 12, 13s; 18, 33-19,22).”

130

Cf. BEUTLER, Johannes. L´ebraismo e gli ebrei nel Vangelo di Giovanni. Subsidia Biblica, Roma, v. 29, 2006, p 69: “Gesù è presentato nel quarto vangelo come un secondo Mosè, ma anche come colui che „sorpassa‟ Mosè e ogni altro personaggio dell‟A.T. Un aspetto importante per il parallelismo tra Gesù e Mosè è la corrispodenza tra le parole de Gesù „Ego eimi‟ e i temi dell‟ Esodo. Questo parallelismo conferma l‟impressione che in Gesù Dio regala al suo popolo un nuovo Esodo con una nouva Pasqua e un Sabato eterno nella Nuova Alleanza”. [tradução nossa: Jesus é apresentado no quarto evangelho como um segundo Moisés, mas também como aquele que „ultrapassa‟ Moisés e qualquer outro personagem do A.T. Um aspecto importante do paralelismo entre Jesus e Moisés é a correspondência entre as palavras de Jesus „Ego eimi‟ e os temas do Êxodo. Este paralelismo confirma a impressão, de que, em Jesus, Deus oferece ao seu povo, um novo Êxodo, com uma nova Páscoa e um Sábado eterno, na Nova Aliança.]

131 Cf. SILVA, Antonio Carlos Higino da. O Messias samaritano no Evangelho de João. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/7688414808630436. Acessado em 29/10/12, p, 07: “Sendo assim, associamos a possível origem samaritana da comunidade joanina com a crença no messianismo do Filho de José como o Taheb samaritano. Esta escolha nos conduz a ampliação do horizonte do judaísmo do segundo Templo e das interações entre cristão e samaritanos na origem da comunidade”.

Batista, vale perguntar pela leitura que eles tinham do cordeiro, isto é: estando eles na comunidade joanina, como contribuíram à imagem do cordeiro no Quarto Evangelho?